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sábado, 21 de março de 2026

um poema de... William Shakespeare (na chegada da Primavera)




Soneto 98

De ti me separei na primavera:
quando o risonho abril, ao sol voando,
em cor e luz, a plenas mãos, cantando,
nova alegria entorna pela esfera…

No viridente bosque até dissera
o pesado Saturno ver folgando…
Porém nem cor vistosa ou cheiro brando
Lograram incender minha quimera.

A brancura dos lírios, não a vi…
O vermelhão das rosas desmaiava…
Eram fantasmas só… ao pé de ti
– o seu modelo – quanto lhes faltava!

Parecia inverno; e eu, a viva alfombra,
Só pude imaginá-la a tua sombra."

William Shakespeare  









terça-feira, 21 de março de 2023

um poema de... Saúl Dias (no início da Primavera)



Para Todo o Sempre


O Poeta morre,
mas não cessa de escrever.

Enquanto escreve,
vive
ressuscitando fugidias horas
mudadas em auroras…

Uma pequenina flor,
pisada por quem passa,
é agora
um milagre de cor,
uma negaça
de mil desejos…

E os beijos
que nunca foram dados,
tornados tão reais…

Aquela borboleta
arrasta
infindas primaveras
no seu voo fremente…

– Uma palavra mais,
Poeta!
Uma palavra quente!
Uma palavra para todo o sempre!

Saúl Dias






domingo, 20 de março de 2022

um poema de... Guerra Junqueiro (começa a Primavera)



A Primavera

Namorou-se uma princesa
Dum pajem loiro e gentil;
Chamava-se ela – Natureza,
Chama-se o pajem – Abril.

A primavera opulenta,
Rica de cantos e cores,
Palpita, anseia, rebenta
Em cataclismos de flores.

O olhar d’oiro das boninas
Contempla o azul: ao vê-las,
Dir-se-ia que nas campinas
Caíram chuvas d’estrelas.

Entre as sebes orvalhadas
Dos rumorosos caminhos
As madressilvas doiradas
Tapam as bocas dos ninhos.

Tudo ri e brilha e canta
Neste divino esplendor;
O orvalho, o néctar da planta,
O aroma, a língua da flor.

Enroscam-se aos troncos nus
As verdes cobras da hera,
Radiosos vinhos de luz
Cintilam pela atmosfera.

Entre os loureiros das matas,
Que crescem para os heróis,
Dá o luar serenatas
Com bandas de rouxinóis.

É a terra um paraíso,
E o céu profundo lampeja
Com o inefável sorriso
Da noiva ao sair da igreja.

Guerra Junqueiro



domingo, 21 de março de 2021

um poema de... Florbela Espanca no dia mundial da Poesia (e no começo da Primavera)



Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

Florbela Espanca


segunda-feira, 20 de março de 2017

um poema de... Pablo Neruda (no dia da Primavera)






Poema 14

Brincas todos os dias com a luz do Universo.
Subtil visitadora, chegas na flor e na água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mãos todos os dias.

Com ninguém te pareces desde que eu te amo.
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.
Quem escreve o teu nome com letras de fumo
entre as estrelas do sul?
Ah, deixa-me lembrar como eras então,
quando ainda não existias.

Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.
Aqui despe-se a chuva.

Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.
Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.

Tu estás aqui. Ah tu não foges.
Tu responder-me-ás até ao último grito.
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha
pelos teus olhos.

Agora, agora também pequena, trazes-me madressilva,
e tens até os seios perfumados.
Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.

Quanto te haverá doído acostumares-te a mim,
à minha alma selvagem e só, ao meu nome que todos escorraçam.
Vimos arder tantas vezes a estrela d'alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcem-se os crepúsculos
em leques rodopiantes.

As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.
Creio-te mesmo dona do Universo.
Vou trazer-te das montanhas flores alegres, "copihues",
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.

Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.


Pablo Neruda


domingo, 20 de março de 2016

sexta-feira, 20 de março de 2015

eclipsa-te Privamera


Não consigo deixar de pensar nisto. A Primavera começa hoje com um eclipse solar, que em Portugal, pode atingir os 70%.
Que melhora maneira há de celebrar a Primavera, uma antecâmara do verão, quase sem sol??
Só um eclipse solar a 100%.

O que é um eclipse solar?
É quando os diâmetros aparentes do Sol e da Lua coincidem através da distância do Sol relativamente à Lua e a distância desta relativamente à Terra.
Um eclipse solar total é a sombra projectada da lua na Terra quando iluminada pelo sol, nas condições do parágrafo anterior.
Uma vingança da minúscula Lua sobre um poderoso Sol que ocorre sensivelmente de dez em dez anos.

Ele vai ser visível em Portugal entre as 08.00h e 10.00h devendo atingir o máximo de obscuridade volta das 09.00h.

Atenção! Nunca olhar directamente para o Sol com os olhos descobertos ou até mesmo com óculos de sol. As lesões nos olhos podem ser graves e irreversíveis.




quarta-feira, 20 de março de 2013

um poema de... Alberto Caeiro (no dia da Primavera)




Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensa que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro