sábado, 2 de abril de 2022

dia mundial (para a consciência do espectro) do Autismo


Podia ser o meu dia. Talvez seja. Não sei.
Sei que este mundo é agressivo, demasiado rápido, demasiado normalizado, intenso. Demasiado tudo. Sei que não me encaixo completamente nele ou, talvez o mundo não se encaixe em mim. Sei que o percepciono e sinto-o de uma forma diferente da generalidade.

Dois vídeos em que o espectro do autismo é abordado.
A ver com atenção. Os cérebros neurodivergentes (diferentes do que é considerado padrão) do espectro do autismo funcionam de formas distintas e que isso não deve, não pode, ser motivo de incompreensão, discriminação e preconceito. Pelo contrário a diferença deve ser aceite, bem recebida, apoiada. Inclusiva e integrada. Uma mais valia.

Em ambos os vídeos podem ser activadas legendas em português.














uma música para o fim de semana - Breathe (Trygve Seim)


Different Rivers do saxofonista norueguês Trygve Siem, será provavelmente um dos álbuns mais etéreos que possuo. Talvez seja difícil reconhecer este trabalho como jazz, mas sinceramente, a categorização, a classificação da sua música é irrelevante. 

Tive a sorte de me cruzar com ele, este ano, quase vinte e três anos depois de ter sido lançado pela etiqueta alemã ECM, perdido numa prateleira da Fnac. Foi o álbum de estreia de Trygve Seim nesta etiqueta como líder, tendo sido reeditado por altura da celebração dos 50 anos de existência da mesma. E em boa hora.

Profundamente contemplativo, fluido e atmosférico, ele arrasta-nos e atrai-nos para uma luz espectral que nos encanta e hipnotiza.
Aquele tipo de música que faz bem à alma, que afasta os dias longos e ásperos, nos relaxa, nos absorve e delicia.
É uma viagem a lugares misteriosos, culturas ancestrais e antigas. Aos celtas, às runas, ao misticismo.
Tive uma grande dificuldade em escolher uma música que ilustrasse este notável álbum.
Tenho três faixas que e atraem particularmente: Sorrows (abre o álbum), Search Silence e Breathe.
Qualquer um destes três temas podem resumir o álbum muito bem. Mas talvez seja Breathe que melhor o faz.

Breathe ilustra musicalmente o poema de Annabel Laity com o mesmo título, recitado pela cantora, também norueguesa, Sidsel Endressen. A sua voz é encantatória. Lenta, pausada, com o poema bem articulado tendo por detrás de si uma diáfana cortina de sopros e um violoncelo que tange beleza.
São nove minutos em que Breathe nos agarra pela mão e voamos acima das nuvens, acima das mágoas, das agruras e acima do tempo.
Assim é Different Rivers.

Podem encontrar as três faixas que mencionei aqui.


Bom fim de semana 😉





Breathe and you know 
… that you are alive 
… that all is helping you 
… that you are the world 
… that the flower is breathing too 

Breathe for yourself and you breathe for the world 
Breathe in compassion and breathe out joy. 
Breathe and be one 
… with the air that you breathe 
… with the river that flows 
… with the earth that you tread 
… with the fire that glows 

Breathe and you break the thought of birth and death 
Breathe and you see impermanence is life. 
Breathe 

… for your joy to be steady and calm 
… for your sorrow to flow away 
… to renew every cell in your blood 
… to renew the depth of consciousness 
… and you dwell in the here and now 
… and all you touch is new and real






sexta-feira, 1 de abril de 2022

(a pensar na Ucrânia) um poema de... António Gedeão


Abaixo o mistério da poesia

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA 






terça-feira, 29 de março de 2022

dia mundial do piano - Erik Satie


Se o polaco Frederic Chopin foi sublime na forma como lidou com o piano, o bem humorado, enigmático e excêntrico francês Erik Satie, não ficou muito atrás.
Erik Satie, o k não fazia parte do nome dele, foi um acrescento da sua autoria, era de facto bem conhecido pela sua excentricidade. Só comia comer que fosse da cor branca, colecionava chapéus de chuva que não usava e que quando chovia guardava debaixo do seu sobretudo de veludo para não o molhar, era conhecido por usar sempre fatos de veludo cinzento que eram usados até à exaustão antes de o substituir por outro igual, por isso chamavam-lhe "velvet man" e carregava sempre consigo um martelo que dizia que era para sua protecção.

Se quando penso em Chopin a associação aos nocturnos é imediata, para mim Satie é sinónimo de gymnopédies (compôs três) e de gnossiennes (são seis).
A origem do termo gymnopedie não é consensual. Pensa-se que Satie o foi buscar a uma palavra grega dado a um festival religioso anual que ocorria em Esparta, onde os jovens dançavam, cantavam e declamavam poesia praticamente nus.
Por sua vez gnossiennes, um termo cunhado pelo compositor francês, que terá vindo da palavra gnose e dos movimentos gnósticos - que acredita que em cada homem existe uma essência imortal, portanto transcendente ao próprio homem mas que pode ser compreendida através do conhecimento - cuja filosofia Satie partilhava.

Quer as gymnopedies e as gnossiennes caracterizam-se por um corte ao romantismo tradicional ao qual Chopin (e Tchaikovsky) era um nome maior. Elas são austeras, repetitivas (os primeiros passos dados em direcção ao minimalismo), de notas pausadas e económicas. Quase que se ouve o silêncio por entre o lento desfilar das notas.
Em todas estas nove peças há uma melancolia, doçura e simplicidade que me cativam imenso. A minha favorita das primeiras é a nº 1 e das segundas é a nº 4. A nº 1 é conhecidíssima mas poucos sabem de quem é, a 4 não é tão conhecida e portanto ainda menos pessoas conhecem o seu autor como sendo Erik Satie.

Por vezes conhecermos o autor de algo que gostamos e conhecemos é mais de meio passo andado para despertar a curiosidade para o resto da obra, por isso a segunda peça (e compositor) que escolho para piano no dia mundial deste instrumento é a Gymnopedie nº1.
Para fãs do pianista norte-americano jazz Bill Evans, talvez reconheçam a forte influência desta gymnopedie de Erik Satie na sua fabulosa peça Peace Pice, a faixa número 7 do álbum Everybody Digs Bill Evans.

A pera que surge na imagem deste post refere-se a uma outra composição também muito conhecida chamada Três Peças em Forma de Pera.
A pianista é a lindíssima georgiana Khatia Buniatishvili.













dia mundial do Piano - Chopin


Hoje celebra-se o dia mundial do piano. Talvez um dos instrumentos - e isto vai soar como uma blasfémia relativamente a outros instrumentos - a par com o violoncelo, mais expressivos que conheço.Se houve pessoas que acarinharam e trataram magistralmente bem o piano, o pianista e compositor polaco Frederic Chopin foi definitivamente um deles.

As peças para piano são inúmeras e quase todas elas de uma beleza inexcedível. Estudos, prelúdios, nocturnos, baladas, polonaises, mazurkas, etc..., etc..., são às largas dezenas.
Pessoalmente quando penso em Chopin vem de imediato à cabeça os nocturnos. Mas para este dia mundial do piano, escolho de Chopin uma peça que ouvi na Stare Miasto (Cidade Velha) de Varsóvia: a Valsa Minuto.
Ao contrário do que possa pensar, e que o nome de facto induz a isso, não é para ser tocada num minuto ou que dura um minuto, na verdade dura o dobro.
O objectivo é que dedicássemos um minuto da nossa atenção aos detalhes desta valsa. E se de facto concedermos essa atenção veremos como ela é intricada, delicada e subtilmente variada.
Outra curiosidade nesta valsa é que também é conhecida por a Valsa do Cachorro. Um amigo do compositor comparou-a com os movimentos que um cachorro faz quando persegue a sua própria cauda.

A própria morte, em 1849, de Chopin está envolta num facto bizarro. A pedido do próprio compositor, corpo e coração estão separados. O corpo está no cemitério Pere Lachaise mas o coração, que teve várias peripécias durante a Segunda Guerra Mundial, encontra-se actualmente na Igreja da Santa Cruz, em Varsóvia.

O pianista que toca esta valsa é o chinês Lang Lang. Vê-lo a tocar é incrível: todo ele é piano, todo ele é comunicação com com o instrumento e com a peça. Os três tornam-se um só.
De notar que Lang Lang tocou a Valsa Minuto entre ensaios com a sinfónica de Boston para se divertir um pouco. Mesmo assim a sua execução é brilhante.