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quinta-feira, 1 de setembro de 2022

70 anos de O Velho e o Mar


Há pouco mais de nove anos, eu escrevi um conjunto de textos que denominei de os Grandes Cinco.
É um conjunto de cinco de livros que mais marcaram a minha vida, os tais que levaria na minha nave espacial se o mundo acabasse.

Um deles é sem dúvida O Velho e o Mar de Ernest Hemingway. Aqui escrevi sobre este livro tão importante para mim.
Volto a ele porque hoje faz 70 anos que foi publicado. Foi escrito em 1951 e uma ano depois era publicado. Foi a sua última grande obra publicada antes da sua morte, em 1961, por suicídio.

Este livro valer-lhe-ia o premio Pulitzer em 1953 e foi considerada uma das suas obras mais relevantes para o Nobel da Literatura que Hemingway ganharia em 1954.

A fotografia é de um arménio chamado Yousuf Karsh, talvez um dos melhores fotógrafos retratistas de sempre. Tive a oportunidade de ver o seu trabalho há vários anos numa exposição na Gulbenkian. 
Poucas vezes vi uma fotografia de Hemingway que melhor ilustrasse a complexidade do seu temperamento e personalidade.
E de caminho pesquisem o retrato de Winston Churchill. A força, a imponência do seu carácter, que imana deste retrato é impressionante.

Parabéns Hemingway por teres escrito um dos livro mais importantes da minha vida.





sábado, 23 de abril de 2022

dia mundial do Livro II


Uma visão de uma prateleira cheia de livros é um autêntica e bela visão.
No meu caso compro mais livros do que aqueles que vou lendo. Vai ser sempre assim. 
Tsundoku, chamam-lhe os japoneses 😉










quarta-feira, 20 de abril de 2022

Charles Bukowski - Pulp


Escrevi aqui que tinha comprado o meu terceiro livro de Charles Bukowski, Pulp. Hoje concluí a sua leitura.
Foi escrito pouco antes da sua morte e Bukowski sabia disso. Morre de pneumonia na consequência de um tratamento a uma leucemia em 1994. É portanto um livro de despedida. Escatológico.

Em vez do alter ego Henry Chinaski, em Pulp entra em acção detective de Los Angeles, Nick Belane. Um balofo detective de segunda que cobra seis dólares por hora e que tem clientes estranhos e inusitados: a Senhora Morte procurando por um escritor francês que pensa que já devia ter morrido, um cliente que se relacionava com uma extraterrestre de formas sensuais, um homem que pensa que está a ser traído pela sua bela esposa e finalmente alguém que procura um pardal vermelho. 
Ou seja, faz jus ao título do livro que nos remete para a literatura barata, de cordel, que se encontra pendurada nas bancas dos jornais.

É uma escrita mais contida, não tão visceral quanto os seus livros anteriores que li, em particular Notas de um Velho Nojento. Mesmo assim, e felizmente toda a essência, a urbanidade, da sua escrita está presente: crua, não falta o álcool e as rondas pelos bares, a violência, as personagens decadentes, a ironia, sarcasmo e a desilusão. Reflexões sobre a morte vão pontuando regularmente o livro.
Os casos vão sendo resolvidos e a última ponta solta sela o destino final de Belane e do livro.

Para os seus admiradores, Pulp não desilude mas não será o seu melhor livro. 
Bukowski parece que escreve mais para si. Para se familiarizar, para se preparar para a morte, sem amargura ou remorsos, do que para os seus leitores. Ou talvez ao contrário. Ao se dirigir para os seus leitores, a sua audiência de sempre, prepara-se para a morte. Faz sentido que assim seja.
Fica no entanto alguma tristeza por sabermos que este foi o seu último livro.






quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Contágio - David Quammen


É dos livros de divulgação científica mais fascinantes que jamais li.
Se quiserem conhecer o mundo dos vírus, como estes surgem, se mutam, como se transmitem, as suas características, histórias, os nomes das pessoas que os estudaram, investigaram e que com eles sofreram, Contágio é O livro.

Como qualquer livro que divulgação científica que se preze, David Quammen; escritor, divulgador de ciência e explorador norte-americano; aborda e lida com conceitos complexos de uma forma simples e prática. Termos como contágio, mutações, proteínas, ADN e ARN, reservatórios, testes PCR, vacinação e outros tantos que se foram tornando (infelizmente) familiares para nós nos tempos que se vivem actualmente, mas ainda assim desconhecidos nos seus significados, são bem explicados e contextualizados.
O autor tem bem a noção de quando estamos perante conceitos mais complexos e de uma forma bem-humorada diz-nos, e sossega-nos, que são poucos os que os dominam.
Tem um ritmo quase alucinante de escrita e a narração é precisa e acutilante. Não desperdiça palavras nem as torna ocas ou fúteis.

É incessante a chegada de informação das suas quase seiscentas páginas e o desejo de continuarmos a ler é tão grande quanto a necessidade de pararmos um pouco para respirar mais fundo antes de mergulharmos de novo nele. É viciante. Dei por mim a ter que ler algo diferente para não me deitar com Contágio na cabeça.
Tal como um livro de viagens, com ele passeamos por todo o mundo. Particularmente pela Ásia e África, por vezes Europa e Austrália. Conhecemos cidades, aldeias, rios, florestas, cavernas, quintas e subúrbios. 

Em cada capítulo (são nove) aborda em detalhe um determinado vírus mas não exclusivamente esse vírus. Isto significa que o nosso conhecimento tem sempre um horizonte aberto mas não a perder de vista.
Alguns dos vírus e respectivas doenças já são nossos conhecidos. Num determinado momento, devido à dimensão dos surtos, da intensidade das consequências, foram notícia nas televisões, em jornais ou nas redes sociais: ébola, malária, sida, gripe espanhola, herpes são familiares para nós. Outros nem tanto. Ou porque os seus surtos foram de pequenas dimensões, foram breves no tempo ou geograficamente afastados do ocidente, tais como: Hendra, Lassa, Marburgo, Machupo ou o Nipah. Ficamos também a saber que têm diversos nomes, pertencem a famílias e têm características e diferentes taxas de letalidade e mortalidade. 
Ouvimos demasiadas vezes a palavra coronavírus que ficamos a pensar que só existe este no mundo, mas de facto existem outros, muitos outros: hantavírus, retrovírus, filovírus, adenovírus, etc..., etc..., etc...

Percebemos que a complexidade dos vírus, cuja discussão se é um ser vivo ou não ainda permanece apesar de genericamente não ser considerado como um, é gigantesca e frequentemente parece ter "vontade própria e inteligência". Ficamos saber que ele necessita de um hospedeiro para poder reproduzir-se e fazer multiplicar o seu código genético. Por si próprio ele não o capaz de fazer. É aqui que entram os defensores de que não deve ser visto com um ser vivo.
O seu tamanho é tão pequeno que só no primeiro ano da década de trinta do século passado se descobriu a sua existência física - há muito que se sabia quais eram os seus estragos - com a criação do microscópio electrónico. As suas dimensões medem-se em nanómetros. Para se chegar chegar a este comprimento é preciso pegar num milímetro e dividi-lo um milhão de vezes.

David Quammen ao longo das suas páginas conduz-nos igualmente pela história, pela antropologia, sociologia e climatologia. Ilustra perfeitamente a relação, frequentemente desastrosa, dos vírus com os seres humanos. De como os nossos hábitos e cultura influenciam e foram influenciados pelos mesmos. Aborda a importância dos xamãs, de feiticeiros e curandeiros, das superstições, da importância da sobrevivência e subsistência dos seres humanos e do funesto comércio e tráfico de animais. Mostra que a subida da temperatura global propícia as condições favoráveis para que os vírus e seus hospedeiros das florestas tropicais, um autêntico viveiro deles, se aproximem dos nossos ambientes tornando cada vez mais provável o contágio que o título do livro se refere. O autor usa frequentemente o termo inglês "spillover". Spillover, termo talvez mais adequado que a tradução contágio, refere-se ao momento em que um determinado vírus (ou uma bactéria) passa, migra, para o corpo de uma nova espécie. Neste caso, nós, humanos. Quando este acontecimento ocorre de um animal para o ser humano define-se como uma zoonose. O contrário designa-se por antroponose. Dois termos igualmente bem explicados no livro.

Escrito em 2012, sim é verdade vai fazer 10 anos, Contágio não é um livro "oportunista" que vive do momento actual. Nessa altura avisava como a nossa relação destruidora e desrespeitosa para com os animais, com os seus habitats e ecossistemas, a desflorestação, as alterações climáticas potenciam cada vez mais a possibilidade de ocorrências de pandemias. De como trazemos, os vamos "buscar", os vírus até nós, até às nossas sociedades rápidas e globalizadas, às cidades evoluídas mas saturadas de gente.

Por ter sido escrito bem antes desta pandemia, houve uma actualização do livro com a introdução de um breve capítulo ao SARS-COv-2 numa altura em que, quer este, quer a doença, não tinham nome, sabendo-se apenas que era um coronavírus. 
De novo em 2012, Quammen avisava no seu livro que a próxima grande pandemia poderia ser causada por um coronavírus. E como também já ouvimos várias vezes pelas vozes de especialistas, pela forma abusiva e invasiva como nos relacionamos com o mundo natural, haverá mais para vir. Talvez ainda de uma forma mais destruidora para nós.

Ler Contágio é igualmente uma lição de humildade que a humanidade insiste em não querer aprender. Até ao dia...
Indo bem para além da entrada no segundo ano consecutivo da pandemia causada pelo SARS-COv-2, e sob qualquer circunstância, a sua leitura é imperdível.









quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Se os gatos desaparecessem do mundo - Genki Kawamura


Então o que seria? A minha vida ou os gatos? Naquele momento, não podia imaginar a minha vida sem o Repolho. Tinham passados quatro anos desde que a mãe morrera. O Repolho estivera sempre ao meu lado. Não podia eliminá-lo. Mas o que eu podia fazer?


Não fosse o título do livro - Se os Gatos Desaparecessem do Mundo - e não o teria comprado.
Mas com um título destes como não o fazer?

Conta a história de um carteiro que vive sozinho, com o seu querido gato Repolho por companhia, a quem de repente lhe é diagnosticado um tumor cerebral inoperável, grau 4, e lhe dão poucos dias de vida. Uma semana, mais concretamente.
Confrontado com a notícia, o carteiro de trinta anos decide fazer a habitual lista das últimas coisas a fazer antes de morrer.
É nesta altura que o Diabo surge e lhe propõe um negócio algo bizarro: por cada coisa que o carteiro fizer desaparecer do mundo, este ganha mais um dia de vida. 
Pensando que pode fazer desaparecer pequenas e inocentes coisas e com isso ganhar dias de vida até chegar a velho, o jovem aceita. Tratando-se do Diabo, naturalmente que a proposta feita não é tão inocente quanto isso. No entanto, dia a dia, uma a uma, o carteiro vai aceitando as propostas do Diabo, até que chega a um ponto em que percebe que há limites que não podem ser pisados.

Com base nesta proposta diabólica, claramente de inspiração faustiana, o autor deste romance, o japonês Genki Kawamura, leva-nos a reflectir sobre a morte, a perda e o relacionamento pessoal, a importância da reconciliação, sobre a relativização da relevância que damos aos objectos.

De leitura escorreita e fácil, o livro lê-se de rajada, uma tarde de sábado no meu caso. Coloca-nos sem dificuldade na pele do carteiro e leva-nos a pensar que faríamos, que decidiríamos, se estivéssemos na sua situação. 
Apesar de o título ser particularmente atraentes para "gateiros", o que explica o sucesso que teve no Japão, país que tem uma relação muito especial com os pequenos felinos, reduzir este livro só para esta pessoas é um profundo erro.









sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Kazuo Ishiguro - Nocturnos


Kazuo Ishiguro, escritor japonês nascido em Nagasaki que aos cinco anos foi viver para Londres, entrou na minha vida sem me ter apercebido de tal.

Em 1993, vi o filme Despojos do Dia. Um filme que quase vinte anos depois se mantém como um dos meus preferidos de sempre. Anthony Hopkins e Emma Thompson estão brilhantes nos seus papeis.
Pessoalmente, para estar presente perante um filme marcante, três aspectos, igualmente marcantes, têm que estar presentes: actores, realização e argumento.
Dos actores nada a dizer, a realização é de primeira grandeza por James Ivory, falta o argumento que na altura desconhecia. Ele foi adaptado por Ruth Prawer Jhabvala a partir da obra homónima de... Kazuo Ishiguro.
O livro Despojos do Dia foi escrito em 1989. Vinte e oito anos depois, em 2017, Ishiguro tornar-se-ia Nobel da Literatura.

Em 2019 compro Nocturnos já sabendo quem Kazuo Ishiguro era. Fi-lo mais para conhecer a obra do autor de Despojos do Dia do que por ser um Nobel. Li-o este ano passados quase dois anos após a sua compra.

Nocturnos, escrito em 2009, aborda e transversaliza em cinco contos, a vida, tendo a música por base, os dilemas, dúvidas e incertezas das várias (e frágeis) personagens que cruzam o livro.
Neste quinteto de contos, escritos de uma forma sempre delicada mas fácil de perceber e seguir, tal como o objectivo e estrutura musical de um nocturno, seguimos a vida e seus objectivos das mesmas - algumas cruzando alguns contos como a cantora Lindy Gardener - em que a música, a passagem do tempo, a ilusão e desejo do sucesso, a juventude e a maturidade da meia-idade nos coloca em situações em que a reflexão nos é induzida de uma forma sóbria e subtil.

São histórias, que nos remetem para uma certa intimidade dos personagens, narrados em primeira mão pelos próprios, quase sempre sob as cores escurecidas dos ambientes nocturnos e crepusculares. Nelas, seguimos um crooner que em Veneza contrata um guitarrista para o ajudar numa serenata, uma cantora mediocre e divorciada, mas que sabe o que precisa por parte dos seus maridos, um saxofonista cuja feiura o impede que atinja o reconhecimento e aceita uma cirurgia plástica, um violoncelista húngaro genial que é ajudado por uma bela e misteriosa mulher, mas que nunca tocou um violoncelo, a tornar-se anda mais genial.

Não é talvez um livro brilhante, e nem todos os livros de um Nobel da Literatura terão que o ser, mas é um livro despretensioso, agradável e fluido. O facto de serem contos ajuda muito a essa fluidez. Há um toque de humor e de melancolia, ambos não exagerados, que também estão presentes e que me agradam bastante.
Dos cinco contos, talvez escolha Faça Sol ou Faça Chuva - refere-se ao título da canção Come Rain or Come Shine que Ray Charles ajudou a popularizar - como o que mais me atraiu.
Conta a história de Raymond que visita dois amigos de liceu (Charlie e Emily), que vivem em Londres. Ele tem um objectivo e estratégia em mãos que Charlie lhe atribui: tornar-se tão falhado quanto possível para que aos olhos de Emily, Charlie, que entretanto se ausenta de casa, se torne alguém desejável. O jazz pontua aqui e ali este conto.

Nocturnos é fácil de ler e de aconselhar alguém a ler, sem problemas, um livro de um Nobel da Literatura que frequentemente associamos a obras densas e complexas. É um bom ponto de partida para partir à descoberta de Kazuo Ishiguro.
Quando puderem leiam e vejam Despojos do Dia. Ambos são imperdíveis.


A título de curiosidade, e já que estamos a falar sobre prémios Nobel da literatura, o deste ano foi atribuído ao escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah.
De acordo com a Academia Sueca tal deve-se "...pela pela sua capacidade de penetrar de forma intransigente mas também compassiva nos efeitos do colonialismo e nos destinos dos refugiados que estão num abismo entre culturas e continentes."




quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A Luz da Ásia de Edwin Arnold - de Siddhartha a Buda

Tal como ouvir música, adoro ler. Talvez sejam das coisas que mais gosto de fazer na vida.
O que mais me agrada, quer numa quer na outra, é a grande capacidade de nos transportarem para formas diferentes de verem o mundo, de o sentir, de o interpretarem, ou de o reinterpretar. Os temas a que se dedicam são tão vastos quanto aquilo que queiramos e a personalidade que neles é investida reflecte naturalmente a personalidade de quem neles coloca a sua alma e a sua experiência de vida

Acabei muito recentemente de ler As Notas de um Velho Nojento do alemão Charles Bukowski que nos faz mergulhar num obscuro, underground e desagradável sub-mundo dos excessos, dos vícios dos bares mal iluminados, do álcool, das apostas, das mulheres fáceis e das suas vidas desesperadas, forçadamente superficiais. 
Depois, logo a seguir, quase no imediato a este livro, li A Luz da Ásia. A diferença entre ambos dificilmente poderia ser maior.

A Luz da Ásia é escrito por Edwin Arnold, um poeta e jornalista Britânico, tendo sido chefe editor do Daily Telegraph durante várias décadas.
Se a literatura do alemão nos mergulha numa decadência muito física, a do britânico eleva o nosso espírito à luz. 
A Luz da Ásia, publicado pela primeira vez em 1879, retrata o percurso do príncipe indiano Siddartha, Gautama, filho da rainha Maya e do rei Suddhodana. Desde o seu muito auspicioso e nobre nascimento até ao momento final em que atinge o estado supremo da Luz e da Verdade ao tornar-se Buda.

Seguimos o seu percurso enquanto homem que nasce e casa com uma bela mulher (Yashodhara) da qual tem um filho (Rahula). Vive num opulento palácio rodeado das mais belas riquezas, num ambiente em que não há dor, tristeza ou sofrimento, isolado do mundo, até ao momento em que decide partir do seu palácio para contactar com a realidade que lhe era negada, sentindo um apelo, um chamamento e um dever para cumprir a missão para a qual sabe que nasceu: a procura da Verdade e da comunhão com o Universo, que será atingida ao encontrar-se primeiramente com a jovem Sujata de Senani e depois ao sentar-se e meditar debaixo da figueira sagrada bodhi em Bohd Gaya

Siddartha abdica da sua elevada casta, dos bens materiais que lhe toldam o espirito, para se tornar um mendigo, alguém que vive da comida que lhe oferecem numa tigela e que pratica a meditação como meio de alcançar, compreender e atingir a Luz.
No último capitulo, o oitavo, estamos na presença de Buda e assistimos em primeira mão ao seu sermão onde estabelece um caminho, a essência do budismo, para o homem normal poder igualmente alcançar o supremo: os Cinco Preceitos, as Quatro Nobres Verdades e o Caminho Óctuplo.

Todo livro é uma glorificação da vida física e espiritual (e lendária) de Siddartha. Para quem, como eu, o budismo faz todo o sentido e tem uma certa identificação com o mesmo, o livro é extremamente interessante. Tem um bom ritmo, sendo uma excelente introdução à religião budista, mas também à cultura (e mitologia) indiana, lendo-se de rajada. 
No fim percebemos o quanto é diferente a religião cristã do budismo. Se a primeira tem fundamentos na dor, no sofrimento, no castigo e na existência de um Deus e do seu filho, o budismo procura a compreensão, a verdade, o despojamento dos bens materiais, a protecção dos seres vivos e como tudo isto reside no interior de nós próprios e também por nós pode ser alcançado, sem requerer a presença ou adoração a um Deus, quebrando o ciclo das sucessivas reencarnações.

Uma curiosidade. Consta que o título inicial deste livro seria A Luz do Mundo, mas para não entrar em colisão com as fortes e enraizadas convicções cristãs da época, o título foi alterado para um mais aceitável e consensual Luz da Ásia. Cristianices...







segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Charles Bukowski - o mundo decadente de um escritor extraordinário


Introduzi-me no mundo de Charles Bukowski através do seu livro A Sul de Nenhum Norte.
Quando digo mundo, é de facto mundo. Na verdade, deveria dizer sub mundo.
Com Bukowski navegamos nas ruas sujas das cidades, nos empregos que duram um ou dois dias, das bebidas alcoólicas bebidas em excesso, rodeado de pessoas marginais, miseráveis e inevitavelmente perdidas na vida. Das prostitutas maltratadas, do sexo pelo sexo, do dinheiro fácil mas volátil das corridas de cavalos. Com ele, vivemos nas pensões baratas, em caves, em anexos e nos apartamentos quase imundos, mal iluminados e sem conforto, com senhorios e senhorias tão obscuras e desagradáveis como aquilo que por eles é alugado. 

A sua escrita é desabrida, decadente, crua, desbocada e coloquial. É feita de palavras obscenas, brutas mas realistas tal como a realidade que Charles Bukowski viveu.
Não é fácil gostar deste escritor e poeta nascido na Alemanha que aos três anos se mudou com os seu pais para os Estados Unidos. Mas uma vez gostando não há como não deixar de gostar e voltar várias vezes a Bukowski.

Depois de A Sul de Nenhum Norte, li Notas de Um Velho Nojento, talvez uma escrita mais "agressiva", desregrada e obscena que o anterior e comprei ontem o meu terceiro livro dele: Pulp. Pulp foi o seu último livro escrito e publicado em 1994, pouco antes de uma morte, vítima de leucemia, que já estava anunciada.

Pessoalmente, o meu livro favorito dele foi o primeiro que li, não há amor como o primeiro, diz-se. Vamos ver o que Pulp me trás. Mas acredito que ainda terei um quarto livro de Bukowski.

Todos estes três livros estão editados pela Alfaguara.










terça-feira, 4 de agosto de 2015

Platero e Eu



Platero e Eu.
Ou como a vida devia ser. Simples, ingénua, bonita, doce e colorida.

O paciente burrito Platero é o confidente do seu dono. Através de Platero. a vida dele e do seu dono, desdobra-se à frente dos nosso olhos.
As crianças e as suas brincadeiras, a cadela Diana, o canário asmático que morre, as cores das flores, borboletas, os pastos, os aromas, o sol e a lua.
Os dois sobem colinas, passam por trilhos, pelas árvores. pelas suas sombras e vão cruzando as estações do ano, enquanto filosofam com a sabedoria dos inocentes, sobre a vida, a morte, a beleza, a doença.


No fim, Platero morre. E há um vazio dentro de nós. Um choque.
Aquele burrito tornou-se parte de nós. Tornou-se igualmente o nosso confidente e amigo.
O seu dono dá-lhe um lugar num paraíso imaginado. Platero fica entre flores, como tinha passado toda a sua vida.

"Platero, haverá um paraíso de pássaros?"

É fácil apaixonar-nos por este livro. Pela sua simplicidade. Um pouco melancólico, com um traço de uma ligeira tristeza. Mas muito longe de ser um ou o outro.
Está repleto de ternura, de doçura. Está cheio de algodão.

É um livro de poesia escrito em prosa.
Cada poema, cada relato, cada capítulo é independente um do outro.
Mas não deve ser lido de rajada, de uma só vez como um livro normal. Tem que ser lido e saboreado.  Uns capítulos hoje, uns capítulos amanhã. É um livro gourmet.

Se os lermos com atenção. eles formam um todo, uma linha coerente. As vidas do dono e do burrito Platero estão profundamente interligadas. São extensoes um do outro.

É fácil apaixonar-nos por este livro. De nos encantar, de nos fazer querer ter um burrinho.
Há uns anos que li Platero e Eu e desde esse dia que tenho vontade ter um.
Um mirandês de olhos brilhantes, esperto, de focinho branco, orelhudo para eu poder sussurrar os meus segredos e abrir as minhas caixinhas para ele.

O autor Platero e Eu, é Juan Ramón Jiménez, um poeta espanhol. Ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1956.
Só podia.


"Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro. 
Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas...
Chamo-o docemente: “Platero”, e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir ."



quinta-feira, 23 de abril de 2015

dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (V)


Os livros podem ser divididos em 2 grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre. 
John Ruskin

Há um ano tinha pensado para este dia escrever sobre o último dos meus Grandes Cinco livros.
Os cinco livro mais importantes da minha vida. Os meus Eleitos.
Falta eleger o último, mas não em último, livro. Sempre tive uma certa hesitação sobre qual seria o meu quinto livro. Durante muito tempo o Castelo de Kafka estava entre este Magníficos. Mas...

A minha relação com Siddhartha é daquelas relações longas em que apenas sabemos da existência um do outro. Eu vejo-me e tu vês-me. Eu aqui, tu aí. Tudo bem. Dois desconhecidos que ao longo do tempo se cruzam ocasionalmente num autocarro, comboio ou na net.
Um dia descobrimos que gostamos os dois de livrarias e os encontros aumentam de frequência.
A curiosidade começa a aumentar e então cumprimentamo-nos e dizemos o nome um ao outro.

- Olá eu sou o Siddhartha. E tu?
- Oi. Eu sou o Pedro.
- Fixe. Um dia conversamos melhor. Já percebi que estás com pressa.
- Sim é verdade. Vemo-nos por aí. Gostei de te ver.

Algum tempo depois encontro-o mais uma vez numa livraria. Olho para ele com maior atenção e entabulamos uma curta conversa.

- Olá de novo, Siddhartha
- Pedro. Reconheci-te. Estás de novo com pressa?
- Nem por isso. Mas quero ir ver outras coisas aqui na livraria.
Mas posso falar contigo um pouco melhor. Diz-me, falas sobre quê?
- Humm... Do budismo, da Verdade, da Sabedoria, solidão, dor, descobertas, aprendizagem, amizade, arrogância e humildade.
- Isso é muita coisa ao mesmo tempo.
- Tens razão. Tens razão. Mas o Homem, a vida é tudo isto e muito mais. Acredita em mim.
- Não duvido disso Siddhartha. E és de que país?
- Índia
- Falaste de budismo. Identifico-me muito com o budismo. És budista?
- Sim. Sou. Mas não me reduzas apenas ao budismo.
Sou um homem budista que ao longo do seu percurso de vida, retirou ensinamentos sobre o que lhe foi acontecendo, acumulando sabedoria e evoluindo dessa forma até ao estádio final: a Harmonia com o mundo e o Universo. Torna-se Mundo e Universo simultaneamente.

Nesse dia comprei Siddharta do escritor alemão Hermann Hesse e vencedor do Nobel da Literatura de 1946. Sem saber, comprei um livro que se tornaria um dos meus Grandes Cinco. Nesse dia o Castelo foi destronado dos cinco eleitos. 
Dos Grandes Cinco este é talvez o livro mais difícil de explicar porque é um eleito para mim.
É um livro fortemente espiritual, mas sem aquela carga de "espiritualidade" que me faz fugir mais depressa que o diabo da cruz.
Faz-me recordar os poemas de Fernando Pessoa. Que ele os escreveu para mim.
É um que livro fala comigo, tem um diálogo comigo. Entra e permanece em mim. Vai para além da simples leitura.

Siddartha é um jovem da casta brâmane (a mais alta). É inteligente, bem parecido. Sábio e clarividente.
Todos o respeitavam pelas suas reflexões e conselhos. Dominava as artes da meditação, da contemplação, dos rituais. Siddartha era considerado um prodígio e o seu futuro não poderia ser nada menos que brilhante.
Mas algo dentro dele não lhe proporcionava a Luz que procura, o seu interior era inquieto, algo em si provocava-lhe uma insatisfação que o consumia, algo que lhe faltava.
Ele parte e vai à procura desse algo.

Esta busca, este trajecto de vida vai ocupar-lhe longos anos. Durante todo esse tempo Siddartha vai experimentar tudo. A vida.
Vai conhecer a fome, a pobreza e vai aprender com isso, vai conhecer a opulência, a riqueza, o amor, a experiência carnal, a traição e de novo vai aprender com isso. Vai conhecer a alegria de ter um filho, de sofrer por causa dele, sentir a angustia da separação, a dor excruciante de o perder e vai aprender com isso. Vai saber o que é perder a mulher amada, o que é orgulho e a humildade. O que é desdenhar e recuperar uma amizade sincera que não espera nada em troca. Homens que são apenas homens humildes e que por isso são grandiosos.

Siddharta descobre que o que lhe fazia falta, aquilo que mais precisava, era precisamente o que tinha experienciado ao longo do trajecto da sua vida: a Vida.
Tudo o que lhe aconteceu tinha um propósito. Ser um ensinamento, uma lição, uma possibilidade de evolução. De ver o todo em vez da fatia. Tinha que sair do casulo da casta Brâmane para descer ao homem comum.

Quando Siddhartha compreende isto, na simplicidade do correr de um rio e na companhia do velho barqueiro Vasudeva com quem tinha partilhado vários anos da sua vida, torna-se tudo.
Torna-se mundo, Universo, pedra, Deus, Buda. Ele torna-se Tudo e Tudo torna-se nele.
Atingiu a sabedoria universal, a paz, a serenidade, a Harmonia suprema, o Conhecimento. O OM.
O Nirvana.

Quando acabei de ler Siddhartha senti-me bem. Um pouco como ele, estava em paz com o mundo e sereno comigo próprio.

Qualquer um dos Grandes Cinco tem o poder de me fazerem perder neles e por isso encontrar-me neles.
Do meu ponto de vista esse é o poder supremo de um livro. De nos marcar, mudar a nossa vida, de nos ensinar a olhar o mundo à nossa volta de maneiras e perspectivas diferentes.
E caminhar connosco até ao final da nossa jornada.


"Mas hoje em dia penso: esta pedra é pedra, mas também animal, é também Deus, é também Buda, não a venero e amo por poder vir a tornar-se nisto ou naquilo, mas porque ela é tudo, há muito tempo e para sempre."

Siddhartha


terça-feira, 20 de maio de 2014

Passageiros em Trânsito



- Então isto é o fim?
- Não - respondeu-me Máximo sem perder o sorriso
- Não há fim. O que há são intervalos" diz Máximo.


Primeiro foi título, Passageiros em Trânsito, depois foi a sua capa, alguém a andar de bicicleta no que parecia ser um deserto. A impressão transmitida foi logo de espaço, liberdade, personagens em busca de algo.

Ao folhear o livro reparo que há uma escrita diferente nele. Há um exotismo que não se encontra noutros. A sua linguagem é colorida, pitoresca e até um tanto inusitada.
Nele encontrei vários países, Angola, Brasil, Espanha e Alemanha. Portanto... comprei o livro.

Passageiros em Trânsito é uma antologia de vinte contos, vinte fotografias do quotidiano, sem nenhuma ligação entre si que não seja a sua simplicidade narrativa e a necessidade e preocupação que as suas personagens sentem em encontrar, em procurar o seu Eu ou um Eu alternativo. Tendo essas mesmas personagens por base um passado forte e marcante. 
Tal como desejava o italiano Mauro no conto Sal e Esquecimento que queria fugir desse passado marcante numa fórmula de esquecer para ser esquecido.

O angolano José Eduardo Agualusa escreve os vinte contos, linearmente, sem complicar, numa despreocupação quase displicente de estes serem ou não verosímeis como por exemplo em O Homem sem Coração ou em K40.
O autor é desprendido de cada um deles. Apesar de nos atirar para dentro de cada um destes contos, fica aquela sensação curiosa que o autor por vezes está de fora deles. Mesmo quando escreve na primeira pessoa. 

É um livro que se lê de um trago até ao momento em que já não há mais páginas para virar.
Então percebemos que chegámos ao intervalo tal como disse Máximo na última linha, no último parágrafo do último conto de Passageiros em Trânsito. 


quarta-feira, 23 de abril de 2014

dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (IV)


Os livros podem ser divididos em 2 grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre. John Ruskin


A cor preta já desmaiada por quase três décadas em que ela foi escrita nas costas da capa, está a data de Feira do Livro 85. A edição é da Europa-América e o título do livro é A Ilíada de Homero.
Dentro dele costumava estar um conjunto de folhas tamanho A5 que constituía um pequeno mapa para me guiar ao longo da narrativa deste livro.

Quando li o livro pela primeira vez, pouco percebi dele, sabendo no entanto que o tinha adorado.
Lá dentro havia guerras, batalhas e duelos. Heróis e cobardes, actos de bravura e discursos inspiradores e inflamados dirigidos à coragem e aos feitos que serão lembrados pela história. Morte, violência, sangue derramado, glória, honra e desonra, sacrifício por companheiros de batalha e traições aos mesmos.
Tudo o que define a condição humana.

Havia deuses que apoiavam guerreiros dando-lhes ímpeto e força quando já nada lhes restava e outros deuses que por sua vez os distraiam com ardis e os faziam falhar os seus alvos.
Era deuses contra homens, homens contra deuses, homens contra homens e deuses que conspiravam contra outros deuses.

Assim é a Ilíada.
Um poema épico que descreve uma época e uma guerra meio histórica, meio lenda, que foi travada entre gregos e troianos e os diferentes povos que os apoiavam pondo em confronto os melhores e os piores homens que cada uma das partes tinha do seu lado.
Tudo porque um troiano, Páris, foi à Grécia para sequestrar e trazer consigo, Helena, a mulher do rei grego Menelau.
Este furioso, declara guerra a Tróia. Esta guerra durará dez longos anos e no fim os gregos saem vitoriosos e Tróia é destruída.

A narrativa é intensa. Somos mergulhados nela. Os combates são vívidos e intensos. Sente-se o pó no ar e nos corpos. O suor e os urros de quem só quer provocar a morte e a destruição do lado oposto.
É palpável a vontade e a determinação da batalhas. Sente-se a sua tensão. Ouve-se o ressoar do metal contra metal, das espadas contra os escudos. As feridas, os gritos que a dor provoca. O troar das patas dos cavalos que são dirigidos para o calor da refrega.
Quem assiste às batalhas tanto ulula de entusiasmo, incentivo com as vitórias como se queda muda, chocada, confrontada com a morte. Com a morte de um combatente ou de um familiar, filho de alguém.

É isto que caracteriza a Ilíada. Homero lança-nos para dentro do livro. Não só para as batalhas, como para os ambientes que as rodeia. Antes, durante e depois.
Para os descansos, para as conversas e definições de estratégias, para os barcos ancorados nas praias. Conta quais os papeis que as mulheres desempenharam quer na cidade de Tróia quer nos acampamentos gregos.

A Ilíada descreve quase até à exaustão as linhagens de cada um das muitas personagens que participam nesta guerra e de como elas influenciavam os seus comportamentos, assim como os deuses que influenciavam e conspiravam entre si sobre os desfechos de algumas das batalhas travadas.
Mostra-nos as tradições, a cultura, os costumes, as vestes, armas, armaduras e os seus rituais de quem combatia, quer estes fossem de vida ou de morte. Como choravam os mortos e os honravam, a maneira como partilhavam os espólios da guerra.

É um livro que venero e me marcou profundamente. Primeiro pela necessidade que tive em o perceber.
Por isso da segunda vez que li o livro, pouco tempo depois da primeira, fiz um pequeno mapa, tipo árvore genealógica. De um lado os troianos e os deuses que os favoreciam, do outro os gregos e os respectivos deuses que os protegiam.

Tracei as linhagens das principais personagens e os diferentes povos a que pertenciam, entre parêntesis coloquei qual o deus ou deuses que tinham a seu lado.
Esperei algum tempo para voltar a ler com a minha cábula. Da terceira vez que li fiquei deslumbrado com o livro que tinha nas minhas mãos.
Graças ele, passaram a interessar-me todas as grandes mitologias. A hindu, a egípcia, a nórdica e principalmente a greco-romana. Interesse e fascínio que ainda hoje sinto.
É raro o livro que passe pelos meus olhes e que aborde uma mitologia qualquer que não seja pelo menos folheado.

O seu "escritor", Homero, é ele próprio uma personagem lendária.
Ninguém sabe se ele existiu ou não, se sim em que cidade terá nascido e quando terá nascido. E se Homero será o seu nome verdadeiro.
Se foi ele que escreveu ou não a Ilíada e posteriormente a Odisseia. Há quem diga foram autores diferentes e que as duas obras estão separadas entre si várias décadas ou até séculos.
Há quem defenda que estas obras não foram escritas de raiz, mas sim a partir de histórias compiladas ao longo de séculos por contadores de histórias.
Homero através da Ilíada e da Odisseia é também considerado um dos pais da mitologia grega.

Toda esta névoa misteriosa que rodeia Homero, só torna a Ilíada mais misteriosa, mais "genuína" e mais fascinante para mim.
A Ilíada é um livro aos quadradinhos mas sem quadradinhos que faz mergulhar quem o lê, num mundo de culturas e hábitos distantes.
E para quem viu o filme Tróia de Wolfang Petersen, engane-se se pensa que viu algo parecido com a Ilíada. Comparado com o livro, o filme é um autêntico embuste, uma fraude.


Bem, o facto é que quase três décadas depois de o ter lido (e relido) ainda ando metido lá dentro dele. E não tenciono sair de lá.

terça-feira, 23 de abril de 2013

dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (III)


Os livros podem ser divididos em 2 grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre. 
John Ruskin


Há dois anos quando escrevi pela primeira vez sobre os Grandes Cinco, os cinco grandes livros da minha vida - o primeiro foi dedicado ao Contacto e o segundo ao Processo - afirmei que o Velho e o Mar era O Livro. Que era primus inter pares.
E é. Usualmente digo que é através de obras como O Velho e Mar que a humanidade se redime dos seus pecados, da sua face negra.

Quando pego nele, pego sempre com cuidado, com reverência, com adoração.
Não o costumo reler frequentemente, porque gosto sempre de me espantar com a sua magia.
Não é que ele a perca por ser lido várias vezes, eu sei que não a perderá, jamais a perderá, mas tenho medo de me habituar a ela, de a vulgarizar pela frequência, de deixar de me espantar e emocionar por ela.
É como uma música que ouvimos até à exaustão e um dia esquecemos que ela existe. Passa a pertencer ao passado.
Não quero que isso aconteça com O Velho e Mar. Quero que ele se eternize.

Há algo neste livro que me faz sentir carinho por ele, de sentir que ele me pertence.
Amo o velho (Santiago) e amo o peixe de um tamanho fora do comum. 
Amo a extenuante e longa luta deles pelas suas próprias sobrevivências, a determinação de ambos em o conseguir. A do peixe em fugir, a do velho em o apanhar. 

Amo o profundo e genuíno respeito e a admiração que o velho tem ao peixe. Emociono-me com o monólogo do velho com ele durante os vários dias, na solidão do barco e do oceano, que ele se defronta com o peixe e depois como o tenta proteger, quando ele finalmente o apanha, de um ataque de tubarões.
São dignos um do outro. São duas forças da natureza.

O Velho e o Mar está cheio de poesia, de amor, de emoção. De magia.




segunda-feira, 23 de abril de 2012

dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (II)


Os livros podem ser divididos em 2 grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre. 
John Ruskin


Tive a sorte de entrar no sui generis mundo de Franz Kafka da melhor maneira possível. Lendo a Metamorfose.
Se a entrada tivesse sido feita por qualquer outro livro dele, provavelmente a esta hora O Processo não seria um dos Grandes Cinco da minha vida.

A Metamorfose é um livro "levezinho". Quem gostar deste livro arrisco-me a dizer que gosta de Kafka. Todas as características dele estão presentes.
O absurdo da situação, a impessoalidade e desumanização do ambiente que o rodeia, alterações de comportamentos, conflitos existenciais, a solidão, o que fazer e para onde ir.

Depois de se gostar de Metamorfose pode-se partir para as outras obras kafkianas. Foi o que fiz. O Processo foi o segundo livro que li dele.

O Processo conta a história de um individuo chamado Joseph K que a determinado ponto da sua vida é processado.
Joseph é bancário. Tem uma boa posição, é dedicado e é um funcionário exemplar.
Na manhã em que faz 30 anos ele é preso.

Desconhece em absoluto o porquê da sua prisão.
Ao longo do todo o livro, o processo, Joseph é julgado, é acusado, tem testemunhas de acusação, mas nunca em momento algum ele sabe porquê ou o que terá feito. Joseph K nunca terá acesso ao processo ou saberá em que se fundamenta.

Contrata um advogado para o defender daquilo que ele não sabe, mas sem sucesso porque o advogado está desinteressado do seu caso. A dado momento chega a acreditar na sua culpa, que fez algo que não devia e que até merece o que lhe está acontecer.

No fim, Joseph K que lutou contra o desconhecido, contra os tentáculos do próprio tribunal, muitas das pessoas que ele contacta ao longo do livro acabam por estarem directa ou indirectamente associadas ao tribunal, é sentenciado e executado com uma faca enterrada no coração.
Ele está cansado e resignado. Está destruído. Desiste de lutar e aceita o seu destino oferecendo-se aos seus algozes.

A morte de Joseph K nestas condições choca-me porque ele morre no desconhecimento, mas também incomoda e causa ansiedade porque o livro ficou em aberto. Não tem fim. O fim natural do livro seria saber o que aconteceu a Joseph. O que obviamente é coisa que nunca saberemos.

Quando acabamos de ler O Processo há desconforto no nosso interior, um certo travo amargo na boca.
É fácil reconhecer o seu desespero. Os corredores infindos e inúteis da justiça, a burocracia sem fim e também ela inútil, o aparente desconhecimento do que se fala ou se quer falar com quem se fala, o esforço quase vão de lutar contra os entraves que sistema coloca à nossa frente.
Vamos perder tempo em ambientes pesados, sufocantes e claustrofóbicos, vamos enredar-nos em guichets impessoais de funcionários desinteressados, não vamos ter o nosso caso resolvido ou com sorte ficará mal resolvido.

Muitas serão as vezes em que desistiremos e tal como Joseph K seremos alienados e burocraticamente executados com o nosso consentimento.


sábado, 23 de abril de 2011

dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (I)


Os livros podem ser divididos em 2 grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre. 
John Ruskin

É frequente perguntarem-me qual o livro ou quais os livros que mais gostei de ler até ao momento.
É uma resposta fácil e sem hesitação: O Velho e o Mar de Ernest Hemingway.

Ao longos dos anos fui construindo uma lista com os Grandes Cinco livros da minha vida.
O Velho e o Mar de Ernest Hemingway encabeça essa lista desde que o li. Foi paixão à primeira leitura. É primus inter pares, é o meu mais que tudo dos livros.
É O livro.

Mas hoje, no dia mundial do Livro, prefiro mencionar o primeiro livro que que entrou para essa lista, o livro que a iniciou. Contacto de Carl Sagan. 
É um dos livros que mais me marcaram e me influenciaram até hoje. Aprendi imenso com ele.

Tenho-o desde a feira do livro de 1986. Releio-o com alguma frequência, mantendo sempre a mesma sensação de descoberta e fascínio que tive desde a primeira vez.

Contacto é extraordinário. Na essência aborda uma questão, de uma maneira muito plausível e bem fundamentada, que muitos de nós - e eu como um crente estou incluído - gostaria de ver concretizada. A descoberta de que nós não estamos sozinhos no Universo e que uma civilização extra-terrestre tenta contactar connosco.

Partindo deste tema, Contacto põe duas áreas aparentemente antagonistas em diálogo e em aparente confronto. A ciência com a religião, a fé com a razão. Duas maneiras distintas de ver, entender e procurar o conhecimento. 
No final, nenhuma delas se sobrepõe. Cada uma contém em si o gérmen da outra, um yin e yang do conhecimento.

Os paladinos destas duas distintas abordagens no fim, encontram um no outro o necessário apoio e uma outra forma de contacto.Joss Palmer, o personagem que encarna a teologia, admite o valor do conhecimento que a ciência pode trazer.
Por sua vez Ellie, a cientista, descobre que a crença inabalável que deposita na ciência não lhe proporciona o refúgio que tanto necessita e até precisa.

Desde esse já longínquo ano de 1986 que percebo que religião e ciência não andam tão afastadas quanto isso. 
Mas à medida que a ciência avança vai deixando menos espaço para a religião. Mas também ambas partilham um conceito que lhes é querido, A fé, a crença.
Relativamente à primeira, a ciência, essa crença é provada e não dogmática. 
É tangível e escrutinada.