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sábado, 11 de novembro de 2023

14 anos - os tempos que correm


14 anos de Esteira. Últimos dois marcados por duas guerras. Três, na verdade.

A da Ucrânia foi um choque. Como um país, Rússia, pode invadir outro, a Ucrânia, considerando que tem o direito a reaver a história passada? Interferindo, condicionando as suas escolhas, no caminho que um terceiro quer percorrer?
Mostrando um desrespeito, um desprezo, que até ao momento só tinha visto em documentários, ou em livros, pela vida humana. Hospitais, maternidades, centros comerciais, estações de comboio, etc..., etc...
O ocidente promete-lhes apoio, que até chega, mas tarde, em quantidades insuficientes. O ocidente está preso, refém da manipulação psicológica. permanente da ameaça de uma guerra atómica por parte Rússia. 
Actuam tardiamente e os seus discursos são feitos em bicos de pés para não ofender a Rússia e não perturbar, não acordar (excessivamente) o outro gigante, a China.


A guerra de Israel contra o Hamas, teve repercussões pessoais incomparavelmente maiores quando comparadas com a guerra da Ucrânia.
É uma guerra, neste momento tenho dificuldade em chamar-lhe guerra, mas sim genocídio dada a amplitude, a desproporção da resposta, direito à defesa chamam-lhe cinicamente os líderes ocidentais.
Em duas das viagens que fiz este ano, Síria e Líbano, contactei profundamente com a vida e cultura dos palestinianos refugiados nestes dois países. Nas comunidades de refugiados sírios e palestinianos de Sabra e Chatila em Beirute, falei com eles e ouvi-os. Abraçaram-me, deram-me as suas mãos, receberam-me em suas casas. Falaram sobre as suas histórias pessoais, as história dos seus avós, as vidas que tinham, as vidas que passaram a ter. Ouvi pela primeira vez falar na Nakba por quem participou, por quem sobreviveu e pelos seus descendentes.

Querem, procuram paz. Querem o regresso às suas casas, ao seu país. Guardam as chaves das casas que deixaram para trás, numa esperança, quase inútil, de um dia poderem abrir as suas portas.
Mostraram-me muitas dessas chaves e outros objectos que trouxeram com eles. Sabem os nomes dos seus proprietários. Muitos mortos pelos israelitas, outros pelo tempo que passou.

Agora, 75 anos depois voltam a enfrentar uma segunda Nakba, um segundo massacre, na verdade um genocídio. Bombardeiam hospitais, ambulâncias, escolas, casas, campos de refugiados. 
A faixa de Gaza está cercada, invadida. Estão sem electricidade, comunicações e combustíveis que permitem aos hospitais, que ainda não foram bombardeados, funcionar, a poderem tratar dos seus feridos.
A cada dez minutos morre uma criança. São milhares, cerca de pouco mais de 4000, de crianças e bebés assassinados até ao dia que escrevo este texto.

Como o ocidente, desta vez, não tem que se curvar perante a chantagem da Rússia, mostra-se subserviente a Israel. Permite-lhes tudo, sem resoluções ou sanções internacionais aprovadas contra a Israel.
Se a ONU se mostrou praticamente inútil com a Rússia, agora é verdadeiramente inútil. A todos os níveis.
Decorre um genocídio à frente dos nossos olhos, ouvidos e dedos. Nas televisões, redes sociais, rádios, jornais.
Todos sabemos o que está acontecer mas recusamos a dar o devido o nome a este sofrimento implacável que os palestinianos enfrentam e sozinhos. Porque de facto, estão.
O povo pode ir para as ruas protestar, chorar, erguer bandeiras, gritar palavras de ordem, divulgar os inenarráveis padecimentos do povo palestiniano. Mas tudo isto esbarra nos líderes ocidentais. Frios, cínicos, apáticos, carneiros seguindo em fila indiana ao beija mão de um dos grandes facínoras do mundo actual, Benjamin Netanyahu. Os seus nomes, e a História lembrar-se-á disso, arrastam-se na lama, na poeira, nas lágrimas e sangue de milhares de inocentes: Ursula Von der Leyen, Emmanuel Macron, Olaf Scholz, Rishi Sunak, Joe Biden e Antony Blinken.


Se as guerras de Israel contra a Palestina (e não como afirmado contra o Hamas), a da Ucrânia contra o invasor russo, têm a maior cobertura mediática no prime time televisivo, uma terceira acontece, agora tornada invisível: a guerra civil do Sudão, um país com quem tenho igualmente fortes ligações efectivas por os ter conhecido e ter convivido com eles no seu país e igualmente alvo de "corajosas" sanções internacionais. Entenda-se ocidentais. 

África nunca interessou à Europa. Não porque seja um continente longínquo, mas porque assume que é um continente "primitivo", tribal, sem rei nem roque, desinteressante. E no entanto foi o colonialismo europeu que desgraçou, que lançou este espantoso continente num lodaçal do qual ainda hoje não consegue sair.
Um guerra civil que já cerceou rente mais de 10000 vidas, com cerca de seis milhões de deslocados e refugiados em países tão ou mais pobres que o Sudão: Sudão do Sul e Chade.
Um país onde palavras como limpeza étnica e genocídio fazem sentido. Na região do Darfur, oeste do Sudão entre 2003 e 2005 estima-se que cerca - um pavoroso e frequentemente ignorado número - 200 000 mil mortes tenham ocorrido. A ONU mais uma vez não interveio, não fez nada porque considerou que um genocídio não estava a ocorrer. 
Outra das vezes que a ONU pensou o mesmo, que apesar de reconhecer que algo verdadeiramente sinistro e macabro estava a ocorrer, resultou na morte pelas mãos da maioria Hutu, entre 7 de Abril e meados de Julho de 1994, de um milhão e meio, talvez mais segundo outras fontes, de pessoas da minoria étnica Tutsi. O memorial de deste genocídio em Kigali, tal como muitos outros espalhados pelo país inteiro, não deixam ninguém indiferente.
 

Para todos os efeitos, a Esteira celebra hoje 14 anos de existência.
As castanhas não faltaram 🌰🍷 e obrigado a quem anda desse lado 🥂










domingo, 7 de abril de 2019

Ruanda - 25 anos de um genocídio permitido


A 7 de Abril de 1994, escreveu-se uma das páginas mais negras história da Humanidade, começava o genocídio ruandês, com a conivência das Nações Unidas. Que sabendo o que iria acontecer, sabendo o que estava a acontecer, preferiu olhar para o lado. Quando o genocídio acabou, durante 100 dias, quase um milhão de tutsis morreu às mãos de extremistas hutus.

Vinte e cinco anos depois mundo continua sem aprender. Nos dias que correm, mais de um milhão de refugiados rohingya estão deslocados em campos de refugiados no Bangladesh, para fugirem à chacina, à sua destruição que os militares budistas no poder na Birmânia, debaixo do olhar protector Aung San Suu Kyi, uma nobel da paz que envergonha o título, estão a proceder desde Agosto de 2017.
Mais uma vez as Nações Unidas vêm, assistem, sabem e... ignoram o que é evidente para todos.



"Em Março de 1994 quem lesse com atenção o jornal Kangura, repararia certamente numa notícia algo bizarra.
Um artigo declarava que o presidente em exercício, Habyarimana, iria ser morto no decorrer desse mês. Nesse artigo ele era acusado de traição e cumplicidade com Frente Patriótica Ruandesa (FPR), nome dado ao exército tutsis rebeldes que estava no exílio.
Dois anos antes, em 1992 sob pressão internacional, o presidente assina um cessar-fogo com a FPR.
No entanto, mais uma vez são publicadas na mesma altura notícias nas rádios e jornais de falsos ataques de tutsis que fazem cair por terra os acordos assinados.

No ano seguinte, na conferência da cidade de Arusha, Tanzânia, novos acordos de paz são assinados. Estes vão mais longe que o fracassado cessar-fogo do ano anterior.
Prevê o fim do conflito entre as duas etnias, a criação de um governo de transição, o direito ao regresso dos exilados e a integração dos dois exércitos, a FPR e as Forças Armadas do Ruanda (FAR) num único.

Para os radicais hutus, estes acordos eram supremos gestos de traição, quer os de Arusha, quer o cessar-fogo de 1992. A oposição, a desconfiança e a insatisfação no presidente era cada vez maior.
Isto explicava e enquadrava o conteúdo da notícia do jornal Kangura.

De facto, no mês seguinte, no dia 6 de Abril, o avião onde Habyarimana viajava foi abatido por um míssil na aproximação ao aeroporto de Kigali, quando regressava de uma reunião na Tanzânia. Na queda morreria não só o presidente ruandês e colaboradores directos, mas também o presidente do Burundi, Cyprien Ntaryamira.
No próprio dia, os radicais hutu no poder acusaram as FPR de terem atentado à vida do presidente e o genocídio, o extermínio dos tutsis, foi de imediato despoletado.
Bloqueios de estradas, assaltos e pilhagens deram origem a uma onda gigantesca e premeditada de assassinatos.
Para decapitar e criar o vazio no poder, os elementos mais próximos do presidente morto, os lideres oposicionistas e moderados hutus foram as primeira vítimas do genocídio.

Todo o trabalho de "informação" e treino desenvolvido pelas FAR e pelas milícias, especialmente pela Interahamwe ao longo dos anos e meses que antecederem o atentando ao presidente ruandês deram de imediato os seus resultados.
A população hutu saiu para a rua armada com facas, machados, bastões, armas de fogo. O seu objectivo era único e simples: exterminar a população tutsi.

Sendo as diferenças físicas não tão evidentes quanto suposto, partilhando a mesma língua, cultura e religião a "identificação" das etnias era baseada em listas previamente elaboradas e nas relações de proximidade como vizinhança, relações de trabalho ou até relações familiares.

As igrejas, escolas, hospitais, e maternidades eram os locais mais procurados pela população tutsi para refúgio e simultaneamente pelos assassinos que sabiam que iriam encontrar ali uma grande concentração de "baratas". Foram nestes locais que ocorreram as maiores chacinas.

Nos campos, os tutsis eram por vezes colocados todos juntos em campos de futebol e depois chacinados em série. As casas eram assaltadas e os seus bens pilhados, incluindo animais e plantações. As mulheres eram sistematicamente violadas e depois mortas, os homens eram assassinados de imediato.

Os corpos eram deixados onde caiam, nas posições em que a morte os tinha encontrado. Atravessados na estradas, caídos no campo, nas florestas e margens dos rios ou boiando neles. Dentro dos carros, dentro das casas, dentro dos locais que tinham sido considerados seguros.
Os cães que sobreviveram à fúria cega da morte, sem ter ninguém para os alimentar, comiam os corpos caídos.

A consequência das violações foi o aumento astronómico da taxa de infecção com SIDA que atingiu cerca de 65% das mulheres violadas que sobreviveram ao genocídio e o elevado número de crianças abandonadas e mortas pelas mães fruto igualmente dessas mesmas violações.

Nos cem dias que durou o genocídio alastrou por todo o país uma cegueira e uma sede de sangue e morte descontrolada.
Para além dos tutsis e seus animais, até as estátuas eram atacadas com catanas. Tinham as suas cabeças degoladas e eram amputadas dos seus membros.
Entre os próprios assassinos, quem hesitasse na sua missão de matar, ou defendesse alguém que lhe era conhecido ou particularmente querido era igualmente morto pelos "colegas" ou então era severamente castigado.

Todo o Ruanda parou e não houve celebrações, festividades ou acontecimentos desportivos. A população trocou as suas rotinas do dia a dia, o seu trabalho diário pela matança.
O país viveu das pilhagens, do gado morto, das colheitas e dos bens tutsis que foram confiscados.

A 4 de Julho de 1994, a Frente Patriótica Ruandesa liderada pelo general Paul Kagame entra em Kigali e põe fim ao genocídio.
Cerca de um a dois milhões de hutus fugiram de imediato para os países vizinhos do Congo e Uganda com medo de represálias.


A eficácia da máquina de matar montada pelos mentores do genocídio é inacreditável.
Os número são gélidos. Sem tecnologia e recorrendo essencialmente a armas brancas, durante o genocídio ruandês morreram entre 800 mil a um milhão de tutsis.
Em média, morreram 8 mil a 10 mil pessoas por dia. Ou seja entre 334 a 417 pessoas morriam por hora, cerca de 6 a 7 pessoas por minuto.
Isto aconteceu, sem parar, durante 100 dias.

Nem os alemães nazis, com a sua tecnologia e organização conseguiram esta brutal média.
Foi a pior chacina que ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial e a mais eficaz depois do lançamento das bombas atómicas no Japão."


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