quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Fernando Nobre, candidato presidencial ?? Não percebo

Não percebo qual a razão que levou Fernando Nobre a lançar a sua candidatura à presidência da república.
Não percebo porque sendo presidente e fundador da AMI (talvez a mais prestigiada ONG nacional) se quer perder nos sujos e obscuros meandros da política nacional.
Não percebo porquê a presidência da república quando tem um papel mais nobre e reconhecido que qualquer político português.
Não percebo porquê a presidência da república quando não é político de raiz.

Será que por ter sido mandatário de Mário Soares nas presidenciais de 2006, mandatário de António Costa e de António Capucho respectivamente por Lisboa e Cascais e mandatário do Bloco de Esquerda para o parlamento europeu em 2009 terá acumulado uma teia de contactos bastante alargada e apetecida ?
E apetecida por quem ? Pelo PS ?
Como (e quem) irá financiar a sua campanha ?
Será que irá invocar o sentido de cidadania, o dever moral e o estado da nação como motivos e razões para lançar a sua candidatura a Belém ?
Se sim, não será que estas razões não o tornam igual a todos os outros políticos ?
E se assim for, não sendo político, isso não será um sério óbice contra Fernando Nobre ?

Não percebo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Obama & Dalai Lama

Quando soube que havia a intenção de Barack Obama receber o líder espiritual do mundo budista e de milhares de tibetanos, Dalai Lama, fiquei na expectativa. Na expectativa do que a China iria fazer e o que o Obama iria responder.
A China foi igual a ela própria: tentar impedir que os EUA recebessem o Dalai Lama (Nobel da Paz em 1989) e ameaçar diplomaticamente caso estes insistissem em fazê-lo. Quanto ao presidente dos EUA, fez felizmente aquilo que eu pensava e desejava que fizesse, manifestou a vontade de o continuar a receber. Eu fui daqueles que considerou (e ainda considero) que Obama não deveria ter recebido o Nobel da Paz, mas neste momento,  (e até ver...) ao não ceder perante a chantagem diplomática da China, Obama fez diminuir uns quantos pontos o meu cepticismo relativamente à sua "nobelização".
O povo tibetano continua sob forte repressão chinesa que aposta na destruição cultural e étnica deste país.
É um povo silenciado, sem direito a aquilo que sempre foi (e é) seu historicamente: a sua independência, modo de vida e cultura.

O mundo ocidental está curvado perante o poder económico que a China tem e as oportunidades de mercado que este país oferece. É claramente uma potência mundial emergente, é um dos países com maior crescimento em todos os índices económicos. O ocidente submete-se à China e às suas oportunidades de mercado mostrando a sua conivência e cumplicidade através do seu silêncio e mantendo os olhos fechados (semicerrados na melhor das hipóteses) ao que se passa no Tibete.

Obama se se mantiver firme na sua intenção de receber esta figura histórica tibetana, mesmo sabendo que a China representa e tem as mesmas (ou talvez maiores) oportunidades de crescimento para os EUA (ocidentais e capitalistas por definição) o mesmo que para o restante mundo ocidental, contribua para que esta passividade ocidental dê os primeiros passos no sentido contrário.
Ao fim e ao cabo como Nobel da Paz é o que se espera dele. Um exemplo. Sejamos optimistas.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

I see you


Sai-se da sala sabendo (mas desejando) que o mundo lá fora não é tão puro, belo e colorido como aquele que nos foi dado a ver durante quase 3 horas.
Avatar transporta-nos para uma irrealidade tão real, tão sublime que faz desejar não sair de lá.
Os seus esguios habitantes, azuis de olhos amarelos, o povo Na'vi, vivem numa comunhão perfeita com a natureza e de respeito pela vida. E somo nós, os humanos, os maus da fita.
Tal como o nosso planeta Terra, em Avatar, os seres humanos planeiam a destruição e o "dobrar" de uma comunidade em torno da ganância e necessidade de um minério (unobtainium) que se vende aos milhões de dólares cada quilo.

As semelhanças e o paralelismo desta situação é fácil de traçar com a guerras do Golfo Pérsico e Iraque, só que aqui, em vez de unobtainium trata-se de petróleo.
À ganância de Parker Selfridge o executivo financeiro que está por detrás da intenção de saquear o minério de Pandora podemos contrapor Bush sequioso do petróleo do Golfo.
A mensagem e a crítica patente em Avatar (e de James Cameron) é simples e fácil de entender.

Acredito que este filme, tal como a saga Star Wars, se torne um marco na história do cinema.
Para além do histórico custo de 300 milhões de dólares e ainda mais históricas receitas que está a gerar, é muito difícil ficar-se indiferente à magia e perfeição de Pandora.
Penso que todos nós almejamos viver num mundo assim, mas tal como em Pandora, aqui na Terra somos os maus da fita.









O que o dicionário diz sobre "avatar":

religião - materialização de um ser divino, descida dos céus de uma divindade
sentido figurado - transformação; metamorfose
informática - representação gráfica de um utilizador numa comunidade virtual

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

mãos ao alto


Ontem tive que ir com o meu cão (Thor) ao veterinário.
A clínica abre às 10.00h e cheguei por volta das 09.45h, sentei-me num murete e o Thor sentou-se ao meu lado. Ele tem um derrame numa orelha e com um dreno, o que faz com que a ela esteja toda ligada com uma ligadura vermelha, o que salta facilmente à vista uma vez que tem a pelagem de um branco meio dourado.
É natural portanto que as pessoas que passavam por nós fossem metendo conversa connosco, tal como uma senhora que passou com a mão direita ligada que falando directamente com o cão afirmou que "as desgraças não acontecem só às pessoas", perguntando-me depois o que ele tinha.

Poucos minutos depois, foi a vez de um casal de idosos que desta vez falando comigo primeiro, perguntaram que idade o cão tinha porque já tinha um aspecto velhote. Respondi que sim, que já estava a caminho dos 14 anos, mas que estava muito bem para a idade que tinha.
O senhor apontando para sua companheira disse que ela deveria pôr as mãos ao alto porque já tinha 96 anos(!) e que também estava muito bem para a sua idade. Imaginei a cena. Pensei as histórias aquelas mãos encerravam em si e o que teriam para contar para quem as olhasse e soubesse ler.

Se seria possível contar as lágrimas que já teriam secado, sentir as dores já suavizadas, contar os tormentos aliviados, que prazeres e pecados teriam sido provocados.
O seu rosto estava bem marcado pelo tempo, mas os seus olhos azuis serenos e brilhantes ainda mantinham a beleza de décadas atrás. Despedimo-nos, desejando mutuamente felicidades e boa sorte.
Olhei para ela a afastar-se admirando-a. Pequena, como os passos que dava ao afastar-se, corpo franzino e curvado enfrentava e suportava o gigantismo e o peso de 96 anos. Como será comigo ? Emanarei esta força e sobretudo serenidade ?
Terei que esperar para ver.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

politicando...

Não gosto de política, mas não sou apolítico.
Tal como a maioria da população portuguesa, considero a política suja, corrupta, pouco transparente e nem sempre está ao serviço do povo.
Com os resultados das eleições legislativas em finais do ano passado, contudo, para mim ganhou um novo interesse. A maioria relativa do PS, obriga o mesmo a depender de terceiros (algo a que não estava habituado) para conseguir ou tentar atingir os objectivos a que se propôs.

Todo o jogo de interesses, bastidores e de cintura dos partidos políticos está bem patente e mais visível na discussão que desde há alguns dias atrás se desenrola para viabilizar o Orçamento de Estado (OE) para o corrente ano.
O CDS está a assumir-se como um partido de parceria preferencial com o governo e claramente está a ganhar protagonismo. Vai ganhar prestígio e ver aumentada a sua importância política. As próximas eleições que ocorrerem irão demonstrar isso.
A esquerda não se conforma com isto. Penso que se está a isolar (e a ser isolada) perdendo o seu tradicional e recentemente aumentado espaço político, consequência do alargamento do eleitorado favorável ao Bloco de Esquerda nas diversas eleições do ano passado.

A reboque, sem ideias e secundarizado pela dinâmica do CDS, Manuela Ferreira Leite vai tentando manter a cabeça do PSD acima do atoleiro em que encontra, transmitindo uma falsa impressão de firmeza e de domínio da situação. Verdade que o governo ainda precisa do PSD para a viabilização do seu OE, pelo menos da sua abstenção, por isso ajuda Manuela Ferreira Leite ao estender a mão da credibilização política em público, afirmando através de Teixeira dos Santos que o PSD nas posições que tem vindo a assumir pretende defender o que julga ser do interesse do país. Simpático.
Mas é o PS e acima de tudo José Sócrates que talvez estejam a retirar a maior lição de todos os que estão envolvidos neste processo: a aprendizagem da humildade.

Como previsto, o nosso Primeiro Ministro está mais moderado, a sua tradicional arrogância está diminuída. Aparece menos vezes em público e na televisão. Fala menos. Não assume o protagonismo neste processo de negociação do OE, critica menos os partidos da oposição (porque precisa deles) e respeita (pouco) mais os seus líderes.
E só lucra porque no estado em que o país está, com os principais indicadores económicos em queda, previsões de crescimento pouco optimistas, ausência de concursos público ou quando os há pouco transparentes, combustíveis em alta e o Tribunal de Contas a "importunar", a recatez e descrição só lhe fica bem. E o país tem o merecido descanso desta figura tão... omnipresente.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

pós magnitude 7

Continuo a pensar que o algo de positivo há-de vir para o Haiti após o sismo de magnitude 7 que ocorreu no dia 13 de Janeiro deste ano.
Mas quando as imagens que continuam a inundar a televisão tenho que ir mais fundo na minha convicção para continuar a acreditar que tal irá acontecer.
O desespero, a sobrevivência e a urgência em satisfazer as necessidades mais básicas do Homem, faz com que a Humanidade vá retrocedendo no Haiti e atinja os seus níveis mais primitivos.
Para quem vive e morre nas ruas, assistir ao vai e vem dos aviões, de camiões carregados de medicamentos e bens de primeira necessidade sem que sinta na pele que essa ajuda efectivamente lhe chega, é motivo mais do que suficiente para se revoltar e atacar a mão que lhe é estendida. Viver, e mais do que isso, sobreviver no Haiti, tornou-se uma feroz competição de vida ou de morte com a pessoa que está ao seu lado nas mesmas condições.
Percebe-se que é difícil coordenar o imenso fluxo humanitário (bens e pessoas) que chega ao Haiti e percebe-se também que apesar de tudo, haja interesses escondidos na ajuda em curso. Mas a França deveria ter sido mais comedida ao lançar a afirmação que os EUA estão lá para ocupar o Haiti. Deveria ter esperado mais algum tempo. Não ajudou e lançou achas para a fogueira. Nestes países de historial caótico e violento sabemos que a ajuda enviada em situações de catástrofe nem sempre vai para quem verdadeiramente precisa...
O Haiti vai ter uma longa, penosa e muito provavelmente violenta travessia do deserto.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

magnitude 7


"A ciência fez de nós Deuses antes que merecêssemos ser homens".

Esta frase terá sido dita por um filósofo cujo nome e nacionalidade não me recordo. Mas parece-me bem adequada porque no trono da altivez que a ciência nos coloca, precisamos de tempos a tempos sermos reconduzidos ao nosso verdadeiro lugar. E a Natureza faz isso por vezes de uma maneira cruel mas sempre muito eficaz. E ficou bem provado no passado dia 13 de Janeiro.
Com um sismo de magnitude calculada em 7 pela escala aberta de Richter (o terramoto de Lisboa de 1755 é estimado em 9) e cerca de 50 a 100 mil mortes estimados (e há quem mencione o incrível número de 500 mil!!) a morte saiu à rua em Port au Prince. A capital do Haiti está praticamente destruída.

E até nem precisava deste sismo para aumentar o peso da cruz do destino. É o país mais pobre do hemisfério do norte, tem a tragédia no sangue e está fadado ao sofrimento. A ditadura de Maurice Duvalier (conhecido por Papa Doc), brutal e baseada no terror que os tonton macoute (a sua guarda pessoal) e o uso do vudu provocavam na população muito ajudou à quase destruição do Haiti.
Com a sua morte em 1971 sucedeu-lhe o filho, Jean Claude Duvalier (Baby Doc) que prosseguiu com a senda sanguinária e destruidora do pai. Fugiu para França em 1986. Tudo o que se sucedeu daí para a frente contribuiu para a delapidação do país.

A ONU teve que intervir para pôr uma frágil ordem num país caótico.
Com um leque sortido e vasto de desgraças e maleitas, nos quais se inclui golpes de estado, repressão, corrupção, sida, e elevada mortalidade infantil, o Haiti não precisava de mais esta.
Possivelmente e pela primeira vez na sua história o Haiti esteja a ser verdadeiramente ajudado. Parecendo pequena face ao desespero de um povo, a mobilização e a juda internacional é uma das maiores de sempre.

Talvez quem sabe, e vendo o lado positivo da coisa, este sismo de magnitude 7 seja o início do seu renascimento.
Talvez as "ervas daninhas" de décadas tenham sido extirpadas do seu corpo e o Haiti possa ter um segundo nascimento mais saudável e promissor com a ajuda internacional.
Talvez com a morte e a destruição vinda da Natureza, venha agora a esperança da Humanidade.