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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

abraço-te Outono com um abraço só teu



Outono

Outono vem em fulvas claridades...
Vamos os dois esp’rá-lo de mãos dadas:
Tu, desfolhando as rosas das estradas,
E eu, escutando o choro das saudades...

Outono vem em doces suavidades...
E a acender fogueiras apagadas
Andam almas no céu, ajoelhadas...
E a terra reza a prece das Trindades.

Choram no bosque os musgos e os fetos.
Vogam nos lagos pálidos e quietos,
Como gôndolas d’oiro, as borboletas.

Meu Amor! Meu Amor! Outono vem...
Beija os meus-olhos roxos, beija-os bem!
Desfolha essas primeiras violetas!...

Florbela Espanca








sábado, 5 de junho de 2021

um poema de.... Florbela Espanca (em dia de 21)


Teus Olhos

Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas..
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...

Berço vinde do céu à minha porta...
Ó meu leite de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...

Florbela Espanca, Charneca em flor


domingo, 21 de março de 2021

um poema de... Florbela Espanca no dia mundial da Poesia (e no começo da Primavera)



Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

Florbela Espanca


quarta-feira, 5 de junho de 2019

19


Saudades

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

um poema de... Florbela Espanca



Escreve-me!


Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já,e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!"Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...


Florbela Espanca


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

um poema de... Florbela Espanca (nos 85 anos da sua morte)


A seguir a Fernando Pessoa, é a poesia de Florbela Espanca que mais admiro.
É violenta, é rasgada. Desesperada e virulenta. Tal como Pessoa, a sua poesia é profundamente sentida. Mas enquanto a de Pessoa vem da sua mente e precisa de ser pensada e interpretada.

A de Espanca vem do seu coração, directo até nós. É simples, é linear. Muito impactante.
Vem de um peito em chamas, da sua alma magoada, de uma personalidade perturbada e vida conturbada.

Florbela Espanca suicidou-se no mesmo dia que nasceu - 8 de Dezembro.
Nasceu em 1894 e morreu em 1930.
Não o fez por acaso. Vida e morte no mesmo dia, faz sentido com a sua poesia dilacerada.

Florbela Espanca já passou diversas vezes e por diversos motivos pela Esteira: aqui, aqui, aqui e aqui.
Faz hoje 85 anos que encontrou o descanso que procurava e merecia.



Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!


Florbela Espanca  
(Livro de Mágoas)


terça-feira, 29 de julho de 2014

um poema de... Florbela Espanca





Desalento

Às vezes oiço rir, é ’ma agonia
Queima-me a alma como estranha brasa
Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia
Que me põe n’alma o fogo que m’abrasa!

Tenho sede d’amar a humanidade…
Eu ando embriagada… entontecida…
O roxo de maus lábios é saudade
Duns beijos que me deram n’outra vida!

Ei não gosto do Sol, eu tenho medo
Que me vejam nos olhos o segredo
Que só saber chorar, de ser assim…

Gosto da noite, imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!

Florbela Espanca


quinta-feira, 21 de junho de 2012

um poema de... Florbela Espanca (em dia de uma estação que não gosto)




A única coisa que me agrada no verão é pensar que só faltam três meses para o Outono :)


Panteísmo

Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso o horizonte...
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
De um verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo,
Nos meus sentidos postos, absortos.

Nas coisas luminosas deste mundo,
minha alma é o túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo os deuses mortos!


Florbela Espanca

quarta-feira, 21 de março de 2012

um poema de... Florbela Espanca (no dia mundial da Poesia)


Há poucos anos atrás, dizia em tom de brincadeira, mas a sério, que o maior dos poetas nacionais é Fernando Pessoa, a seguir há um extenso deserto e que depois dele surge Florbela Espanca.

Agora sem ser em tom de brincadeira continuo a afirmar que Pessoa é o maior entre os maiores e que Florbela Espanca surge depois, mas que o extenso deserto foi substituído por uma pequena orla de areia.
Quase como se ela se pudesse esticar toda e tocar ao de leve na mão de Pessoa.

São dois poetas diferentes, mas também muito iguais.
Em ambos se sente o peso e a força do destino, em ambos existe uma mente torturada e almas rasgadas, em ambos há uma consciência dolorosa da existência e em ambos existe algo que buscam e que não encontram.

Quem lê e gosta de Pessoa fica com a sensação que ele escreveu para cada um de nós, que há uma generalizada identificação muito pessoal com a sua poesia.
A poesia de Pessoa é tortuosa, complexa, esquizofrénica nos heterónimos, por vezes contraditória.

Mas Florbela Espanca já não. Ela escreveu para que nós percebêssemos o que sentia, mas não conseguimos perceber como se sentia.
Não escreveu para nós, mas sim acima de tudo para ela própria. Numa tentativa aliviar, talvez esconjurar o peso da sua existência, da fatalidade, do destino e da inevitabilidade do fim.
A sua poesia é inquieta, sombria e até violenta. Gosto de a descrever como visceral.

Se Fernando Pessoa se auto-desconstruiu em heterónimos para "escapar" à queda no abismo interior ou pelo menos para tornar o seu caminho mais longo, Florbela Espanca caminhou directo para lá.
Fumadora compulsiva, com três casamentos, dois divórcios e vários amantes, sofrendo de uma neurose e depressão crónica, nunca recuperando da morte do seu irmão Apeles Espanca, Florbela Espanca era uma mulher de versos tristes e melancólicos.
Os seus poemas são anúncios e prenúncios do que estaria para vir, o desenlace final, a acalmia e consolo que ela procurou, encontrou e concretizou à terceira tentativa, o seu suicídio.

Florbela Espanca morre, a última e derradeira oferta para si própria, no dia em que nasceu, 36 anos depois, a 8 de Dezembro de 1930.


Deixai entrar a Morte

Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem para mim, pra me levar.
Abri todas as portar par em par
Com as asas a bater em revoada.

Quem sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las, não encontrou nada!

Ó Mãe, Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti?...Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...

Florbela Espanca



Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida, 
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca



Mais poemas aqui e aqui.


quinta-feira, 8 de março de 2012

um poema de... Florbela Espanca (no dia mundial da Mulher)




Uma vez disseram-me que como eu não era mulher não sabia valorizar o Dia Internacional da Mulher, talvez.
Na verdade tal como eu, muitas mulheres pensam que este dia as secundariza em vez de lhes dar a força que merecem e que por vezes necessitam.
Do meu ponto de vista, é uma espécie de rebuçado que se lhes dá, quase uma esmola, pela subvalorização, falta de igualdade, de oportunidades e reconhecimento do seu papel na sociedade.

O verdadeiro dia da mulher é todo aquele em que esta se impõe pela força da inteligência, do saber fazer, pela competência, pela subtileza, por trazer a delicadeza e força que ser mulher e ser mãe pode trazer ao mundo que a rodeia.
Que o equilibro atinge-se quando a força da testosterona é moderada pela suavidade do estrogénio.
E aos poucos e poucos isto está acontecer. O que se está a passar nas faculdades é sintomático disso, a presença feminina é dominante.

Mas para as mais desconhecedoras, fiquem a saber que também existe o Dia Internacional do Homem - comemora-se a 19 de Novembro - que inteligentemente ninguém fala, mas que penso exactamente o mesmo que o seu congénere feminino. Não faz sentido existir.

De qualquer maneira e ainda pensando neste dia em particular, existe uma mulher que admiro muito, pela sua obra e naturalmente pela sua vida.
E através dela e da sua poesia homenageio a Mulher.
Curiosamente estreia hoje, o filme Florbela, um filme que nos mostra e revela a vida torturada dessa mulher que deu origem a uma das poesias mais viscerais, sofridas e violentas - na forma como revela os seus sentimentos e particularmente como vivia o amor - mas também uma das mais belas e delicadas que a poesia nacional tem para oferecer. Falo, claro, de Florbela Espanca.

Um dos meus poemas preferidos dela é este, mas no Dia Internacional da Mulher escolho outro poema dela.
Ele está pleno daquela visceralidade, revolta e violência emocional que lhe rasga o peito e a alma, que vem de dentro das suas profundezas e que tanto aprecio na poesia de Florbela Espanca.


A Mulher

I

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimento cheio, eis a mulher
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta: sê em Vénus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então vis:"Olhem, vejam
é aquela a infame!" e apedrejam
a pobrezita, a triste, a desgraçada!

II 

Ó mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e de sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Florbela Espanca


sexta-feira, 16 de julho de 2010

dói muito ;(


Quando a dor seca a alma e o vazio a inunda.


Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido e, toruradas,
As árvore sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água.


Florbela Espanca
(08.12.1894 - 08.12.1930)