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quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Olá Inverno, sorrio para ti



Inverno.
Estação feérica, gelada de melancolia.
Aural, diria.
Minimal, de poucas cores. Monocórdicas.

Árvores esqueléticas, vazias.
Ramos sós e enegrecidos. Excruciantes.
Folhas de Outono varridas do alcatrão.
Tempo que se arrasta e passos que se apressam.

Poesia fria de declamação lenta.
Palavras esparsas. Densas, acredito.
Neblinas desmaiadas. Espectros, pousados de inquietação.
Esperam pelo nada que os leve.

Noites curtas de neve, chuva que cai.
Lágrimas. Pesadas, escorrem nas janelas.
Confissões dormem na lareira que estala silêncios.
Vidas secundárias, pequenas, tiritam em cobertores. 
Sim, esquecidas.


Inkheart














quinta-feira, 23 de junho de 2022

desabafo


Espreito-te, vazio
como quem precisa de uma companhia
sábia e sem o peso do fastio


Inkheart





terça-feira, 13 de agosto de 2019

...magia.


sim, tudo o que fazia era…
…magia
sem sentido nenhum
ausência de propósito
na busca do nada
que delicia é a…
… magia

ir na infinitude de mãos nos bolsos, tem…
… magia
não pensar em tudo
sorrir para ninguém
e depois dar-lhe a mão
é um doce trago de…
… magia

espelho sem reflexo, é coisa de…
…magia
pensar sem tino
uma duração não obrigada
ser sem ter que ser
é da mais pura…
…magia

olhar de olhos fechados tem aura de...
… magia
Não sonhar com tudo
acarinhar o que não és
roçando o meu vazio
é uma doce sensação de…
… magia


Inkheart

terça-feira, 30 de outubro de 2018

espelho meu


Desde pequena que tinha medo do espelho da casa de banho. Só dele. Só deste.
Receava o ele lhe poderia devolver, mostrar. Acreditava que lhe desvendaria um segredo que não queria conhecer, do que pudesse acontecer.
Quando tomava banho a humidade ofuscava a superfície espelhada e sempre se sentiu segura. Anos a fio. Um dia tal não aconteceu. A humidade, caprichosamente, não escondeu o espelho.
Estremeceu. Ganhou coragem. De lado para o espelho, receosamente, pouco a pouco, foi espreitando cada vez mais até que a sua cabeça apareceu totalmente. Espreitou para o seu reflexo, para a sua imagem e nada viu e nada leu.
Aliviada exclama - Meu Deus, que estupidez tão grande. Não há nada dentro dele!

Virou-se para trás e abriu os olhos num misto de incredulidade e pavor. Os dedos que seguravam a tolha suavemente tornaram-se brancos com a força multiplicada pela terror. Da humidade opaca, pairando no silêncio e no ar, uma lâmina de aço que o espelho não lhe mostrou, desfere-lhe um golpe seco e único no pescoço. Enquanto gorgolejava, sufocando no seu sangue morno e de sabor macio, ouviu, espelhado na lâmina brilhante, a gargalhada da mãe morta chamando-a pelo seu nome: Zulmiraaaaaaaaa!!


Inkheart

sexta-feira, 20 de julho de 2018

sonho



Ele sonhou que tinha tropeçado no seu próprio corpo morto caído no chão.
Tocou-lhe com o pé: flácido e sem reacção. Estava esvaído, alagado numa imensa poça de sangue. Não acordou.


Inkheart



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Gary Peacok trio - Tangents


Dá-me a tua mão


Dá-me a tua mão e vem comigo
arrastando os pés,
soltamos a poeira de Outono das folhas caídas
e pensemos,

Pensemos silenciosamente
sem parar,
num tagarelar inconsequente
de sonhos que por isso não se tornaram verdadeiros,

Verdadeiros, andemos lado a lado
sintamos,
suavemente concretizemos as nossas ausências
a tua e a minha, a caminharem no passeio do que não existe,

Existe apenas o que imaginamos e não o que sentimos
esqueçamos,
eternamente que não existe o que vemos
mas só o que não é visto.


Inkheart





sexta-feira, 22 de setembro de 2017

... e o Outono chegou


É hoje! É hoje!

Caiam as grilhetas.
De tudo! De todos!
Soltem os aromas amarrados!
Cores queimadas, renascei!
Sons amordaçados, libertai-vos! Regressem!
Acordai, sentidos adormecidos e letárgicos!

Rejubilai, cantai!
Dancem porque a música vai regressar
Sosseguemos porque o tempo vai abrandar
Os ribeiros florescerão nos leitos
E cascatas cantarão com fragor
Ninfas e faunos jogarão às escondidas em florestas mágicas

Soem os gongos,
Toquem os sinos,
Recolhei os bobos e chamai os bardos
E que anunciem a todo o mundo:
Ele acordou!
Ele acordou!
É hoje!
É hoje!
O belo Outono chega hoje!

Inkheart







quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Eu,


Eu, 

Eu, silêncio pesado,
caído redondo na fraga,
do calor incendiado,
sem esperança que traga;

Eu, sorriso pesado,
de dedo que acusa,
do coração esmagado,
pela dor reclusa;

Eu, cansaço pesado,
do preço em alta,
do eu castigado,
da raiva revolta;

Eu, caminhar pesado,
de consciência ausente,
de um corpo cansado,
de um nada presente;

Eu, sentir pesado,
torpor de lágrimas surdas,
de um sorriso murchado,
cheio de palavras mudas

Eu, ânimo vergado,
pela dor maldita,
de um fardo carregado,
que berra e grita,
tão longa desdita.

Inkheart




quinta-feira, 29 de setembro de 2016

vês, alma desventurada?


vês, alma desventurada?


vês, alma desventurada?
imersa e indecisa
a correr na hora cansada
buscar o que agoniza

olha o suave Outono
vazio ao verão que acaba
à dor e ao abandono
à saudade que desaba

alma minha perdida
caminha na lonjura
rua só e sem graça

uma volta sem ida
uma doce amargura
presa e que esvoaça.


Inkheart



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

um poema de... Inkheart


a matemática é um dó colorido

A matemática é um dó colorido roubado às insustentáveis nuvens mudas,
as cinzas que amargam a minha inconsciência singular.

Traço a dor em auroras boreais no zénite do dia diurno.
O céu é de um azul infantil pintado por um velho num piano de oitavas sujas do branco sem limites.

Sou pesado, voo se quiser. Sou leve, caminho se quiser. Sou o que quiser, se quiser.
Nego o querer.
Por isso não quero nada, no tudo que não existe por este ter o nada que não sou.

Atravesso a montanha da mentira falsificada, fluindo em ideias curvas barrando o seu que
é meu conhecimento vertical.
Fundo-me com o gelo azul dos glaciares paralelos, movimentando-me de braço dado com
um livro sem destino.

Vou ao fundo dos oceanos apenas com um trago de olhar, flutuando lado a lado com o amanhecer
lúcido de ausência. No ponto mais fundo, do mais fundo ponto do inexistente paramos.
Adeus porque somos eternidade.

Acelero estaticamente muito, muito, na queda.
Estou cego, fico cego pelo zero absoluto da relatividade pintada pelo poema da
concentricidade inconstante.

Tão bonita que és cegueira esclarecida. Tens letras loucas, sem religião, sorrindo para
quem não passa, com lábios sem virgulas ou pontos finais, apenas borrões em notas não paridas
da pauta que chora procurando a clave do sol que ainda não nasceu.


Inkheart



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

um poema de... Inkheart



poema da desesperança

vem, cerrar a luz dos meus dedos
escutar o inferno lesto a correr
com ele crescem os meus medos
pisando a esperança do querer

ter as árvores despidas de cor
apenas deixar cinzentos a florir
pairar no ar o inferno da dor
de frágeis pensamentos a ruir

vejo a tua sombra que me beija
atando-me às palavras que cismo
essa raiva que insiste e não deixa
esvaziar a alma cheia de abismo

silêncio surdo de asas gritadas
feridas rasgadas a descoberto
de querer e vontades apeadas
dentro de mim só há deserto

extenso, nele encontrar a porta
uma nesga que possa entrar
por onde alma minha jaz morta
permita as suas asas pousar


inkheart



domingo, 5 de junho de 2016

16





pequeno fósforo

pequeno fósforo
tempo tão breve ardido
luz de pele suave,

gentil sonho apagado
pelo deus errado foste escolhido
roubado a quem o acendeu.

belo, único que eras
folha de um ramo caído
quebrado em dois.

minha memória feliz
por nada não teres sido
no breve sim que foste

fósforo de clarão quente
suspenso em tempo perdido
paragem dos dias sem contar


Inkheart


quinta-feira, 19 de maio de 2016

soneto da Morte


soneto da Morte


morte, canta-me uma canção
lenta, bonita de não esquecer
cede o teu frio coração
para o meu sorrir e aquecer

morte, pálida de olhos doces
negros cor de jazigo
quem dera que tu fosses
o corpo que se deita comigo

morte, segura o meu rosto
em mãos ternas de carinho
quentes de fogo posto

no teu colo ter o meu ninho
alma que sufoca no desgosto
tão perdida e sem caminho


Inkheart


sexta-feira, 15 de abril de 2016

alma, triste menina


alma, minha triste menina

alma, minha triste menina
inquieta no meu coração
nas minhas mãos germina,
terra
gretada sem salvação

na noite de cristal
fechada na caixa dos prantos
voa frágil e fatal
cair
em sombrios encantos

choro a pouco e pouco
no lenço a lágrima quebrada
mergulha no fundo poço
cheio
da loucura inacabada

é assim tua sorte
minha alma desconhecida
perdida na minha morte

e adormecida.


Inkheart








quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

quando só o silêncio fala, ninguém o entende


Por vezes até sei o que dizer, como dizer, e muito bem até.
Mas as palavras, os pensamentos que as geram, andam revoltos e revoltados.
Estão lá muitos, todos, sobre tudo e sobretudo sobre nada do que é preciso na altura.
Ensombrados por um perpétuo movimento desorganizado, caótico, delirante, enredados uns nos outros, incapazes de coerência, ausentes de esclarecimento e plenos de abstracção.

Não sai nada. Tudo está lá, mas não sai nada.
Para quem está do outro lado, é muito difícil, mas ainda é mais, muito mais, para o lado de cá.
É um silêncio de incapacidade. Um esfumar de vontade. É um grito de:
- Venham até cá, porque não consigo ir aí!
- Leiam-me, porque não consigo escrever!
- Oiçam-me porque não consigo falar!

É um impossível paradoxo cíclico:
A cabeça, a mente gritam as respostas, mas os lábios cerrados devolvem-nos à cabeça, à mente;
A cabeça, a mente gritam as respostas, mas os lábios cerrados devolvem-nos à cabeça, à mente;
A cabeça, a mente gritam as respostas, mas os lábios cerrados devolvem-nos à cabeça, à mente.

E quando finalmente é quebrado, se quebrado, e algo sai, mais valia não ter saído nada.

Como escreveu Pessoa:

"Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem."


Inkheart




quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

asas negras



asas negras




em noite de breu escurecido
na esquecida fonte foram pousar
as asas negras de um pássaro ferido
negrume solitário de um mudo piar

gota escassa, hesitante em cair
pássaro cansado do inútil debater
a vontade do corpo a esvair
a surda esperança de a lágrima beber

ei-la que cai a gota ressequida
asas negras do pássaro moribundo
pelas penas escorre perdida
essa gota no mármore imundo

ergue-te e voa pássaro morto
de asas negras renascidas
celebra a ausência do teu corpo
e o fim das dores sofridas


Inkheart


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Solstício de Inverno - soneto do Rio de Inverno


soneto do Rio de Inverno

olha a paisagem de inverno
distante e perdida na estrada
na folha lenta cai o tempo
no vidro da janela embaciada

belo rio oco da leve chuva
ruidoso em cores mudas
derrama na montanha curva
correntes de lágrimas miúdas

que belo és orgulhoso rio
no inverno das árvores vazias
quente é a face macia do frio

esconde os segredos que me dirias
meu confidente do lívido martírio
os desejos perdidos que não querias

Inkheart


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

pessoas



pessoas

Que fazer com vocês
com tantos porquês?

Que não me convencem
que não me pertencem

Pessoas que caminham
que nego e não cativam

Nessa estrada cinzenta
está o fosso que de mim se alimenta

Cansaço grande que abrasa
me prende e que atrasa

Com quem não quero sorrir
e para longe partir

Preciso, quero, é ir
para onde não seja sentir

E nem sequer vou parar
no que ficou por agarrar

Digo-vos o que vai acontecer:
é não lembrar do que ficou por dizer

Para que os meus olhos ao cerrar
em vós não possa pensar

Mas tudo o que sei:
É que irei recordar o que agarrei

Por isso, ide pessoas,
que não vos quero, nem más nem boas

Agora, vou para o grande dormir
e finalmente os lábios sorrir.


Inkheart


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

olhos


olhos

não são límpidos como janelas
nem pétalas a mostrar cores
ou leves, perfeitas e belas
longe de serem duas flores

são frágeis ao esquecimento
olhos choram a orvalhar
nos céus mora o tormento
de caírem sem serenar

chorem mas sem fingirem
olhos espelhos da minha alma
sonhem sem vos ouvirem
o que existe da negrura alva

porque cismam no tempo
olhos de um espelho cego?
a esperança vive ao relento
da paz que busco e renego

corajosos e tão cheios de medo
tão abundantes no tardio nada!
berram e apontam o dedo
mas em vós enterram a espada!


Inkheart


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

descrença



descrença

Parte, vai agora.
Foge da longa hora,
onde ninguém mora,
e ninguém te chora.

Vês o destino branco
de seta no flanco?
Faz morrer o encanto,
sentado no meu banco.

O futuro é tão fugaz,
inútil que é incapaz
de criar a ilusão que faz
de empurrar o que ali jaz.

Acreditar é mera visão.
No fim mora a ilusão,
o encarceramento e a prisão,
das esperanças que não são.

A esperança não é realidade,
um sinónimo de felicidade,
ou fim da tempestade,
apenas um esgar de liberdade


Inkheart