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sábado, 24 de dezembro de 2016

uma música para o fim de semana - Bob Dylan



Véspera de Natal. Cheira a intensamente a fritos.
Há salpicos de óleo junto ao fogão, há quase mais farinha no chão que na bancada cozinha que está misturada com água formando uma pasta difícil de limpar.
Ninguém sabe por onde andam as colheres de pau, o cão anda perdido por entre as pernas de quem lá anda.
A árvore de Natal está acesa, as luzes no alpendre estão acesas, as luzes da casa estão todas acesas.
Há mochilas, casacos e casacões, botas e cachecóis, sacos de plástico, papéis de Natal, um pouco por todo o lado.

As duas televisões estão acesas. A da cozinha está perdida e num canal qualquer sem ninguém a dar-lhe atenção, na da sala de jantar estão lá os putos a jogar há uma eternidade um jogo cujo nome não me lembro.
A electricidade já foi abaixo duas vezes com quantidade enorme de electrodomésticos acesos e a bombar horas a fio.
Estou refugiado, escondido da agitação num quarto minúsculo que numa vida passada tinha sido um escritório, ansioso para que chegue o melhor dia de Natal desta época, o dia 26 de Dezembro.

Vozes altas dão e pedem informações dúbias de quem está de costas para aquilo que precisa:"abre o armário", "está aí ao pé de ti, não estás a ver??" que ninguém vê ou sabe o que é, "lava essa travessa!!", que por acaso até nem foi usada, "passa-me essa coisa que está por aí!!" no meio de dezenas de coisas que estão no mesmo sítio.

O cão esgueirou-se para o pé de mim, em busca de uma calma que eu também procuro, perdida entre pratos limpos e sujos, copos que chocam entre si, cascas de nozes e de pistachios.
Olho para ele e digo:
- Se fosse eu a ti, ia lá para fora ladrar a quem passa. Não chove e estás mais sossegado.
Ele olha para mim com atenção e nega o meu conselho com um latido, voltando a sua atenção de novo para a confusão apenas ligeiramente atenuada pela porta encostada que vem da cozinha.
Falo de novo para ele, em voz resignada e digo-lhe:
- Sabes uma coisa? Pois é, o Natal é amanhã.
Insisto no meu conselho:
- Rapaz, devias mesmo ir lá para fora.

No meu portátil, tenho a voz rouca do Nobel da Literatura de 2016, Bob Dylan, a cantar Must Be Santa.
A Wikipedia sem emoção diz que faz parte do alinhamento do trigésimo quarto álbum da carreira de Bob Dylan, lançado em Outubro de 2009, dedicado ao Natal e que se chama Christmas In Heart.


Bom fim de semana e de caminho feliz Natal 😉




Who's got a beard that's long and white?
Santa's got a beard that's long and white
Who comes around on a special night?
Santa comes around on a special night
Special night, beard that's white
Must be Santa, must be Santa
Must be Santa, Santa Claus


sábado, 15 de outubro de 2016

uma música para o fim de semana - Bob Dylan


O facto de Bob Dylan ter ganho um Nobel da Literatura, deve ter posto as editoras livreiras a arrepelar os cabelos de desespero, e as editoras musicais aos pulinhos de contente.
As livrarias porque não levam, ou poucas levaram a sério a escrita de Bob Dylan, as editoras porque vão vender que nem pãozinhos quentes, os discos de Dylan, sem com contar com as reedições, remasterizações e edições de coleccionador.

E se os escritores ressabiados, estou a pensar na palerma escritora Alice Vieira, acusaram falta de desportivismo pelo facto de a sua classe pela primeira vez não ver o Nobel da Literatura a cair no colo, os músicos, e particularmente os letristas, aplaudiram,a coragem da Academia Sueca em pensar fora da caixa.

Sara Danius, a secretária da Academia Sueca, em Estocolmo, afirmou,a propósito da escolha de Bob Dylan: “Talvez os tempos estejam mesmo a mudar”.
Esta declaração não foi inocente. Foi antes um recado aos críticos da escolha deste ano. Em 1964, saia o tema, do álbum homónimo, The Times They Are a Changing, o terceiro álbum de estúdio de Bob Dylan.

Agora, dois factos. Um, é que nunca tantos tiveram um Nobel nas prateleiras de sua casa como este ano, e outro, é nunca um Nobel foi tão democrático e acessível como Bob Dylan: está gratuitamente, e ao alcance de todos, no Youtube.

Para este fim de semana, sugiro, dois clássicos.
O primeiro, é uma das minhas músicas preferidas Dylan: Blowing in the Wind, cantada ao vivo em 1963. Precisamente o ano de lançamento do seu segundo álbum, The Freewheelin' Bob Dylan.
O segundo é precisamente o que Sara Danius tinha em mente: The Times They Are a Changing.

Para quem atentar nestas duas letras, e façam-no, facilmente perceberá porque o Nobel da Literatura foi para ele. As letras são espantosas e ele ainda não tinha 22 anos!!!


Bom fim de semana :)


Blowing in the Wind




How many roads must a man walk down,
Before you can call him a man?
How many seas must a white dove sail,
Before she sleeps in the sand?
Yes, and how many times must cannonballs fly,
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Yes, and how many years can a mountain exist,
Before it's washed to the seas (sea)
Yes, and how many years can some people exist,
Before they're allowed to be free?
Yes, and how many times can a man turn his head,
And pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

Yes, and how many times must a man look up,
Before he can see the sky?
Yes, and how many ears must one man have,
Before he can hear people cry?
Yes, and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind


The Times They Are a Changing





Come gather 'round people where ever you roam
And admit that the waters around you have grown
And accept it that soon you'll be drenched to the bone
If your time to you is worth savin'
Then you better start swimmin' or you'll sink like a stone,
For the times they are a' changin'!

Come writers and critics who prophesy with your pen
And keep your eyes wide the chance won't come again
And don't speak too soon for the wheel's still in spin
And there's no tellin' who that it's namin'
For the loser now will be later to win
For the times they are a' changin'!

Come senators, congressmen please heed the call
Don't stand in the doorway don't block up the hall
For he that gets hurt will be he who has stalled
There's a battle outside and it's ragin'
It'll soon shake your windows and rattle your walls
For the times they are a' changin'!

Come mothers and fathers throughout the land
And don't criticize what you can't understand
Your sons and your daughters are beyond your command
Your old road is rapidly agin'
Please get out of the new one if you can't lend your hand
For the times they are a' changin'!

The line it is drawn the curse it is cast
The slow one now will later be fast
As the present now will later be past
The order is rapidly fadin'
And the first one now will later be last
For the times they are a' changin'!



quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Boby Dylan, Nobel da Literatura 2016





Bob Dylan acaba de ser galardoado com o prémio Nobel da Literatura.
Ao longo dos anos Dylan vai aparecendo e desaparecendo nas listas de possíveis nobelizáveis. Por isso não deixa de ser surpreendente, mas não completamente, que tal tenha acontecido, mesmo para quem se movimenta neste meio.
Para mim e para muitos de nós, Bob Dylan é um criador de letras (e respectivas canções) sublime e isto per si, chegaria para ganhar este prémio.

Mas há também nele uma faceta de escritor que é pouco conhecida. Tem vários livros editados, tanto de prosa como de poesia e já tinha ganho o prémio Pulitzer, um prémio literário nas áreas da ficção, não ficção, poesia e história, em 2008.
O cantautor de 75 anos, editou o seu primeiro álbum em 1962 - Bob Dylan - e o seu mais recente este ano, 2016 - Fallen Angels. Para além do Pulitzer, tem vários grammys ganhos, mais um Óscar e um Globo de Ouro, em 2001, com o tema Things Have Changed, da banda sonora do filme Wonder Boys.

Com Bob Dylan a ganhar o Nobel da Literatura este ano, de imediato lembrei-me de outro cantor e que gostaria de ver a ganhar este mesmo galardão e também ele autor de letras tão sublimes quanto as de Dylan: Leonard Cohen.

É justo e merecido que a Academia Sueca tenha o atribuído o prémio a Bob Dylan, o primeiro músico e cantor a ganhar este galardão.
Acredito que por esse mundo fora haja quem pergunte, porque carga de água, um cantor norte-americano ganhou um Nobel da Literatura. Para esses, a resposta que lhes dou é:


the answer my friend is blowin in the wind


terça-feira, 24 de maio de 2011

parabéns Sr Zimmerman - 70 aninhos


Robert Allen Zimmerman nasceu no dia 24 de Maio de 1941 nos Estados Unidos. Faz hoje 70 anos.
Para mim e certamente para muita gente este nome não diz nada.

Mas a coisa muda radicalmente de figura quando se menciona o pseudónimo inspirado no poeta britânico Dylan Thomas, com que o tal Robert Zimmerman ficou para a história: Bob Dylan.

De personalidade reservada, parece um cigano de ar enigmático, desalinhado e cabelo revolto. As letras de natureza política e crítica social, a sua voz rouca e quase desafinada, tornaram-se emblemáticas.

Editou o seu primeiro álbum em 1962 - Bob Dylan - e o seu mais recente trabalho é de 2009 - Christmas in the heart - um álbum dedicado ao Natal, apesar de o cantor norte-americano ser judeu.

A canção Knockin' on Heaven's Door é uma das minhas preferidas.
Este tema pertence à banda sonora, totalmente composta por Bob Dylan, do filme Pat Garret and Bily the Kid de 1973, onde o próprio Dylan actua.