Mostrar mensagens com a etiqueta cultura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cultura. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 6 de julho de 2022

a Guernica e a Ucrânia


É uma das obras mais emblemáticas e carismáticas do século XX. 
Guernica é um quadro pintado por Pablo Picasso em 1937. Representa a violência e o horror que a cidade de Guernica passou quando foi bombardeada pela Alemanha nazi, em 26 de Abril de 1937, com a aquiescência do ditador espanhol, Francisco Franco, durante a Guerra Civil espanhola.

É um quadro violento em termo físicos e psíquicos. Representa tudo o que uma guerra pode trazer: devastação, horror, desespero, agonia, o sofrimento e a perda de vidas inocentes, incluindo a de animais.
Este quadro está no museu Rainha Sofia, na capital espanhola, Madrid. Tive a oportunidade de o ver em 2006.

É um quadro enorme, a preto e branco e tons de cinza, com quase oito metros de comprimento e mais de três metros e meio em altura.
Apesar de Picasso o ter feito na altura do bombardeamento de Guernica, a sua importância e significado extravasa o tempo e a geografia em que se insere.
Faz todo o sentido que me lembre desta pintura a propósito do que se está a passar actualmente na Ucrânia. 

Retirar este quadro da bidimensionalidade da tela e atribuir-lhe a tridimensionalidade, dá uma visão bem diferente do mesmo. O sentimento, esse, mantém-se todo.












sexta-feira, 15 de abril de 2022

Eunice Muñoz (1928 - 2022)


A par de Ruy de Carvalho não deve haver nome maior no teatro que Eunice Muñoz.
Ambos atingiram carreiras longuíssimas, 80 anos. O mesmo que a esperança média de vida dos portugueses.

Começou e acabou a sua carreira no teatro que muito amava, o Teatro Nacional D. Maria II.
Iniciou a sua carreira neste teatro e nos grandes palcos aos 13 anos. Vendaval, de Virgínia Vitorino, foi a sua primeira peça, em 1941, sob os auspícios de Amélia Rey Colaço. Os grandes nomes encontram-se sempre.
A sua última peça, em 2021, foi contracenada com a sua neta Lídia Muñoz, aos 92 anos em Margem do Tempo de Franz Xaver Kroetz.

Entre os muitos pontos altos da sua vida como actriz encontra-se o papel principal na peça de Bertolt Brecht, Mãe Coragem e os seus Filhos.

Hoje, a atriz saiu de cena da vida. A sua cortina encerrou-se aos 93 anos. As palmas, essas continuarão a ecoar.







terça-feira, 2 de novembro de 2021

Prémio Camões 2021 - Paulina Chiziane


"Eu vim do chão"

"Ainda preciso de comprar champanhe, quando o dinheiro chegar"


A 20 de Outubro, era anunciado o vencedor do prémio literário Camões de 2021: a escritora moçambicana Paulina Chiziane.
Nascida em Manjacaze, Moçambique, em 1955, e correntemente a viver e trabalhar na Zambézia, a escritora conta com cerca de dez livros publicados onde a condição e a emancipação feminina é frequentemente abordada.
O seu primeiro livro publicado em 1990, Balada de Amor ao Vento, seria também o primeiro livro publicado por uma mulher moçambicana.

Não é uma ilustre desconhecida entre nós. Em 2003 vê o seu livro Niketche: Uma História de Poligamia, subir aos palcos portugueses e em 2014 seria agraciada com o grau de Grande Oficial da Ordem Infante D. Henrique pelas mãos do então presidente português, Cavaco Silva.
É a terceira vez que um autor moçambicano foi galardoado com o Prémio Camões. Anteriormente tinha sido José Craveirinha em 1991 e Mia Couto em 2013.
Em Portugal está editada pela Caminho.

Se temos a oportunidade de conhecer o seu pensamento por intermédio da palavra escrita dos seus livros, a personalidade da vencedora do Prémio Camões é maravilhosamente percebida pela palavra oral desta curta entrevista após ter tido conhecimento que tinha ganho o prémio Camões
A humildade de Paulina Chiziane é avassaladora.










quarta-feira, 13 de abril de 2016

o Beijo de Bracusi


O Beijo do escultor romeno Constantin Bracusi foi criado inicialmente em 1908, e até 1916, esta escultura teria várias modificações.
Tem influências cubistas, mas as texturas da pedra, a forma das duas imagens evocam claramente a cultura africana.

A escultura representa um homem e uma mulher fisicamente separados, mas unidas pelo beijo e pelo abraço que eterniza o beijo dos dois. A separação das duas figuras não é possível.

A par de o Beijo de Rodin, é uma das esculturas mais icónicas e reconhecidas sobre o acto de beijar.
Quando vi esta escultura pela primeira vez, pensei que ela tinha pelo menos um par de milhares de anos...
Afinal tem pouco mais de uma centena deles.

Mas é uma representação adequada do mundial do Beijo que se celebra hoje.




terça-feira, 24 de março de 2015

um poema de...Herberto Helder



Os adjectivos utilizados são muitos. Genial, misterioso, obscuro, surreal. O poeta Nuno Júdice definiu-o como um poeta "tão diferente, tão vulcânico".
Há muitos que o consideram como o maior poeta português depois de Fernando Pessoa, ou o maior da segunda metade do séc XX.
De facto muito poucas pessoas da cultura nacional, aquando da sua morte, agitaram tanto um país tão pouco cultural como Herberto Helder.

O poeta foi tudo o que se pode imaginar.
Sem grandes preocupações de listar por ordem cronográfica, o que fez na vida é de tirar o fôlego.
Trabalhou em publicidade, foi meteorologista, operário, delegado de propaganda médica. Trabalhou numa cervejaria, cortou legumes.
Viveu na França, Holanda e Bélgica. Viveu na clandestinidade em Antuérpia frequentando o submundo da prostituição onde terá servido de "guia" aos marinheiros que desaguavam nas águas deste porto belga.

Foi responsável das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian.
Em 1971 tornou-se repórter de guerra em Angola, onde um acidente grave o atirou para a cama de um hospital durante três meses. Após uma breve passagem por terras nacionais, parte em 1973 para os Estados Unidos.
Regressa a Portugal em 1975 para trabalhar na rádio e em algumas revistas literárias.

Durante todo este frenesim, Herberto Helder continua a escrever e a publicar.

Consequência destas experiências de vida, a sua poesia é hermética, pouco popular e portanto pouco acessível, até surreal. Plenas de paisagens difíceis de ler e de compreender. Um alquimista das letras.
O seu mundo poético continha dois elementos, dois fascínios, frequentemente presentes na sua obra: a morte e o silêncio.
Não tinha medo da morte. Sabia que um dia se entregaria a ela. Ela que viesse e com ela viesse igualmente o silêncio.

Ontem, com a sua morte, acredito que muitos celebrem mais o seu nome que a sua obra.
Exactamente o contrário que o poeta madeirense desejaria.

É bem conhecida a face excessivamente reservada da sua personalidade. Socialmente auto-excluído.
Rejeitava liminarmente todas as formas de mediatismo. Nomeadamente fotografias, entrevistas, documentários, chegando inclusivamente a proibir os amigos de falarem sobre ele.
Por isto ele criou sobre si próprio uma mística que não desejaria.

Talvez tenha sido por isso a sua morte tenha sido o oposto da sua vida, mediatizada.
E como sempre, e é esse o preço supremo da genialidade, será a sua morte que trará ao cima o seu valor e a curiosidade do grande público. Se era conhecido por poucos, talvez ser torne lido por alguns.

A fotografia que encabeça este post foi tirada pelo fotógrafo Alfredo Cunha, no início deste ano.
É uma das raras e a última fotografia que Herberto Helder permitiu que tirassem.

Foi ontem que a Senhora do Manto Negro, fazendo-lhe uma vénia, o levou nos seus alvos braços. Aos 84 anos.

- Quem diabo terá sido Herberto Helder?? Poeta?? Humm...deixa lá ler qualquer coisa dele.


Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser. 

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

realidade & fantasia


Erik Jonhansson é um jovem fotógrafo sueco de 30 anos a viver actualmente em Berlin.
Desde pequeno que desenha. Do lápis e papel passou para a fotografia e depois para o photoshop.
Uma santíssima trindade da imagem.
Das fotografias tiradas no dia a dia, ele transforma-as em imagens do seu mundo.

Uma mistura improvável de fantasia, realidade e impossibilidades.
















terça-feira, 1 de julho de 2014

série "vencedores" - Carlos do Carmo




Carlos do Carmo tornou-se o primeiro português a ganhar um Grammy Latino.
E ganhou não por uma determinada música ou álbum mas sim por tido uma carreira e vida dedicada à música. Cinquenta anos mais concretamente comemorados em 2013, com o álbum Fado é Amor.

Ele figura entre gigantes da música mundial que ganharam este prémio. Nomeadamente, o "meu" Miles Davis, a rainha do jazz e do scat, Ella Fitzgerald, Bob Dylan, James Brown,  Leonardo Cohen, entre muitos outros.

Apesar de não ser grande fã de Carlos do Carmo, é fantástico ter sido ele a ganhar o primeiro grammy da música nacional.
Valeu :).


quarta-feira, 18 de junho de 2014

José Saramago - a maior flor do mundo





José Saramago morreu há quatro anos. Não sou um particular admirador de José Saramago enquanto escritor. Sou mais dos que vêm filmes para não ler os livros, ou seja, um leitor preguiçoso.
Mas sei que era um escritor de excepção e um homem acutilante nas suas opiniões as quais partilho alguma delas.

Recentemente andava brincar no youtube à procura de "curtas" de animação quando dei de caras com esta.
É bonita, simples, terna como os contos para crianças e adultos devem e deviam ser.
Conta a história de um conto infantil que escreveu - A Maior Flor do Mundo.
Oiçam as suas palavras e vejam o que ele escreveu:


"As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples.
Porque as crianças sendo pequenas sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas.
Quem me dera saber escrever essas histórias mas nunca fui capaz de aprender. E tenho pena.
Se eu tivesse aquelas qualidades todas, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei."






"Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças.
Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria e poderão contá-la noutra maneira com palavras mais simples do que as minhas e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para as crianças. 
Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti, que me lês, muito mais bonita?..."





terça-feira, 13 de maio de 2014

H.R. Giger (1940 - 2014)



Sempre gostei do surrealista suiço H.R. Giger mas foi preciso que ele morresse hoje para ter a curiosidade de saber finalmente o que significava as iniciais do seu nome - Hans Ruedi Giger.
Giger era pintor, escultor, designer e cenógrafo.

Sofria de um distúrbio do sono chamado terrores nocturnos, que se caracteriza por pesadelos intensos e de grande realismo. 
Giger trazia para a realidade, através da sua arte esses mesmos terrores e angustias.
Tinha por isso um estilo doentio, macabro, visceral, por vezes fálico. Fundia corpos e metal, criando um universo de realismo fantástico biomecânico frequentemente monocromático, usando o preto e cinzentos intensos para lhes conferir

Ficou famoso com as suas criações para o cinema. Particularmente através dos vários Aliens e do Species.
Os dois monstros foram criados por ele e por Alien receberia um Óscar por melhores efeitos visuais em 1980.
Na década de 70 colaboraria com o mundo da música ao criar e desenhar capas de discos para algumas bandas da época.

Tal como o holandês Maurits Cornelis Escher (MC Escher), Giger via uma realidade diferente da nossa.
E sempre pensei (e penso) que é uma realidade possível, não perceptível a toda a gente.
Vejo este tipo de pessoas, outro exemplo é o escritor John Ronald Reuel Tolkien (JRR Tolkien), não como exactamente visionários, mas alguém cujos cérebros estão "arrumados" de maneira diferente dos nossos e portanto têm acessos a outras realidades para além da que vivemos e são capazes de as transmitir em pleno a nós que temos cérebros "standardizados".

Vale a pena explorar o universo de H.R. Giger. Vai-se estranhar mas depois entranha-se. 
Eu não cheguei a estranhar, entranhou-se logo.










quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

a ganância tem vistas curtas


Somos pequeninos e mesquinhos. Pomos dinheiro à frente da cultura. Não de uma cultura qualquer, mas refiro-me à Grande Cultura. Empobrecemo-nos por isso.
Falo da colecção de quadros, a maior colecção privada do mundo(!!!) do pintor catalão Joan Miró que está na posse do Estado e que Passos Coelho quer a todo o custo vender mesmo que ilegalmente.

Oferecemos o BPN cuja nacionalização custou ao Estado cerca de seis mil milhões de euros, por quarenta milhões ao Mira Amaral e compadres angolanos e agora queremos vender uma colecção de obras de Miró porque é necessário realizar dinheiro pagar a dívida e o lixo tóxico do BPN que os angolanos não quiseram ficar.

É verdade que ninguém sabia que eles existiam até esta bronca estalar. E também é verdade que cuidar deles pode ser caro e que para ganhar o dinheiro equivalente à sua venda demoraria uns anitos.
Mas a grande diferença está entre vender e investir.
Por isso é que somos pequeninos.

Porque ninguém, especialmente Passos Coelho, pensa que o turismo cultural atrai muita gente (especialmente estrangeiros) e que o que esta colecção já deu que falar, traria, de novo, muita gente (especialmente tugas) ao museu que a albergasse.

Vendidos, sinceramente, o povo português não lucra um chavo com isso.
Os preços da electricidade vão continuar a subir, as pensões vão continuar a ser cortadas, a saúde continuará a tornar-se mais débil, a educação mais analfabeta e a justiça mais desacreditada.
O dinheiro vai ser perdido no vórtice dos juros e ninguém vai notar na descida do défice ou na melhoria das suas condições de vida.

Investidos é diferente. Não se realiza dinheiro a curto prazo. Mas ganha-se tudo no médio e certamente no longo prazo. Ganhamos cultura, ganhamos prestígio, nacional e internacional, por termos uma colecção de um artista como Joan Miró e não duvido que o museu ou museus onde estes quadros estivessem alojados veriam a sua assistência aumentar e logo as suas receitas.
Os portugueses que, agora, ouviram falar pela primeira vez de Miró poderiam perceber o que é um pintor (e escultor) surrealista e quem já o conhece poderia também, talvez, pela primeira vez admirar a sua obra ao vivo.

Somos e queremos ser um país de turismo. Sol, gastronomia, praias, serras, etc, etc...
Mas também há turismo cultural e nesse somos quase uma nulidade. Os quadros de Miró são uma mais valia para o turismo cultural. E este tipo de turismo não é o do pé descalço. É turismo qualificado, do "bom", do que sabe o que quer e do tipo que cá deixa divisas, dinheiro. Algo que o governo, que gosta tanto dele, nem sabe quanto poderia ser.

Estes quadros que nunca viram a luz do dia, que nunca foram expostos, estiveram perdidos e ignorados numa cave, sala ou armazém durante seis ou sete anos. Nunca foram vistos, nunca foram expostos.
Durante estes anos foram verdadeiramente inúteis, culturalmente e financeiramente falando. Valeram zero.
Agora há uma ganância pela sua venda. Ela é tão grande que muito provavelmente o valor que a sua alienação gerará poderá ser abaixo do seu verdadeiro valor.

E quando os 85 quadros de Miró são avaliados (correctamente???) em cerca de 36 milhões de euros rapidamente se percebe que valem quase tanto quanto a venda de um banco, o nacionalizado BPN. O tal que foi vendido por 40 milhões. Ou seja, algo está errado. E não é dos quadros.

Quanto ao Secretário de Estado da Cultura, essa coisa chamada Jorge Barreto Xavier que permitiu que os Mirós saíssem "ilegalmente" de Portugal em mala diplomática, uma maneira chique de dizer que passaram a fronteira a salto e que até apoia a sua venda, deveria passar para a contabilidade ou finanças. Cultura vale zero.

Mas o governo vai ficar feliz porque vai ganhar dinheiro, não interessa quanto, mas vai ganhar.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pessoa 125




No dia em que se comemora o centésimo vigésimo quinto ano do nascimento de Fernando Pessoa, escolho um dos poemas para mim mais marcantes do poeta de todos nós.

Ler Pessoa é quase sempre entrar no seu âmago, no seu profundo eu, na sua alma de simplicidade complexa.
Este poema é talvez um dos poemas que sinto que veio mesmo de lá dentro, do seu interior abismal, das suas entranhas mais profundas, das minhas entranhas mais profundas.

Quando leio este poema a imagem que surge é a do menino que não queria crescer, o menino que vivia na Terra do Nunca, "Nesse impossível jardim". Não se crescia, tudo era simples.
As coisa sãos o que são. Mantêm a sua pureza, a sua ingenuidade. O próprio tempo é virginal.

Não há lugar aos porquês, porque não há necessidade do saber. É a terra dos sonhos impossíveis. A terra do Peter Pan. A minha terra.


Às vezes, em sonho triste

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.

Fernando Pessoa
21.11.1909


Como gosto de ti Fernando Pessoa. Poeta das mil caras, das mil personalidades, onde cada uma delas é cada um de nós.



sexta-feira, 20 de julho de 2012

José Hermano Saraiva (1919 - 2012)


Não sou um grande admirador de José Hermano Saraiva.
Creio que ele conseguiu a notoriedade um pouco pela sua característica gestualidade e por ter sido talvez o primeiro historiador português a ter impacto umediático.
De qualquer maneira é sem dúvida uma figura referência da cultura portuguesa e um comunicador e divulgador por excelência.

Nasceu em Leiria a 3 de Outubro de 1919. Foi historiador, professor, escritor, embaixador no Brasil e ministro da educação no Estado Novo.

Graças a José Hermano Saraiva ficámos, todos nós, um pouco menos ignorantes.

Morreu hoje com 92 anos.




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Zeca Afonso - maior que o pensamento


No Natal de 1972,  Zeca Afonso lançava um álbum de originais chamado Vou ser como uma Toupeira.
Desse álbum estão duas canções emblemáticas do cantautor aveirense: A Morte saiu à Rua e o Avô Cavernoso.
Em 1994, após sete anos terem passado sobre a sua morte, surge um tributo a Zeca Afonso pelas mãos de João Gil e Manuel Faria, dois ex-trovante e Tim, vocalista dos Xutos & Pontapés, que conseguiram reunir vinte bandas, oriundas de vários géneros musicais. Esse projecto chamar-se-ia Filhos da Madrugada.
Eles revisitaram várias canções de Zeca Afonso, onde constavam, A Morte saiu à Rua e o Avô Cavernoso. A primeira foi dos UHF e a segunda foi pelos Mão Morta. E é esta que me interessa para este fim de semana.

As duas interpretações, Mão Morta e Zeca Afonso, não podiam ser mais diferentes. Pessoalmente, esta é uma das situações em que o cover é superior ao original. Zeca empresta-lhe uma certeza delicadeza, suavidade.
A voz de Adolfo Luxúria Canibal (nome artístico de Adolfo Augusto Martins da Cruz Morais de Macedo) carimba a canção de uma forma oposta. Torna-a verdadeiramente cavernosa. É pesada, rouca, arrastada, reverberante, aquele tipo de voz que pertence a alguém que não queremos encontrar no escuro. Por trás da sua voz está um tique taque nervoso, tenso. Este cenário vai até aos 2.37min, altura em que a bateria explode e nos lança de rompante para a segunda metade da canção, mais acelerada, mais... cavernosa.

A letra de Zeca Afonso, presta-se para esta prestação. Ela é uma dentada certeira em Oliveira Salazar uma espécie de rei Midas invertido, onde em vez de transformar tudo em ouro, um castigo pela sua ganância, onde tocasse, o toque de Salazar, pelo ditador que era, enegrecia, fazia murchar a vida, retirava a esperança.
Sendo, também, um cantor de intervenção, esta letra é um toque de génio  criatividade pelo qual Zeca Afonso era conhecido e reconhecido.
Os Mão Morta, através do seu líder, fazem inteira justiça. Mais, tornam melhor aquilo

Zeca Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1897. Na passada quinta-feira, fez exactamente trinta anos que morreu.


Bom fim de semana ☺




O avô cavernoso
Instituiu a chuva
Ratificou a demora
Persignou-se
Ninguém o chora agora
Perfumou-se
Vinte mil léguas de virgens vieram
Inúteis e despidas
Flores de malva
E a boina bem segura
Sobre a calva

Ao avô cavernoso quem viu a tonsura?
E a tenda dos milagres e a privada?
Na tenda que foi nítida conjura
As flores de malva murcham devagar
Devagar
Até que se ouvem gritos, matinadas

domingo, 27 de novembro de 2011

Fado - Património Imaterial da Humanidade


O Fado já é Património Imaterial da Humanidade. Saiu dos bairros tradicionais da cidade de Lisboa para o mundo.
Ombreia agora com o Flamengo espanhol e o Tango argentino.

A par do vinho do Porto, Portugal tem agora uma segunda marca - Cristiano Ronaldo não conta - para exportar, para se mostrar ao mundo.
Com a vantagem de esta pertencer à área cultural, o que não deixa de ser um valor acrescentado e um orgulho real para o país.

Vai trazer o turismo nacional e internacional às casas de fado, vai trazer (e levar) enriquecimento cultural a Portugal e ao mundo.
Vamos crescer enquanto povo e estar mais conscientes da nossa identidade cultural.

Talvez agora com o fado haja uma maior procura, maior interesse pelas tradições que este país esconde nos seus inúmeros recantos, nomeadamente os nordestinos, alentejanos, beirões e algarvios.
Talvez agora com o fado se assuma que a verdadeira tradição e cultura portuguesa é nobre, é bela e que honra um país e agora o mundo.

Que elas (cultura e tradição) elevam o espírito nacional e não têm que estar e não podem estar associadas à crueldade, à barbárie e ao desnecessário sofrimento animal que as touradas que representam.

Pode ser que agora o nosso orgulho nacional passe mais por "um silêncio que se vai cantar o fado" numa casa de fado, do que ouvir covardes "olés" numa arena manchada de sangue de um animal inocente torturado até à exaustão.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

um poema de... Fernando Pessoa (no dia do Outono)


Começou hoje a estação mais bonita, suave e aveludada do ano, o Outono. :)




Canção de Outono

No entardecer da terra,
O sopro do longo outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono, 
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas volve e revolve
Esvai-se ainda outra vez.
Mas a folha não repousa
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E mesmo o que sou hoje
Amanhã direi quem era
Volver a sê-lo! mais frio.
O vento vago voltou.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pessoa 123


Dá vontade de parafrasear este dia com o spot do 5 Minutos de Jazz de José Duarte:

1...2...3, 123 anos de Fernando Pessoa!

Usualmente quando se trata de efemérides relacionadas com Fernando Pessoa, recorro a poemas de Ricardo Reis, o meu heterónimo preferido, ou então ao ortónimo, Fernando Pessoa.
Mas desta vez levo ao palco um poema de Álvaro de Campos que gosto muito - Apontamento.

Segundo a biografia que Fernando Pessoa lhe atribuiu, ele nasceu em Tavira a 15 de Outubro de 1890. É alto com cerca de 1.75m e estudou engenharia naval em Glasgow, Escócia.


Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.


Álvaro de Campos 1929

sexta-feira, 27 de maio de 2011

é já amanhã




O Serralves em Festa é o maior evento cultural do nosso país e um dos maiores da Europa.
Na edição do ano passado, mais de 100 mil visitantes estiveram no Serralves em Festa.
São quarenta horas non stop, sempre a abrir, de animação cultural para todas as idades que decorre na Fundação Serralves e ainda por cima é gratuito.




Começa às 08.00h de sábado e termina às 24.00h de domingo.
O programa deste ano, tem previstas mais de 240 actividades culturais. Pode ser consultado aqui.


terça-feira, 24 de maio de 2011

parabéns Sr Zimmerman - 70 aninhos


Robert Allen Zimmerman nasceu no dia 24 de Maio de 1941 nos Estados Unidos. Faz hoje 70 anos.
Para mim e certamente para muita gente este nome não diz nada.

Mas a coisa muda radicalmente de figura quando se menciona o pseudónimo inspirado no poeta britânico Dylan Thomas, com que o tal Robert Zimmerman ficou para a história: Bob Dylan.

De personalidade reservada, parece um cigano de ar enigmático, desalinhado e cabelo revolto. As letras de natureza política e crítica social, a sua voz rouca e quase desafinada, tornaram-se emblemáticas.

Editou o seu primeiro álbum em 1962 - Bob Dylan - e o seu mais recente trabalho é de 2009 - Christmas in the heart - um álbum dedicado ao Natal, apesar de o cantor norte-americano ser judeu.

A canção Knockin' on Heaven's Door é uma das minhas preferidas.
Este tema pertence à banda sonora, totalmente composta por Bob Dylan, do filme Pat Garret and Bily the Kid de 1973, onde o próprio Dylan actua.



sexta-feira, 29 de abril de 2011

World Press Photo 2011



Existem dois tipos de fotografias das quais gosto e com as quais me identifico particularmente: a de viagens e o fotojornalismo.

Da primeira categoria não conheço nenhum evento à escala global que mostre o que de melhor se faz nesta área, mas relativamente à segunda há claramente uma, a World Press Photo.

E que será provavelmente a exposição de fotografia mais conhecida pelo grande público.



Foi a fotógrafa sul africana Jodi Bieber que ganhou a edição deste ano do concurso que dá origem à exposição, com a fotografia da jovem afegã Bibi Aisha, mutilada pelo marido no nariz e orelhas e que foi capa da revista Time em Agosto do ano passado.

Anualmente esta exposição faz um circuito mundial e Lisboa tem sido, felizmente, uma das cidades regularmente contempladas com esse privilégio.
Este ano a World Press Photo vai estar em exibição em Lisboa, Belém, no Museu da Electricidade entre os dias 29 de Abril e 26 de Maio.

Para além de Lisboa irá também estar em Portimão, no Museu de Portimão entre os dias 05 de Agosto a 28 de Agosto e no norte de Portugal na Maia, no Fórum da Maia nos dias 17 de Novembro a 13 de Dezembro.

Três locais onde se pode experimentar a emotividade e a força do fotojornalismo, que nos traz e mostra realidades muitas vezes duras e brutais e muitas vezes belas e delicadas, muitas vezes distantes de nós e outras vezes estão... mesmo ao virar da nossa esquina.
Definitivamente a não perder.


Texto publicado na revista de artes online Textualino.

quarta-feira, 30 de março de 2011

a morte tem destas coisas...


... por vezes ela corrige as injustiças da vida. Passo a explicar.

A morte de Ângelo de Sousa, não mexeu muito comigo. Na verdade para além do seu nome e reconhecer que era alguém com peso na cultura contemporânea nacional, sei pouco sobre ele.
O pouco que conhecia era como pintor e sabia que ele um adepto confesso do experimentalismo e minimalismo.
Também sou fã da escola minimalista. Particularmente nas facetas do design e da pintura e especialmente na música.

Desconhecia que ele era também escultor e que se tinha aventurado pela fotografia e video.
E aqui entra a injustiça da vida corrigida pela morte. Foi devido a ela que hoje quando cheguei a casa, a minha memória teve um flash repentino: eu tenho um livro dele!
Fui procurar e encontrei-o. Estava bem guardado e sem vestígios de pó.

Chama-se Sem Prata. É das edições ASA e tem o apoio da Fundação de Serralves.
Descobri que já o tenho há cinco anos. É a data que consta na dedicatória que os meus pais que escreveram quando mo ofereceram.
O livro aborda as facetas que eu desconhecia em absoluto dele: a fotografia e o cinema.
Dediquei-lhe agora algum tempo e atenção. Não gostei particularmente dos trabalhos de Ângelo de Sousa que este livro mostra.
Mas certamente que ele não se importará, como experimentalista não creio que procurasse a consensualidade de opiniões.

Ângelo de Sousa nasceu a dois de Fevereiro de 1938 em Maputo. Morreu ontem com 73 anos de idade, vítima de cancro.