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sábado, 25 de fevereiro de 2017

uma música para o fim de semana - Mão Morta


No Natal de 1972,  Zeca Afonso lançava um álbum de originais chamado Vou ser como uma Toupeira.
Desse álbum estão duas canções emblemáticas do cantautor aveirense: A Morte saiu à Rua e o Avô Cavernoso.
Em 1994, após sete anos terem passado sobre a sua morte, surge um tributo a Zeca Afonso pelas mãos de João Gil e Manuel Faria, dois ex-trovante e Tim, vocalista dos Xutos & Pontapés, que conseguiram reunir vinte bandas, oriundas de vários géneros musicais. Esse projecto chamar-se-ia Filhos da Madrugada.
Eles revisitaram várias canções de Zeca Afonso, onde constavam, A Morte saiu à Rua e o Avô Cavernoso. A primeira foi dos UHF e a segunda foi pelos Mão Morta. E é esta que me interessa para este fim de semana.

As duas interpretações, Mão Morta e Zeca Afonso, não podiam ser mais diferentes. Pessoalmente, esta é uma das situações em que o cover é superior ao original. Zeca empresta-lhe uma certeza delicadeza, suavidade.
A voz de Adolfo Luxúria Canibal (nome artístico de Adolfo Augusto Martins da Cruz Morais de Macedo) carimba a canção de uma forma oposta. Torna-a verdadeiramente cavernosa. É pesada, rouca, arrastada, reverberante, aquele tipo de voz que pertence a alguém que não queremos encontrar no escuro. Por trás da sua voz está um tique taque nervoso, tenso. Este cenário vai até aos 2.37min, altura em que a bateria explode e nos lança de rompante para a segunda metade da canção, mais acelerada, mais... cavernosa.

A letra de Zeca Afonso, presta-se para esta prestação. Ela é uma dentada certeira em Oliveira Salazar uma espécie de rei Midas invertido, onde em vez de transformar tudo em ouro, um castigo pela sua ganância, onde tocasse, o toque de Salazar, pelo ditador que era, enegrecia, fazia murchar a vida, retirava a esperança.
Sendo, também, um cantor de intervenção, esta letra é um toque de génio  criatividade pelo qual Zeca Afonso era conhecido e reconhecido.
Os Mão Morta, através do seu líder, fazem inteira justiça. Mais, tornam melhor aquilo


Zeca Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1897. Na passada quinta-feira, fez exactamente trinta anos que morreu.


Bom fim de semana ☺




O avô cavernoso
Instituiu a chuva
Ratificou a demora
Persignou-se
Ninguém o chora agora
Perfumou-se
Vinte mil léguas de virgens vieram
Inúteis e despidas
Flores de malva
E a boina bem segura
Sobre a calva

Ao avô cavernoso quem viu a tonsura?
E a tenda dos milagres e a privada?
Na tenda que foi nítida conjura
As flores de malva murcham devagar
Devagar
Até que se ouvem gritos, matinadas


sábado, 3 de janeiro de 2015

uma música para o fim de semana - Zeca Afonso


"Vamos cantar as janeiras, vamos cantar as janeiras" - Assim começa o Natal dos Simples de Zeca Afonso.

As janeiras já existem há bastante tempo, mas foi com esta canção que muitas pessoas as começaram a conhece-las. Eu fui uma dessas.

Seria mais tarde que perceberia que este tema não são as janeiras em si, mas sobre as próprias janeiras. Mas ainda hoje é difícil ignorar esta associação.

As Janeiras são musicas populares cantadas por grupos de pessoas ao longo das ruas, cantando de porta em porta.
A recompensa pelas suas canções são as Janeiras, sobras das refeições natalícias.
As pessoas oferecem aos janeireiros o que há em casa. Pão, broa, bolo rei, chocolate, castanhas ou nozes.
No fim, os grupos juntam todas as janeiras conseguidas e comem-nas todos juntos.

As Janeiras tradicionalmente são cantadas no norte de Portugal e nas Beiras. Iniciam-se no dia de Ano Novo e terminam no dia de Reis, a seis de Janeiro.
Começaram por ser uma maneira de as pessoas de mais pobres poderem melhorar as suas refeições nesta altura do ano sem que tivessem que mendigar ou sofrerem humilhações.
Usualmente são mencionados os nomes das pessoas donas da casa à qual vão cantar.

As suas origens são pagãs.
O mês de Janeiro na mitologia romana é o mês de Jano ou Jaunus. Este Deus que está associado às portas e à entrada. Na tradição romana, no começo/ entrada de um novo ano este Deus era louvado para trazer boa sorte e afastar os maus espíritos à casa. Daí o termo das janeiras e o facto de estas serem cantadas, naturalmente em Janeiro.

O Deus Jano é representado por duas faces. Uma virada para o passado, outra para o futuro. Uma fechava a porta, outra abria a porta. Uma fechava o ano, outra abria o novo ano.
Por ter duas faces antagónicas era considerado um Deus de indecisões.


Bom fim de semana :)




Natal dos Simples

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Zeca Afonso - maior que o pensamento


No Natal de 1972,  Zeca Afonso lançava um álbum de originais chamado Vou ser como uma Toupeira.
Desse álbum estão duas canções emblemáticas do cantautor aveirense: A Morte saiu à Rua e o Avô Cavernoso.
Em 1994, após sete anos terem passado sobre a sua morte, surge um tributo a Zeca Afonso pelas mãos de João Gil e Manuel Faria, dois ex-trovante e Tim, vocalista dos Xutos & Pontapés, que conseguiram reunir vinte bandas, oriundas de vários géneros musicais. Esse projecto chamar-se-ia Filhos da Madrugada.
Eles revisitaram várias canções de Zeca Afonso, onde constavam, A Morte saiu à Rua e o Avô Cavernoso. A primeira foi dos UHF e a segunda foi pelos Mão Morta. E é esta que me interessa para este fim de semana.

As duas interpretações, Mão Morta e Zeca Afonso, não podiam ser mais diferentes. Pessoalmente, esta é uma das situações em que o cover é superior ao original. Zeca empresta-lhe uma certeza delicadeza, suavidade.
A voz de Adolfo Luxúria Canibal (nome artístico de Adolfo Augusto Martins da Cruz Morais de Macedo) carimba a canção de uma forma oposta. Torna-a verdadeiramente cavernosa. É pesada, rouca, arrastada, reverberante, aquele tipo de voz que pertence a alguém que não queremos encontrar no escuro. Por trás da sua voz está um tique taque nervoso, tenso. Este cenário vai até aos 2.37min, altura em que a bateria explode e nos lança de rompante para a segunda metade da canção, mais acelerada, mais... cavernosa.

A letra de Zeca Afonso, presta-se para esta prestação. Ela é uma dentada certeira em Oliveira Salazar uma espécie de rei Midas invertido, onde em vez de transformar tudo em ouro, um castigo pela sua ganância, onde tocasse, o toque de Salazar, pelo ditador que era, enegrecia, fazia murchar a vida, retirava a esperança.
Sendo, também, um cantor de intervenção, esta letra é um toque de génio  criatividade pelo qual Zeca Afonso era conhecido e reconhecido.
Os Mão Morta, através do seu líder, fazem inteira justiça. Mais, tornam melhor aquilo

Zeca Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1897. Na passada quinta-feira, fez exactamente trinta anos que morreu.


Bom fim de semana ☺




O avô cavernoso
Instituiu a chuva
Ratificou a demora
Persignou-se
Ninguém o chora agora
Perfumou-se
Vinte mil léguas de virgens vieram
Inúteis e despidas
Flores de malva
E a boina bem segura
Sobre a calva

Ao avô cavernoso quem viu a tonsura?
E a tenda dos milagres e a privada?
Na tenda que foi nítida conjura
As flores de malva murcham devagar
Devagar
Até que se ouvem gritos, matinadas

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

uma canção por Zeca Afonso

Zeca Afonso compõe em Maio de 1964 a mítica a canção "Grândola, Vila Morena".
Entraria para história de Portugal ao ser a segunda de duas canções escolhidas para despoletar o 25 de Abril de 1974.
Veria a luz do dia, sete anos depois no Natal de 1971, quando é lançado o álbum Cantigas de Maio.

Juntamente com "Grândola, Vila Morena", faziam parte deste álbum, entre outros, temas como "Cantigas do Maio", "Maio Maduro Maio" e o "Senhor Arcanjo".
É considerado, e bem diria eu, o melhor álbum de Zeca Afonso.

Zeca Afonso morreu há 24 anos, a 23 de Fevereiro de 1987, em Setúbal, vítima de esclerose lateral amiotrófica, com 57 anos.

Pessoalmente prefiro Maio Maduro Maio, mas aqui fica a Grândola, Vila Morena cantada pelo próprio Zeca Afonso (e amigos), já fragilizado pela doença que o iria matar, num concerto dado a 29 de Janeiro de 1983 no Coliseu dos Recreios.