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domingo, 23 de abril de 2023
sábado, 23 de abril de 2022
dia mundial do Livro II
Uma visão de uma prateleira cheia de livros é um autêntica e bela visão.
No meu caso compro mais livros do que aqueles que vou lendo. Vai ser sempre assim.
Tsundoku, chamam-lhe os japoneses 😉
Tsundoku, chamam-lhe os japoneses 😉
dia mundial do Livro I
O dia mundial do Livro é um dos mais bonitos do calendário. E claramente um dos dias mais desperdiçados também. O telemóvel, os jogos, as redes sociais vieram arrasar com o hábito de leitura.
Mas as livrarias também têm o seu quê de culpa no cartório. Não fomentam a leitura por muito que usem cartão de pontos ou acenem com descontos aqui e ali.
Uma livraria da Bertrand, uma referência livreira, é um repositório de livros empilhados e acumulados por todo lado sem aparente organização, sem que um leitor seja capaz de navegar por ela de uma forma intuitiva. Se procuro um título ou um autor especifico não me dou ao trabalho de cirandar no seu interior. Falo com um empregado que me leva à respectiva prateleira ou me diz onde eu o encontrar.
A quantidade de literatura cor de rosa e de best sellers é abismal. Na verdade não gosto de entrar numa Bertrand.
A Almedina é uma livraria onde os livros são mais bem tratados. Prateleiras bem organizadas, livros catalogados, fácil de encontrar livros técnicos e especializados, títulos clássicos e autores reconhecidos mais pela forma como escrevem e pelo seu conteúdo do que pela quantidade que vendem.
Na FNAC, a quantidade de títulos disponíveis é enorme. Mas é um algures. Situa-se algures entre uma Bertrand e uma Almedina. Algures entre o empilhamento e a catalogação. Algures entre best sellers e livros de conteúdo, algures entre a literatura cor de rosa e os livros técnicos, algures entre a auto-ajuda e os livros de viagens.
Dá para cirandar pela sua secção livreira com espaço e tempo sem ter que afastar excessivamente livros um dos outros ou andar aos encontrões com outras pessoas, algo que gosto muito.
Os escritores de língua portuguesa estão presentes e bem representados.
Os hipermercados, por pedantismo e elitismo, não os considero um grande lugar para comprar livros. Onde se encontra peixe, carne, artigos de higiene, congelados, vegetais, etc..., etc..., não é garantidamente o melhor lugar para eles. Falta-lhe o cheiro a papel dos livros. Falta-lhe critério. Ou melhor, ele existe: a literatura cor de rosa e a auto-ajuda. No entanto cumprem uma função importante: para quem vai às compras não é difícil colocar um livro no carrinho, resolver uma prenda num acto rápido e despretensioso, seguir um impulso de uma leitura simples e pouco exigente.
No que me diz respeito, este ano tem sido um ano de saborosa e diversificada leitura. Entre a escrita decadente de Bukowski à elegância estilística de Hesse e de Calvino. Entre a divulgação científica de Quammen, Fagan e Kolbert até à investigação da vida de um meteorologista que aborda o Holodomor, a grande fome estalinista do início da década 30 do século passado.
Neste dia mundial do Livro, comprem uns quantos, seja que género for e onde for. É um dos melhores gestos consumistas que uma pessoa pode fazer por ela própria e pelos outros.
Pessoalmente, adoro livros 📖
sexta-feira, 23 de abril de 2021
quinta-feira, 23 de abril de 2020
dia mundial do Livro
Bill Gates
Nestes longos tempos de quarentena e de consecutivos estados de emergência, passei de facto, ao contrário do que é normal, bastante tempo pelas redes sociais, mas foi com um livro na mão (e um bom cd de jazz a tocar) que passei e estou a passar da melhor forma estes mesmos tempos.
E estes dois cartoons, para ilustrar um dos dias mundiais mais importantes para mim ao longo do ano, ilustram o quanto as redes sociais podem ser um mar de escolhos mas ao mesmo tempo viciantes.
Ter um bom livro nas mãos é das coisas mais saudáveis e construtivas que podemos fazer nos tempos que correm e que hão de correr.
segunda-feira, 23 de abril de 2018
uma palavra japonesa no dia mundial do Livro
Há uma palavra maravilhosa que os japonese utilizam no que respeita a livros: tsundoku.
É uma daquelas palavras que supostamente não têm tradução. Claro que têm a questão é que é necessário expressar em várias palavras um conceito que é resumido numa única.
É o acto de comprar livros que dificilmente serão lidos, mas que depois de comprados são empilhados no chão, numa prateleira, ou em cima de uma peça de imobiliário.
Tsundoku, poderia ser o meu nome.
Ou em alternativa...
domingo, 23 de abril de 2017
sábado, 23 de abril de 2016
quinta-feira, 23 de abril de 2015
dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (V)
Os livros podem ser divididos em 2 grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre.
John Ruskin
Há um ano tinha pensado para este dia escrever sobre o último dos meus Grandes Cinco livros.
Os cinco livro mais importantes da minha vida. Os meus Eleitos.
Falta eleger o último, mas não em último, livro. Sempre tive uma certa hesitação sobre qual seria o meu quinto livro. Durante muito tempo o Castelo de Kafka estava entre este Magníficos. Mas...
A minha relação com Siddhartha é daquelas relações longas em que apenas sabemos da existência um do outro. Eu vejo-me e tu vês-me. Eu aqui, tu aí. Tudo bem. Dois desconhecidos que ao longo do tempo se cruzam ocasionalmente num autocarro, comboio ou na net.
Há um ano tinha pensado para este dia escrever sobre o último dos meus Grandes Cinco livros.Os cinco livro mais importantes da minha vida. Os meus Eleitos.
Falta eleger o último, mas não em último, livro. Sempre tive uma certa hesitação sobre qual seria o meu quinto livro. Durante muito tempo o Castelo de Kafka estava entre este Magníficos. Mas...
A minha relação com Siddhartha é daquelas relações longas em que apenas sabemos da existência um do outro. Eu vejo-me e tu vês-me. Eu aqui, tu aí. Tudo bem. Dois desconhecidos que ao longo do tempo se cruzam ocasionalmente num autocarro, comboio ou na net.
Um dia descobrimos que gostamos os dois de livrarias e os encontros aumentam de frequência.
A curiosidade começa a aumentar e então cumprimentamo-nos e dizemos o nome um ao outro.
- Olá eu sou o Siddhartha. E tu?
- Oi. Eu sou o Pedro.
- Fixe. Um dia conversamos melhor. Já percebi que estás com pressa.
- Sim é verdade. Vemo-nos por aí. Gostei de te ver.
Algum tempo depois encontro-o mais uma vez numa livraria. Olho para ele com maior atenção e entabulamos uma curta conversa.
- Olá de novo, Siddhartha
- Pedro. Reconheci-te. Estás de novo com pressa?
- Nem por isso. Mas quero ir ver outras coisas aqui na livraria.
Mas posso falar contigo um pouco melhor. Diz-me, falas sobre quê?
- Humm... Do budismo, da Verdade, da Sabedoria, solidão, dor, descobertas, aprendizagem, amizade, arrogância e humildade.
- Isso é muita coisa ao mesmo tempo.
- Tens razão. Tens razão. Mas o Homem, a vida é tudo isto e muito mais. Acredita em mim.
- Não duvido disso Siddhartha. E és de que país?
- Índia
- Falaste de budismo. Identifico-me muito com o budismo. És budista?
- Sim. Sou. Mas não me reduzas apenas ao budismo.
Sou um homem budista que ao longo do seu percurso de vida, retirou ensinamentos sobre o que lhe foi acontecendo, acumulando sabedoria e evoluindo dessa forma até ao estádio final: a Harmonia com o mundo e o Universo. Torna-se Mundo e Universo simultaneamente.
Nesse dia comprei Siddharta do escritor alemão Hermann Hesse e vencedor do Nobel da Literatura de 1946. Sem saber, comprei um livro que se tornaria um dos meus Grandes Cinco. Nesse dia o Castelo foi destronado dos cinco eleitos.
Dos Grandes Cinco este é talvez o livro mais difícil de explicar porque é um eleito para mim.
É um livro fortemente espiritual, mas sem aquela carga de "espiritualidade" que me faz fugir mais depressa que o diabo da cruz.
Faz-me recordar os poemas de Fernando Pessoa. Que ele os escreveu para mim.
É um que livro fala comigo, tem um diálogo comigo. Entra e permanece em mim. Vai para além da simples leitura.
Siddartha é um jovem da casta brâmane (a mais alta). É inteligente, bem parecido. Sábio e clarividente.
Todos o respeitavam pelas suas reflexões e conselhos. Dominava as artes da meditação, da contemplação, dos rituais. Siddartha era considerado um prodígio e o seu futuro não poderia ser nada menos que brilhante.
Mas algo dentro dele não lhe proporcionava a Luz que procura, o seu interior era inquieto, algo em si provocava-lhe uma insatisfação que o consumia, algo que lhe faltava.
Ele parte e vai à procura desse algo.
Esta busca, este trajecto de vida vai ocupar-lhe longos anos. Durante todo esse tempo Siddartha vai experimentar tudo. A vida.
Vai conhecer a fome, a pobreza e vai aprender com isso, vai conhecer a opulência, a riqueza, o amor, a experiência carnal, a traição e de novo vai aprender com isso. Vai conhecer a alegria de ter um filho, de sofrer por causa dele, sentir a angustia da separação, a dor excruciante de o perder e vai aprender com isso. Vai saber o que é perder a mulher amada, o que é orgulho e a humildade. O que é desdenhar e recuperar uma amizade sincera que não espera nada em troca. Homens que são apenas homens humildes e que por isso são grandiosos.
Siddharta descobre que o que lhe fazia falta, aquilo que mais precisava, era precisamente o que tinha experienciado ao longo do trajecto da sua vida: a Vida.
Tudo o que lhe aconteceu tinha um propósito. Ser um ensinamento, uma lição, uma possibilidade de evolução. De ver o todo em vez da fatia. Tinha que sair do casulo da casta Brâmane para descer ao homem comum.
Quando Siddhartha compreende isto, na simplicidade do correr de um rio e na companhia do velho barqueiro Vasudeva com quem tinha partilhado vários anos da sua vida, torna-se tudo.
Torna-se mundo, Universo, pedra, Deus, Buda. Ele torna-se Tudo e Tudo torna-se nele.
Atingiu a sabedoria universal, a paz, a serenidade, a Harmonia suprema, o Conhecimento. O OM.
O Nirvana.
Quando acabei de ler Siddhartha senti-me bem. Um pouco como ele, estava em paz com o mundo e sereno comigo próprio.
Qualquer um dos Grandes Cinco tem o poder de me fazerem perder neles e por isso encontrar-me neles.
Do meu ponto de vista esse é o poder supremo de um livro. De nos marcar, mudar a nossa vida, de nos ensinar a olhar o mundo à nossa volta de maneiras e perspectivas diferentes.
E caminhar connosco até ao final da nossa jornada.
"Mas hoje em dia penso: esta pedra é pedra, mas também animal, é também Deus, é também Buda, não a venero e amo por poder vir a tornar-se nisto ou naquilo, mas porque ela é tudo, há muito tempo e para sempre."
A curiosidade começa a aumentar e então cumprimentamo-nos e dizemos o nome um ao outro.
- Olá eu sou o Siddhartha. E tu?
- Oi. Eu sou o Pedro.
- Fixe. Um dia conversamos melhor. Já percebi que estás com pressa.
- Sim é verdade. Vemo-nos por aí. Gostei de te ver.
Algum tempo depois encontro-o mais uma vez numa livraria. Olho para ele com maior atenção e entabulamos uma curta conversa.
- Olá de novo, Siddhartha
- Pedro. Reconheci-te. Estás de novo com pressa?
- Nem por isso. Mas quero ir ver outras coisas aqui na livraria.
Mas posso falar contigo um pouco melhor. Diz-me, falas sobre quê?
- Humm... Do budismo, da Verdade, da Sabedoria, solidão, dor, descobertas, aprendizagem, amizade, arrogância e humildade.
- Isso é muita coisa ao mesmo tempo.
- Tens razão. Tens razão. Mas o Homem, a vida é tudo isto e muito mais. Acredita em mim.
- Não duvido disso Siddhartha. E és de que país?
- Índia
- Falaste de budismo. Identifico-me muito com o budismo. És budista?
- Sim. Sou. Mas não me reduzas apenas ao budismo.
Sou um homem budista que ao longo do seu percurso de vida, retirou ensinamentos sobre o que lhe foi acontecendo, acumulando sabedoria e evoluindo dessa forma até ao estádio final: a Harmonia com o mundo e o Universo. Torna-se Mundo e Universo simultaneamente.
Nesse dia comprei Siddharta do escritor alemão Hermann Hesse e vencedor do Nobel da Literatura de 1946. Sem saber, comprei um livro que se tornaria um dos meus Grandes Cinco. Nesse dia o Castelo foi destronado dos cinco eleitos.
Dos Grandes Cinco este é talvez o livro mais difícil de explicar porque é um eleito para mim.
É um livro fortemente espiritual, mas sem aquela carga de "espiritualidade" que me faz fugir mais depressa que o diabo da cruz.
Faz-me recordar os poemas de Fernando Pessoa. Que ele os escreveu para mim.
É um que livro fala comigo, tem um diálogo comigo. Entra e permanece em mim. Vai para além da simples leitura.
Siddartha é um jovem da casta brâmane (a mais alta). É inteligente, bem parecido. Sábio e clarividente.
Todos o respeitavam pelas suas reflexões e conselhos. Dominava as artes da meditação, da contemplação, dos rituais. Siddartha era considerado um prodígio e o seu futuro não poderia ser nada menos que brilhante.
Mas algo dentro dele não lhe proporcionava a Luz que procura, o seu interior era inquieto, algo em si provocava-lhe uma insatisfação que o consumia, algo que lhe faltava.
Ele parte e vai à procura desse algo.
Esta busca, este trajecto de vida vai ocupar-lhe longos anos. Durante todo esse tempo Siddartha vai experimentar tudo. A vida.
Vai conhecer a fome, a pobreza e vai aprender com isso, vai conhecer a opulência, a riqueza, o amor, a experiência carnal, a traição e de novo vai aprender com isso. Vai conhecer a alegria de ter um filho, de sofrer por causa dele, sentir a angustia da separação, a dor excruciante de o perder e vai aprender com isso. Vai saber o que é perder a mulher amada, o que é orgulho e a humildade. O que é desdenhar e recuperar uma amizade sincera que não espera nada em troca. Homens que são apenas homens humildes e que por isso são grandiosos.
Siddharta descobre que o que lhe fazia falta, aquilo que mais precisava, era precisamente o que tinha experienciado ao longo do trajecto da sua vida: a Vida.
Tudo o que lhe aconteceu tinha um propósito. Ser um ensinamento, uma lição, uma possibilidade de evolução. De ver o todo em vez da fatia. Tinha que sair do casulo da casta Brâmane para descer ao homem comum.
Quando Siddhartha compreende isto, na simplicidade do correr de um rio e na companhia do velho barqueiro Vasudeva com quem tinha partilhado vários anos da sua vida, torna-se tudo.
Torna-se mundo, Universo, pedra, Deus, Buda. Ele torna-se Tudo e Tudo torna-se nele.
Atingiu a sabedoria universal, a paz, a serenidade, a Harmonia suprema, o Conhecimento. O OM.
O Nirvana.
Quando acabei de ler Siddhartha senti-me bem. Um pouco como ele, estava em paz com o mundo e sereno comigo próprio.
Qualquer um dos Grandes Cinco tem o poder de me fazerem perder neles e por isso encontrar-me neles.
Do meu ponto de vista esse é o poder supremo de um livro. De nos marcar, mudar a nossa vida, de nos ensinar a olhar o mundo à nossa volta de maneiras e perspectivas diferentes.
E caminhar connosco até ao final da nossa jornada.
"Mas hoje em dia penso: esta pedra é pedra, mas também animal, é também Deus, é também Buda, não a venero e amo por poder vir a tornar-se nisto ou naquilo, mas porque ela é tudo, há muito tempo e para sempre."
Siddhartha
quarta-feira, 23 de abril de 2014
dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (IV)
A cor preta já desmaiada por quase três décadas em que ela foi escrita nas costas da capa, está a data de Feira do Livro 85. A edição é da Europa-América e o título do livro é A Ilíada de Homero.
Dentro dele costumava estar um conjunto de folhas tamanho A5 que constituía um pequeno mapa para me guiar ao longo da narrativa deste livro.
Quando li o livro pela primeira vez, pouco percebi dele, sabendo no entanto que o tinha adorado.
Lá dentro havia guerras, batalhas e duelos. Heróis e cobardes, actos de bravura e discursos inspiradores e inflamados dirigidos à coragem e aos feitos que serão lembrados pela história. Morte, violência, sangue derramado, glória, honra e desonra, sacrifício por companheiros de batalha e traições aos mesmos.
Tudo o que define a condição humana.
Havia deuses que apoiavam guerreiros dando-lhes ímpeto e força quando já nada lhes restava e outros deuses que por sua vez os distraiam com ardis e os faziam falhar os seus alvos.
Era deuses contra homens, homens contra deuses, homens contra homens e deuses que conspiravam contra outros deuses.
Assim é a Ilíada.
Um poema épico que descreve uma época e uma guerra meio histórica, meio lenda, que foi travada entre gregos e troianos e os diferentes povos que os apoiavam pondo em confronto os melhores e os piores homens que cada uma das partes tinha do seu lado.
Tudo porque um troiano, Páris, foi à Grécia para sequestrar e trazer consigo, Helena, a mulher do rei grego Menelau.
Este furioso, declara guerra a Tróia. Esta guerra durará dez longos anos e no fim os gregos saem vitoriosos e Tróia é destruída.
A narrativa é intensa. Somos mergulhados nela. Os combates são vívidos e intensos. Sente-se o pó no ar e nos corpos. O suor e os urros de quem só quer provocar a morte e a destruição do lado oposto.
É palpável a vontade e a determinação da batalhas. Sente-se a sua tensão. Ouve-se o ressoar do metal contra metal, das espadas contra os escudos. As feridas, os gritos que a dor provoca. O troar das patas dos cavalos que são dirigidos para o calor da refrega.
Quem assiste às batalhas tanto ulula de entusiasmo, incentivo com as vitórias como se queda muda, chocada, confrontada com a morte. Com a morte de um combatente ou de um familiar, filho de alguém.
É isto que caracteriza a Ilíada. Homero lança-nos para dentro do livro. Não só para as batalhas, como para os ambientes que as rodeia. Antes, durante e depois.Para os descansos, para as conversas e definições de estratégias, para os barcos ancorados nas praias. Conta quais os papeis que as mulheres desempenharam quer na cidade de Tróia quer nos acampamentos gregos.
A Ilíada descreve quase até à exaustão as linhagens de cada um das muitas personagens que participam nesta guerra e de como elas influenciavam os seus comportamentos, assim como os deuses que influenciavam e conspiravam entre si sobre os desfechos de algumas das batalhas travadas.
Mostra-nos as tradições, a cultura, os costumes, as vestes, armas, armaduras e os seus rituais de quem combatia, quer estes fossem de vida ou de morte. Como choravam os mortos e os honravam, a maneira como partilhavam os espólios da guerra.
É um livro que venero e me marcou profundamente. Primeiro pela necessidade que tive em o perceber.
Por isso da segunda vez que li o livro, pouco tempo depois da primeira, fiz um pequeno mapa, tipo árvore genealógica. De um lado os troianos e os deuses que os favoreciam, do outro os gregos e os respectivos deuses que os protegiam.
Tracei as linhagens das principais personagens e os diferentes povos a que pertenciam, entre parêntesis coloquei qual o deus ou deuses que tinham a seu lado.
Esperei algum tempo para voltar a ler com a minha cábula. Da terceira vez que li fiquei deslumbrado com o livro que tinha nas minhas mãos.
Graças ele, passaram a interessar-me todas as grandes mitologias. A hindu, a egípcia, a nórdica e principalmente a greco-romana. Interesse e fascínio que ainda hoje sinto.
É raro o livro que passe pelos meus olhes e que aborde uma mitologia qualquer que não seja pelo menos folheado.
O seu "escritor", Homero, é ele próprio uma personagem lendária.
Ninguém sabe se ele existiu ou não, se sim em que cidade terá nascido e quando terá nascido. E se Homero será o seu nome verdadeiro.
Se foi ele que escreveu ou não a Ilíada e posteriormente a Odisseia. Há quem diga foram autores diferentes e que as duas obras estão separadas entre si várias décadas ou até séculos.
Há quem defenda que estas obras não foram escritas de raiz, mas sim a partir de histórias compiladas ao longo de séculos por contadores de histórias.
Homero através da Ilíada e da Odisseia é também considerado um dos pais da mitologia grega.
Toda esta névoa misteriosa que rodeia Homero, só torna a Ilíada mais misteriosa, mais "genuína" e mais fascinante para mim.
A Ilíada é um livro aos quadradinhos mas sem quadradinhos que faz mergulhar quem o lê, num mundo de culturas e hábitos distantes.
E para quem viu o filme Tróia de Wolfang Petersen, engane-se se pensa que viu algo parecido com a Ilíada. Comparado com o livro, o filme é um autêntico embuste, uma fraude.
Bem, o facto é que quase três décadas depois de o ter lido (e relido) ainda ando metido lá dentro dele. E não tenciono sair de lá.
terça-feira, 23 de abril de 2013
dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (III)
Os livros podem ser divididos em 2 grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre.
John Ruskin
Há dois anos quando escrevi pela primeira vez sobre os Grandes Cinco, os cinco grandes livros da minha vida - o primeiro foi dedicado ao Contacto e o segundo ao Processo - afirmei que o Velho e o Mar era O Livro. Que era primus inter pares.
E é. Usualmente digo que é através de obras como O Velho e Mar que a humanidade se redime dos seus pecados, da sua face negra.
Não o costumo reler frequentemente, porque gosto sempre de me espantar com a sua magia.
Não é que ele a perca por ser lido várias vezes, eu sei que não a perderá, jamais a perderá, mas tenho medo de me habituar a ela, de a vulgarizar pela frequência, de deixar de me espantar e emocionar por ela.
É como uma música que ouvimos até à exaustão e um dia esquecemos que ela existe. Passa a pertencer ao passado.
Não quero que isso aconteça com O Velho e Mar. Quero que ele se eternize.
Há algo neste livro que me faz sentir carinho por ele, de sentir que ele me pertence.
Amo o velho (Santiago) e amo o peixe de um tamanho fora do comum.
Amo a extenuante e longa luta deles pelas suas próprias sobrevivências, a determinação de ambos em o conseguir. A do peixe em fugir, a do velho em o apanhar.
Amo o profundo e genuíno respeito e a admiração que o velho tem ao peixe. Emociono-me com o monólogo do velho com ele durante os vários dias, na solidão do barco e do oceano, que ele se defronta com o peixe e depois como o tenta proteger, quando ele finalmente o apanha, de um ataque de tubarões.
São dignos um do outro. São duas forças da natureza.
O Velho e o Mar está cheio de poesia, de amor, de emoção. De magia.
O Velho e o Mar está cheio de poesia, de amor, de emoção. De magia.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (II)
Os livros podem ser divididos em 2 grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre.
John Ruskin
Se a entrada tivesse sido feita por qualquer outro livro dele, provavelmente a esta hora O Processo não seria um dos Grandes Cinco da minha vida.
A Metamorfose é um livro "levezinho". Quem gostar deste livro arrisco-me a dizer que gosta de Kafka. Todas as características dele estão presentes.
O absurdo da situação, a impessoalidade e desumanização do ambiente que o rodeia, alterações de comportamentos, conflitos existenciais, a solidão, o que fazer e para onde ir.
Depois de se gostar de Metamorfose pode-se partir para as outras obras kafkianas. Foi o que fiz. O Processo foi o segundo livro que li dele.
O Processo conta a história de um individuo chamado Joseph K que a determinado ponto da sua vida é processado.Joseph é bancário. Tem uma boa posição, é dedicado e é um funcionário exemplar.
Na manhã em que faz 30 anos ele é preso.
Desconhece em absoluto o porquê da sua prisão.
Ao longo do todo o livro, o processo, Joseph é julgado, é acusado, tem testemunhas de acusação, mas nunca em momento algum ele sabe porquê ou o que terá feito. Joseph K nunca terá acesso ao processo ou saberá em que se fundamenta.
Contrata um advogado para o defender daquilo que ele não sabe, mas sem sucesso porque o advogado está desinteressado do seu caso. A dado momento chega a acreditar na sua culpa, que fez algo que não devia e que até merece o que lhe está acontecer.
No fim, Joseph K que lutou contra o desconhecido, contra os tentáculos do próprio tribunal, muitas das pessoas que ele contacta ao longo do livro acabam por estarem directa ou indirectamente associadas ao tribunal, é sentenciado e executado com uma faca enterrada no coração.
Ele está cansado e resignado. Está destruído. Desiste de lutar e aceita o seu destino oferecendo-se aos seus algozes.
A morte de Joseph K nestas condições choca-me porque ele morre no desconhecimento, mas também incomoda e causa ansiedade porque o livro ficou em aberto. Não tem fim. O fim natural do livro seria saber o que aconteceu a Joseph. O que obviamente é coisa que nunca saberemos.
Quando acabamos de ler O Processo há desconforto no nosso interior, um certo travo amargo na boca.
É fácil reconhecer o seu desespero. Os corredores infindos e inúteis da justiça, a burocracia sem fim e também ela inútil, o aparente desconhecimento do que se fala ou se quer falar com quem se fala, o esforço quase vão de lutar contra os entraves que sistema coloca à nossa frente.
Vamos perder tempo em ambientes pesados, sufocantes e claustrofóbicos, vamos enredar-nos em guichets impessoais de funcionários desinteressados, não vamos ter o nosso caso resolvido ou com sorte ficará mal resolvido.
Muitas serão as vezes em que desistiremos e tal como Joseph K seremos alienados e burocraticamente executados com o nosso consentimento.
sábado, 23 de abril de 2011
dia mundial do Livro - Os Grandes Cinco (I)
Os livros podem ser divididos em 2 grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre.
John Ruskin
É frequente perguntarem-me qual o livro ou quais os livros que mais gostei de ler até ao momento.
John Ruskin
É frequente perguntarem-me qual o livro ou quais os livros que mais gostei de ler até ao momento.
É uma resposta fácil e sem hesitação: O Velho e o Mar de Ernest Hemingway.
Ao longos dos anos fui construindo uma lista com os Grandes Cinco livros da minha vida.
O Velho e o Mar de Ernest Hemingway encabeça essa lista desde que o li. Foi paixão à primeira leitura. É primus inter pares, é o meu mais que tudo dos livros.
É O livro.
Mas hoje, no dia mundial do Livro, prefiro mencionar o primeiro livro que que entrou para essa lista, o livro que a iniciou. Contacto de Carl Sagan.
O Velho e o Mar de Ernest Hemingway encabeça essa lista desde que o li. Foi paixão à primeira leitura. É primus inter pares, é o meu mais que tudo dos livros.
É O livro.
Mas hoje, no dia mundial do Livro, prefiro mencionar o primeiro livro que que entrou para essa lista, o livro que a iniciou. Contacto de Carl Sagan.
É um dos livros que mais me marcaram e me influenciaram até hoje. Aprendi imenso com ele.
Tenho-o desde a feira do livro de 1986. Releio-o com alguma frequência, mantendo sempre a mesma sensação de descoberta e fascínio que tive desde a primeira vez.
Contacto é extraordinário. Na essência aborda uma questão, de uma maneira muito plausível e bem fundamentada, que muitos de nós - e eu como um crente estou incluído - gostaria de ver concretizada. A descoberta de que nós não estamos sozinhos no Universo e que uma civilização extra-terrestre tenta contactar connosco.
Partindo deste tema, Contacto põe duas áreas aparentemente antagonistas em diálogo e em aparente confronto. A ciência com a religião, a fé com a razão. Duas maneiras distintas de ver, entender e procurar o conhecimento.
Tenho-o desde a feira do livro de 1986. Releio-o com alguma frequência, mantendo sempre a mesma sensação de descoberta e fascínio que tive desde a primeira vez.
Contacto é extraordinário. Na essência aborda uma questão, de uma maneira muito plausível e bem fundamentada, que muitos de nós - e eu como um crente estou incluído - gostaria de ver concretizada. A descoberta de que nós não estamos sozinhos no Universo e que uma civilização extra-terrestre tenta contactar connosco.
Partindo deste tema, Contacto põe duas áreas aparentemente antagonistas em diálogo e em aparente confronto. A ciência com a religião, a fé com a razão. Duas maneiras distintas de ver, entender e procurar o conhecimento.
No final, nenhuma delas se sobrepõe. Cada uma contém em si o gérmen da outra, um yin e yang do conhecimento.
Os paladinos destas duas distintas abordagens no fim, encontram um no outro o necessário apoio e uma outra forma de contacto.Joss Palmer, o personagem que encarna a teologia, admite o valor do conhecimento que a ciência pode trazer.
Por sua vez Ellie, a cientista, descobre que a crença inabalável que deposita na ciência não lhe proporciona o refúgio que tanto necessita e até precisa.
Os paladinos destas duas distintas abordagens no fim, encontram um no outro o necessário apoio e uma outra forma de contacto.Joss Palmer, o personagem que encarna a teologia, admite o valor do conhecimento que a ciência pode trazer.
Por sua vez Ellie, a cientista, descobre que a crença inabalável que deposita na ciência não lhe proporciona o refúgio que tanto necessita e até precisa.
Desde esse já longínquo ano de 1986 que percebo que religião e ciência não andam tão afastadas quanto isso.
Mas à medida que a ciência avança vai deixando menos espaço para a religião. Mas também ambas partilham um conceito que lhes é querido, A fé, a crença.
Relativamente à primeira, a ciência, essa crença é provada e não dogmática.
É tangível e escrutinada.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
dia mundial do livro - "uma rosa por São Jorge, um livro por Cervantes"

Foi na Catalunha que surgiu a ideia de celebrar o dia do livro no dia 23 de Abril.
Inicialmente foi proposto o dia 7 de Outubro de 1926, para celebrar o nascimento de um dos gigantes da literatura espanhola e mundial: Miguel de Cervantes. Tendo sido aceite, foi posteriormente mudada para o dia 23 de Abril, data de morte (ano 1616) do escritor.
Esta data era coincidente com a comemoração inglesa do nascimento e morte de um outro gigante das letras inglesas e mundiais, William Shakespeare (1564 - 1616) e de um outro vulto de nomeada - Vladimir Nabokov, famoso escritor russo, autor de Lolita.
Assim foi muito naturalmente que a UNESCO tenha proclamado o dia 23 de Abril como o "dia mundial do livro e dos direitos de autor" a 15 de Novembro de 1995, por se tratar de um dia emblemático para a literatura mundial e para as estantes em nossas casas.
Neste dia celebra-se igualmente na Catalunha o dia da rosa (no sec. XV realizava-se a 23 de Abril a Feira das Rosas) e o dia de São Jorge (santo padroeiro de Espanha).
Os livreiros catalães sob o lema "Uma rosa por São Jorge, um livro por Cervantes" têm por hábito oferecer uma rosa por cada livro comprado.
Este hábito generalizou-se um pouco por todo o lado e é possível em Portugal encontrar livrarias que põem em prática este mote.
Umberto Eco uma vez escreveu que:
"Há o hábito de pensar que se entra numa biblioteca para procurar um livro. Não é verdade.
Sim, por aí se começa, mas o que na realidade se busca é a aventura."
Hoje parto em busca de aventuras. Numa livraria mais próxima de mim.
Nas pesquisas que fiz sobre as datas de nascimento e morte relativamente aos escritores que menciono no texto encontrei várias datas possíveis, o que não é invulgar uma vez que os registos das épocas em que eles viveram não eram exactos e é frequente existirem datas dispares entre si.
Mas a principal razão é a aplicação de diferentes de calendários. Ou seja, a passagem do calendário juliano para o calendário gregoriano foi feito em alturas diferentes para países diferentes.
Por exemplo as datas de falecimento dos escritores Shakespeare (inglês) e Cervantes (espanhol), os principais "mentores" do dia mundial do livro, são ambas indicadas como tendo sido a 23 de Abril de 1616, mas Cervantes morreu dez dias antes de Shakespeare. Em Inglaterra e na Russia ainda se usava o calendário juliano, enquanto em Espanha já vigorava o gregoriano. O calendário gregoriano está avançado 10 dias relativamente ao juliano.
Papa Gregório XIII em Fevereiro de 1582 estabelece na bula "Inter Gravíssimas" que o dia seguinte a 04 de Outubro de 1582 (quinta feira) é o dia 15 de Outubro de 1582 (sexta feira), retirando desta maneira 10 dias ao calendário juliano. O objectivo era fazer regressar o equinócio da Primavera a 21 de Março anulando os dez dias de diferença que o anterior calendário juliano tinha ao longo do tempo acrescentado.
Ainda relativamente a Cervantes, historiadores afirmam que a data que é atribuida à sua morte (23 Abril 1616) e que consta na lápide da sua tumba, de acordo com os costumes da sua época, é a data de enterro e não o dia da morte que provavelmente terá ocorrido no dia anterior (22 Abril 1616).
Links pesquisados
http://www.catalonia.com.br/catalunha_cultura5.asp
http://www.mat.uc.pt/~helios/Mestre/H01orige.htm
fotografias (fonte Google Imagens)
fotografia de topo - bula do Papa Gregório XIII na qual institui o calendário gregoriano
fotografia de fundo - busto do imperador Júlio César
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