Um pequeno vídeo, de pouco mais de 12 minutos, elaborado pelo jornal Público.
Conta Maria Raquel Freire, investigadora da Universidade de Coimbra e com o historiador que melhor conhece a Rússia, por ter vivido neste país desde 1977 a 2015.
Neste período de tempo foi correspondente do Público, TSF, SIC e RDP.
Aborda uma pergunta simples de resposta complexa: quem é Vladimir Putin? O tipo alienado que lançou o caos e colocou a Europa na lama, manietou e chantageou a NATO e decidiu que a Ucrânia não tinha direito a decidir o seu destino, nem sequer à existência e por isso invadiu-a a 24 de Fevereiro de 2022.
Uma guerra que já dura há quase cinco meses e sem fim à vista.
A par de Ruy de Carvalho não deve haver nome maior no teatro que Eunice Muñoz.
Ambos atingiram carreiras longuíssimas, 80 anos. O mesmo que a esperança média de vida dos portugueses.
Começou e acabou a sua carreira no teatro que muito amava, o Teatro Nacional D. Maria II.
Iniciou a sua carreira neste teatro e nos grandes palcos aos 13 anos. Vendaval, de Virgínia Vitorino, foi a sua primeira peça, em 1941, sob os auspícios de Amélia Rey Colaço. Os grandes nomes encontram-se sempre.
A sua última peça, em 2021, foi contracenada com a sua neta Lídia Muñoz, aos 92 anos em Margem do Tempo de Franz Xaver Kroetz.
Entre os muitos pontos altos da sua vida como actriz encontra-se o papel principal na peça de Bertolt Brecht, Mãe Coragem e os seus Filhos.
Hoje, a atriz saiu de cena da vida. A sua cortina encerrou-se aos 93 anos. As palmas, essas continuarão a ecoar.
2021 foi um ano profundamente musical. Tive descobertas, encontros e reencontros. O jazz esteve presente de uma forma dominadora ao longo do ano que findou há cerca de um mês.
A música erudita e contemporânea teve também uma importância bem relevante e acutilante em 2021.
Redescobri o prazer do minimalismo e a música electrónica na vertente experimental e avant-garde teve um peso enorme nas últimas semanas do ano passado.
Começou com a morte de Alvin Lucier mesmo no findar do ano, Conhecia o seu nome, a sua influência na música, principalmente do século XX, mas nem tanto o seu trabalho e a sua obra. Desta era conhecedor de apenas uma peça sua e sobre a qual escrevi sobre ela aqui. Fiquei com vontade de conhecer melhor a sua vida e obra e as descobertas sobre ele continuam a suceder-se.
Quando procurava material sobre o trabalho de Alvin Lucier, um outro nome, este totalmente desconhecido para mim, começava a aparecer a aparecer com alguma insistência: Eliane Radigue.
Mais uma vez parti à descoberta deste nome e do seu trabalho. E o que encontrei deixou-me absolutamente fascinado. Mais até que Alvin Lucier.
Desde há um mês, que Radigue tem sido uma companhia muito frequente no Spotify e no YT.
Eliane Radigue é uma compositora francesa, nascida a 24 de Janeiro em 1932. Apesar da sua formação clássica (piano) irá seguir um caminho bem distante daquele que iniciou.
Influenciada na década de 50, pelo também francês, por Pierre Schaeffer, sendo depois sua aluna, e mais tarde por Pierre Henry, e que se tornaria sua assistente, Eliana Radigue distingue-se na música concreta, drone e electrónica.
Para além da influência de ambos os Pierre, Eliane conta que num determinado momento da sua vida, durante uma formação deu por si a ouvir com atenção o som dos hélices dos aviões que passavam por cima e que terá contribuído para o caminho pelo qual viria a enveredar.
Um momento de maior importância na sua vida acontece quando se muda em 1970 para a universidade de Nova Iorque. Conhece Morton Subotnick, um compositor electrónico de renome, e toma contacto com sintetizadores que se iriam tornar os seus instrumentos de eleição por mais de duas décadas.
Um dos seu primeiros trabalhos neste período é precisamente Chry-ptus de 1971, tendo sido posteriormente alvo de revisões e novas versões em 2001 e 2006.
É uma excelente introdução à obra de Radigue. E pessoalmente, é a minha peça preferida.
Chry-ptus é absolutamente minimal. Profundamente delicado, envolvente e subtil. Insinuante e hipnótico. Penso neste tema como uma fragmentação unificada pela forma como a mudança se dá ao longo tempo: subliminarmente, de uma forma quase infinitesimal. A percepção de que algo mudou só acontece quando de facto já mudou e não no momento em que muda.
Para explorar a obra drone, sónica e minimalista de Eliane, aconselho a Trilogia da Morte. Considerada uma das obras mais importantes e de maior fôlego - quase três horas de duração e oito anos de composição - da carreira da fenomenal compositora francesa que até hoje ainda se mantém no activo. Inspirada nos ensinamentos budistas, ao qual se converteria em 1975, esta trilogia reflecte sobre a consciência, a morte, a sua espiritualidade, a caminhada para a Luz. Com a morte do seu filho Yves Arman em 1989 num acidente de viação em Espanha, a Trilogia tem uma forte componente catártica para a compositora.
Em 2001, dá-se uma nova abordagem na sua composição. Deixa a electrónica para trás, mas mantendo o mesmo registo e filosofia de toda a sua vida, passa a compor para instrumentos acústicos, particularmente para cordas.
Quase desconhecida, para variar, será no momento da sua morte que Eliane Radigue obterá o reconhecimento que merece.
Até lá, e que demore a chegar, apreciemos a gentil e subliminar aventura que Radigue nos faz caminhar em Chry-ptus e na Trilogia da Morte. Que nos torne curiosos, que faça apontar para novas jornadas, novas caminhadas e novas descobertas do seu peculiar mundo sónico.
"I am sitting in a room different from the one you are in now. I am recording the sound of my speaking voice and I am going to play it back into the room again and again until the resonant frequencies of the room reinforce themselves so that any semblance of my speech, with perhaps the exception of rhythm, is destroyed.
What you will hear then, are the natural resonant frequencies of the room articulated by speech. I regard this activity not so much as a demonstration of a physical fact, but more as a way to smooth out any irregularities my speech might have."
Assim começa I'm Sitting in a Room, a obra pivotal de Alvin Lucier.
Data de 1969 e é o resultado de gravações consecutivas da sua fala sobre ela própria. Há uma gravação original, a primeira que é declamada por si. Depois entra num ciclo de reproduções e gravações sucessivas, uma por cima da outra. É curioso ver como estas gravações sucessivas vão perdendo o "sentido" da sua fala e discurso, vão se degradando, evoluindo, reconstruindo-se de uma forma completamente nova. Uma paisagem sonora abstracta, ressonante e aparentemente amorfa, contudo musical, com certas frequências a tornarem-se "agressivas" enquanto outras se uniformizam-se, se esbatem. A sensação de espacialidade, de volume ocupado mas também de distância, está sempre em crescendo até ao fim deste trabalho.
Como objecto de experimentalismo é fascinante ouvir esta obra.
O MoMA (Modern Museum of Art) de Nova Iorque adquiriu I'm Sitting in a Room para sua colecção de arte sonora.
Aliás, a gravação que proponho para este fim de semana, é realizada numa sala do próprio MoMA.
Alvin Lucier, cuja formação musical de base é a música clássica, é um apreciador de jazz desde jovem. No entanto é com compositores como Merce Cunningham, Karlheinz Stockhausen, John Cage e David Tudor, que sofre e reconhece a influência e a importância que nele tiveram, apesar de depois ter percebido que o seu caminho teria um percurso diferente do deles. Tendo trabalhado com alguns destes nomes, terá sido com os dois últimos que trabalhou de uma forma mais próxima e cuja influência terá sido mais intensa.
O compositor clássico torna-se quase um cientista, um tecnológo, um explorador do som.
Sabe que as temperaturas ambientais, variações do volume do espaço, da acústica, a presença de pessoas, podem influenciar de uma forma determinante o resultado final de uma instalação, de uma paisagem, de uma peça sonora e respectiva gravação. Joga com enorme intuição e mestria essas mesmas variáveis para produzir novos resultados com as mesmas obras.
É isto que acontece com outra obra importante de Lucier, e igualmente reconhecida internacionalmente - Music on a Long Thin Wire - o título diz tudo sobre ela. Tata-se de uma instalação sonora onde um longo e fino fio é esticado ao longo de um determinado espaço, cujo som é captado por microfones quando este é colocado a vibrar.
Lucier escreveu que uma "audição atenta é mais importante que produzir sons."
Para quem ouviu o início de I'm Sitting in a Room, terá certamente reparado que Lucier gaguejou em certos trechos do texto, de facto o seu autor era mesmo gago. São as imperfeições do discurso que menciona no fim do referido texto.
Este compositor norte-americano, um dos mais relevantes experimentalistas e educadores da arte do som, morreu na quinta-feira passada, 02.12.2021, com noventa anos, vítima de uma queda.
Não sendo fácil apreciar, pelo menos num sentido clássico de música, a obra de Alvin Lucier, esta vale a pena ser explorada. Se pensarmos nela menos em termos de música, mas mais na perspectiva de som, de arte e de exploração sonora, que é de facto, ajude.
Homem do teatro, do cinema, mas acima de tudo da música, da poesia, de língua solta e sempre perspicaz.
José Mário Branco era um dos pilares, um dos maiores, da música popular portuguesa.
Partiu ontem do mundo terreno aos 77 anos. Fica o seu maior legado: a música
A minha preferida dele: Inquietação. O que ele era. Definitavamente.
No início foram os versos. Estranhos, enigmáticos, diferentes, tinham vida própria, eram independentes. Depois foi a voz. Rouca, melancólica, fascinante e tal como os versos que cantava, também continha algo de misterioso. O canadiano Leonard Cohen tem uma daquelas vozes inconfundíveis, únicas, reconhecíveis de imediato.
A sua presença em palco é discreta, tímida, até. Sempre de casaco preto e panamá na cabeça. O palco parece sempre grande demais como quando uma filha de quatro anos que calça os sapatos da sua mãe.
Mas a sua voz preenche-o na perfeição e o nosso peito também.
Começou tarde na música aos 34 anos. Como escritor ainda não tinha tido grande sucesso. Tinha 22 anos quando publica o seu primeiro livro de poesias, que passa quase despercebido nos escaparates das livrarias. A primeira grande volta da sua vida é dada em 1960. Vai viver para a ilha grega Hydra. Passa seis anos aqui. Dá um tempo a sim mesmo e recomeça a escrever e com bastante sucesso e reconhecimento. Vários livros de poemas e dois romances são publicados durante a sua estadia: Favourite Game e Beautiful Loosers. Na sua estadia na ilha grega conhece o amor e a musa da sua vida: a norueguesa Marianne Inhlen. O cantor de sorriso afável afirmaria que seria a mulher mais bonita que encontrou na sua vida. Marianne tinha acabado de sair de uma relação de vários anos com o escritor norueguês Axel Jensen. Entre os dois a química estabelece-se rapidamente. Leonard Cohen dedica-lhe a canção, talvez a mais famosa de toda a sua carreira: So Long Marianne. Foi logo no primeiro álbum que editou, o Songs of Leonard Cohen de 1967. Após anos mergulhado, drogas e sexo, entre 1994 e 1999 , Cohen tira uma licença sabática e retira-se para um mosteiro budista. Em Agosto de 1996 é ordenado como monge budista zen. É-lhe atribuído o nome Jikan, o Silencioso. Irónico para alguém que preenchia o vazio a cantar. O peso da depressão estava ainda elevada, algo que o canadiano nunca conseguiu aliviar.
Marianne morreu em Julho deste ano. Cohen respondeu que brevemente se iria juntar a ela e que se haveriam de encontrar ao longo do caminho. Foi o que aconteceu quatro meses depois, no dia sete de Novembro, aos 82 anos. Quando se soube que Bob Dylan tinha ganho o prémio Nobel da Literatura de 2016, Cohen declarou que era como "dar uma medalha ao monte Everest por ser mais a montanha mais alta". Entre o pessoal das montanhas diz-se que escalar o Everest tornamo-nos alpinistas para o mundo inteiro, mas escalar o K2 é tornarmo-nos alpinistas entre os alpinistas... Sou dos que pensam que o bardo canadiano é o primeiro entre primeiros. A última música para o último fim de semana de 2016, é uma homenagem a Leonard Cohen. É a música que sempre me fascinou e cujos primeiros versos encabeçam este post. O seu título é Take This Waltz. Pertence a um dos álbuns que tenho dele e que comprei precisamente por causa dela e da sua letra. Chama-se I'm your Man. Bom fim de semana e de caminho Feliz Ano 2017 🎉
Foi com ele que aprendi as primeiras palavras de meteorologia e as respectivas simbologias. Frentes frias, núcleos de altas pressões (um A e linhas a vermelho) e baixas pressões (um B e linhas a azul) e até soube que os Açores têm um sistema de altas pressões com residência fixa mas que lá vai andando de um lado para o outro que é conhecido pelo Anticiclone dos Açores e ainda as boas abertas que verdadeiramente ainda não sei o que são, tirando aquelas que possa imaginar.
E quem prestasse mais atenção, não só aprendia algumas coisas sobre meteorologia, mas também mais umas quantas sobre geografia e geofísica.
Foi por baixo deste anticiclone dos Açores, na ilha de São Miguel, que Anthímio de Azevedo nasceu a 27 de Abril de 1926
E não fosse o Sr Meteorologia e este anticiclone tão nacional seria para os portugueses um anónimo sem abrigo climático.
De postura discreta e serena, mas que deixava sentir a sua presença às frente das câmaras. Anthímio de Azevedo falava com aquela segurança e calma de quem sabia sobre o que falava.
Começou de ponteiro na mão, a preto e branco na televisão e passou para as cores, com comando e um ecrã croma por detrás de si.
E sinceramente, nunca as meninas do tempo lhe fizeram sombra.
Morreu ontem com 88 anos e foi ter ao encontro do seu fiel amigo que tanto ajudou a divulgar e dar a conhecer. O Anticiclone dos Açores.
Provavelmente o moçambicano (nasceu na capital Lourenço Marques, actual Maputo) mais conhecido do mundo, Eusébio da Silva Ferreira, morreu hoje de insuficiência cardíaca.
A imprensa inglesa cunhou-lhe para a eternidade a alcunha perfeita para ele, Pantera Negra. Pela sua velocidade, poder atlético, pela precisão e potência de remate e determinação. Tudo o que fazia roçava a perfeição.
O mundo e a sua casa era o futebol. Vivia para o futebol.
Mesmo depois de se ter retirado não era capaz de se manter afastado dos ambientes do futebol e do seu "vício", o clube do seu coração e alma: o Benfica.
A sua ida para o Benfica é uma das histórias mais rocambolescas da história do futebol nacional.
Foi quando jogava no clube moçambicano Sporting de Lourenço de Marques que Eusébio começou a atrair sobre si o olhares do Sporting Clube Portugal. Mas ao mesmo tempo o Benfica também queria o jogador para si.
Para enganar os seu rivais, o Benfica disfarçou os contactos feitos, telegramas e telefonemas. Nunca se referiu a Eusébio pelo seu nome, mas através de um nome fictício, um nome feminino, Rute.
O seu embarque para Lisboa foi feito num carro com matrícula do governo e o seu nome nem sequer constava na lista de passageiros do avião que o levou para Lisboa.
O Sporting acusou os seus rivais de Lisboa de raptarem Eusébio. O jogador sempre desmentiu esta afirmação. Dizia que o Benfica o tinha contratado primeiro porque tinha negociado com a mãe e com o seu irmão.
Uma outra história perdura na vida desportiva de Eusébio, quando este foi pretendido pelo Inter de Milão e o Benfica aceitou o negócio. No entanto Oliveira de Salazar frustraria a transferência por o considerar "património nacional".
Em 1981 foi galardoado com a medalha de Mérito Desportivo e em 1990 com a medalha de Honra ao Mérito Desportivo.
Foi no Benfica e através do mundial de 1966, com o famoso terceiro lugar de Portugal, que o mundo conheceria Eusébio. Foi considerado o melhor jogador do campeonato e ao mesmo tempo foi o melhor marcador do mesmo.
O brasileiro Pelé, o alemão Franz Beckenbauer, o húngaro Puskas, o argentino Di Stéfano, o inglês Bobby Charlton e os guarda-redes russo Lev Yashin (Aranha Negra) e o português Damas, jogadores também eles lendários e que marcaram a história do futebol mundial, foram adversários, admiradores e seus amigos.
Ganhou onze campeonatos nacionais, cinco taças de Portugal, uma taça dos campeões europeus. Foi sete vezes melhor marcador nacional e duas vezes melhor marcador europeu.
Um king.
"Ontem o diabo esteve aqui... E este lugar ainda cheira a enxofre"
Este frase foi dita a 20 de Setembro de 2006 na assembleia geral das Nações Unidas referindo-se a George W. Bush que tinha discursado no dia anterior.
Não acredito que ele fosse o diabo mas que era um calhau com olhos, isso era. E em nada abonou a inteligência dos americanos quando o reelegeram para o segundo mandato.
E isso o presidente venezuelano Hugo Chavez que lhe tinha um ódio de estimação, sabia-o na perfeição.
Em contrapartida tinha um confessa admiração por Fidel Castro.
Hugo Chavez nasce a 28 de Julho de 1954. Era um militar de carreira. Entrou na academia das ciências militares de Caracas aos 17 anos.
Enquanto para-quedista participou em 1992 no golpe de estado falhado para tomar o poder na Venezuela. É preso, cumpre dois anos de prisão e depois é amnistiado.
Em Dezembro de 1998 candidata-se à presidência da Venezuela e ganha. Não abandona o poder, sendo reeleito por quatro vezes e ainda sobrevive a uma tentativa de golpe de estado em 2002.
Na sua última reeleição em Outubro de 2012 já não está presente na cerimónia da tomada de posse em Janeiro deste ano por estar em tratamento na ilha de Cuba a um cancro que lhe tinha sido diagnosticado em 2011.
Pelo caminho ainda ganha inesperadamente em 2009, um referendo que lhe permitia a partir de 2012 recandidatar-se automaticamente ao cargo. Até essa altura, os presidentes venezuelanos estavam limitados a dois mandatos de seis anos.
A morte de Hugo Chavez, consequência do cancro que sofria e que afirmava repetidamente que tinha sido uma conspiração americano para o afastar do poder, foi anunciada hoje aos 58 anos.
Gerry Anderson morreu. E depois?? Perguntei eu para mim quando ouvi a notícia.
Esperei um pouco mais e fiquei triste.
Terá sido em Outubro de 1976, tinha eu uns inconscientes oito anos, estreava uma série que para mim se tornaria marcante e posteriormente deixaria montes de saudades e uma enorme vontade de a rever.
À noite nos dias dos episódios semanais antes de adormecer, muitas vezes pilotava aquelas naves. Alguns (muitos) anos mais tarde descobriria que a palavra certa para aquilo que gostava tanto era culto.
Mais uma vez, ao fim de bastante tempo e por me ter marcado tanto, percebi que dificilmente voltaria a ver se tivesse oportunidade.
Espaço 1999 deve ser visto apenas com os inocentes e crédulos olhos de oito aninhos. Mais do que isso e talvez a magia desapareça. A idade e a vida torna-nos mais analíticos e muito menos sonhadores.
Espaço 1999 teve duas temporadas, cada uma com vinte e quatro episódios. Delas retenho com nitidez, o genérico, as naves Águia, o comandante John Koenig e as belas Dra Helena Russell e Maya ,a extraterrestre do planeta Psychon que faz a sua aparição na segunda temporada.
Gerry Anderson, o senhor que morreu hoje e que nunca tinha ouvido falar dele foi o seu criador e realizador.
Nasceu em Londres a 12 de Abril de 1929 e começou a ganhar a vida como fotógrafo.
Entre 1964 e 1966 criou a série Thunderbirds, toda ela feita com marionetas e entre 1975 e 1977 criaria e produziria Espaço 1999.
Morreu com 83 anos e sofria de Alzheimer desde 2010, mas isso para mim é o menos.
Para mim, morreu o senhor que me fez descobrir o que era ficção científica, que me pôs a pilotar as naves Águia e a tentar mudar de forma no meio do meu quarto.
Tudo aconteceu quando a 13 de Setembro de 1999, a base lunar Alpha com os seus ocupantes foi projectada para fora de órbita devido a uma explosão nuclear causada pelos resíduos radioactivos acumulados na Terra...
Foi talvez em 87, eventualmente em 1988.
O bilhete era oferecido e tinham-me dito que devia aproveitar a oportunidade e fui.
O nome era razoavelmente desconhecido e a sua obra, essa, era totalmente desconhecida. De Ravi Shankar sabia apenas que era um músico indiano. Não sabia portanto ao que ia.
Não precisei de muito para perceber o porquê do conselho dado de aproveitar a oportunidade. As sonoridades, exóticas e etéreas que ouvi nesse concerto e oriundas de um instrumento que nunca tinha visto e ouvido, perduram na minha memória.
Ainda hoje quando oiço Ravi Shankar revisito mentalmente esse concerto.
Ravi Shankar nasceu a 7 de Abril de 1920, na mística cidade indiana Varanasi. Uma cidade que povoa o meu imaginário e um destino que forçosamente terei que um dia cumprir.
Nasceu pobre e aos cinco anos, seguindo o seu irmão, muda-se para Paris, onde se estreia como bailarino de danças populares e do folclore indiano.
Aos dezoito anos desiste da dança, estuda música clássica indiana e inicia-se no instrumento da sua vida: o sitar.
Há uma confusão usual entre sitar e citara. Ambos são instrumentos de cordas e dedilhados. Mas enquanto o sitar tem um braço onde as cordas são esticadas para além da caixa de ressonância, a cítara tem as cordas esticadas sobre a caixa de ressonância.
Em 1966 dá-se um outro marco na sua vida. George Harrison torna-se aluno de Shankar. E seria através deste beatle que o sitar faria a sua entrada na música ocidental.
Por causa deste encontro entre a música ocidental e a música oriental, neste caso indiana, George Harrison, apeladaria o músico indiano, o padrinho da "world music".
Ravi participou no mítico festival de Woodstock em 1969 e para além de George Harrison, colaboraria com o violinista Yehudi Menuhin e saxofonista John Coltrane.
O mestre indiano de sitar morreu na passada terça-feira, dia 11 de Dezembro, na Califórnia, América, bem longe da sua cidade natal e onde tantos indianos desejam morrer e passar os últimos dias da sua vida.
O seu legado na música está longe de se resumir enquanto músico de sitar. É pai das meias-irmãs Norah Jones, cantora de jazz e de Anoushka Shankar, também ela uma compositora e exímia tocadora de sitar e que acompanhou o pai em diversos concertos.
Actualmente Anoushka grava para a etiqueta alemã Deustche Grammophon.
No espaço de uma semana, após Dave Brubeck, Ravi Shankar foi a segunda lenda viva da música e ambos nascidos em 1920, a ser reclamado pela Sra do Manto Negro.
Por isso tal como a semana passada, "uma música para o fim de semana" tem uma edição especial dedicada ao famoso sitarista indiano.
Para esta semana escolho o concerto do Bangladesh de Ravi Shankar.
Um concerto de beneficiência, organizado por Ravi e George Harrison, a favor das vítimas do ciclone Bhola de 1970 e da guerra civil de 1971 que assolou o Bangladesh.
O concerto foi dado a 1 de Agosto de 1971 e juntou cerca de 40 000 pessoas no Madison Square Garden em Nova Iorque.
Na passada quarta feira, 5 de Dezembro, quando faltava um dia para fazer 92 anos o pianista Dave Brubeck morreu.
Ironicamente ia caminho do cardiologista onde tinha uma consulta marcada quando foi vítima de um ataque cardíaco.
Para muitos este nome será desconhecido, mas para quem o conhece, sabe que se tratava de uma das maiores lendas vivas do jazz e considerado um dos músicos mais importantes após a segunda guerra mundial.
Nascido nos EUA, a 6 de Dezembro, Dave Brubeck, começaria cedo a ter lições de piano bem cedo, aos quatro anos, com a sua mãe.
Com doze anos iniciou uma vida de cowboy, ajudando o seu pai na lide do gado quando a sua família mudou-se para um rancho. A sua ligação à música manter-se-ia através de actuações em bares locais.
Não se estranha portanto que inicialmente tenha escolhido a carreira de medicina veterinária. Mas o contacto constante que foi mantendo com o piano levou-o a mudar de ideias e a definitivamente enredar pela carreira musical e em particular pelo jazz após sugestão do compositor francês Darius Milhaud com quem estudou. Entre as várias formações que Dave Brubeck liderou, incluindo um octeto onde conheceria Paul Desmond, foi o "Quarteto Clássico" de 1958 que mais se destacou e se manteve durante cerca de dez anos. Para a história seria o Dave Brubeck Quartet. Ele era formado por Dave Brubeck no piano, Paul Desmond no saxofone alto, Joe Morello na bateria e Eugene Wright no contrabaixo. Seria com este quarteto que em 1959, seria editado um dos álbuns mais importantes e influentes do jazz - Time Out. Alíás, o ano de 1959 é considerado por muitos como o ano mais importante do jazz. Parafraseando a Rainha Isabel II, chamam-lhe o "annus mirabilis" do jazz Nesse ano para além de Time Out de Brubeck, são lançados mais outras três obras tidas como fundamentais e marcantes da história do jazz - Kind of Blue de Miles Davis, Mingus Ah Um de Charles Mingus e The Shape of Jazz to Come de Ornette Coleman. De Time Out, pensa-se logo em Take Five, o tema divertido e irreverente que imortalizou Dave Brubeck, apesar de ter sido composto por outro dos elementos do quarteto e também ele uma lenda, Paul Desmond.
É o saxofone de Paul Desmond e o solo de Joe Morello na bateria, as suas mãos parece que bailam, mais marcam este tema.
Em memória do extraordinário Dave Brubeck, "uma música para o fim de semana" terá uma edição especial. Take Five será a minha sugestão para este fim de semana. Mas não estará sozinha. Para a acompanhar vou buscar uma outra música também ela oriunda do Dave Brubeck Quartet. É porventura mais bonita que Take 5. Mais bela, mais reflexiva e introspectiva - In Your Own Way.
That's one smal step for man, one giant leap for mankind
Neil Armstrong o primeiro homem a pisar a Lua, morreu hoje com 82 anos vítima de complicações cardíacas após a colocação de um bypass.
Nascido a 5 de Agosto de 1930, Neil Armstrong sabia o que queria, voar. Estudou engenharia aeroespacial, em 1949 era aviador da marinha, participou na guerra da Coreia como piloto de caça. onde ganharia várias condecorações.
Após a guerra tornou-se piloto de testes e ensaios de vários aviões e protótipos experimentais.
Tornou-se astronauta pela NASA em 1962 e em Dezembro de 1968 foi-lhe oferecida a hipótese de se tornar comandante da missão Apolo 11.
E foi assim que se tornaria uma lenda e faria parte da História quando a 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong com trinta e oito anos, foi o primeiro homem a pisar solo lunar.
Talvez agora definitivamente livre da gravidade terrestre que certamente lhe limitava e prendia os movimentos, mas não o seu espírito, Neil Armstrong nos pisque um olho ou nos diga adeus da Lua, ou de outro ponto qualquer do universo.
Ela tem seis anos, mas faz hoje cinquenta. Nasceu na Argentina no dia 15 de Março de 1962, pela mão de Quino.
O pai, Pelicarpo, é um agente de seguros e a mãe, Raquel é dona de casa e tem um irmão mais novo que se guille.
Ela é pequenita, ingénua, inteligente, inquieta e de olhar vivo. Vê o mundo dos grandes com o olhar dos mais pequenos. As suas perguntas são acutilantes e são como as verdades La Palisse, óbvias, mas tirando ela, mais ninguém as faz.
Esta miúda adora os Beatles, detesta sopa e faz questão de marcar este ponto. Chama-se Mafalda. Mafaldinha para os amigos. ;)
Desta vez vez "uma música para o fim de semana" homenageia uma Senhora da música norte-americana, nascida a 25 de Janeiro de 1938 e cuja voz se notabilizou em áreas musicais como o blues, jazz, soul e gospel.
Etta James morrreu ontem com 73 anos, vítima de uma leucemia que lhe tinha sido diagnosticada em em inícios de 2011, acrescido de problemas renais e doença de Alzheimer.
Ao longo da sua carreira enfrentou diversos problemas relacionados com drogas e excesso de peso. Chegou a atingir os duzentos quilos e em 2003 com uma operação de colocação de banda gástrica, a cantora perdeu cerca de cem quilos.
Venceu 6 Grammys e entrou para Rock and Roll Hall of Fame em 1993, Blues Hall of Fame em 2001 e ganhou uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood em 2003.
Em 1961 quando lança o álbum At Last que Etta James se imortaliza. É neste seu trabalho que se encontra o tema de blues I Just Want Make Love to You, que se tornaria famosíssimo com o anúncio da Coca Cola Diet e que em Portugal se tornaria conhecido como a Hora Coca-Cola Light.
I Just Want Make Love to You foi um tema original cantado por Muddy Water, um dos "monstros sagrados" do blues, em 1954.
Mas reconheçamos que Etta James, traz um carisma a este tema que ele anteriormente não tinha.
O certo é que Roald Amundsen se tivesse seguido o desejo de sua mãe, teria sido médico, mas com a sua morte, Amundsen dedicou-se a aquilo que era o seu apelo desde pequeno, explorar as regiões polares.
Experiente em expedições em ambas a regiões polares, nomeadamente através da participação da expedição belga de exploração da costa antártica que o levaria a passar um inverno no círculo polar antártico e da descoberta na sua expedição de 1903-1905 da Passagem do Noroeste com o veleiro Gjoa, que une a norte do continente americano, os oceanos Pacifico e Atlântico e onde aprenderia com os esquimós locais a usar trenós de cães e técnicas de sobrevivência polares, Amundsen lança-se na conquista de uma das suas maiores ambições: ser o primeiro a chegar ao Polo Norte.
A meio dos seus preparativos da expedição soube que Robert Peary e Frederick Cook tinham anunciado e reclamado para si próprios a conquista do Pólo Norte.
De imediato Amundsen virou a sua atenção para o lado oposto do planeta, o Pólo Sul.
Com dívidas e de maneira a manter os patrocínios já obtidos até à altura, Amundsen não revelou a sua verdadeira intenção, para todos os efeitos ele continuaria para o Polo Norte como uma viagem de âmbito científico.
Em Agosto, o veleiro Fram partia da Noruega, chegando em Setembro à ilha da Madeira, onde pararia durante alguns dias para reparações e abastecimentos.
Foi na Madeira, perante a sua tripulação que Amundsen revelaria pela primeira vez qual o seu verdadeiro destino. Poucas horas após o anúncio, o Fram partiria para o extremo sul do planeta.
Alguns meses depois, a 14 de Dezembro de 1911, utilizando trenós puxados por cães e esquis, Roald Amundsen e a sua equipa pisavam pela primeira vez o manto branco do Pólo Sul e deixavam uma tenda montada com a bandeira norueguesa no topo.
O britânico Robert Falcon Scott que estava com Amundsen numa corrida pela conquista do Pólo Sul, ao chegar cerca de cinco semanas depois e contemplar a tenda norueguesa terá escrito frustradamente no seu diário "Meu Deus, este lugar é horrível".
No interior da tenda encontravam-se equipamentos de orientação e roupa deixados pelo próprio Amundsen.
No regresso, a equipa inglesa enfrentou temperaturas muito baixas e grandes tempestades: Morreram famintos e congelados.
Em Novembro de 1912, os seus corpos foram encontrados. As últimas entradas no diário de Scott datavam de Março.
Roald Amundsen morreria a 18 de Junho de 1928, com 55 anos, no oceano Ártico, num acidente de hidroavião durante uma operação de resgate do explorador italiano Umberto Nobile.
Definitivamente Steve Jobs era um homem extraordinário.
Ele prova-o neste discurso incrível sobre a sua vida, que no fundo é também sobre a nossa vida e sobre a Vida.
Quando o preferiu na Universidade de Stanford a 12 de Junho de 2005, já Steve Jobs sabia que estava diagnosticado o seu fim.
"Ninguém quer morrer. Nem mesmo as pessoas que querem ir para o Céu querem morrer para chegar lá"
Se há pessoas que se podem gabar de ter mudado o mundo, Steve Jobs, o fundador e criativo da Apple, está claramente entre elas.
Com a sua morte quase sinto a dúvida se o mundo vai conseguir desenvolver sem ele.
Claro que vai, mas os seus passos serão mais pequenos e hesitantes.
É uma grande dentada na Maçã e na vida de todos os nós.
Se há homens que carregam sobre os seus ombros a verdadeira História e se tornam lendas vivas, Nelson Mandela é um deles.
Nelson Rolihlahla Mandela nasceu na África do Sul em 18 de Julho de 1918.
Foi preso em Agosto de 1962 sob a acusação de ser o líder da facção armada do ANC (Congresso Nacional Africano) cuja acusação foi confirmada posteriormente em Junho de 1967.
Sai da prisão em Fevereiro de 1990 por ordem de Frederik de Clerk, após 27 anos de prisão. Passou um terço da sua vida preso!
Ganha o prémio Nobel da Paz em 1993 juntamente com de Klerk.
Tornou-se o primeiro Presidente da África do Sul negro em 1994. Ficou conhecido pela sua luta contra o aparthaid e pela transição pacifica para um regime em que brancos e negros vivem lado a lado.
Madiba, nome pelo qual é conhecido na sua tribo Xhosa, faz hoje 93 anos.
O normal é pensar que Bob Marley morreu devido a uma overdose de uma droga qualquer, mas não, morreu de um cancro no pé, resultado de uma lesão sofrida durante um jogo de futebol, a sua segunda grande paixão a seguir à música.
Ao não aceitar que fosse tratado por motivos religiosos, Bob Marley era rastafári - religião que não permite a presença de médicos e o uso de medicamentos que não sejam naturais - ele assinou a sua sentença de morte.
O cancro alastrou ao resto do corpo e a 11 de Maio de 1981 morre no hospital Cedars of Lebanon em Miami. Faz hoje 30 anos.
Para a história ele deixa onze albuns originais editados e canções imortais tais como: No Woman No Cry, Could You be Loved, Redemption Song, One Love ou ainda Jamming.
Estima-se que tenham sido vendidos cerca de 200 milhões de álbuns de Bob Marley.
O álbum Legend editado postumamente em 1984, é até hoje o álbum de música reggae que mais vendeu em todo o mundo: cerca de 25 milhões de unidades. Um deles é meu :)
Bob Marley é hoje sinónimo de reggae, da Jamaica, da paz e do amor. Representa um estilo e uma filosofia de vida - rastafári - que ainda hoje tem seguidores e vêm nele um dos seus grandes exemplos.
Juntamente com Ernesto Che Guevara, é sem dúvida uma das grandes figuras iconográficas do séc. XX.