O encontro "casual" dos dois saxofonistas, soa mal logo no início. Grandes músicos mas péssimos actores.
Gosto muito de ouvir dois saxofones à "desgarrada". Paul Desmond e Gerry Mulligan fazem-no maravilhosamente bem no álbum Two of a Mind, lançado no longínquo ano 1962.
Além de serem saxofonistas de eleição, cada um toque saxofones bem distintos: o primeiro, toca alto, o segundo, barítono. Consequência, o diálogo entre os dois é fenomenal, rico e cheio. Atraente e ouvir
Ben Wendel e Mark Turner, neste tema dedicado ao mês de Agosto, tocam tenores.
Franzi o sobrolho. Há um álbum grandioso onde dois lendários tenores tocam juntos: Sonny Rollins e Sonny Stitt.
O álbum é liderado por outro épico sopro, o trompete de Dizzy Gilespie. O nome é dedicado aos dois Sonny, chama-se Sonny Side Up
Nenhum dos músicos que lideram este dueto de Agosto, se tornará lendário, nem o seu diálogo entre tenores.
O tema dura cerca de 6 longos minutos. A abertura não cativa e o desenvolvimento do tema carece de algum carisma e variedade. Os tenores parecem demasiado restringidos, contidos, sempre no mesmo registo. Pouco explorados.
Curioso. Ouvir este dueto entre guitarra (Julian Lage) e fagote (Ben Wendel) transporta-me para vários meses do ano excepto os veranis. Particularmente, Julho.
Óbvio que estou a presumir que a música que se ouve em determinado mês retrata a personalidade desse mês. É também muito possível que tal assunção não terá necessariamente que ser a correcta. Ainda assim vou correr o risco.
Julho é o mês da cerveja gelada, das conversas em tom alto e entusiasmado em restaurantes e esplanadas de praia. As conversas começam e não são acabadas e os temas das sucedem-se ao mesmo ritmo das imperiais.
Dito isto, Julho, é uma conversa pensada, harmoniosa e orgânica, com um propósito e um fim. Nenhum se sobrepõe ao outro. É portanto agradável de se ouvir.
Ou seja nada que se possa remotamente, associar a um mês plenamente estival. Apontaria para um Setembro ou Outubro. Para Julho, é de facto excelente. Um prazer de ouvir.
E de caminho fica como uma (excelente) música para o fim de semanas.
Há um bom motivo para gostar do tema que o saxofonista Ben Wendel dedicou a Maio: aparece um gato 😉
O saxofone lidera o tema e o piano está fantástico a acompanhar, ora dando a mão ao saxofone, ora recebendo a mão do saxofone. Grande ligação entre os dois instrumentos.
Maio é um mês descontraído, ligeiro. Não carrega o fardo pesado do verão, das temperaturas elevadas e sufocantes. Ben Wendel consegue passar a personalidade deste mês de uma forma excelente.
É curioso este dueto. Pessoalmente, bate certo com o mês a que se dedica. Ambos são pouco apelativos, pouco atraentes e bastante monótonos. Falta quer a um, Ben Wendel, e a outro, Eric Harland, um assomo de genialidade.
Especialmente do segundo, quem eu conheço bastante bem por ter vários álbuns onde ele participa.
O saxofone é excessivamente seco de Ben, deu-me vontade de ir beber uma cervejinha, e a bateria de Eric, bem melhor que o saxofone, dá mais alento ao tema, mais energia, mas não arrebata.
Repito, ambos estão alinhados com o mês a que é dedicado este tema.
Tenho um sério problema com Março, mas não tão sério quanto Agosto, começa a primavera.
Mas o maior problema de começar a primavera, é que acaba o Inverno.
Em termos práticos, com Março inicia-se um período de seis meses cujas estações odeio mas por diferentes motivos.
A primavera porque é a ante-câmara da chegada do verão, e o próprio verão porque é uma estação que odeio sem restrições. Não vejo nada de positivo nesta estação. Zero!
Mas estamos em Março, ainda vivemos, e apreciemos tal, as últimas semanas do Inverno.
Março traz-nos o saxofonista Ben Wendel, em versão fagote, em dueto com um contrabaixo. Algo que raramente se vê.
Enquanto tema musical não considero este mês particularmente atraente. Pessoalmente, o fagote está excessivamente presente. Gostava de ter o contrabaixo mais expressivo. De igual para igual.
Ben Wendel convida outro saxofonista, Joshua Redman, para tocar em dueto um tema dedicado a Fevereiro.
Pessoalmente, Joshua Redman é um dos melhores saxofonistas tenores da actualidade.
Fico sempre reticente se um duo com dois instrumentos iguais resulta. Mesmo que os músicos sejam duas referência neles. Assumo sempre que falta diversidade, um risco de monotonia, de um se intrometer no outro. Joshua Redman está num patamar diferente e para um encontro de amigos, em que a conversa flui leve e ligeira como numa mesa de café. O resultado é mesmo bom.
Janeiro é a segunda-feira do ano. É um mês looooongo, mas com um dueto de piano (Taylor Egsti) e saxofone (Ben Wendel), ele torna-se mais lânguido e a sua aparentemente excessiva duração, suaviza-se e até se encurta.
É um tema de um álbum lançado por Ben Wendel em 2018. Composto por doze duetos; cada um dedicado a um mês do ano; com o saxofonista canadiano sempre presente, tocando outros músicos convidados mas todos mestres nos seus instrumentos.
A inspiração foi buscá-la à obra homónima de Tchaikovsky.
Os diversos temas são sempre introduzidos de forma casual como se tratasse por vezes de encontros fortuitos em ambiente urbano.
Nos finais da década de 60, inícios de 70, dançava-se nas discotecas um ritmo de música muito particular cujo género ganharia o nome precisamente dos locais era dançado: disco music.
Bee gees, Boney M, Chick e Gloria Gaynor, entre inúmeros outros, imperavam nas pistas.
Para muitos Donna Summer, cujo nome verdadeiro era LaDonna Adrian Gaines, era considerada a rainha do disco. Temas como Bad Girls, Hot Stuff, Spring Affair e MacArthur Park eram obrigatórias nas pistas de dança das discotecas.
Pessoalmente, e outro do seus maiores sucessos, se não o maior deles, é I Feel Love que imortaliza Donna Sumer.
Produzido por Pete Bellote e pelo lendário Giorgio Moroder, o tema surge no álbum de 1977, Remember Yesterday. Tornar-se-ia autêntico marco na história do Disco.
A cantora norte-americana nasce no último dia de 1948 e morre a 17 Maio de 2012 com 63 anos.
Apesar de a causa da sua morte ter sido cancro do pulmão, a artista estava convencida que terá sido por causa das poeiras inaladas nos atentados que derrubaram as torres gémeas de Nova Iorque em 9 de Setembro de 2001 que este terá surgido. Vivia na altura num apartamento situado muito próximo do local.
A sua vida estava longe de ser um glamour. Foi abusada em criança e alvo de violência racista em jovem. Sofrendo de uma depressão, uma relação abusiva e acusando a indústria discográfica de a canibalizar e sexualizar, Donna Summer em 1976 tentou o suicídio num hotel em 1976. Sentia que tinha perdido totalmente o controlo sobre a sua vida. Terá sido a intervenção no último instante por parte de uma das funcionárias do hotel que evitou que a tentativa que concretizasse.
É considerada uma das maiores artistas de sempre da música com um número de vendas de álbuns estimado em 100 milhões.
(Muito) mais rapidamente ligo às músicas do que às marcas que as usam para publicitar os seus produtos.
Há algum tempo que ouvia esta música. Mas como era publicidade, a música ficava no ouvido mas não ligava de todo à marca em causa.
Ontem ouvi-a de novo e desta vez fiquei atento à marca que a usava: Dacia. Horas depois voltei a ouvir a mesma música. Não é só a Dacia que a utiliza. A Sumol também a usa.
Quando abri o shazam a música ficou rapidamente identificada: Borne Free.
A voz cativante que a canta é a do crooner inglês, que durante algum tempo teve a produção do lendário George Martin, Matt Monro (1930-1985).
A letra, muito simples e directa, está muito bem conseguida.
Born free
As free as the wind blows
As free as the grass grows
Born free to follow your heart
Live free
And beauty surrounds you
The world still astounds you
Each time you look at a star
Stay free
Where no walls divide you
You're free as a roaring tide so there's no need to hide
Born free
And life is worth living
But only worth living
'Cause you're born free
Stay free
Where no walls divide you
You're free as a roaring tide so there's no need to hide
Anthony Dominick Benedetto, Tony Bennett à escala planetária, morreu hoje com 96 anos, vítima de doença de Alzheimer, diagnosticada em 2016.
Foi o último dos grandes crooners, um cantor de salões nas próprias palavras de Tony.
Começou a cantar em restaurantes enquanto servia às meses e desde muito novo que tinha uma paixão pela pintura. Uma prática que tinha regularmente mesmo quando estava em tours.
Na década de 70 fez da cocaína a sua companheira de desgraça quando a sua carreira entrou numa fase descendente durante um período considerável de tempo, "sem fim à vista" como afirmaria. Quase morre de overdose tendo que ser reanimado.
Cantou com figuras lendárias do jazz como Bill Evans, George Benson, Dizzy Gillespie, Dexter Gordon.
Grava dois álbuns Duets onde canta ao lado das vozes de Sinatra. Barbara Streisand, Elton John, Bono Vox, Aretha Franklin, Sting e a maravilhosa Amy Wine House.
Independentemente da vida que teve, ela é acima de tudo contada pelas suas canções, principalmente pelos inúmeros duetos que cantou. E um deles, pessoalmente, o maior de todos, foi cantado com Amy Winehouse. Chama-se Body and Soul. Surge no seu álbum Duets II.
O tema é de Março de 2011 e quatro meses depois Amy morria.
O dueto é absolutamente maravilhoso. Não há nada que seja menos que perfeito neste dueto. A relação dos dois, como diriam os ingleses foi "made in heaven".
Se houver algo que se possa parecer com isso, espero que se encontrem e continuem a cantar para quem quer seja.
Hoje, no dia da morte de Tony Bennett é este o tema que logo surge à minha memória.
Saudades vossas. Diga-se em abono da verdade, especialmente da Amy.
No dia em Carlos Santana, um guitarrista norte-americano nascido no México, celebra o seu septuagésimo sexto aniversário, dedico um dos seus melhores temas ao meu sobrinho mais novo, e igualmente guitarrista, puto David.
O tema Samba Pa Ti pertence ao segundo álbum do músico, Abraxas de 1970. Um ano depois de este ter tocado no famoso Woodstock de 1969.
Talvez seja, a par de Supernatural de 1999, o seu melhor trabalho.
Puto, que os teus dedos nunca se cansem, a tua Gibson agradece 😉🎸👊
Hoje começa o verão. O pior dos dois solstícios anuais.
Os próximos três meses serão um tremendo arrastar de grilhetas quer do ponto de vista fisíco, quer mental.
Só ha duas coisas positivas no verão: o prazer redobrado de beber uma cerveja gelada e que no fim dele, tal como o pote de ouro está no fim do arco-íris, começa o Outono.
Beach Samba, tem no título duas coisas que não gosto de todo, praia e samba. Então porquê esta escolha se detesto uma e outra coisa? Porque é a oportunidade de ouvir a voz de Astrud Gilberto - que morreu há cerca de duas semanas, e a bossa nova é uma forma de jazz (brasileiro) que consigo tolerar bastante bem.
É um dos nomes incontornáveis da MPB. Se quisermos ser um pouco mais precisos, díriamos do rock brasileiro.
Rita Lee acrescentava-lhe um delicioso toque excentricidade e genuinidade. Viveu sempre como quis, como pensava que devia viver e expressar-se.
Não tinha o impacto mediático gigantesco, a aceitação planetária que tinha Gal Costa. Talvez pela forma ousada e irreverente como se posicionava perante o público, perante a sociedade, a sua pouca vontade em ser consensual, algo que a desagradava de uma forma mais ou menos abertamente.
Pessoalmente o seu lado rockeiro, uma praia cujas areias não costumo pisar, fez com que eu não seguisse com grande atenção o seu percurso musical.
Mas há uma canção por a qual tenho um grande carinho e que a define na perfeição: Amor e Sexo. Pertence ao álbum Balacobaco de 2003. Foi escrita e composta com o guitarrista, colega de banda e companheiro de vida, Roberto Carvalho.
Anos e anos a ouvir este tema e dou sempre por mim a prestar atenção à letra, à forma como separa e destrinça, com humor e argúcia, o que é o amor e o que é sexo. A inspiração para o tema foi um texto de Arnaldo Jabor, jornalista e cineasta brasileiro, publicada no jornal O Globo, em 2002.
Para o pessoal fã das telenovelas, provavelmente lembrarão mais facilmente, e rapidamente, da canção Sassaricando, cujo tema abria a telenovela com o mesmo título. Passou nas nossas televisões corria o ano de 1989.
Se recuarmos nove anos no tempo encontraremos outros dos seus temas imortais, e querido por muitos, Baila Comigo e Lança Perfume, ambos do álbum Rita Lee.
Rita Lee morreu ontem com 75 anos, vítima de cancro de pulmão.
Ou, como diria algum tempo antes de morrer, vítima de "Deus deu uma risadinha sarcástica."
Amor é um livroSexo é esporteSexo é escolhaAmor é sorteAmor é pensamentoTeoremaAmor é novelaSexo é cinemaSexo é imaginaçãoFantasiaAmor é prosaSexo é poesiaO amor nos tornaPatéticosSexo é uma selvaDe epiléticosAmor é cristãoSexo é pagãoAmor é latifúndioSexo é invasãoAmor é divinoSexo é animalAmor é bossa novaSexo é carnavalOh! Oh! Uh!Amor é para sempreSexo tambémSexo é do bomAmor é do bemAmor sem sexoÉ amizadeSexo sem amorÉ vontadeAmor é umSexo é doisSexo antesAmor depoisSexo vem dos outrosE vai emboraAmor vem de nósE demoraAmor é cristãoSexo é pagãoAmor é latifúndioSexo é invasãoAmor é divinoSexo é animalAmor é bossa novaSexo é carnavalOh! Oh! Oh!Amor é issoSexo é aquiloE coisa e talE tal e coisaUh! Uh! Uh!Ai o amorHum! O sexo.
Uma vez li com uma ironia absolutamente deliciosa, mas que descreve na perfeição, a lógica desta obra de John Cage:
Beethoven: I can't hear a sound
Cage: Good, I've just written a piece for you to listen
A 4 de Agosto de 1952 foi tocada, ao piano, pela primeira vez esta peça de John Cage.
Quando lhe perguntaram qual o objectivo da mesma. Cage, replicou dizendo que o silêncio não existe.
Que se ouve o vento, a chuva nas janelas, os pássaros a esvoaçarem, as pessoas a caminharem, a respirarem, a falarem, O compositor chamou a estes sons, os "sons acidentais"
Pretendia levar as pessoas a ouvir o silêncio, a repensar o silêncio.
E John Cage deu um tempo bem específico para esse repensar; 4' 33'' - quatro minutos e trinta três segundos de uma peça musical composta de silêncio.
Esta obra já foi tocada várias vezes, e a Filarmónica de Berlim a direcção do maestro russo Kirill Petrenko não foi excepção.
Apreciar algo diferente, ouvir algo diferente - o silêncio que não existe - é sempre fascinante. Mesmo quando dura quatro minutos e trinta e três segundos.
Ouvimo-la em silêncio percebendo, identificando, os tais sons acidentais.