segunda-feira, 12 de março de 2012

compra de fim de semana - Bill Evans





A compra de Everybody Digs Bill Evans, que eu já tinha prometido a mim próprio que o faria há bastante tempo, deve-se a um motivo bastante redutor: a sua faixa nº 6.

Há vários meses atrás, ao fazer uma ronda pela caixa de três cds que celebram os 45 anos de existência do 5 minutos de jazz, de José Duarte, quando no segundo cd da caixa, deparo com uma peça de piano que me fez soltar um "eh láá!!" pela sua beleza. No folheto dizia que era de um pianista chamado Bill Evans e chamava-se Peace Piece.

Peace Piece é daquelas músicas que nos faz fechar os olhos e entra directo na alma. Minimal, suave, hipnotizante, sofisticada, plena de veludo e bonita até mais não e que por muito que eu a repetisse, ela nunca me cansava.

Decidi então (felizmente) comprar Everybody Digs Bill Evans por causa da peça Peace Piece, a tal faixa nº 6.
Mas para além da faixa nº6 e das restantes nove, este cd que tornou Bill Evans uma referência no jazz, tem uma outra característica que o marca: a sua capa.
Ela tem dedicatórias, com as respectivas assinaturas - que segundo se diz lhe terão causado algum embaraço - ao trabalho de Bill Evans vindas de génios do jazz como o trompetista Miles Davis, os pianistas George Shearing e Ahmad Jamal e o alto saxofonista Cannonball Adderley.

Quanto ao cd, vale mesmo a pena comprá-lo e ouvi-lo, não só pela tal faixa nº 6, o que por si só é um bom motivo, mas claramente pelo seu todo.


sábado, 10 de março de 2012

uma música para o fim de semana - Rogério Charraz


Até há pouco mais de uma semana, nunca tinha ouvido falar de Rogério Charraz. Foi quando este lançou o seu primeiro álbum, A Chave, e foi disco da semana da Antena 1 que o conheci.
Define-se como cantautor, ou seja alguém que escreve, toca e compõe as sua próprias músicas.

Descobri que tem quatro temas seus numa série da RTP chamada "Pai à força". 
Não é no entanto novato no mundo da música. Foi fundador dos Boémia que terminaram em 2007 iniciando depois um projecto chamado Rogério Charraz Trio.
Pelo meio, Rogério junta-se a dois brasileiros e criam o Sotaques.
Compõe em 2010 um hino para o SLBenfica (muito bem Rogério!).

Em junho do ano passado tem uma participação no (fantástico) álbum Em Busca das Montanhas Azuis de Fausto Bordalo Dias a seu convite, com o tema Por Altas Serras de Montanhas.

Agora Rogério Charraz decide assumir-se musicalmente por inteiro com o seu A Chave.

Gostei da canção que dá nome ao álbum - A Chave. Tem um cheirinho a Rui Veloso. A letra, o timbre de voz de Rogério nesta faixa fazem lembrar este grande músico português que há-de aparecer numa das próximas músicas para o fim de semana.
Aliás, neste álbum de apresentação de Rogério Charraz, Rui Veloso, juntamente com Ana Lains e José Mário Branco são seus convidados.

Bom fim de semana :)




quinta-feira, 8 de março de 2012

um poema de... Florbela Espanca (no dia mundial da Mulher)




Uma vez disseram-me que como eu não era mulher não sabia valorizar o Dia Internacional da Mulher, talvez.
Na verdade tal como eu, muitas mulheres pensam que este dia as secundariza em vez de lhes dar a força que merecem e que por vezes necessitam.
Do meu ponto de vista, é uma espécie de rebuçado que se lhes dá, quase uma esmola, pela subvalorização, falta de igualdade, de oportunidades e reconhecimento do seu papel na sociedade.

O verdadeiro dia da mulher é todo aquele em que esta se impõe pela força da inteligência, do saber fazer, pela competência, pela subtileza, por trazer a delicadeza e força que ser mulher e ser mãe pode trazer ao mundo que a rodeia.
Que o equilibro atinge-se quando a força da testosterona é moderada pela suavidade do estrogénio.
E aos poucos e poucos isto está acontecer. O que se está a passar nas faculdades é sintomático disso, a presença feminina é dominante.

Mas para as mais desconhecedoras, fiquem a saber que também existe o Dia Internacional do Homem - comemora-se a 19 de Novembro - que inteligentemente ninguém fala, mas que penso exactamente o mesmo que o seu congénere feminino. Não faz sentido existir.

De qualquer maneira e ainda pensando neste dia em particular, existe uma mulher que admiro muito, pela sua obra e naturalmente pela sua vida.
E através dela e da sua poesia homenageio a Mulher.
Curiosamente estreia hoje, o filme Florbela, um filme que nos mostra e revela a vida torturada dessa mulher que deu origem a uma das poesias mais viscerais, sofridas e violentas - na forma como revela os seus sentimentos e particularmente como vivia o amor - mas também uma das mais belas e delicadas que a poesia nacional tem para oferecer. Falo, claro, de Florbela Espanca.

Um dos meus poemas preferidos dela é este, mas no Dia Internacional da Mulher escolho outro poema dela.
Ele está pleno daquela visceralidade, revolta e violência emocional que lhe rasga o peito e a alma, que vem de dentro das suas profundezas e que tanto aprecio na poesia de Florbela Espanca.


A Mulher

I

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimento cheio, eis a mulher
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta: sê em Vénus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então vis:"Olhem, vejam
é aquela a infame!" e apedrejam
a pobrezita, a triste, a desgraçada!

II 

Ó mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e de sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Florbela Espanca


quarta-feira, 7 de março de 2012

um estudo imoral



Paira uma certa sensação de perdição e colapso moral, neste mundo. Senão vejam.

De acordo com um estudo científico intitulado Aborto após parto: porque deve o bebé viver?, publicado no British Medical Journal e assinado por Francesca Minerva formada em Filosofia (bioética), é moralmente aceitável a morte de um recém nascido, nas mesmas condições que um aborto é permitido, incluindo situações em que o recém-nascido não é portador de deficiências físicas.

Esta "investigadora" parte de três princípios, todos eles muito "morais":
  • O feto e o recém-nascido não têm o mesmo estatuto moral das pessoas
  • É moralmente irrelevante o facto do feto e recém-nascido serem pessoas em potência
  • A adopção nem sempre é no melhor interesse das pessoas

Os autores (Alberto Giubilini é co-autor) deste estudo fundamentam assim que matar uma criança, mesmo sendo saudável, nos primeiros dias de vida não é diferente da prática de um aborto e portanto moralmente legítimo, assim como matá-lo seria defensável se a mãe declarasse incapaz de tomar conta dele.

A pérola  deste... "estudo", é a afirmação que tal como uma criança ainda por nascer, um recém-nascido ainda não possui esperanças, objectivos e sonhos e que apesar de ser um ser humano ainda não é pessoa e portanto sem direito moral à vida.
E concluem que pelo contrário, que a sociedade e as pessoas que rodeiam o recém-nascido, podem ter planos, metas e aspirações que poderão ser condicionados pela sua chegada e portanto estes deverão ser defendidos em primeiro lugar.

Não teria sido moralmente aceitável se as mães destes "investigadores", a tal Francesca e o dito Alberto, tivessem declarado incapacidade de tomar conta destas adoráveis criancinhas???



Lido no Público


terça-feira, 6 de março de 2012

Grande Ecrã - Extremamente Alto, Incrivelmente Perto


É difícil para mim dizer se gostei ou não de Extremamente Alto, Incrivelmente Perto.
O filme é longo, algo monótono e com um fim previsível.
Todas as questões colocadas, todas as pontas soltas do filme, são explicadas e todos os desafios e medos são vencidos.
Em contrapartida, tem um excelente argumento, está bem filmado e um trabalho de actores muito bom.

Destaque para Thomas Horn (que carrega o filme às costas), o miúdo que perde o pai no ataque às torres gémeas do World Trade Center, para Sandra Bullock, a mãe de Oskar Schell, incompreendida por este e a melhor performance deste filme, sem margem para dúvida é a do espectacular Max von Sydow. O fascinante Inquilino que se tornará (e é!) o segundo pai para Oskar e que algo injustamente perdeu o óscar de melhor actor secundário para Christopher Plummer.

Partindo dos atentados do 11 de Setembro, Extremamente Alto, Incrivelmente Perto do britânico Stephen Daldry, não é mais um filme sobre este negro dia, mas é acima de tudo um filme sobre violentas e traumáticas perdas pessoais.
Qual o peso que elas têm nos nossos actos e vidas, a nossa (in)capacidade de lidar com elas e a necessidade de as compreender e conferir-lhes um significado.

Após a perda do pai nas torres gémeas do World Trade Center, Oskar encontra acidentalmente uma chave dentro de um pequeno envelope identificado com o nome Black.
Obcecado em encontrar o significado da chave e descobrir o que ela abre, Oskar vai tentar contactar com todas as pessoas de apelido Black de Nova Iorque e ao entrar nas suas vidas pessoais, percorre dessa maneira uma espécie de via sacra de aprendizagem - com o Inquilino assumir o papel de mentor de Oskar a partir de determinado momento - que terminará na aceitação da morte do pai e do facto de ele não voltar mais.

Feitas as contas, Extremamente Alto, Incrivelmente Perto que esteve nomeado para o óscar de melhor filme, não sendo um bom filme, talvez seja um filme a ver (nem que seja por von Sydow), porque através da deriva que Oskar Schell sente na sua vida e da necessidade de lhe dar um sentido e uma explicação para a sua perda, ele fala connosco.

À semelhança de Oskar, todos nós em determinado momento da nossa vida já perdemos algo que não compreendemos porquê e que nos marca ou marcou a nossa vida, ou então conhecemos alguém a quem já isso aconteceu.




domingo, 4 de março de 2012

(excelente) compra de fim de semana - Dave Holland




Dave Holland, como não podia deixar de ser é rei e senhor no seu quarteto, mas o saxofone alto de Steve Coleman e a guitarra de Kevin Eubanks são grandes, grandes súbditos.
Kevin Eubanks está muito presente em todas as faixas, mas as suas "guitarradas" particularmente em Nemésis e Black Hole são altamente.
O saxofone alto de Steve Coleman brilha em Processional e The Oracle.

Curiosamente todos os músicos deste quarteto, à excepção do baterista Marvin "Smitty" Smith, contribuem com dois temas para o excelente álbum do quarteto de Dave Holland, Extensions.