segunda-feira, 20 de março de 2017

um poema de... Pablo Neruda (no dia da Primavera)






Poema 14

Brincas todos os dias com a luz do Universo.
Subtil visitadora, chegas na flor e na água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mãos todos os dias.

Com ninguém te pareces desde que eu te amo.
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.
Quem escreve o teu nome com letras de fumo
entre as estrelas do sul?
Ah, deixa-me lembrar como eras então,
quando ainda não existias.

Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.
Aqui despe-se a chuva.

Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.
Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.

Tu estás aqui. Ah tu não foges.
Tu responder-me-ás até ao último grito.
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha
pelos teus olhos.

Agora, agora também pequena, trazes-me madressilva,
e tens até os seios perfumados.
Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.

Quanto te haverá doído acostumares-te a mim,
à minha alma selvagem e só, ao meu nome que todos escorraçam.
Vimos arder tantas vezes a estrela d'alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcem-se os crepúsculos
em leques rodopiantes.

As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.
Creio-te mesmo dona do Universo.
Vou trazer-te das montanhas flores alegres, "copihues",
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.

Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.


Pablo Neruda


série "estatísticas da vida" - CCXVI


Saltitando delicadamente de branco em branco 😉





sábado, 18 de março de 2017

uma música para o fim de semana - the Last Day of Winter


Post-rock.
No fundo é pegar nos instrumentos tradicionalmente ao rock, como piano, guitarras, baixos e bateria, e alterar a sonoridade habitual, a energia que lhe está associada, transformando-a com a ajuda electrónica.
Ganha uma dimensão bastante ambiental, onírica, por vezes a roçar a espiritualidade.
A voz tão presente no rock tradicional, é frequentemente secundarizada face aos instrumentais.

The Last Day of Winter, puxam bem pelo post-rock nacional.
O trio de Ovar, com guitarra, baixo e bateria, suporta muito bem esta definição.
Música intensa, atmosfera negra, espacial e sustentada no tempo.
Rollover and Play Dead, é do seu primeiro trabalho, Bears, lançado em Fevereiro do ano passado.

Para quem alinhar com os escoceses Mogwai ou os islandeses Sigur Rós, não vai ficar desiludido com os Last Day of Winter.


Bom fim de semana ☺