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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Joni Mitchell 81


A cantora canadiana, Roberta Joan Anderson faz hoje 81 anos. E.. quem é ela? E o que fez ela de especial?

Para o mundo, a Roberta Anderson é conhecida como Joni Mitchell. 
Teve uma vida daquelas. Em 2015, um aneurisma quase a matou. 
Teve que reaprender a andar, a falar, a cantar, a tocar guitarra, tudo. Depois disto Joni voltou aos palcos. E brilhou. Uma canção nunca falhou nos seus concertos.

Nesse altura, como agora, Joni Mitchell é sinónimo Both Sides Now. Admito que seja redutor "reduzir" uma cantora a uma única canção, especialmente quando falamos de Joni Mitchell. Pessoalmente, uma é a outra. Mas não consigo fartar desta canção.
Sempre que a ouço emociono-me. A ternura da sua voz toca-me sempre. Apetece-me chorar, sorrir, abraçar, beijar alguém, fazer o bem.
Existem mais de 1500 versões deste tema. Ilustra bem a importância, o poder, a impressão que este tema causa nas pessoas.

Foi editada pela primeira vez em 1967, no álbum Wildflowers. Joni tinha 23 anos.
A letra foi escrita, quando tinha 21 anos, dentro de um avião, num lugar à janela em que espreitando por ela, a cantora canadiana via as nuvens a passarem por ela.
Com esta idade, já tinha tido poliomielite, ao 9 anos, que a deixou paralisada e com sequelas para a vida, uma filha, nascida em 1965, que ninguém soube que existia e que foi abandonada pelo pai. 
Sem meios para a sustentar, sem apoio de ninguém, decidiu que o melhor para a sua filha, apenas com oito meses, era dá-la para adopção.
Em 1993, quando esta história é publicada nos jornais por causa de uma amiga que a vende a um tabloide. Em 1997, a filha é encontrada e desde então nunca mais separaram.

Both Sides Now, encontramos o que há-de melhor em nós, entra fundo na nossas alma.
Conta-nos como tudo tem dois lados, duas perspectivas, especialmente a vida e o amor. E como é difícil conhecer as duas. Particularmente a primeira.
Não podia concordar mais com ela.





Rows and floes of angel hair
And ice cream castles in the air
And feather canyons everywhere
Looked at clouds that way

But now they only block the sun
They rain and they snow on everyone
So many things I would have done
But clouds got in my way

I've looked at clouds from both sides now
From up and down and still somehow
It's cloud illusions I recall
I really don't know clouds at all

Moons and Junes and Ferris wheels
The dizzy dancing way that you feel
As every fairy tale comes real
I've looked at love that way

But now it's just another show
And you leave 'em laughing when you go
And if you care, don't let them know
Don't give yourself away

I've looked at love from both sides now
From give and take and still somehow
It's love's illusions that I recall
I really don't know love
I really don't know love at all

Tears and fears and feeling proud
To say, "I love you, " right out loud
Dreams and schemes and circus crowds
I've looked at life that way

Oh, but now old friends, they're acting strange
And they shake their heads and they tell me that I've changed
Well, something's lost, but something's gained
In living every day

I've looked at life from both sides now
From win and lose and still somehow
It's life's illusions I recall
I really don't know life at all

It's life's illusions that I recall
I really don't know life
I really don't know life at all




quarta-feira, 13 de setembro de 2023

um poema de... Natália Correia (no dia do centenário do seu nascimento)


Açoriana, nascida em São Miguel no dia 13 de Setembro de 1923. Celebra-se hoje o centenário do seu nascimento.
Profundamente acutilante, inconformada e sobressaltada, Natália Correia não tinha papas na língua e respondia a provocações com versos. Era uma desafiadora de eleição e uma feminista à frente do seu tempo.
A sua participação na política teve sempre por fim, o combate à ditadura, à resitência anti-fascista e à censura.

Em 1966 foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa por atentado ao pudor quando organizou a Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Quando foi chamada a tribunal Natália Correia que tinha preparado como defesa um poema chamdo A Defesa do Poeta, tendo sido aconselhada pelo seu advogado a não o ler, o que veio a acontecer.
Em 1972 viria a ter de novo problemas com a justiça portuguesa ao participar na edição de um livro marcante, Novas Cartas Portuguesas, onde se abordava o feminismo, os direitos e a sexualidade das mulheres.

No ramos das letras os seus interesses eram multiplos. Por debaixo da sua pena passou alguma da melhor poesia, romance, ensaios, peças de teatro e jornalismo que Portugal viu (e ainda vê) em muito tempo.
A sua última causa a que se dedicaria foi a da cultura, em 1992. É famoso episódio em que juntamente com José Saramago e David Mourão Ferreira colide frontalmente com o secretário de estado e subsecretário de estado da cultura, Pedro Santana Lopes e José Sousa Lara do governo de Cavaco Silva. Estava em causa na altura a aplicação do IVA aos livros e o boicote de de Sousa Lara à candidatura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago a um concurso literário.

O seu poema Queixa das Jovens Almas Censuradas, musicado e interpretado por José Mário Branco, uma mordedura feroz na ditadura, foi um dos vários sinais que foram transmitidos pela rádio de que a revolução de 1974 estava em curso.

Natália Correia, morre a 19 de Março de 1993, vítima de ataque de coração aos 69 anos.


Queixa das Jovens Almas Censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


terça-feira, 6 de junho de 2023

Astrud Gilberto (1940 - 2023)


Morreu ontem a senhora que era dona de umas vozes mais doces, ingénuas (tal como os seus olhos) e encantadoras do Brasil: Astrud Gilberto.
Não fosse a sua voz, a postura simples e tímida em palco e talvez a Garota de Ipanema não seria conhecida do mundo inteiro.

Ganha em 1965, um Grammy por este tema.








Quando Stan Getz e João Gilberto se juntam e produzem um dos álbuns mais influentes da história do jazz - Getz/ Gilberto - corria o ano de 1964, fazem a bossa nova, jazz brasileiro, explodir para o mundo. Mais uma vez é Astrud Gilberto, na altura de mulher de João Glberto) que lhe dá essa projecção e dimensão.
Neste álbum a letra original foi adaptada para inglês.





Tall and tan and young and lovely
The girl from Ipanema goes walking
And when she passes, each one she passes goes "ah!"
When she walks she's like a samba that
Swings so cool and sways so gently
That when she passes, each one she passes goes "ah!"

Oh, but he watches her sadly
How can he tell her he loves her?
Yes, he would give his heart gladly
But each day when she walks to the sea
She looks straight ahead not at he

Tall and tan and young and lovely
The girl from Ipanema goes walking
And when she passes he smiles
But she doesn't see

Oh, but he sees her so sadly
How can he tell her he loves her?
Yes, he would give his heart gladly
But each day when she walks to the sea
She looks straight ahead not at he

Tall and tan and young and lovely
The girl from Ipanema goes walking
And when she passes he smiles
But she doesn't see

She just doesn't see
No, she doesn't see
But she doesn't see
She doesn't see
No, she doesn't see



Ainda deste mesmo álbum sugiro fortemente que ouçam Corcovado (Quiet Nights).

Nascida em 29 de Março de 1940, Astrud morreu ontem com 83 anos.









quarta-feira, 10 de maio de 2023

Rita Lee (1947-2023)



É um dos nomes incontornáveis da MPB. Se quisermos ser um pouco mais precisos, díriamos do rock brasileiro.
Rita Lee acrescentava-lhe um delicioso toque excentricidade e genuinidade. Viveu sempre como quis, como pensava que devia viver e expressar-se.

Não tinha o impacto mediático gigantesco, a aceitação planetária que tinha Gal Costa. Talvez pela forma ousada e irreverente como se posicionava perante o público, perante a sociedade, a sua pouca vontade em ser consensual, algo que a desagradava de uma forma mais ou menos abertamente. 
Pessoalmente o seu lado rockeiro, uma praia cujas areias não costumo pisar, fez com que eu não seguisse com grande atenção o seu percurso musical.

Mas há uma canção por a qual tenho um grande carinho e que a define na perfeição: Amor e Sexo. Pertence ao álbum Balacobaco de 2003. Foi escrita e composta com o guitarrista, colega de banda e companheiro de vida, Roberto Carvalho.
Anos e anos a ouvir este tema e dou sempre por mim a prestar atenção à letra, à forma como separa e destrinça, com humor e argúcia, o que é o amor e o que é sexo. A inspiração para o tema foi um texto de Arnaldo Jabor, jornalista e cineasta brasileiro, publicada no jornal O Globo, em 2002.

Para o pessoal fã das telenovelas, provavelmente lembrarão mais facilmente, e rapidamente, da canção Sassaricando, cujo tema abria a telenovela com o mesmo título. Passou nas nossas televisões corria o ano de 1989. 
Se recuarmos nove anos no tempo encontraremos outros dos seus temas imortais, e querido por muitos, Baila Comigo e Lança Perfume, ambos do álbum Rita Lee.

Rita Lee morreu ontem com 75 anos, vítima de cancro de pulmão. 
Ou, como diria algum tempo antes de morrer, vítima de "Deus deu uma risadinha sarcástica."






Amor é um livro Sexo é esporte Sexo é escolha Amor é sorte Amor é pensamento Teorema Amor é novela Sexo é cinema Sexo é imaginação Fantasia Amor é prosa Sexo é poesia O amor nos torna Patéticos Sexo é uma selva De epiléticos Amor é cristão Sexo é pagão Amor é latifúndio Sexo é invasão Amor é divino Sexo é animal Amor é bossa nova Sexo é carnaval Oh! Oh! Uh! Amor é para sempre Sexo também Sexo é do bom Amor é do bem Amor sem sexo É amizade Sexo sem amor É vontade Amor é um Sexo é dois Sexo antes Amor depois Sexo vem dos outros E vai embora Amor vem de nós E demora Amor é cristão Sexo é pagão Amor é latifúndio Sexo é invasão Amor é divino Sexo é animal Amor é bossa nova Sexo é carnaval Oh! Oh! Oh! Amor é isso Sexo é aquilo E coisa e tal E tal e coisa Uh! Uh! Uh! Ai o amor Hum! O sexo.





segunda-feira, 17 de abril de 2023

Ahmad Jamal (1930-2023)


2 de julho de 1930, nascia um senhor que se tornaria, desde há longos anos, um dos pianistas vivos que mais admirava. O seu nome era Frederick Russell Jones. 
Escrevi "era" por dois motivos. O primeiro porque em 1950 converteu-se ao islão e mudou o nome para aquele que todo o mundo, e para a posteridade, iria sempre conhecê-lo: Ahmad Jamal.
O segundo motivo, e este verdadeiramente triste, Ahmad morreu hoje e de acordo com a sua filha, Sumayah Jamal, vítima de cancro da próstata.

Ele entra na minha vida, curiosamente através de um álbum contemporâneo, o Blue Moon, editado em 2012 e não por um dos seus clássicos.
No ano a seguir comprava sem hesitação Saturday Morning. Em 2017, encontrava o Marseille, pessoalmente menos bem conseguido que os dois anteriores. Finalmente em 2022, e após ter comprado as gravações completas do lendário But Not For Me at the Pershing, gastava alegremente umas largas dezenas de euros ao comprar as gravações ao vivo de Emerald City Nights (1963-1964 e 1965-1966) at the Penthouse, em Seattle.
Encontrando-me actualmente bem atento à saída do terceiro volume destas gravações.

Porquê este carinho por Jamal? É como Fernando Pessoa, ele consegue falar comigo, com a minha alma.
Tem uma sonoridade bem característica que faz com que saibamos quem está tocar sem que saibamos quem é previamente.
O seu piano é elegante, sofisticado e dinâmico. Virtuoso, delicado e exuberante mas não em excesso. Toca com um prazer genuíno e mostra isso na forma com que toca, como toca e no que toca.

Ahmad Jamal morreu hoje aos 92 anos, cancro na próstata. Sinto genuinamente a sua falta. Perdi um amigo de noites e dias calmos, serenos e tranquilos, um lenitivo para dores de alma, pensamentos inquietos e acelerados.

Para honrar o legado deste pianista, que pessoalmente ombreia com Bill Evans no panteão do jazz, vou escolher um tema de um dos seus maiores trabalhos e concertos ao vivo da história do jazz: as gravações ao vivo do seminal álbum But Not For Me. 
Corria o dia 16 de Janeiro de 1958. O local é o salão do Hotel Pershing em Chicago. Ahamad Jamal no piano lidera um trio com o contrabaixista Israel Crosby e o baterista Vernell Fournier.
Desse concerto temas como Poinciana e But Not for Me ficaram clássicos.
Saindo da influência destes dois temas, tenho um terceiro que gosto mesmo muito e que se chama Wood'yn You. 
Delicado, cheio de ritmo, comunicativo, expressivo e muito cativante.

Já tinha feito aqui uma referência à sua genialidade e importância que tinha para mim por altura dos seus 84 anos.












quinta-feira, 30 de março de 2023

José Duarte (1938-2023)


José Duarte morreu hoje, com 84 anos.
Acredito piamente que a melhor forma de homenagear alguém, é enquanto está vivo. 
Para possa assistir ao reconhecimento da sua obra, do seu trabalho, do seu legado.
A Esteira fê-lo por duas vezes, através do seu icónico 5 minutos de jazz. Aqui e principalmente aqui.

Para muitos, para mim, José Duarte era a voz de um, se não o mais o mais importante, dos programas de rádio dedicados ao jazz: 5 minutos de Jazz.
Foi para o ar pela primeira vez a 21 de Fevereiro de 1966, emitido pela Rádio Renascença.
Entre os anos de 1975 a 1983 esteve interrompida a sua emissão por causa da revolução de Abril. Retoma na Rádio Comercial e dez anos depois passa para a Antena 1.

É com 5 minutos de jazz que expando o meu horizonte jazístico. Alguns nomes e trabalhos viriam a tornar-se favoritos, outros tornar-se-iam experiências ouvidas mas não tão bem acolhidas.
Entre os primeiros, está a formação londrina Il Considered.

Dedicou mais de sessenta anos da sua vida a este género musical que me é tão querido.
Para a cultura portuguesa é uma perda tremenda, mas para a comunidade jazística nacional é irreparável.
Tradicionalmente pede-se um minuto de silêncio quando alguém relevante parte. No caso de José Duarte, talvez isso não seja o que mais desejaria.
O divulgador gostava muito do jazz clássico, tradicional. Bepop, hardpop. Mas tinha uma costela muito "free", muito experimental.
Recordo-me de num podcast, ele mencionar um álbum que apesar de já ter ouvido falar dele, nunca o tinha ouvido. Chama-se Interstellar Space. O último álbum gravado por John Coltrane no ano da sua morte, 1967.
É um duo entre o saxofone de Coltrane e a bateria de Rashied Ali. Os dois tocam com um fulgor, uma velocidade e voracidade invulgar. Gostei de ter finalmente conhecido este álbum, mas está entre os trabalhos que não abracei. De tempos a tempos, ouço-o.

Para José Duarte, no seu minuto de silêncio (que vai durar mais de onze), aqui vai Saturn.











sábado, 17 de setembro de 2022

gente que faz a diferença




No Ruanda, um país ainda a recuperar de um violentíssimo genocídio ocorrido recentemente, em 1994, surge uma jovem e inesperada eco-feminista: Ineza Umuhoza Grace.

Uma ilustradora ruandesa que em menos de três minutos nos mostra como a sua vida foi afectada pelas alterações climáticas e como isso a fez mudar o rumo e o objectivo da sua vida contando com o apoio da National Geographic Society.











terça-feira, 6 de setembro de 2022

Mikhail Gorbachev (1931-2022)


Morreu no passado dia 30 de Agosto, há uma semana, um dos homens mais influentes do século XX e que ajudou a mudar o mundo da altura e a formular o actual, Mikhail Gorbachev.
Através dele duas palavras russas ficaram conhecidas no mundo ocidental: perestroika (reestruturação económica) com uma tentativa de introdução de mercado livre e glasnost (abertura política) nomeadamente permitindo uma maior liberdade de expressão e uma maior influência de outras culturas.
No entanto os mais importantes, relevantes e decisivos passos políticos foram dados no final da década de 80 e inicio dos anos 90 do século passado.

Em finais de 1987 alinhou com o seu homólogo norte-americano, Ronald Reagan, num importante tratado, INF, de desarmamento nuclear. 
Um ano depois mandava retirar do Afeganistão as tropas que o antigo presidente Leonid Brezhnev tinha colocado quando invadiu este país em 1979, 
Nos anos 1989 e 1990, foi figura central na queda do Muro de Berlim, da Guerra Fria e fragmentação da antiga União Soviética ao retirar tropas soviéticas e permitindo (de novo) a independência de quinze estados anexados pela força por parte União Soviética entre as décadas de 1920 a 1940.
Por tudo isto, Gorbachev ganhou o prémio Nobel da Paz em 1990.

Apesar de tacitamente ter apoiado a anexação da Crimeia em 2014, Gorbachev era, de uma forma discreta, contra a invasão russa da Ucrânia, Talvez por isso o alienado do Putin, que quer "sovietizar" e "imperializar" de novo o leste europeu não lhe prestou a devida homenagem. O mesmo caminho é trilhado pelo nosso estimado e "putinizado"partido comunista português - que absurdamente resiste a condenar a invasão russa da Ucrânia - que estando parado e cristalizado no tempo desde há décadas, ainda não percebeu que a União Soviética e ortodoxia comunista já desapareceram e evoluíram.

Se há senhores que merecem o seu lugar na história por tentarem e conseguirem melhorar o mundo político e social é claramente Mikhail Gorbachev.
O fabuloso cartoon é de autoria do português António Moreira Nunes.








sexta-feira, 15 de abril de 2022

Eunice Muñoz (1928 - 2022)


A par de Ruy de Carvalho não deve haver nome maior no teatro que Eunice Muñoz.
Ambos atingiram carreiras longuíssimas, 80 anos. O mesmo que a esperança média de vida dos portugueses.

Começou e acabou a sua carreira no teatro que muito amava, o Teatro Nacional D. Maria II.
Iniciou a sua carreira neste teatro e nos grandes palcos aos 13 anos. Vendaval, de Virgínia Vitorino, foi a sua primeira peça, em 1941, sob os auspícios de Amélia Rey Colaço. Os grandes nomes encontram-se sempre.
A sua última peça, em 2021, foi contracenada com a sua neta Lídia Muñoz, aos 92 anos em Margem do Tempo de Franz Xaver Kroetz.

Entre os muitos pontos altos da sua vida como actriz encontra-se o papel principal na peça de Bertolt Brecht, Mãe Coragem e os seus Filhos.

Hoje, a atriz saiu de cena da vida. A sua cortina encerrou-se aos 93 anos. As palmas, essas continuarão a ecoar.







quinta-feira, 16 de abril de 2020

Luís Sepúlveda


Dele, do chileno Luís Sepúlveda, retenho a forma simples, cativante e humana de contar histórias.
Adoro a delicadeza e ternura das suas personagens, o olhar atento e terno sobre a realidade que tantas vezes foi efabulada tendo colocado cães, baleias, gatos, gaivotas e caracóis ao serviço da sua arte.
Um escritor generoso na pessoa e na escrita.

Morreu hoje, vítima de Covid-19, aos 70 anos.
Que perda.






terça-feira, 24 de março de 2020

Uderzo (1927-2020)


No que toca às aventuras da pequena aldeia de irredutíveis gauleses que ainda resistiam aos invasores (os romanos), Albert Uderzo era a cara metade de (René) Goscinny. Juntos criaram em 1959 estes tais irredutíveis gauleses.
O segundo escrevia, o primeiro desenhava. Goscinny morreu em 1977, Albert Uderzo morreu hoje com 92 anos e, tal como o seu colega e amigo de profissão, de ataque de coração.

Não tendo ficado os gauleses verdadeiramente órfãos, a banda desenhada que vendeu mais de trezentos e setenta milhões de livros tem sucessores, estes dois homens deixaram para trás personagens fazem parte de milhões e milhões de pessoas.
Uma miriade personagens foram escritas e desenhadas por esta dupla espantosa de franceses, nomeadamente: a dupla inseparável Asterix e Obelix, o cão deste, o Ideafix, o inevitável criador da poção mágica, o Druida Paronamix, o decano da aldeia chamado Decanonix, o pequenino chefe da aldeia que tinha medo que o céu lhe caísse na cabeça, o Abraracourcix e a minha personagem preferida, o incompreendido e mal amado bardo de voz esganiçada: o Assurancetourix.

Curiosamente, a pessoa que há muitos anos me introduziu no universo de Asterix e Obelix, li com voracidade e várias vezes os seus inúmeros álbuns que tinha, um querido e importante amigo de família, Nuno Assunção, morreu também há poucos dias.
Há muito que quando pego num álbum das aventuras de Asterix e Obelix, há sempre um momento em que o seu rosto e nome surgem na minha memória.

Um obrigado especial a estes três homens que me proporcionaram horas de verdadeiro prazer de leitura.





terça-feira, 13 de novembro de 2018

os cameo do Sr Stan Lee


No post anterior tinha mencionado que Stan Lee participava, e fazia questão de o fazer, em breves aparições - os famosos cameo - em todos os filmes da Marvel que tivesse o dedo mágico de Lee, ou seja praticamente todos.

Houve alguém que se deu ao (muito) trabalho de compilar todos essas breves participações.
Tal como eu, e muitos e muitos outros, via (e vejo) todo e qualquer filme Marvel à espera desse fugazes segundos em que Stan Lee. E sempre que tal acontecia, ficava a sensação de missão cumprida.

Apreciem são dez minutos espectaculares e divertidos do Sr Stan Lee.

Excelsior!





Stan Lee, o homem que criou um Universo


Peter Druker afirmou uma vez que "a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo".
Quando se fala de Stan Lee, houve alguém que parafraseou Drucker e escreveu: "a melhor forma de de governar o universo é criá-lo."

E Stan Lee, fê-lo melhor que ninguém. Qualquer super-herói ou figura da Marvel (esqueçam o Batman, Super-Homem e a Mulher-Maravilha que esses são da DC Comics) que nos possa vir à memória, a probabilidade de ter sido criada e imaginada por ele é altíssima.
São contadas às centenas a quantidade de personagens criadas por este nova-iorquino, nascido a 28 de Dezembro de 1922, que aos 10 anos já lia Shakespeare.

Basta pensar em três colectivos da BD e da Sétima Arte para se ter a noção do poder criativo de Lee: Vingadores, Quarteto Fantástico, X-Men e mauzões associados. Acrescentem por exemplo, o Punisher, Daredevil, Thor, Black Panther, Thor, Loki e por aí fora.
Muita desta gente (o Capitão América, não) foi pensada e imaginada por Stan Lee. Ele deu-lhes vidas normais com profissões, problemas comuns, relações familiares complicadas, perdas e desgostos, inclusão ou exclusão social, reinos e até animais de estimação.

É pensar como seria as nossas vidas, a nossa concepção do Universo, do Bem e do Mal, sem todo este pessoal, sem Stan Lee.
Eu, por exemplo, sem o Homem-Aranha seria muito... pobre.

Stan Lee morreu, melhor, não morreu ontem aos 95 anos.. ;)

Para quem possa interessar, Stan Lee sempre fez cameo nos filmes da Marvel. Estejam a atentos a uma personagem de bigode, óculos escuros e cabelo grisalho, que faz umas breves aparições ao longo dos filmes.





quarta-feira, 13 de junho de 2018

um poema de... Fernando Pessoa (no dia dos 130 anos de nascimento)


Hoje celebram-se 130 anos sobre o nascimento de Fernando Pessoa - 13 Junho de 1988.

Curiosamente, aquilo que mais o caracteriza, pelo qual é mais conhecido, a poesia, representa pouco em tudo aquilo Fernando Pessoa se dedicou.
Entregou-se de corpo e alma a todas as áreas das letras: poesia, contos, traduções, ensaios, dramaturgia, prosa, critica literária e politica.

Indo para além do óbvio, para além dos seus poemas, é curioso ler o que Fernando Pessoa escreveu sobre si, como se definiu.
A 30 de Março de 1935, o "correspondente estrangeiro em casas comerciais" escreve a famosa Nota Biográfica.
Exactamente seis meses depois, 30 Novembro de 1935, o poeta que escrevia poemas para cada um de nós morria.

No Livro do Desassossego, o semi-heterónimo e ajudante de guarda livros, Bernardo Soares escreve: "Minha pátria é a língua portuguesa". Poucos a terão honrado de uma forma tão superlativa como Pessoa fez.


Fernando Pessoa
NOTA BIOGRÁFICA
1935

Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.° 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi director-geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral — misto de fidalgos e de judeus.

Estado: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão mas vocação.

Morada: Rua Coelho da Rocha,16,1.° dt.°, Lisboa.
(Endereço postal — Caixa Postal 147, Lisboa).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems III» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem»,1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poemas». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituindo uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali ducado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo mítico, de onde seja abolida toda infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».

Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos—a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.


Lisboa, 30 de Março de 1935


quarta-feira, 14 de março de 2018

Stephen Hawking (1942-2018)


A poluição, a ganância e a estupidez são as maiores ameaças ao planeta.

Stephen Hawking


Stephen Hawking morreu. Arrepiei-me quando soube disto. Existem poucas pessoas no mundo da ciência pela qual tenha uma admiração sem limites, como a que tenho pelo astrofísico britânico.
Quase tudo o que rodeia este cientista é conhecido: a sua história, a sua vida, a sua doença, a sua obra.

Mas o que me faz admirar incondicionalmente Stephen Hawing é a sua genialidade.
A coragem que o fez questionar (factualmente) a existência de Deus, a determinação em explicar o Universo, a sua origem e o seu funcionamento através de Santo Graal da física: a Teoria do Tudo, a junção da teoria da gravidade com a teoria da mecânica quântica.
Que mostrou que ao contrário do que se pensava, que um buraco negro para além de esmagar irremediavelmente, de atrair para si tudo o que está na sua área de influência, é capaz de fazer o impossível: gerar partículas e radiação.

Um homem que conseguiu colocar por palavras aquilo que o pensamento empírico não consegue imaginar: a Breve a História do Tempo é um dos livros de ciência mais comprados de sempre.
Não sei se será o mais lido, mas garantidamente que não será o mais compreendido.
A propósito

Nas datas de nascimento e morte, Stephen Hawking foi igualmente grandioso.
Nasceu a 8 de Janeiro de 1942 exactamente 300 anos depois da morte de Galileu e morreu no mesmo dia em que Albert Einstein nasceu (14 de Março 1879).
Para além que o dia de 14 de Março é conhecido, e celebrado, como o dia do PI. Pela notação americana da data, 03.14 (Março, 14) este número representa o valor mais conhecido do PI com duas casas decimais- 3.14.
O que para um matemático e físico não deixa de ser um dia simbolicamente especial.

Uma das imagens de marca do astrofísico é estar sentado numa cadeira de rodas, para onde a doença Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), detectada quando tinha apenas 21 anos, o atirou de vez para uma cadeira, que equipada com um computador, que lhe sintetizava a voz ao ler o movimento do seu olhar por um teclado.
Fujo intencionalmente a esta imagem clássica e dolorosa.
Gosto particularmente do momento em que Stephen Hawking experimentou a gravidade zero, em Abril de 2007: tem um sorriso do tamanho do Cosmos. O sorriso de alguém que mais que ter conseguido completar uma teoria complicadíssima, foi o de ter concretizado um sonho.

Como li algures...

Rest in Physics





terça-feira, 17 de janeiro de 2017

um poema de...Miguel Torga (nos 22 anos da sua morte)


Ninguém conhece o Dr Adolfo Correia Rocha. Nasceu em 1907, na zona raiana de São Martinho da Anta, a rasar a cidade de Vila Real.

A sua vida de Adolfo, começa de uma maneira dura e atribulada. Com uns escassos 10 anos parte para o Porto. Bateu quase todos os postos humildes. Foi porteiro, moço de recados, limpava escadas e tratava de jardins.
Em 1918 frequenta o seminário. Toma contacto com os textos sagrados, com o latim e com outras disciplinas. Apesar de decidir que não quer tornar-se padre, será aqui as letras subtilmente entram em si,

Aos 13 anos parte vai para o Brasil para uma fazenda de um tio. Aqui foi capinador e vaqueiro. O tio reconhece-lhe inteligência manda de volta para Portugal e paga-lhe os estudos. Concluí os estudos do liceu e em 1928 entra na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e torna-se otorrinolaringologista.
Verdadeiramente a medicina não era a sua paixão. No mesmo ano em que entra em Medicina, publica o seu livro de poesia Ansiedade.
A partir daqui, a sua obra literária, não para de crescer e torna-se vasta. Contam-se às dezenas os livros que publicou de prosa e poesia.

Em 1934, tinha 27 anos, o Adolfo Rocha toma uma decisão que o marcará, e nos marcará para a vida.
Decide honrar dois grandes escritores pelos quais tinha uma grande admiração, Miguel Cervantes e Miguel Unamuno.
Tal como as suas raízes serranas, bravias, da montanha, o escritor nunca esqueceu as suas origens, o arbusto torga, cujas cores podem ser brancas, rosadas e arroxeadas, no qual se reconhece e igualmente admira.
Junta os dois nomes e torna-se... Miguel Torga.

Ele é um contista de excelência, romancista, ensaísta, dramaturgo e um poeta extraordinário.
E é esta última face, a de poeta, que mais me atrai nele.
Miguel Torga morreu no dia 17 de Janeiro de 1995 em Coimbra. Faz hoje 22 anos.


Torga tem um poema, que prima pela delicadeza, pela elegância, que define maravilhosamente o que é a poesia.
Deveria ser, talvez, o primeiro poema que se deveria ensinar às crianças. Uma maneira de as tornar receptivas à poesia, de as fazer abrir os braços, a uma forma de literatura, muitas vezes, pouco admirada, pouco lida, pouco ouvida e muito pouco ensinada

"Não tenhas medo, ouve:" é pessoalmente, o seu poema mais bonito e singelo, o mais simples e puro.
É o que mais me atrai, o que mais me fascina e o que mais me ensinou.


Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz... 


Miguel Torga, diários XIII



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Kandinsky 150


Quatro de Dezembro de 1866, em Moscovo, na Rússia czarista, há exactamente 150 anos, nascia um dos pintores mais influentes, mais interessantes e inovadores da história da pintura, e um dos mais admirados e venerados por mim: Wassily Wassilyevich Kandinsky.

Revolucionário e um visionário, Kandinsky foi gradualmente libertando-se da inspiração impressionista, cujo grande contacto que teve com esta escola de pintura foi através da obra de Claude Monet. Percebeu que no impressionismo a figuração estava muito presente, mas que já apresentava alguns sinais de fuga à mesma. Algo que o atraiu de sobremaneira.

Se os movimentos pós-impressionistas como o pontilhismo, o expressionismo e o cubismo foram tentando retratar a realidade de uma forma cada vez mais livre, mais reinventada, mas ainda assim focada nela própria, o abstraccionismo corta ferozmente e radicalmente com a figura reconhecível.
O percurso artístico de Wassily Kandinsky segue igualmente esta lógica.

Nas sua primeiras obras é bem visível o cunho impressionista que o motivou para a pintura. À medida que a vertente abstracta avança e se torna cada vez mais forte nele, as cores e os traços tornam-se mais imprecisos, mais livres e mais rebeldes.
A figura, a realidade, vai perdendo contornos, esbatendo-se na tela. As cores ganham personalidade e encontram-se mais soltas.

O abstraccionismo na pintura de Kandinsky ganha plenamente a sua maturidade ao longo da primeira década do séc XX, com uma evolução na segunda metade, altura em que o pintor faz um corte definitivo com o real e começa a introduzir nas nas suas telas elementos geométricos, onde a série seus trabalhos que denominou como Composições, representam o expoente máximo da sofisticação do seu trabalho.
Particularmente a Composição VIII que é um dos trabalhos que mais admiro e me fascina na obra dele.




Quis a história que a 2 de Janeiro de 1911, Kandinsky assiste a um concerto do compositor austríaco Arnold Schoenberg.
De imediato Kandinsky sente uma tremenda afinidade com o músico. Tal como ele, também Schoenberg estava a introduzir um corte radical na forma como a música era percepcionada, como era ouvida, Se o pintor russo, estava a romper com a realidade com o abstracto, o compositor austríaco contrapunha à tonalidade a atonalidade. E os dois estavam a enfrentar uma resistência enorme por parte da sociedade e dos escolares às suas ideias e novos conceitos.

A empatia entre os dois artistas foi enorme. Encontraram-se, leram obras um do outro, trocaram ideias e cartas. Ajudaram-se mutuamente. Se em Schoenberg a música era a sua vida, em Kandinsky a influência e educação musical na sua formação é elevada. Na juventude, o futuro pintor tocou piano e violoncelo.

Kandinsky uma vez afirmou "Eu não pretendo pintar música", mas olhando para os seus trabalhos, principalmente das décadas de vinte e trinta, só vejo música.
Ele, melhor que ninguém conseguiu fazê-lo.