Mostrar mensagens com a etiqueta dia mundial da poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta dia mundial da poesia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 21 de março de 2024

um poema de... Ruy Belo (no dia mundial da Poesia)




«Cinco Palavras Cinco Pedras

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas

“Todos os poemas”, de Ruy Belo





terça-feira, 21 de março de 2023

um poema de... Saúl Dias (no início da Primavera)



Para Todo o Sempre


O Poeta morre,
mas não cessa de escrever.

Enquanto escreve,
vive
ressuscitando fugidias horas
mudadas em auroras…

Uma pequenina flor,
pisada por quem passa,
é agora
um milagre de cor,
uma negaça
de mil desejos…

E os beijos
que nunca foram dados,
tornados tão reais…

Aquela borboleta
arrasta
infindas primaveras
no seu voo fremente…

– Uma palavra mais,
Poeta!
Uma palavra quente!
Uma palavra para todo o sempre!

Saúl Dias






segunda-feira, 21 de março de 2022

um poema de... Jorge de Sena (no dia mundial da Poesia)


dedicado ao psicopata Putin 💀


Ode à Mentira

Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos… – como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.

Jorge de Sena




domingo, 21 de março de 2021

um poema de... Florbela Espanca no dia mundial da Poesia (e no começo da Primavera)



Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

Florbela Espanca


sábado, 21 de março de 2020

um poema de... Jorge de Sena (no dia mundial da Poesia)

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena



quinta-feira, 21 de março de 2019

um poema de... Fernando Pessoa (no dia mundial da Poesia)




Labiríntico, certamente tortuoso, obscuro sem dúvida nenhuma e tão, tão fascinante!
Albergava uma multidão de personagens, de poetas. Um universo de universos. Universal, portanto.
Era um plural. Sobre isso afirmou:

"Sê plural como o Universo"

O tal poeta que escrevia a pensar em mim, em todos nós. Que nos compreendia, sem que nós o soubéssemos.
No dia mundial da Poesia que poeta torna a palavra mundial tão pequena, tão mensurável, tão vocabular??
Fernando Pessoa, claro.



Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, 24-8-1930



quarta-feira, 21 de março de 2018

um poema de... Fernando Pessoa (no dia mundial da Poesia)


No dia mundial da Poesia, haverá algo mais mundial que Fernando Pessoa??
E dentro do mundo que Fernando Pessoa era, haverá alguém que melhor que Álvaro de Campos, o engenheiro mecânico e depois naval, conhecedor de latim e humilde discípulo do mestre Alberto Caeiro, que o represente??
Não.


Magnificat

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!


Álvaro de Campos


terça-feira, 21 de março de 2017

um poema de... Ricardo Reis (no Dia Mundial da Poesia)


Fernando Pessoa é o meu mais que tudo na poesia,
No dia mundial da Poesia, que hoje se comemora é quase impossível não recorrer a ele, ou a um dos seus heterónimos.

Mais concretamente o epicurista sereno e pagão Ricardo Reis, discípulo maior do grande mestre Alberto Caeiro.


Segue o Teu Destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


Ricardo Reis, Odes



sábado, 21 de março de 2015

dia mundial da Poesia - Inkheart





Numa recente entrevista dada ao jornal de literatura Porque Escreves?, Inkheart, diz que não nasceu, não tem nome. Tem uma alcunha.
Admitiu que é fascinado, pelo mundo das sombras, pela ausência de cor, pelos caminhos tortuosos e pela raiva. É atraído pelo vazio, porque é o vazio que o preenche.

A morte é algo que lhe atrai porque não consegue compreende-la. Vê-a com uma libertação. O fundo suave e almofadado de um poço negro.
Em tempos já a testou, já a procurou vária vezes, apesar de não ter sido aceite por ela. Agora não.
- "Um dia Ela há-de me encontrar e explicar-me o vazio de que sou feito."

Gosta de poesia, gosta de pequenos contos. Tal como as curtas metragens, afirma que é uma arte difícil de dominar, de ser concebida.
Num curto espaço de tempo, num curto espaço de palavras, tem que se desenvolver uma narrativa, eventualmente até uma personagem, Tem que ter um fim, Mesmo que seja fins abertos. Fins que não são fins.

Nessa mesma entrevista, afirmou-se como um poço de contradições, mas pouco interessado em explicá-las ou até desfaze-las.
Não acredita em explicações porque elas atropelam-se a si próprias. São confusas e pouco interessantes. Além que quem as pede, não as percebe, porque não são as querem ouvir.
Porque quem as faz, cede à tentação de o conduzir por caminhos que não são os seus, do que deixar ser o que é.
- "Não gosto de responder a perguntas pessoais porque sistematicamente elas são intrusivas."
Inkheart acrescenta:
"A eloquência do silêncio, o seu grito, o olhar, as expressões, são mais esclarecedoras que longas frases. Porque elas vêm do intimo, do âmago. São intrínsecas. Mas essas subtilezas não são entendidas por quem pede explicações. Quem precisa de explicações sobre o que somos, precisa da superficialidade. Não usa os olhos da alma. Prefere usar os olhos dos ouvidos."

Lombadas de Folhas, o jornalista, pergunta-lhe como Inkheart se define, como se vê ele próprio, nas suas próprias palavras.
- "Defino-me como um borrão de tinta da china caído sobre uma folha de papel"
Uma caneta preta de tinta preta, não para de rodar por entre os seus dedos.
- "É das suas ramificações espalhadas que nascem as letras com que escrevo. Por isso escrevo linearmente, despreocupadamente, frequentemente sem preocupações estéticas ou formais.
Gosto do ritmo e do colorido das rimas, de andar ao sabor delas como um vagabundo que salta de rua em rua, à procura de nada."

Lombadas faz uma última pergunta.
- Quais os poetas que gosta mais?
- Fernando Pessoa, Florbela Espanca e António Aleixo
O jornalista abanou a cabeça para cima e para baixo porque tinha compreendido o alcance e a abrangência daquela resposta, assim como a diversidade que ela implicava.
- Sente que é influenciado por estes três poetas?
- Não. Se fosse, nem sequer saberia o que com fazer elas. - Acabámos?

O jornalista disse que sim e reparou pela primeira vez que escorria tinta negra pelas pernas da cadeira, como se elas sangrassem. Também reparou que a tinta não manchava a madeira, nem o chão de negro apesar da sua abundância.


Indistinto

o segredo
com medo
apontou o dedo
ao arvoredo

mas ele caiu,
até sei que admitiu,
que fingiu que riu,
 e que nada sentiu


mas o espanto,
daquele pequeno recanto,
 é de procurar tanto,
o seu grande encanto

o que não é meu
de todo serei eu
o muito que tremeu
por nada se pareceu

não queriam que fosse o que sou
 o ramo onde o pássaro não poisou
o chão que ninguém pisou
e a tinta do parque que não secou


Inkheart


sexta-feira, 21 de março de 2014

Trilogia da Dor III - desespero (dia mundial da Poesia)





desespero

Vozes iradas sussurram em mim sonhos que me cegam e torturam,
vejo fontes secas sedentas de água que me pedem beber,
lágrimas abafadas em dor, sangrando por esperanças vãs que tardam em chegar,
hediondos espectros, retorcidos, trocistas, mostram o que não pode acontecer,
com os meus olhos surdos ao desejo que rompe de imagens impossíveis geradas pela razão.


Fujo, cego por caminhos de desespero,ciclicamente percorridos, vezes sem conta,
uma espiral, um vórtice, indefinido, atroz, atrai-me, puxa-me, convida-me,
uma porta que não tem entrada, uma saída sem saída, um beco morto de sentidos estendidos,
no chão indiferentes, à minha sombra, às minhas perguntas, à minha ausência,
ao que não sou, ao que sou mas que não sei, errante vagabundo com destino mal traçado.


Sem me movimentar paro enfim, por desta vez, aberto à realidade criada pela necessidade,
sinto a esperança que não oiço, que desconheço, mas que me chama.
Um toque gentil na minha pele gretada pelo desespero continuado, 
desperta a minha mente embotada pelo torpor do nada.
Um tremor, um movimento enfunado por uma cor que não existia antes, alivia a negridão que me veste.
Talvez exista o que procuro, aquele calor impossível, aquele toque de seda por criar,
a realidade suavizada.


Inkheart


quinta-feira, 21 de março de 2013

um poema de... Alexandre O'Neill (no dia mundial da Poesia


O apelido O'Neill dá, talvez insuspeita, uma pista sobre a sua ascendência. Irlandesa.
Mas é em Lisboa a 19 de Dezembro de 1924 que Alexandre O'Neill nasce.

Em 1947 deixa-se fascinar pelo movimento surrealista de André Breton e Maurice Nadeau. Influenciado pelos seus manifestos funda o Movimento Surrealista de Lisboa.
Desse movimento além de O'Neill e convidados por ele, fariam parte António Pedro, Mário Cesariny, Mário Henrique Leiria, Vespeira e José Augusto-França.

Publica em 1958 um dos seus livros mais famosos de poesia, No Reino da Dinamarca. É neste livro que o consagra como poeta e é onde se encontra o poema Um adeus português.
Conta a história do seu encontro e amor em 1949 com Nora Mitrani, uma surrealista francesa que vem a Lisboa a uma conferência sobre esse tema. 
Alexandre O'Neill e ela apaixonam-se e já em França Nora convida-o a ir ter com ela. Ele pede o passaporte ao governo civil de Lisboa e um elemento da sua própria família denuncia-o. O pedido é-lhe negado e o encontro nunca se concretizou, restando um amor frustrado.
O poeta nunca mais veria Nora e esta em 1961 cometeria suicídio. Em sua honra escreveria Requiem para Nora Mitrani.

Em 1959 estreia-se no mundo da publicidade criando vários slogans. Alguns nunca veriam a luz do dia pela irreverência do seu conteúdo e outros perdurariam até hoje. Um deles é o famoso - Há mar e mar, há ir e voltar.

Morre a 21 de Agosto de 1986 vítima de uma vida desregrada e de excessos. Uma série de acidentes vasculares cerebrais e ataques cardíacos prenunciariam a causa final da sua morte, ataque cardíaco. 

Ilustro o dia mundial da poesia com o poema onde o poeta descarrega a frustração do tal encontro com Nora Mitrani em Paris que nunca chegou a acontecer.


Um adeus português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já petrificada.

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor.

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver.

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da pressa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual.

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal.

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser.

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não da asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal.

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill


quarta-feira, 21 de março de 2012

um poema de... Florbela Espanca (no dia mundial da Poesia)


Há poucos anos atrás, dizia em tom de brincadeira, mas a sério, que o maior dos poetas nacionais é Fernando Pessoa, a seguir há um extenso deserto e que depois dele surge Florbela Espanca.

Agora sem ser em tom de brincadeira continuo a afirmar que Pessoa é o maior entre os maiores e que Florbela Espanca surge depois, mas que o extenso deserto foi substituído por uma pequena orla de areia.
Quase como se ela se pudesse esticar toda e tocar ao de leve na mão de Pessoa.

São dois poetas diferentes, mas também muito iguais.
Em ambos se sente o peso e a força do destino, em ambos existe uma mente torturada e almas rasgadas, em ambos há uma consciência dolorosa da existência e em ambos existe algo que buscam e que não encontram.

Quem lê e gosta de Pessoa fica com a sensação que ele escreveu para cada um de nós, que há uma generalizada identificação muito pessoal com a sua poesia.
A poesia de Pessoa é tortuosa, complexa, esquizofrénica nos heterónimos, por vezes contraditória.

Mas Florbela Espanca já não. Ela escreveu para que nós percebêssemos o que sentia, mas não conseguimos perceber como se sentia.
Não escreveu para nós, mas sim acima de tudo para ela própria. Numa tentativa aliviar, talvez esconjurar o peso da sua existência, da fatalidade, do destino e da inevitabilidade do fim.
A sua poesia é inquieta, sombria e até violenta. Gosto de a descrever como visceral.

Se Fernando Pessoa se auto-desconstruiu em heterónimos para "escapar" à queda no abismo interior ou pelo menos para tornar o seu caminho mais longo, Florbela Espanca caminhou directo para lá.
Fumadora compulsiva, com três casamentos, dois divórcios e vários amantes, sofrendo de uma neurose e depressão crónica, nunca recuperando da morte do seu irmão Apeles Espanca, Florbela Espanca era uma mulher de versos tristes e melancólicos.
Os seus poemas são anúncios e prenúncios do que estaria para vir, o desenlace final, a acalmia e consolo que ela procurou, encontrou e concretizou à terceira tentativa, o seu suicídio.

Florbela Espanca morre, a última e derradeira oferta para si própria, no dia em que nasceu, 36 anos depois, a 8 de Dezembro de 1930.


Deixai entrar a Morte

Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem para mim, pra me levar.
Abri todas as portar par em par
Com as asas a bater em revoada.

Quem sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las, não encontrou nada!

Ó Mãe, Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti?...Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...

Florbela Espanca



Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida, 
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca



Mais poemas aqui e aqui.


segunda-feira, 21 de março de 2011

um poema de... Alberto Caeiro (no dia mundial da Poesia)


Quando penso em poesia, o nome de Fernando Pessoa surge de imediato.
Fascina-me a diversidade da sua personalidade que o levou a desdobrar-se em vários poetas. Cada um deles com personalidades, biografias e estilos literários bem diferentes entre si.

Entre os principais heterónimos criados, Alberto Caeiro destacou-se e aproximou-se de mim de uma maneira muito diferente dos restantes.


Atraía-me a simplicidade da sua linguagem, a sua maneira inocente e descomplexada de ver e sentir o mundo. Era o poeta do bucolismo, do paganismo, da natureza, dos sentidos e das sensações. Rejeitava a filosofia, aceitava e encarava a morte como algo natural.
Vivia o dia a dia despreocupadamente, sem pensar o futuro, as causas ou o porquê das coisas.

“pensar é não compreender”

“Eu não tenho filosofia, tenho sentidos…”

De acordo com a biografia Fernando Pessoa lhe atribuiu, Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa a 16 de Abril de 1889 e morreria na mesma cidade em 1915. Morreu jovem, de tuberculose, com 26 anos.
Sem profissão, tinha apenas a instrução primária. Os seus pais morreram cedo e viveu quase toda sua vida no campo com uma tia avó.
Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o próprio Fernando Pessoa assumem-se como seus discípulos.

Hoje, no dia mundial da Poesia, substituo o ortónimo Fernando Pessoa pelo heterónimo Alberto Caeiro e celebro este dia com um dos seus poemas mais bonitos e também um dos que melhor espelham a sua personalidade e (a não) filosofia de vida.


Quando vier a Primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro


texto publicado na revista de artes online Textualino

domingo, 21 de março de 2010

um poema de... Fernando Pessoa (no dia mundial da Poesia)

Não poderia deixar passar o dia de hoje, em que se celebra o dia mundial da poesia, sem colocar um dos poemas mais bonitos de Fernando Pessoa. De longe o meu poeta preferido.

Às vezes, em sonho triste
Nos meu desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.

Fernando Pessoa
21.11.1909


É responsável por um dos maiores legados escritos ao mundo em língua portuguesa.
De personalidade labiríntica e fraccionada, Fernando Pessoa escreve com vários "eus". Cria vários heterónimos com personalidades, profissões e percurso de vida distintos. Destes heterónimos destacam-se, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.

"Guardador de rebanhos", "O livro do desassossego" e "Mensagem" são 3 criações maiores numa obra ímpar. Os primeiros dois títulos são escritos respectivamente por dois dos seus heterónimos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares e o terceiro título escrito pelo ortónimo Fernando Pessoa.

Como "Deus leva os que mais ama", o Poeta morre cedo.
Fernando Pessoa nasce em Lisboa a 13 de Junho de 1888 e morre a 30 de Novembro de 1935 com 47 anos.