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sábado, 21 de março de 2026

um poema de... William Shakespeare (na chegada da Primavera)




Soneto 98

De ti me separei na primavera:
quando o risonho abril, ao sol voando,
em cor e luz, a plenas mãos, cantando,
nova alegria entorna pela esfera…

No viridente bosque até dissera
o pesado Saturno ver folgando…
Porém nem cor vistosa ou cheiro brando
Lograram incender minha quimera.

A brancura dos lírios, não a vi…
O vermelhão das rosas desmaiava…
Eram fantasmas só… ao pé de ti
– o seu modelo – quanto lhes faltava!

Parecia inverno; e eu, a viva alfombra,
Só pude imaginá-la a tua sombra."

William Shakespeare  









quinta-feira, 21 de março de 2024

um poema de... Ruy Belo (no dia mundial da Poesia)




«Cinco Palavras Cinco Pedras

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas

“Todos os poemas”, de Ruy Belo





sábado, 2 de dezembro de 2023

uma música para o fim de semana - Pode-se Escrever (um poema de Pedro Oom)


A sugestão de "uma música para o fim de semana" é algo de muito pouco usual: a declamação de um poema, musicado mas ainda assim de não da forma que estamos habituados.

Este poema de Pedro Oom, Pode-se Escrever, atrai-me particularmente. Ao lê-lo a palavra imediata que mentalmente se forma é rebelião.
Mas ao contrário do que se diz que devemos confiar nas primeiras impressões, ou no nosso instinto, rapidamente recuo nesta palavra.
Penso depois numa outra: alternativa. Fazer algo mas de maneiras de diferentes, novas possibilidades, contornar regras, mantendo-as no entanto.
Entretanto surge a terceira palavra e de novo se diz que à terceira é de vez: liberdade.
O poema Liberdade de Fernando Pessoa, quando afirma que "

"Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma."

Pedro Oom que morreu, ataque cardíaco, no dia a seguir à conquista da liberdade, tem neste seu poema a inquietação da liberdade. 
Façamos as coisas, mas com a liberdade de as fazermos como as quisermos.
Escrevamos ou não escrevamos, mesmo que sem caneta, ou saber como, o façamos.


Bom fim de semana 😉





Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar numa caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever


Pedro Oom, in "actuação escrita" &etc (1980)




terça-feira, 7 de novembro de 2023

um poema de...José Gomes Ferreira (em tempos de guerras)




Devia morrer-se de outra maneira

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, 
fatos escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos 
assistir a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...


José Gomes Ferreira, in Poeta Militante




sexta-feira, 15 de setembro de 2023

um poema de... Natália Correia


Há dois dias, neste post, a propósito do centenário do nascimento de Natália Correia, fazia menção ao poema Defesa do Poeta que Natália tinha escrito por altura do seu julgamento a propósito da antologia  que tinha organizado de poesia portuguesa erótica e satírica.

Aqui fica ele:


A Defesa do Poeta

Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.



"Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença."

In “A Mosca Iluminada”






quarta-feira, 13 de setembro de 2023

um poema de... Natália Correia (no dia do centenário do seu nascimento)


Açoriana, nascida em São Miguel no dia 13 de Setembro de 1923. Celebra-se hoje o centenário do seu nascimento.
Profundamente acutilante, inconformada e sobressaltada, Natália Correia não tinha papas na língua e respondia a provocações com versos. Era uma desafiadora de eleição e uma feminista à frente do seu tempo.
A sua participação na política teve sempre por fim, o combate à ditadura, à resitência anti-fascista e à censura.

Em 1966 foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa por atentado ao pudor quando organizou a Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Quando foi chamada a tribunal Natália Correia que tinha preparado como defesa um poema chamdo A Defesa do Poeta, tendo sido aconselhada pelo seu advogado a não o ler, o que veio a acontecer.
Em 1972 viria a ter de novo problemas com a justiça portuguesa ao participar na edição de um livro marcante, Novas Cartas Portuguesas, onde se abordava o feminismo, os direitos e a sexualidade das mulheres.

No ramos das letras os seus interesses eram multiplos. Por debaixo da sua pena passou alguma da melhor poesia, romance, ensaios, peças de teatro e jornalismo que Portugal viu (e ainda vê) em muito tempo.
A sua última causa a que se dedicaria foi a da cultura, em 1992. É famoso episódio em que juntamente com José Saramago e David Mourão Ferreira colide frontalmente com o secretário de estado e subsecretário de estado da cultura, Pedro Santana Lopes e José Sousa Lara do governo de Cavaco Silva. Estava em causa na altura a aplicação do IVA aos livros e o boicote de de Sousa Lara à candidatura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago a um concurso literário.

O seu poema Queixa das Jovens Almas Censuradas, musicado e interpretado por José Mário Branco, uma mordedura feroz na ditadura, foi um dos vários sinais que foram transmitidos pela rádio de que a revolução de 1974 estava em curso.

Natália Correia, morre a 19 de Março de 1993, vítima de ataque de coração aos 69 anos.


Queixa das Jovens Almas Censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


sexta-feira, 2 de junho de 2023

um poema de... Cesário Verde


Poesia realista que conta a história de duas pessoas que se encontram em posições difíceis da vida:
um poeta cujas críticas ao seu trabalho são más e a de uma engomadeira doente que tem que fazer pela vida.
Um poema nada inocente onde a ironia e o sarcasmos se passeiam ao longo de todo ele.
Pessoalmente, um dos poemas mais fascinantes de Cesário Verde.

O quadro que escolhi para ilustrar este poema, não podia ser outro que não A Engomadeira do enorme Almada Negreiros.
O quadro foi pintado (em 1938) após a morte de Cesário Verde (em 1886).
Sendo ambos modernistas parece-me ser altamente provável que Almada tenha ido buscar inspiração a este poema de Cesário Verde.


Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!


Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'



terça-feira, 11 de abril de 2023

um poema de... Ana Luísa Amaral



Lugares Comuns


Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e um pouco da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mas adiante)

Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.

Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora...

E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu

Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber

E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia levantar, a mulher sorriu
como quem diz: That’s it

e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte

e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda a parte
as mesmas coisas são

Ana Luísa Amaral



terça-feira, 21 de março de 2023

um poema de... Saúl Dias (no início da Primavera)



Para Todo o Sempre


O Poeta morre,
mas não cessa de escrever.

Enquanto escreve,
vive
ressuscitando fugidias horas
mudadas em auroras…

Uma pequenina flor,
pisada por quem passa,
é agora
um milagre de cor,
uma negaça
de mil desejos…

E os beijos
que nunca foram dados,
tornados tão reais…

Aquela borboleta
arrasta
infindas primaveras
no seu voo fremente…

– Uma palavra mais,
Poeta!
Uma palavra quente!
Uma palavra para todo o sempre!

Saúl Dias






quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

um poema de... Eugéno de Andrade (no centenário do seu nascimento)


Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Frontinhas Neto, nasceu exactamente há cem anos, na aldeia da Beira Baixa, Póvoa de Atalaia.
Começou a escrever poemas mesmo muito cedo, aos 13 anos. Publica o poema Narciso em 1939 e o seu primeiro livro, Adolescente, um livro no qual nunca teria um grande orgulho, em 1942.
Em Lisboa, em 1947 torna-se funcionário público trabalhando para o Ministério da Saúde.

Chega em força ao grande público quando publica em 1948 o seu livro "As Mãos e os Frutos", ganhando a admiração de poetas e escritores com o estatuto de Jorge de Sena e Vitorino Nemésio.
A partir daqui as obras sucedem-se com mais de cinco dezenas de títulos publicados de poesia, prosa e infantil. Conquista vários prémios - Grã-Cruz da Ordem do Mérito em 1989 e o Prémio Camões em 2001. Fez traduções de autores como Frederico Garcia Lorca e José Luis Borges.
Publica o seu último livro Os Sulcos da Sede em 2001. Morre a 13 de Junho de 2005, na cidade do Porto. No dia em que, 117 anos antes, nascia Fernando Pessoa.

Admiro nele a sua poesia ser simples, fluida, muito directa. Reflecte, mais uma observação, sobre a essência, o que é elementar, numa aparente singeleza sem uma excessiva transcendência ou busca de algo ou de uma entidade suprema. 
O seu poema As Palavras são um bom exemplo da sua escrita reservada e tímida.


As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade





quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

um poema de... João Luís Barreto Guimarães


O médico cirurgião plástico, poeta, escritor e tradutor, João Luís Barreto Guimarães ganhou hoje o prémio Fernando Pessoa 2022. Uma iniciativa do jornal Expresso que teve a sua primeira edição em 1987 e pretende distinguir portuguesas e portugueses com percurso relevante nas áreas culturais e científicas da vida nacional.

Nascido no Porto em 1967, viu o seu primeiro livro de poesia publicado em 1989. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais e tem traduções em países como Itália, Espanha, Polónia, Croácia e Egipto.
A sua poesia, contemporânea, versa sobre o dia a dia, o concreto, lugares e geografias, o que é banal, o momento fugaz e irrepetível. Mistura emoções e a racionalidade de quem tem uma formação científica de base.

Escolho dois poemas do seu livro Mediterrâneo de 2016, um dos mais importantes, relevantes e galardoados da sua obra.



Entre etéreo e terreno

                                                                                Deus sive Natura
                                                                                Espinoza
Na
manhã do temporal saímos a medir estragos
(repor pedras nos muros
colher gravetos do chão). A
fúria
da natureza volveu a ordem anterior
como marca de um excesso quando
no dia seguinte olhas melhor e percebes o
equívoco da
noite anterior. Da força da tempestade só sobrou
dor e silêncio (aos pés
de um pinheiro manso céu e terra derrotados:
um rato e um
pardal são a memória visível da cega
devastação) como se
um recomeço apenas fosse possível caso
entre etéreo e terreno ambos
ousassem perder. Um
deus ajusta o equilíbrio destruindo o que criou –
alguém tem que morrer cedo para que
outrem possa sobreviver.

João Luís Barreto Guimarães, in Mediterrâneo



Sicília

Havia oliveiras
e figos. Messina fora tomada por
barcos cartagineses
como o café da manhã toma o
espaço do ar.
Havia damascos e amêndoas. Perto
em Siracusa
(usando o próprio corpo)
Arquimedes demonstrara como a água
é incompressível.
Dávamos as mãos e os pés.
Havia limões e ciprestes.
Não sei se vinhas.

João Luís Barreto Guimarães, in Mediterrâneo










quarta-feira, 23 de novembro de 2022

um poema de... Alberto Caeiro


Sempre admirável, sempre profundo, sempre bucólico e muito mais metafísico do que aparenta e do que paradoxalmente afirma no primeiro verso do poema 5 do Guardador de Rebanhos.
Eis o meu poeta/ heterónimo preferido de Fernando Pessoa: Alberto Caeiro.


XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos







terça-feira, 14 de junho de 2022

um poema de... Álvaro de Campos


Eu que me Aguente Comigo

Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

Álvaro de Campos, in "Poemas"






quarta-feira, 18 de maio de 2022

um poema de... Filipa Leal



NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

Filipa Leal





sexta-feira, 1 de abril de 2022

(a pensar na Ucrânia) um poema de... António Gedeão


Abaixo o mistério da poesia

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA 






segunda-feira, 21 de março de 2022

um poema de... Jorge de Sena (no dia mundial da Poesia)


dedicado ao psicopata Putin 💀


Ode à Mentira

Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos… – como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.

Jorge de Sena




domingo, 20 de março de 2022

um poema de... Guerra Junqueiro (começa a Primavera)



A Primavera

Namorou-se uma princesa
Dum pajem loiro e gentil;
Chamava-se ela – Natureza,
Chama-se o pajem – Abril.

A primavera opulenta,
Rica de cantos e cores,
Palpita, anseia, rebenta
Em cataclismos de flores.

O olhar d’oiro das boninas
Contempla o azul: ao vê-las,
Dir-se-ia que nas campinas
Caíram chuvas d’estrelas.

Entre as sebes orvalhadas
Dos rumorosos caminhos
As madressilvas doiradas
Tapam as bocas dos ninhos.

Tudo ri e brilha e canta
Neste divino esplendor;
O orvalho, o néctar da planta,
O aroma, a língua da flor.

Enroscam-se aos troncos nus
As verdes cobras da hera,
Radiosos vinhos de luz
Cintilam pela atmosfera.

Entre os loureiros das matas,
Que crescem para os heróis,
Dá o luar serenatas
Com bandas de rouxinóis.

É a terra um paraíso,
E o céu profundo lampeja
Com o inefável sorriso
Da noiva ao sair da igreja.

Guerra Junqueiro



sexta-feira, 4 de março de 2022

um poema de... Alberto Caeiro (sobre guerra)



A Guerra que aflige com seus Esquadrões

A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"





quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

um poema de... Manuel António Pina (no dia mundial do Gato)


Escrevo frequentemente o que o gato é tão especial que não só tem um dia mundial que lhe é dedicado como de facto tem dois: o de hoje, 17 de Fevereiro e outro, no dia 8 de Agosto.

Celebremo-los, admiremo-los e cuidemos deles como se fossem um de nós, porque acabam por o ser. 
Mesmo quando parecem que têm um alien a viver dentro deles...


Os gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Manuel António Pina, “Os gatos”, Como se desenha uma casa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.





terça-feira, 30 de novembro de 2021

um poema de... Fernando Pessoa (em 86 anos da sua morte)


Se eu morrer novo

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Fernando Pessoa (07.11.1915)


Incrivelmente, Fernando Pessoa morre sem fazer a mínima ideia saber o que se iria tornar no futuro, a relevância que teria no mundo das letras, a universalidade que atingiu. 
Morre quase anónimo, apenas com um livro publicado em vida - Mensagem