terça-feira, 24 de janeiro de 2023

uma ida ao baú - Hotel California (Eagles)


!976

Os solos das guitarras, a letra misteriosa e sombria, a bateria, a voz de Don Heley. Tudo em Hotel California bate certo, é perfeito. Nada está está a mais. Podemos pensar que é uma canção "feita por Deus". Mas não é. Felizmente, não é.

A letra é dubia, obscura, joga com as sombras dos significados, dá azo a variadas questões e a interpretações. Acredito que por isso, seja uma das letras mais fascinantes que podemos ouvir desde 1976, ano em que foi lançada no álbum Hotel California.

Sou dos que alinham que a letra aborda uma instituição mental, uma das hipóteses colocadas. Tem tudo para essa interpretação. 
A campainha que toca, a dúvida entre o Céu e o Paraíso, a mulher que à entrada mostra o caminho com uma vela, as vozes que se ouvem ao longo do corredor, a forma como o Hotel Califórnia é apresentado e descrito. O facto de ninguém conseguir sair do Hotel, hóspedes que são prisioneiros. Uma insituição onde uma vez entrando, já não se sai mais.
Os Eagles, quando questionados sobre a validade desta interpretação sempre afirmaram que não se inspiraram em nenhuma instituição mental.

Mas que se referem ao hedonismo e a busca do prazer, o vício do álcool e da droga, do dinheiro e fama.
Um autêntico círculo vicioso de excessos e prazer em que uma vez entrando já não se sai.

Pessoalmente, sabendo que não é esta a interpretação da banda, vejo-a sempre como uma metáfora, uma abordagem às instituições mentais e ao pesadelo, físico, mental e social, de quem as sofre.

Como iniciei este post, se a ubiquidade da letra traz consigo um fascínio a este tema que está a caminho de celebrar os cinquenta anos, reduzi-la apenas à letra é quase criminoso. Repito, tudo nesta canção é perfeito.






On a dark desert highway
Cool wind in my hair
Warm smell of colitas
Rising up through the air
Up ahead in the distance
I saw a shimmering light
My head grew heavy and my sight grew dim
I had to stop for the night

There she stood in the doorway
I heard the mission bell
And I was thinking to myself
"This could be Heaven or this could be Hell"
Then she lit up a candle
And she showed me the way
There were voices down the corridor
I thought I heard them say

Welcome to the Hotel California
Such a lovely place (such a lovely place)
Such a lovely face
Plenty of room at the Hotel California
Any time of year (any time of year)
You can find it here

Her mind is Tiffany-twisted
She got the Mercedes Benz
She got a lot of pretty, pretty boys
That she calls friends
How they dance in the courtyard
Sweet summer sweat
Some dance to remember
Some dance to forget

So I called up the Captain
"Please bring me my wine"
He said, 'We haven't had that spirit here
Since 1969"
And still those voices are calling from far away
Wake you up in the middle of the night
Just to hear them say

Welcome to the Hotel California
Such a lovely place (such a lovely place)
Such a lovely face
They livin' it up at the Hotel California
What a nice surprise (what a nice surprise)
Bring your alibis

Mirrors on the ceiling
The pink champagne on ice
And she said, 'We are all just prisoners here
Of our own device"
And in the master's chambers
They gathered for the feast
They stab it with their steely knives
But they just can't kill the beast

Last thing I remember, I was
Running for the door
I had to find the passage back
To the place I was before
"Relax" said the night man
"We are programmed to receive
You can check out any time you like
But you can never leave"











sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Mime your Manners


Quando se prova do próprio veneno. 
Uma curta simples, directa na mensagem e bem divertida.













quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

um poema de... Eugéno de Andrade (no centenário do seu nascimento)


Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Frontinhas Neto, nasceu exactamente há cem anos, na aldeia da Beira Baixa, Póvoa de Atalaia.
Começou a escrever poemas mesmo muito cedo, aos 13 anos. Publica o poema Narciso em 1939 e o seu primeiro livro, Adolescente, um livro no qual nunca teria um grande orgulho, em 1942.
Em Lisboa, em 1947 torna-se funcionário público trabalhando para o Ministério da Saúde.

Chega em força ao grande público quando publica em 1948 o seu livro "As Mãos e os Frutos", ganhando a admiração de poetas e escritores com o estatuto de Jorge de Sena e Vitorino Nemésio.
A partir daqui as obras sucedem-se com mais de cinco dezenas de títulos publicados de poesia, prosa e infantil. Conquista vários prémios - Grã-Cruz da Ordem do Mérito em 1989 e o Prémio Camões em 2001. Fez traduções de autores como Frederico Garcia Lorca e José Luis Borges.
Publica o seu último livro Os Sulcos da Sede em 2001. Morre a 13 de Junho de 2005, na cidade do Porto. No dia em que, 117 anos antes, nascia Fernando Pessoa.

Admiro nele a sua poesia ser simples, fluida, muito directa. Reflecte, mais uma observação, sobre a essência, o que é elementar, numa aparente singeleza sem uma excessiva transcendência ou busca de algo ou de uma entidade suprema. 
O seu poema As Palavras são um bom exemplo da sua escrita reservada e tímida.


As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade