Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Caeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Caeiro. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

um poema de... Alberto Caeiro


Sempre admirável, sempre profundo, sempre bucólico e muito mais metafísico do que aparenta e do que paradoxalmente afirma no primeiro verso do poema 5 do Guardador de Rebanhos.
Eis o meu poeta/ heterónimo preferido de Fernando Pessoa: Alberto Caeiro.


XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos







sexta-feira, 4 de março de 2022

um poema de... Alberto Caeiro (sobre guerra)



A Guerra que aflige com seus Esquadrões

A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"





sexta-feira, 21 de junho de 2019

um poema de... Alberto Caeiro (no solstício de Verão)



No Entardecer dos Dias de Verão


No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

um poema de... Alberto Caeiro




Para Além da Curva da Estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto. 

Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo. 

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles. 

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.


Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos


sexta-feira, 21 de junho de 2013

um poema de... Alberto Ceiro (porque hoje é Verão)





XII

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...


Alberto Caeiro em O Guardador de Rebanhos


quarta-feira, 20 de março de 2013

um poema de... Alberto Caeiro (no dia da Primavera)




Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensa que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro


segunda-feira, 21 de março de 2011

um poema de... Alberto Caeiro (no dia mundial da Poesia)


Quando penso em poesia, o nome de Fernando Pessoa surge de imediato.
Fascina-me a diversidade da sua personalidade que o levou a desdobrar-se em vários poetas. Cada um deles com personalidades, biografias e estilos literários bem diferentes entre si.

Entre os principais heterónimos criados, Alberto Caeiro destacou-se e aproximou-se de mim de uma maneira muito diferente dos restantes.


Atraía-me a simplicidade da sua linguagem, a sua maneira inocente e descomplexada de ver e sentir o mundo. Era o poeta do bucolismo, do paganismo, da natureza, dos sentidos e das sensações. Rejeitava a filosofia, aceitava e encarava a morte como algo natural.
Vivia o dia a dia despreocupadamente, sem pensar o futuro, as causas ou o porquê das coisas.

“pensar é não compreender”

“Eu não tenho filosofia, tenho sentidos…”

De acordo com a biografia Fernando Pessoa lhe atribuiu, Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa a 16 de Abril de 1889 e morreria na mesma cidade em 1915. Morreu jovem, de tuberculose, com 26 anos.
Sem profissão, tinha apenas a instrução primária. Os seus pais morreram cedo e viveu quase toda sua vida no campo com uma tia avó.
Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o próprio Fernando Pessoa assumem-se como seus discípulos.

Hoje, no dia mundial da Poesia, substituo o ortónimo Fernando Pessoa pelo heterónimo Alberto Caeiro e celebro este dia com um dos seus poemas mais bonitos e também um dos que melhor espelham a sua personalidade e (a não) filosofia de vida.


Quando vier a Primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro


texto publicado na revista de artes online Textualino

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

há 120 anos...





Há 120 anos, nascia a 15 de Outubro de 1890 em Tavira, Álvaro de Campos, um dos heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa.
E há 81 anos, Álvaro de Campos escrevia um dos poemas que mais gosto - Aniversário.

Não é o meu heterónimo favorito, esse é Alberto Caeiro (que até foi mestre de Álvaro de Campos), mas perpassa por todo este poema um imenso sentimento de desilusão, melancolia e amargura que me cativa imenso.

Em Aniversário, Campos sente-se abatido e está resignado.
As mortes daqueles que nele depositavam esperança, a perda do passado e da sua infância pesam-lhe na memória.
A percepção de ter ganho consciência dele próprio tardiamente é-lhe particularmente dolorosa e acentua-lhe a sensação de perda.
Sente-se abandonado pelo tempo passado.
Está mergulhado e irremediavelmente perdido numa existência oca até ao final dos seus dias.


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos
15.10.1929