Mostrar mensagens com a etiqueta efemérides. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta efemérides. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Joni Mitchell 81


A cantora canadiana, Roberta Joan Anderson faz hoje 81 anos. E.. quem é ela? E o que fez ela de especial?

Para o mundo, a Roberta Anderson é conhecida como Joni Mitchell. 
Teve uma vida daquelas. Em 2015, um aneurisma quase a matou. 
Teve que reaprender a andar, a falar, a cantar, a tocar guitarra, tudo. Depois disto Joni voltou aos palcos. E brilhou. Uma canção nunca falhou nos seus concertos.

Nesse altura, como agora, Joni Mitchell é sinónimo Both Sides Now. Admito que seja redutor "reduzir" uma cantora a uma única canção, especialmente quando falamos de Joni Mitchell. Pessoalmente, uma é a outra. Mas não consigo fartar desta canção.
Sempre que a ouço emociono-me. A ternura da sua voz toca-me sempre. Apetece-me chorar, sorrir, abraçar, beijar alguém, fazer o bem.
Existem mais de 1500 versões deste tema. Ilustra bem a importância, o poder, a impressão que este tema causa nas pessoas.

Foi editada pela primeira vez em 1967, no álbum Wildflowers. Joni tinha 23 anos.
A letra foi escrita, quando tinha 21 anos, dentro de um avião, num lugar à janela em que espreitando por ela, a cantora canadiana via as nuvens a passarem por ela.
Com esta idade, já tinha tido poliomielite, ao 9 anos, que a deixou paralisada e com sequelas para a vida, uma filha, nascida em 1965, que ninguém soube que existia e que foi abandonada pelo pai. 
Sem meios para a sustentar, sem apoio de ninguém, decidiu que o melhor para a sua filha, apenas com oito meses, era dá-la para adopção.
Em 1993, quando esta história é publicada nos jornais por causa de uma amiga que a vende a um tabloide. Em 1997, a filha é encontrada e desde então nunca mais separaram.

Both Sides Now, encontramos o que há-de melhor em nós, entra fundo na nossas alma.
Conta-nos como tudo tem dois lados, duas perspectivas, especialmente a vida e o amor. E como é difícil conhecer as duas. Particularmente a primeira.
Não podia concordar mais com ela.





Rows and floes of angel hair
And ice cream castles in the air
And feather canyons everywhere
Looked at clouds that way

But now they only block the sun
They rain and they snow on everyone
So many things I would have done
But clouds got in my way

I've looked at clouds from both sides now
From up and down and still somehow
It's cloud illusions I recall
I really don't know clouds at all

Moons and Junes and Ferris wheels
The dizzy dancing way that you feel
As every fairy tale comes real
I've looked at love that way

But now it's just another show
And you leave 'em laughing when you go
And if you care, don't let them know
Don't give yourself away

I've looked at love from both sides now
From give and take and still somehow
It's love's illusions that I recall
I really don't know love
I really don't know love at all

Tears and fears and feeling proud
To say, "I love you, " right out loud
Dreams and schemes and circus crowds
I've looked at life that way

Oh, but now old friends, they're acting strange
And they shake their heads and they tell me that I've changed
Well, something's lost, but something's gained
In living every day

I've looked at life from both sides now
From win and lose and still somehow
It's life's illusions I recall
I really don't know life at all

It's life's illusions that I recall
I really don't know life
I really don't know life at all




quarta-feira, 13 de setembro de 2023

um poema de... Natália Correia (no dia do centenário do seu nascimento)


Açoriana, nascida em São Miguel no dia 13 de Setembro de 1923. Celebra-se hoje o centenário do seu nascimento.
Profundamente acutilante, inconformada e sobressaltada, Natália Correia não tinha papas na língua e respondia a provocações com versos. Era uma desafiadora de eleição e uma feminista à frente do seu tempo.
A sua participação na política teve sempre por fim, o combate à ditadura, à resitência anti-fascista e à censura.

Em 1966 foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa por atentado ao pudor quando organizou a Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Quando foi chamada a tribunal Natália Correia que tinha preparado como defesa um poema chamdo A Defesa do Poeta, tendo sido aconselhada pelo seu advogado a não o ler, o que veio a acontecer.
Em 1972 viria a ter de novo problemas com a justiça portuguesa ao participar na edição de um livro marcante, Novas Cartas Portuguesas, onde se abordava o feminismo, os direitos e a sexualidade das mulheres.

No ramos das letras os seus interesses eram multiplos. Por debaixo da sua pena passou alguma da melhor poesia, romance, ensaios, peças de teatro e jornalismo que Portugal viu (e ainda vê) em muito tempo.
A sua última causa a que se dedicaria foi a da cultura, em 1992. É famoso episódio em que juntamente com José Saramago e David Mourão Ferreira colide frontalmente com o secretário de estado e subsecretário de estado da cultura, Pedro Santana Lopes e José Sousa Lara do governo de Cavaco Silva. Estava em causa na altura a aplicação do IVA aos livros e o boicote de de Sousa Lara à candidatura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago a um concurso literário.

O seu poema Queixa das Jovens Almas Censuradas, musicado e interpretado por José Mário Branco, uma mordedura feroz na ditadura, foi um dos vários sinais que foram transmitidos pela rádio de que a revolução de 1974 estava em curso.

Natália Correia, morre a 19 de Março de 1993, vítima de ataque de coração aos 69 anos.


Queixa das Jovens Almas Censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


terça-feira, 6 de junho de 2023

Astrud Gilberto (1940 - 2023)


Morreu ontem a senhora que era dona de umas vozes mais doces, ingénuas (tal como os seus olhos) e encantadoras do Brasil: Astrud Gilberto.
Não fosse a sua voz, a postura simples e tímida em palco e talvez a Garota de Ipanema não seria conhecida do mundo inteiro.

Ganha em 1965, um Grammy por este tema.








Quando Stan Getz e João Gilberto se juntam e produzem um dos álbuns mais influentes da história do jazz - Getz/ Gilberto - corria o ano de 1964, fazem a bossa nova, jazz brasileiro, explodir para o mundo. Mais uma vez é Astrud Gilberto, na altura de mulher de João Glberto) que lhe dá essa projecção e dimensão.
Neste álbum a letra original foi adaptada para inglês.





Tall and tan and young and lovely
The girl from Ipanema goes walking
And when she passes, each one she passes goes "ah!"
When she walks she's like a samba that
Swings so cool and sways so gently
That when she passes, each one she passes goes "ah!"

Oh, but he watches her sadly
How can he tell her he loves her?
Yes, he would give his heart gladly
But each day when she walks to the sea
She looks straight ahead not at he

Tall and tan and young and lovely
The girl from Ipanema goes walking
And when she passes he smiles
But she doesn't see

Oh, but he sees her so sadly
How can he tell her he loves her?
Yes, he would give his heart gladly
But each day when she walks to the sea
She looks straight ahead not at he

Tall and tan and young and lovely
The girl from Ipanema goes walking
And when she passes he smiles
But she doesn't see

She just doesn't see
No, she doesn't see
But she doesn't see
She doesn't see
No, she doesn't see



Ainda deste mesmo álbum sugiro fortemente que ouçam Corcovado (Quiet Nights).

Nascida em 29 de Março de 1940, Astrud morreu ontem com 83 anos.









domingo, 4 de junho de 2023

4 Junho de 1989 - Massacre de Tiananmen


O regime ditatorial de Xi Jinping, cada vez mais se empenha em apagar as memórias do que aconteceu na Praça de Tiananmen, onde milhares de pessoas, a mior parte estudantes, foram massacrados enquanto lutavam pelos seus direitos e liberdade.
Foi há 34 anos. 

Lembrar para não esquecer










quarta-feira, 10 de maio de 2023

Rita Lee (1947-2023)



É um dos nomes incontornáveis da MPB. Se quisermos ser um pouco mais precisos, díriamos do rock brasileiro.
Rita Lee acrescentava-lhe um delicioso toque excentricidade e genuinidade. Viveu sempre como quis, como pensava que devia viver e expressar-se.

Não tinha o impacto mediático gigantesco, a aceitação planetária que tinha Gal Costa. Talvez pela forma ousada e irreverente como se posicionava perante o público, perante a sociedade, a sua pouca vontade em ser consensual, algo que a desagradava de uma forma mais ou menos abertamente. 
Pessoalmente o seu lado rockeiro, uma praia cujas areias não costumo pisar, fez com que eu não seguisse com grande atenção o seu percurso musical.

Mas há uma canção por a qual tenho um grande carinho e que a define na perfeição: Amor e Sexo. Pertence ao álbum Balacobaco de 2003. Foi escrita e composta com o guitarrista, colega de banda e companheiro de vida, Roberto Carvalho.
Anos e anos a ouvir este tema e dou sempre por mim a prestar atenção à letra, à forma como separa e destrinça, com humor e argúcia, o que é o amor e o que é sexo. A inspiração para o tema foi um texto de Arnaldo Jabor, jornalista e cineasta brasileiro, publicada no jornal O Globo, em 2002.

Para o pessoal fã das telenovelas, provavelmente lembrarão mais facilmente, e rapidamente, da canção Sassaricando, cujo tema abria a telenovela com o mesmo título. Passou nas nossas televisões corria o ano de 1989. 
Se recuarmos nove anos no tempo encontraremos outros dos seus temas imortais, e querido por muitos, Baila Comigo e Lança Perfume, ambos do álbum Rita Lee.

Rita Lee morreu ontem com 75 anos, vítima de cancro de pulmão. 
Ou, como diria algum tempo antes de morrer, vítima de "Deus deu uma risadinha sarcástica."






Amor é um livro Sexo é esporte Sexo é escolha Amor é sorte Amor é pensamento Teorema Amor é novela Sexo é cinema Sexo é imaginação Fantasia Amor é prosa Sexo é poesia O amor nos torna Patéticos Sexo é uma selva De epiléticos Amor é cristão Sexo é pagão Amor é latifúndio Sexo é invasão Amor é divino Sexo é animal Amor é bossa nova Sexo é carnaval Oh! Oh! Uh! Amor é para sempre Sexo também Sexo é do bom Amor é do bem Amor sem sexo É amizade Sexo sem amor É vontade Amor é um Sexo é dois Sexo antes Amor depois Sexo vem dos outros E vai embora Amor vem de nós E demora Amor é cristão Sexo é pagão Amor é latifúndio Sexo é invasão Amor é divino Sexo é animal Amor é bossa nova Sexo é carnaval Oh! Oh! Oh! Amor é isso Sexo é aquilo E coisa e tal E tal e coisa Uh! Uh! Uh! Ai o amor Hum! O sexo.





sexta-feira, 11 de novembro de 2022

a Esteira entra na adolescência


Há um ano, a Esteira andava pelas ruas de amargura. Moribunda, até.
Hoje completa o décimo terceiro ano de existência, torna-se uma adolescente, e de uma forma, algo inesperada, pujante.
O número de posts e de entradas no blog aumentaram significativamente.

O ambiente, vegetarianismo/ veganismo foram os temas fortes da Esteira este ano. São os temas, se não Os temas, que mais me incomodam e causam ansiedade. 
Os maus tratos animais, as execráveis touradas, o sofrimento, a reclusão, a exploração das suas vidas para nosso consumo e divertimento é de uma crueldade atroz.
Se começa a haver uma maior consciência para estes temas, o que se faz de facto por eles é uma gota de água no que é preciso fazer. São actos pífios que se destinam mais a acalmar o peso nas nossas consciências do que realmente a mudar algo.
O que estamos a fazer ao planeta, e logo a nós próprios, é de uma estupidez lancinante. Como o próprio Guterres afirmou recentemente, é um suicídio colectivo que a humanidade está a fazer a si própria.
O que fazemos ao planeta reflecte-se em nós, em toda a biodiversidade que coabita connosco nesta maravilhosa e lindíssima rocha. Os nossos filhos estão a herdar um planeta climaticamente em convulsões. Mas serão os nossos netos que herdarão um planeta a rondar o inabitável. Sofrerão bastante. Nessa altura, espero, desejo, e acredito, que nos apontem um dedo acusatório como sendo a geração que tendo a possibilidade de mudar algo, preferiu fazer muito pouco.

Outro dos temas regulares e favoritos da Esteira é a música. Apesar disso a rubrica "Uma música para o Fim de Semana", a mais antiga do blog com mais de onze anos de existência (começou em Abril de 2011), praticamente cessou. 
Durante largos anos o seu foco era a música portuguesa. Esta "obrigação" de postar semanalmente música portuguesa, e algumas até nem gostava particularmente, tinha uma dificuldade acrescida: não ouço música portuguesa regularmente e quando o faço é na área do jazz.
Agora vai aparecendo aqui e ali, mais internacional, e apenas quando algo relevante passa pelos meus ouvidos.
"Uma ida ao Baú" tem aparecido mais vezes. A música, principalmente, do anos 80 e das décadas anteriores é de uma riqueza inestimável e dá-me um prazer enorme, mas não revivalista, de as trazer ao de cima. A sábia frase "Oldies but Goldies" diz tudo sobre estas músicas.

A ironia, a caricatura e o absurdo dos nossos dias, continuarão a ser o prato forte da Esteira.

Se o dia 11 de Novembro é famoso por ser dia de anos da adolescente Esteira, acontece que de uma forma acessória 😜, também se comemora o dia que mais caracteriza e tipifica o Outono: o dia de São Martinho, o magusto e o vinho novo.
Saúde à Esteira, a vocês e a São Martinho 🍾🍷




sexta-feira, 9 de setembro de 2022

outro lado do 9 de Setembro


Com a sua triste espectacularidade, o número de mortes que causou nas suas diversas frentes, o 9 de Setembro de 2001, será sempre uma data que nunca será esquecida por ninguém e nem o tempo terá esse poder.

O número de mortos é conhecido e os seus nomes também. Mas há um lado B que não é mencionado e que é igualmente horroroso. A quantidade, ainda não bem determinada, de homens e mulheres que morreram de uma forma acessória e silenciosa ao longos dos anos e das décadas seguintes, provavelmente até ao dia hoje e nos seguintes que estarão para vir: os que morreram, ou foram afectados, de problemas de saúde diversos nomeadamente: neurológicos, respiratórios, stress pós traumático e os diversos tipos de cancro que se manifestaram por terem estado em contacto de uma forma prolongada com o ambiente vivido nos escombros das torres e não só.

As seguradoras (naturalmente) tentaram fugir à responsabilidade das vítimas directas mas também das indirectas. O filme Valor da Vida, de 2020, conta muito bem esta história.










quinta-feira, 1 de setembro de 2022

70 anos de O Velho e o Mar


Há pouco mais de nove anos, eu escrevi um conjunto de textos que denominei de os Grandes Cinco.
É um conjunto de cinco de livros que mais marcaram a minha vida, os tais que levaria na minha nave espacial se o mundo acabasse.

Um deles é sem dúvida O Velho e o Mar de Ernest Hemingway. Aqui escrevi sobre este livro tão importante para mim.
Volto a ele porque hoje faz 70 anos que foi publicado. Foi escrito em 1951 e uma ano depois era publicado. Foi a sua última grande obra publicada antes da sua morte, em 1961, por suicídio.

Este livro valer-lhe-ia o premio Pulitzer em 1953 e foi considerada uma das suas obras mais relevantes para o Nobel da Literatura que Hemingway ganharia em 1954.

A fotografia é de um arménio chamado Yousuf Karsh, talvez um dos melhores fotógrafos retratistas de sempre. Tive a oportunidade de ver o seu trabalho há vários anos numa exposição na Gulbenkian. 
Poucas vezes vi uma fotografia de Hemingway que melhor ilustrasse a complexidade do seu temperamento e personalidade.
E de caminho pesquisem o retrato de Winston Churchill. A força, a imponência do seu carácter, que imana deste retrato é impressionante.

Parabéns Hemingway por teres escrito um dos livro mais importantes da minha vida.





quarta-feira, 8 de junho de 2022

foi há 50 anos


Que Nick Ut, um fotógrafo vietnamita tirou a fotografia que ficaria conhecida no mundo inteiro como a Rapariga Napalm.
A fotografia mostra Phan Thị Kim Phùc, nua, a chorar e com corpo queimado por napalm na Guerra do Vietname. A fotografia foi tirada na vila de Trang Bang, não muito do longe de Saigão, actualmente Ho Chi Minh, em 8 de Junho de 1972.

Poucos sabem que Nick após ter tirado a fotografia pegou nela, embrulhou-a num cobertor, e nas restantes crianças, colocou-as na sua carrinha e levou-as para o hospital mais perto, salvando as suas vidas.

Kim Phuc, agora mãe de dois filhos e a residir no Canadá desde 1992, ao recordar a fotografia afirmou que durante muito tempo se sentiu desconfortável por estar nua enquanto as restantes estavam vestidas. Na escola, as crianças fugiam dela devido às extensas queimaduras nas costas. Pensou que nunca mais ninguém a iria amar. 
As marcas das queimaduras ainda estão presentes no seu corpo.

Kim tem presentemente 59 anos e o fotógrafo vietnamita conta 71 anos.






sábado, 4 de junho de 2022

massacre da Praça Tiananmen - China, 33 anos e milhares de mortos depois


A 4 de Junho de 1989, na Praça Tiananmen em Pequim, sob a presidência de Deng Xiaoping, tanques militares marcharam sobre milhares de pessoas pro-democracia. Militares dispararam indiscriminadamente sobre os manifestantes, assassinando-os cegamente.
Até hoje, 33 anos depois ainda não se sabe qual quantos milhares de protestantes terão morrido no massacre desta praça. Houve um número indeterminado de presos cujo destino ainda permanece desconhecido. A recolha das vítimas foi feita por buldózeres.

Activamente, a China tem procurado apagar todas as memórias de um dos acontecimentos mais tristes e violentos da década de oitenta.
Memoriais erigidos foram desmantelados, fotografias e memórias apagadas, notícias e textos jornalísticos eliminados e adulterados.
As famílias têm dificuldade em visitar, são impedidas de encontrar os túmulos dos seus mortos.
Muitos têm as suas campas não identificadas.

Trinta e três anos depois a China continua a ser totalitária, longe da democracia, sem liberdade de expressão pessoal e de imprensa, e tem uma das formas mais selvagens de capitalismo: o comunista.

Para que o mundo, e particularmente a China, jamais esqueça os milhares de mortos nesse dia, no massacre da Praça Tiananmen no dia 4 de Junho 1989.







terça-feira, 1 de março de 2022

Chopin 212


Estranho que no do dia em que nasceu um dos homens, o pianista e compositor polaco Frederic Chopin, que mais contribuíram para beleza neste mundo, o mundo revolta-se contra a invasão da Ucrânia por parte de um dos homens mais rascas da actualidade: o presidente russo Vladimir Putin.

Tal como por Tchaikovsky, tenho um carinho enorme por Chopin (ambos compositores do período romântico).
Entre concertos, prelúdios, estudos, nocturnos, polonaises e tantas outras peças para piano, escolher uma para celebrar o dia em que Chopin nasceu, 01.03.1810, é algo complicado. Fujo (muito) dificilmente aos nocturnos 1 e 2 (Opus 9) talvez das peças mais bonitas alguma vez escritas para piano.
Se fujo aos nocturnos que mencionei anteriormente, não fujo de todo a outro nocturno, igualmente de uma beleza indescritível: o nocturno em C menor.
Publicado vinte e seis anos depois da morte do pianista, este prelúdio póstumo é tudo o que a obra de Chopin representa: delicadeza, beleza, emoção, elegância e ternura. Faz parar o tempo. Inconscientemente, toda a nossa atenção se vira para ela.

Para os mais cinéfilos, reconhecerão certamente este nocturno no filme de Roman Polanski, O Pianista, no momento em que este tocava ao vivo na rádio polaca quando a invasão nazi começou em Varsóvia.

212 anos depois, a Polónia presta um serviço inestimável à Ucrânia e à Humanidade ao receber todos os refugiados de uma guerra inacreditável porque um imbecil autocrata russo considerou que tinha motivos válidos para invadir um país soberano e independente.
Hoje, celebremos duplamente a Polónia. Triplamente, o pianista que toca este nocturno, Jan Lisiecki, também é polaco.












segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

o infinitesimal minimalismo de Eliane Radigue (que faz hoje 90 anos)




2021 foi um ano profundamente musical. Tive descobertas, encontros e reencontros. O jazz esteve presente de uma forma dominadora ao longo do ano que findou há cerca de um mês.
A música erudita e contemporânea teve também uma importância bem relevante e acutilante em 2021.
Redescobri o prazer do minimalismo e a música electrónica na vertente experimental e avant-garde teve um peso enorme nas últimas semanas do ano passado.
Começou com a morte de Alvin Lucier mesmo no findar do ano, Conhecia o seu nome, a sua influência na música, principalmente do século XX, mas nem tanto o seu trabalho e a sua obra. Desta era conhecedor de apenas uma peça sua e sobre a qual escrevi sobre ela aqui. Fiquei com vontade de conhecer melhor a sua vida e obra e as descobertas sobre ele continuam a suceder-se.

Quando procurava material sobre o trabalho de Alvin Lucier, um outro nome, este totalmente desconhecido para mim, começava a aparecer a aparecer com alguma insistência: Eliane Radigue.
Mais uma vez parti à descoberta deste nome e do seu trabalho. E o que encontrei deixou-me absolutamente fascinado. Mais até que Alvin Lucier.
Desde há um mês, que Radigue tem sido uma companhia muito frequente no Spotify e no YT.

Eliane Radigue é uma compositora francesa, nascida a 24 de Janeiro em 1932. Apesar da sua formação clássica (piano) irá seguir um caminho bem distante daquele que iniciou. 
Influenciada na década de 50, pelo também francês, por Pierre Schaeffer, sendo depois sua aluna, e mais tarde por Pierre Henry, e que se tornaria sua assistente, Eliana Radigue distingue-se na música concreta, drone e electrónica.
Para além da influência de ambos os Pierre, Eliane conta que num determinado momento da sua vida, durante uma formação deu por si a ouvir com atenção o som dos hélices dos aviões que passavam por cima e que terá contribuído para o caminho pelo qual viria a enveredar.

Um momento de maior importância na sua vida acontece quando se muda em 1970 para a universidade de Nova Iorque. Conhece Morton Subotnick, um compositor electrónico de renome, e toma contacto com sintetizadores que se iriam tornar os seus instrumentos de eleição por mais de duas décadas.
Um dos seu primeiros trabalhos neste período é precisamente Chry-ptus de 1971, tendo sido posteriormente alvo de revisões e novas versões em 2001 e 2006.
É uma excelente introdução à obra de Radigue. E pessoalmente, é a minha peça preferida.

Chry-ptus é absolutamente minimal. Profundamente delicado, envolvente e subtil. Insinuante e hipnótico. Penso neste tema como uma fragmentação unificada pela forma como a mudança se dá ao longo tempo: subliminarmente, de uma forma quase infinitesimal. A percepção de que algo mudou só acontece quando de facto já mudou e não no momento em que muda.

Para explorar a obra drone, sónica e minimalista de Eliane, aconselho a Trilogia da Morte. Considerada uma das obras mais importantes e de maior fôlego - quase três horas de duração e oito anos de composição - da carreira da fenomenal compositora francesa que até hoje ainda se mantém no activo. Inspirada nos ensinamentos budistas, ao qual se converteria em 1975, esta trilogia reflecte sobre a consciência, a morte, a sua espiritualidade, a caminhada para a Luz. Com a morte do seu filho Yves Arman em 1989 num acidente de viação em Espanha, a Trilogia tem uma forte componente catártica para a compositora.
Em 2001, dá-se uma nova abordagem na sua composição. Deixa a electrónica para trás, mas mantendo o mesmo registo e filosofia de toda a sua vida, passa a compor para instrumentos acústicos, particularmente para cordas.

Quase desconhecida, para variar, será no momento da sua morte que Eliane Radigue obterá o reconhecimento que merece.
Até lá, e que demore a chegar, apreciemos a gentil e subliminar aventura que Radigue nos faz caminhar em Chry-ptus e na Trilogia da Morte. Que nos torne curiosos, que faça apontar para novas jornadas, novas caminhadas e novas descobertas do seu peculiar mundo sónico. 

Hoje celebramos os seus 90 anos.














quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Achtung Baby - 30 anos


18 de Outubro de 1991. Dois anos após a queda do Muro de Berlim.
A Europa estava inquieta com as profundas mudanças que estavam ainda acontecer no seu âmago, na Alemanha.
Os U2 em 1987 tinham lançado Joshua Tree, na linha dos anteriores álbuns, que levou a banda irlandesa para a estratosfera em termos de reconhecimento. 
O álbum seguinte, Rattle and Hum foi mal recebido pela crítica, não tanto pelo público, mas mesmo assim os U2 tremeram. Sentiram que corriam o sério risco de estagnar o seu som num momento em que a música e o mundo estavam a passar por uma revolução, sentiam que precisavam de fazer algo diferente.

A solução passou pela reinvenção do som da banda e assim surge, em associação com o produtor Brian Eno, Achtung Baby (achtung, atenção em alemão).
Um som menos pop, mais disco, mais industrial, por vezes psicadélico. As suas letras tornam-se mais de intervenção, mais pertinentes e assertivas.
Temas como One, Misterious Ways, Who's Gonna Ride your Wild Horses tornaram-se hinos universais dos U2. Hoje faz trinta anos que este álbum foi editado.

Não sou particularmente fã de U2 mas há que reconhecer a importância pivotal de Achtung Baby na discografia da banda e no panorama da música em geral. Trinta anos depois a sua importância não está diminuída, pelo contrário, ainda soa a novo.

Nestas três décadas do sétimo álbum dos U2, fujo aos seus clássicos e prefiro The Fly. Talvez o mais "estranho" dele, onde o psicadelismo, as distorções, riffs e o experimentalismo de Achtung Baby estão mais presentes.
Parabéns U2.






It's no secret that the stars are falling from the sky
It's no secret that our world is in darkness tonight.
They say the sun is sometimes eclipsed by the moon
Y' know I don't see you when she walks in the room

It's no secret that a friend is someone who lets you help.
It's no secret that a liar won't believe anyone else.
They say a secret is something you tell one other person
So I'm telling you, child

Love, we shine like a burning star
We're falling from the sky

A man will beg
A man will crawl
On the sheer face of love
Like a fly on a wall
It's no secret at all

It's no secret that a conscience can sometimes be a pest
It's no secret ambition bites the nails of success
Every artist is a cannibal, every poet is a thief
All kill their inspiration and sing about the grief

Love, we shine like a burning star
We're falling from the sky

A man will rise
A man will fall
From the sheer face of love
Like a fly from a wall
It's no secret at all

Love, we shine like a burning star
We're falling from the sky tonight
Love, we shine like a burning star
We're falling from the sky

A man will rise
A man will fall
From the sheer face of love
Like a fly from a wall
It's no secret at all

It's no secret that the stars are falling from the sky
The universe exploding 'cos-a one man's lie
Look I gotta go, yeah, I'm running outta change
There's a lot of things if I could I'd rearrange






quinta-feira, 11 de novembro de 2021

12 anos



Em ano de pré-pré-pós-pandemia, a Esteira esteve moribunda.
Esteve de facto próxima de acabar por atirar toalha ao chão. Afinal a Esteira conta com 12 anos e tudo o que tem um início também tem um fim.

Como um pugilista que cambaleia, que já não suporta mais pancada, e quando a queda e o KO se anunciam, o gongo soa e este recupera no seu canto para mais um assalto. Assim foi a Esteira.
Mesmo ligada às máquinas ela recuperou e chegou ao seu décimo segundo ano de existência. Vamos ver se o conclui...

Para já continua com os seus temas preferidos: música, alguns livros, alguma poesia, curtas de animação, alguns toques de humor e ironia, anti-touradas, claro, e com um imenso carinho e aflitiva preocupação pelo nosso planeta e ambiente.

Uma das mais longas rubricas do blog, Uma Música para o Fim de Semana  (que por esta altura já leva umas redondas quatrocentas edições), vai-se manter mas sem esforço. Ou seja, irá aparecer sempre que necessário e não forçosamente todos os fins de semana. No entanto continuará, na essência, dedicada à música portuguesa.

O número de posts, que em anos anteriores eram furiosamente lançados, deverá continuar contido à semelhança de 2019 e 2020.

Mas é altamente que tenha durado até aqui. 
Como já escrevi em posts, poucas coisas na minha vida duraram tanto como a Esteira.
Portanto, em dia de São Martinho, celebremos 12 anos de Esteira com... castanhas e vinho 🍷🌰









sábado, 11 de setembro de 2021

vinte anos de 11 de Setembro de 2001 - alguns números


Vinte anos em que o impossível aconteceu, mas por muito que veja as imagens na televisão, continua a parecer impossível que tenha acontecido.

Nos grandes acontecimentos, usualmente estão também ligados grandes números e consequências. que se prolongam no tempo. 
Os números do 9 de Setembro, são naturalmente pesados. 2799 pessoas das quais 344 bombeiros, 71 polícias e 55 militares, morreram neste dia. Cinco portugueses estavam entre as vítimas. Estima-se que entre 75% a 80% das mortes sejam homens. 
A vítima mais nova tinha dois anos e a mais velha tinha 85 anos. Ambos iam a bordo nos quatro aviões que foram desviados por 19 sequestradores.
Apenas cerca de 60% das vítimas destes actos terroristas estão identificadas. Aproximadamente 80000 pessoas terão participado em todas as operações (resgate e limpeza) que envolveram os acontecimentos do 11 de Setembro.

Até aos dias calcula-se que cerca de 18000 de outras pessoas, sofrem ou morreriam anos mais tarde devido a doenças causadas pela poeira tóxica que pairou no ar. Nomeadamente: dores de cabeça e tosses crónicas, asma, bronquites, rinites, problemas intestinais, leucemias, fibroses, cancros pulmonares, rins e outras formas de cancro. 
Acredita-se que em 2018, o número de pessoas que morreram por exposição à nuvem nociva terá ultrapassado o número de mortes directamente associadas aos atentados.

9.3 mil milhões de dólares é o valor que as seguradoras terão gasto nas indemnizações de pessoas e empresas que estiveram envolvidas nos eventos que ocorreram há vinte anos.




quarta-feira, 11 de novembro de 2020

11 anos


Se se tratasse de um casamento, 11 anos seriam considerados as bodas de aço.
Felizmente como não se trata de um casamento, a Esteira de Letras passados onze anos ainda existe.

Estamos em plena pandemia do Covid 19. Tempos estranhos e curiosos que se vivem.
Trump e Bolsonaro só fazem merda. Aliás o Trump já deixou de fazer porque ganhou as eleições norte-americanas no passado dia 3 de Novembro. 

Por aqui já estamos fartos da Temido, da Graça e do Costa.
Penso que são uma praga maior que o coronavirús. E para ano de 2021 acredito piamente que vai haver uma overdose da palavra vacina e de tudo o que lhe estiver associado.
Pelo menos, ao contrários dos três acima, esta traz esperança para o mundo. Quase todo o mundo. Os africanos, esses, vão ficar para lá do sol posto relativamente a vacinas.
Para o Ocidente o continente africano só serve para explorar recursos naturais. A generosidade e apoio ocidental genuíno e altruísta em alturas de verdadeira necessidade é uma treta.

Celebremos onze anos de Esteira











segunda-feira, 11 de novembro de 2019

E foi há uma década...


A Esteira chega aos dez anos de vida quase num estertor.

No último ano praticamente caiu uma das suas rubricas emblema: Uma música para o fim de semana.
Durante cerca de sete anos e meio, semanalmente, aos sábados, havia sempre uma música proposta para o fim de semana.
Na esmagadora maioria das vezes essa proposta era de músicos nacionais ou originários de países de língua portuguesa e era acompanhada de um texto que descrevia o motivo dessa escolha e sempre que possível a letra da mesma era colocada.
Admito que saturei um pouco deste formato. Apesar de existir bons e grande nomes de músicos e bandas nacionais, não sou um seguidor feroz das várias vertentes da música nacional.

Entretanto a Esteira tem trilhado um novo caminho que fala muito comigo e está presente em todos os momentos da minha vida, no meu dia a dia: o amor, o carinho, a necessidade de proteger a minha, a nossa casa, a bela Terra.
Chamar a atenção para a forma como a fazemos sofrer, como a maltratamos, como ignoramos os seus lamentos. Chamar a atenção para a forma como somos descuidados para com ela, como somos egoístas e destrutivos. Agimos como se ela fosse nossa quando é verdadeiramente o contrário.

Bem de qualquer maneira, hoje a Esteira celebra dez anos de vida.
Chamo ao palco da Esteira, um dos nomes que várias vezes apareceu em Uma música para o fim de semana: Paulo de Carvalho.
Este enorme senhor da música portuguesa está acompanhado de outro nome que muitas vezes, senão o que mais vezes apareceu, pisou o palco da Esteira: Rui Velos.

"10 anos é muito tempo, muitos dias, muitas horas a..." 

Parabéns a todos nós 🎉🍰






quinta-feira, 13 de junho de 2019

Fernando Pessoa 131


De Fernando Pessoa conhecem-se cerca de 120 heterónimos. Mais ou menos influentes, mais ou menos efémeros na poesia e escrita do poeta que nasceu em Lisboa há 131 anos. Desta mais de centena de personalidades, personagens que Fernando Pessoa criou, apenas um tinha voz feminina.

Esse heterónimo chama-se Maria José, tem 19 anos é corcunda de nascença e tem uma deformidade nas pernas. Apenas se manifestou uma única vez e sob uma forma de uma pungente, uma muito sofrida carta de amor. Era dedicada a um serralheiro do qual estava enamorada - A carta da Corcunda para o Serralheiro.


Senhor António:
O senhor nunca há de ver esta carta, nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.


O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter - e agora menos que nem vida tenho - gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.


Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.


Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.

O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Aí tem e estou toda a chorar."