terça-feira, 14 de dezembro de 2010

a Esteira parte de novo :)

Durante as próximas semanas, a Esteira de Letras vai viajar de novo com o seu irmão mais novo Carimba o Passaporte.
Depois da Ásia partem agora para a África.


Do sudeste asiático voam para o norte de África, da descoberta do Império Khmer vão em busca da civilização dos faraós.
Do séc IX de Angkor, a máquina do tempo leva-os para dois mil e quinhentos anos antes de Cristo das pirâmides.
Das margens do Mekong saltam para as margens do Nilo.

O destino está adivinhado certamente, é fácil. É para aqui.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

como é ???


A possibilidade de o governo estar a pensar usar dinheiros públicos para ajudar as empresas a despedir pessoas com o pretexto de criar emprego é no mínimo... tétrico!

Grande Ecrã - Inside Job (A verdade da crise)

Fui ver Inside Job (A verdade da crise) com uma certa expectativa de que iria ver um filme tipo Michael Moore: populista, parcial, sensacionalista e inflamado. Felizmente que o seu realizador, Charles Ferguson, não deixou que tal não acontecesse.
A vantagem é um filme que se torna mais credível, menos político e menos panfletário.

São aproximadamente duas dinâmicas horas de factos, números, entrevistas a economistas, jornalistas e políticos, a falarem de um esquema financeiro que terá custado ao mundo a maior crise de sempre.
Expectavelmente, os principais obreiros recusaram falar para as câmeras. Nomes como Alan Greenspan, Timothy Geitner, Henry Paulson ou os executivos dos bancos como o Golden Sachs, Merril Lynch, Lehman Brothers e da seguradora AIG recusaram serem entrevistados.

A linguagem nem sempre é fácil de entender por alguém não tenha alguns conhecimentos destas áreas, mas a linha de orientação e pensamento é clara ao longo de todo o filme.
Mostrar e documentar que o colapso financeiro de 2008 que atirou milhões de pessoas para o desemprego um pouco por todo o mundo (as primeiras imagens de Inside Job são da Islândia), foi pensada e causada por financeiros desmedidamente gananciosos, desprovidos de moral, movidos e motivados por ganhos de milhões e que ao longo dos anos, foram ganhando estrategicamente posições e capacidade de tomar decisões políticas a seu favor, em sucessivas administrações americanas.

No final do filme, sente-se resignação e impotência. Afinal o crime compensa, e fortemente.
Sai-se com a quase certeza de que mais ano, menos ano, algo de parecido vai voltar a acontecer.
A actual administração de Obama, inacreditavelmente, fez-se rodear exactamente das mesmas pessoas que causaram a crise de 2008.
Vai ser uma questão de tempo até que aconteça outra.


sábado, 11 de dezembro de 2010

um Natal digital

E se há dois mil e dez anos atrás houvesse para além do burro, o Google, o Youtube, o Facebook e o Twitter como seria o Natal???

O pessoal da Excentric descobriu!


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

divulgar ou não divulgar?

Hoje em dia pensar na Wikileaks, é pensar num dilema.
Sob o pretexto e ao abrigo da liberdade de imprensa pode divulgar-se textos e documentos confidenciais pondo em causa, países, instituições, diplomacias e relações de poder económico e político?
Ou será que dada a importância que a divulgação deste tipo de documentos tem para as relações internacionais e nacionais, para além de potenciais embaraços mais ou menos pessoais, se deve anular o direito à liberdade de imprensa?


Sou dos que pensam que a liberdade de imprensa, a transparência deve prevalecer.
Por natureza e definição tudo o que envolva o Poder, seja ele de ordem pessoal, empresarial ou nacional é opaco. São meandros pouco transparentes e mal explicados.
É sabido que sob as palavras mágicas e vagas de "segredo de estado" se esconde muita coisa obscura que todos nós gostaríamos de saber.
Se casos como a compra dos submarinos e as suas contrapartidas ou a Face Oculta, que volta a estar na berra, foram divulgados e são conhecidos da opinião pública foi devido à liberdade de imprensa.
Será que nós estamos satisfeitos da maneira com que o Poder está lidar com estes casos? Não nos sentiríamos melhor se um site como o Wikileaks tivesse mais informação para divulgar?
Ou outro caso bem conhecido de divulgação de informação confidencial, desta vez por parte de um jornal americano, o Washington Post, foi o escândalo Watergate que culminou com a demissão do presidente Nixon.
Será que não se ganhou socialmente com a divulgação destes casos?

Não se trata de espionagem, roubo de documentação, motivação política ou económica.
É talvez a única maneira que a opinião publica tem de conhecer verdadeiramente do que é feito nas suas costas, de escrutinar as notícias que vão saindo (ou que não vão saindo) nos meios de comunicação, a legitimidade das decisões que a classe dirigente toma.
Talvez o único problema, o grande embaraço, é a maneira descrente e suspeita com que opinião pública passa a olhar para os seus políticos e decisores.
A silenciação e a censura da Wikileaks apenas significa a protecção e manutenção da opacidade dos corredores do poder e de quem decide.
E são cinicamente, os EUA, os tais que por exemplo espiaram a ONU e o seu secretário geral Ban Ki-moon, que estão liderar uma ofensiva contra este site.
Em contrapartida e em reacção oposta, estão a gerar e a generalizar um movimento acerrimamente a favor de Julian Assange e do seu síte.

Não sou a favor nem contra a filosofia da Wikileaks, apenas sou contra o seu encerramento.
O que deve ser questionado não é a publicação ou a divulgação deste tipo de documentos e informações, mas sim a maneira como eles chegam às fontes que as divulgam, neste caso à Wikileaks.
Ou seja, no limite, a grande questão ética a colocar e a resolver, é a fuga de informação em si e não a sua divulgação.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

memórias - Nescafé


Há anúncios que marcam.
Pela música que utilizam, pela história que contam, ou ainda pelo ambiente que criam.
Este anúncio da Nescafé é um dos raros que conseguem combinar um pouco de tudo isto.
Quem o viu há cerca de trinta anos atrás certamente que não o esqueceu.

Qualquer um de nós ao ver este anúncio sentiu em dada a altura, vontade de ir provar uma manhã misturada num copo de água quente aquecida por uma velha resistência de isqueiro.




O tema, I can see clearly now é cantado por Johnny Nash.


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

quando a excepção é a regra





Toda a gente sabe que quando chega a altura de os políticos cortarem verbas em questões que lhes digam directamente respeito, no último minuto aparece uma excepção.
Uma adaptação, uma dobra nas regras que lhes permite alterar o que está estabelecido à medida que os interesses vão surgindo.
E ao longo das últimas semanas elas não têm parado de aparecer.

A dos Açores é uma delas. Para compensar o corte de 5% nos salários, Carlos César, chefe do governo regional dos Açores, vai atribuir um montante equivalente ao valor que é retirado. Afirma que não vai custar um cêntimo aos contribuintes, mas como Marcelo Rebelo de Sousa diz, se esta compensação vem de um fundo, resta saber quem contribui para o dito fundo.
Sócrates indirectamente já disse não pode intervir neste assunto...

Esta é talvez a mais imoral e difícil de engolir. É a permissão de acumular pensões e salários quando tal está vedado ao "povinho".
Numa tentativa de trazer "moralidade" a esta questão, o governo aprovou em Conselho de Ministros a proibição da acumulação de salários com pensões. Agora chegou a respectiva excepção pelas mãos do próprio governo.

Ou, a excepção que abrange os médicos que não se tenham reformado antecipadamente e que voltem a trabalhar para o Estado, também estes podem acumular pensões e salários.

Ou mais esta excepção que colocará os hospitais públicos de gestão empresarial fora do corte de 15% nos gastos operacionais mas não abrangendo os hospitais públicos, provocando fortes protestos dos gestores destes últimos.

Sem esquecer a excepção aos cortes salariais da Função Pública que estejam incluídos em empresas públicas de capital exclusivamente ou maioritariamente público (EPE), que muito foi falada por aparentemente ter sido feita à medida da Caixa Geral de Depósitos, que já tinha feito esse pedido de excepção com o argumento de evitar a fuga de quadros para o sector privado.


No livro de George Orwell, O Triunfo dos Porcos existe um mandamento que diz:
"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros"
A classe política segue à risca este mandamento e nós sabemos bem disso.
Mesmo assim não deixa de ser chocante e muito frustrante quando somos confrontados directamente com o facto.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Grande Ecrã - O Concerto

Na era de Brejnev e do KGB, na antiga USSR, Andrei Filipov era um grande maestro. O maior do seu tempo.
Um dia, o KGB pede a Filipov que expulse os judeus da sua orquestra e este recusa. Numa actuação de Filipov quando este dirigia o concerto nº 1 para violino e orquestra de Tchaikovsky, o KGB interrompe a performance e põe o maestro a ridículo.
Filipov cai em desgraça e torna-se "homem a dias" no Bolshoi, local onde tinha conhecido dias de glória.
Ao limpar um gabinete apanha um fax, onde uma sala de espectáculos francesa, Théâtre du Châtelet, faz um convite ao Bolshoi para ir tocar a Paris. O antigo maestro rouba o convite e num tom de vingança, decide ser ele e os seus antigos músicos irem tocar a Paris.
A partir daqui O Concerto entra num registo de comédia ligeira sem imaginação e em estereótipos sucessivos pouco subtis e vai com eles quase até ao final do filme.
Os russos são abrutalhados, bêbados e desorganizados. Os judeus gostam de dinheiro e comércio e acabam a vender telemóveis chineses e contrabandear caviar russo. E os ciganos são... ciganos. São eles que falsificam os passaportes para os músicos poderem viajar para Paris e arranjam igualmente as roupas para eles vestirem na noite da actuação.
Os franceses são histriónicos e temperamentais.

Com o aparecimento de Anne-Marie Jacquet, o filme ganha outra dimensão. Ganha sentimento, ganha uma certa lógica e seriedade. Torna-se mais credível. Fica menos refém da piada fácil e batida. E finalmente a nossa atenção fica com algo para focar.
Desde que a actuação se inicia até à sua conclusão, cerca de 15-20 minutos. São plenos de sentimento com o realizador Radu Mihaileanu a saber explorar a emoção da música, do ambiente, da incrível beleza que o concerto nº1 para violino e orquestra de Tchaikovsky tem.
É com ela e com o som do seu violino, que os músicos russos sem prática e que nunca ensaiaram se coordenam e inspiram após uma ligeira hesitação inicial.
A cena em que vemos a filha, Anne-Marie, a reproduzir no violino, o que vemos os dedos da mãe, Lea, na noite fria e escura da Sibéria a dançarem sobre um violino imaginário é portentosa.

Este filme só pela abordagem final do concerto para violino de Tchaikovsky vale a pena ser visto.
Depois pode pensar-se num segundo motivo, que é a entrada em cena de Mélanie Laurent, no papel de Anne-Marie.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

o FMI do Euro ?

Na Europa a duas velocidades, existe uma designação pejorativa para os países que circulam na velocidade mais baixa: PIIGS.
É o acrónimo inglês para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Spain (Espanha).
Dois destes países já estão sob a ajuda financeira do FMI. Inicialmente a Grécia e agora a Irlanda.
Por pressão dos restantes países europeus (Alemanha) ou por vontade própria, acredito piamente na primeira hipótese, Portugal será o terceiro país a ter, brevemente, a intervenção do FMI.

O objectivo será proteger a Espanha, tem os seus juros a subir, de acções especulativas que a ponham em causa.

Se a Espanha cair diz-se que toda a Europa vai tremer, o que na prática, significa que o Euro está em risco.
Mas já se fala igualmente em Itália e a Bélgica já está sob pressão, porque tem os seus juros a subir apesar de estes serem ainda baixos e até há quem esteja nervoso em… França. Um dos pilares europeus!

Mais do que a crise europeia, tem que se falar numa crise do Euro e das premissas em que este assenta.
Recentemente, Angela Merkl ao insinuar que outros países deveriam solicitar um pedido de ajuda económica ao FMI e à UE só vem agravar e aumentar as pressões que existem sobre Portugal e Espanha e logo sobre a própria Europa.
À medida que os pacotes de ajuda se sucederem, o dito nervosismo vai aumentar e com ele os juros. O facto é que os mercados estão numa dinâmica de ganância, de ganhar dinheiro com os juros altos e isso só os torna ainda mais apetecíveis. Pescadinha de rabo na boca.
É uma maré a varrer a Europa. Pode começar pelos que andam na velocidade mais baixa, mas certamente irá (já começou...) contaminar os mais rápidos.
Há só uma hipótese: a UE - principalmente os 16 da moeda Euro - funcionar como um só todo. Solidária.
Um conceito que apesar de todas as políticas comuns da agricultura, pescas, imigração, do espaço Schengen, etc..., etc... a Europa ainda não conseguiu atingir.
Caso contrário, arrisca-se a ser um monumental falhanço político e económico.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

uma candidatura felizmente falhada

Sim, fiquei satisfeito por não termos ganho a organização dos mundiais de futebol de 2018-2022.
Como candidatura nós vivíamos da força da Espanha, a campeã do mundo. Naturalmente seriamos um parceiro subalterno e canibalizado. Um pendura. Nunca estaríamos em posição de igualdade.

Também não o merecemos e nem sequer seríamos capazes de estar.
De acordo com a FIFA, os jogos de abertura e encerramento têm de ser realizados em estádios com lotação 80 mil lugares, o que exclui logo à partida a atribuição de um destes jogos para Portugal.
Para os restantes jogos, são necessários estádios acima dos 40 mil lugares, e só existem três nessa situação: Benfica, Sporting e Porto.

Até acredito que houvesse retorno financeiro, até acredito que a organização fosse excelente, mas não consigo acreditar na seriedade deste desporto em Portugal.
Quando penso em Gilberto Madaíl, Laurentino Dias, Pinto da Costa e Filipe Vieira todas as esperanças vão por água abaixo.
Principalmente quando me lembro da maneira da maneira pouco digna com que lidaram com Carlos Queiroz.
Principalmente quando me lembro dos casos de corrupção não resolvidos ou mal resolvidos.
Principalmente quando vejo tentarem justificarem o TGV com a realização do mundial.

Daqui a oito anos ainda estaremos a tentar sair do lodaçal em que este país actualmente se encontra.
Dificilmente que alguém perceberia que se investisse ainda mais (por pouco que seja) em estádios e infraestruturas que muito pouco beneficiariam o país.
Ao contrário do que aconteceu no Euro 2004, em que realmente houve uma união à volta do campeonato, apesar da loucura dos gastos que foram feitos, para o Mundial de 2018 tal não iria acontecer.
Não é uma prioridade para o país e ninguém sente que o seja. Só mesmo os dirigentes do futebol (e alguns do governo) poderiam pensar isso.

Felizmente que não ganhámos a organização do mundial de 2018-2022. Correcção. Felizmente que a Espanha não ganhou a organização do mundial de 2018-2022.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

dia mundial da Luta Contra a Sida




Os números da SIDA

De acordo com o relatório 2010 da UNAIDS referente ao ano 2009 estima-se que.. 

  • 2.6 milhões de pessoas tenham sido infectadas com Sida, média de 7 mil pessoas por dia,
  • 33 milhões de pessoas vivam actualmente com Sida, dos quais 2.5 milhões são crianças menores de 15 anos,
  • 1.8 milhões de pessoas morreram de doenças associadas à Sida,
  • 10 milhões de pessoas não têm acesso a terapias anti-Sida,
  • dois terços das pessoas infectadas com Sida vivem no continente africano,
  • a África subsaariana é a região do planeta onde ocorre a maior percentagem de novas infecções, cerca de 69%,
  • registou-se uma redução de 20% no número de novas infecções desde 1999


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fernando Pessoa - 75 anos de eternidade

Eu tenho uma dívida de gratidão com Lídia Jorge.
Há 25 anos atrás, no Liceu de Queluz, Lídia Jorge era minha professora de português e apresentava pela primeira vez um poema de um autor que não conhecia até então.

O poema era um pouco estranho para mim, mas havia algo nele que me atraía. Ele "falava" comigo.
A professora veio em minha ajuda e explicou que era sobre a simplicidade da vida, a obediência ao inevitável destino e algo que era muito típico encontrar neste poeta: o paradoxo e o tormento interior.

O poema era este:

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes,

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


O seu autor é Fernando Pessoa, e é desde então o meu poeta preferido. Sempre com a clara sensação que ele escreve para mim.
Dizem que é um dos maiores poetas nacionais. Não concordo. Ele é os quatro maiores poetas nacionais.

A 29 de Novembro de 1935 Fernando Pessoa escreve sua última frase, a lápis e em inglês, dizia:
I know not what tomorrow will bring - não sei o que o dia de amanhã trará.
Trouxe-lhe a morte. Morreu no dia seguinte a 30 de Novembro de 1935 com 47 anos, no hospital São Luís dos Franceses em Lisboa, vítima de uma cirrose hepática. 
Faz hoje 75 anos.

Mas como escreveu o heterónimo Álvaro de Campos “morrer é só não ser visto”.


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Grande Ecrã - Harry Potter e os Talismãs da Morte (parte 1)

É difícil escrever sobre uma saga que nunca me fascinou.
Quando fui ver em 2001 Harry Potter e a Pedra Filosofal, não sendo um grande filme até gostei. Gostei do universo criado de Hogwarts, dos putos que iriam tornar-se futuros feiticeiros.
E isto levou-me a ir ver o segundo filme - Harry Potter e a Câmara dos Segredos.
Já este não trouxe muito mais que o primeiro. E deixei de seguir a saga já que não sou fã deste tipo de ambientes e cinema. Ocasionalmente fui vendo um ou outro na televisão.

Agora fui ver o Harry Potter e os Talismãs da Morte (parte 1). Já que tinha visto os dois primeiros, porque não ver os dois últimos?
De todos os que vi, ou fui vendo, este é o que menos me atraiu. Senti a “falta” do ambiente escolar de Hogwarts. Da sua magia e da sua dinâmica visual.
Claro que os Talismãs da Morte (parte 1) é um filme de introdução ao “grande finale” que acontecerá com a segunda parte em Julho de 2011, sendo portanto tendencialmente mais cerebral e pouco emotivo.

Gostei muito do ambiente do filme que o director de fotografia, o português Eduardo Serra criou. Obscuro, com a luz quase ausente de todo o filme a transmitir bem a gravidade dos tempos que se vivem e a necessidade de proteger a esperança (Harry Potter).
Gostei menos da ideia de carregar o horcrux ao pescoço com a alteração de personalidade de quem o carrega – muito Frodo, muito Senhor do Anéis – pouco subtil, assim como o saltar de lugar em lugar - faz lembrar Jumper - de paisagem em paisagem ao longo do filme. Sem lógica aparente, apenas porque sim.
Daniel Radcliffe parece perdido no papel. Sem garra nem convicção. Amorfo.
Os diálogos são mastigados e pouco incisivos.
Os arrufos de ciúmes adolescentes que vão surgindo aqui e ali, entre as três personagens de sempre, também não ajuda muito.

Para os seguidores, apreciadores e indefectíveis será certamente um bom filme. Pessoalmente, foi um filme algo entediante, linear, previsível e sem emoção.
De qualquer maneira, tenciono ver a parte dois. Só para gastar dinheiro.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Luzes do Norte

"Beleza, presente de um dia que o céu nos oferece."
Alfonse de Lamartine

É-me muito difícil descrever o efeito que as auroras boreais (ou austrais) têm em mim.
É algo espiritual, é algo muito profundo. Algo que só se sente. Muito forte mesmo.


via APOD



Filmado em Tromso, Noruega por Tor Even Mathisen

mapa da Europa


O que vê um português quando olha para um mapa da Europa...




segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Grande Ecrã - Dos Homens e dos Deuses

Do Homens e dos Deuses é um filme baseado em acontecimentos verídicos que narra a história de um grupo de oito monges católicos franceses que viveram na Argélia, nas montanhas do Atlas.
Em 1996, sete dos oito monges são raptados e posteriormente assassinados por um grupo fundamentalista islâmico.

O tema central é a resistência que um grupo de homens oferece sabendo que as suas vidas estão em jogo.
Mas não é uma resistência heróica, determinada ou armada. De quem sabe que o há-de fazer e passa à acção no imediato. Muito pelo contrário. A resistência oferecida por estes homens é espiritual. A mais difícil delas.
As dúvidas sobre se ficam ou enfrentam uma morte certa são muitas, e são alvo de discussão entre eles.
De reunião para reunião e ao longo do correr dos dias, as opiniões vão mudando e tornam-se consensuais. Há a aceitação da sua missão e do seu papel. E decidem ficar até ao fim.

À medida que se desenvolve o filme percebe-se que as suas dúvidas vão sendo dissipadas aos poucos e poucos, através da sucessão diária dos cânticos e leituras. A mudança dos seus textos vão anunciando paulatinamente quer a decisão, quer o desfecho final.

O realizador Xavier Beauvois, filma tudo isto de uma forma muito contida, muito contemplativa. Tal e qual a vida dos monges.
Não existe banda sonora. É uma realização virada para a essência do cinema: realização, diálogos, silêncios e da interpretação.
Não dramatiza, nem coloca emoção na realização. A espiritualidade que se assiste, decorre do dia a dia da vida monástica. Não é imposta. Nem mostra os monges como mártires da causa cristã.

Há uma cena marcante. Simbólica. É quando numa ceia, começa a passar numa cassete o Lago dos Cisnes de Tchaikovsky - este é o único momento do filme que é suportado por música.
Nesta altura a decisão está tomada. E a câmara mostra através de grandes planos dos rostos, o que vai na alma de cada um dos monges: alívio ou apreensão.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Gulbenkian - monumento nacional

Soube por aqui, que o edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian e os seus jardins tinham ganho o estatuto de monumento nacional.

Para quem a conhece, sabe que a Gulbenkian é uma bolha protectora dos sentidos, que os acalma e os abranda.
Localizada em plena cidade de Lisboa, é um espaço que nos isola e protege da sua urbanidade. Nele, a cidade soa abafada, distante.
O verde abunda. Os seus jardins têm cantos e recantos. São acolhedores. Tem estátuas sabiamente distribuídas e as árvores estão identificadas. Frequentemente vê-se famílias de patos a cruzarem apressados, os caminhos traçados nos jardins, a caminho do lago.


Mas para mim, e para além disto, a Gulbenkian foi uma perdição durante os tempos de faculdade.
Perdição no sentido formal da vida, porque perdi algumas aulas à conta da Gulbenkian, dos seus museus e jardins.
Mas no lugar delas, muitas vezes estéreis e mal dadas, encontrei música, dança, pintura e escultura.
Fui apresentado a outros "professores" com quem estabeleci relações duradouras. Eduardo Viana, Philip Glass, Stockhausen, Pina Bausch foram alguns deles. Outros nem tanto: Schiele, Modigliani e Paula Rego.

Várias vezes fui para lá apenas para ir ver um determinado quadro, ou simplesmente, arrumar pensamentos soltos, deixar o espírito planar e ler um livro.
O Museu Gulbenkian, o Centro de Arte Moderna (CAM) e o Anfiteatro ao Ar Livre, tornaram-se grandes companheiros. Amigos para a vida.
Educaram-me e cresci em matérias que uma faculdade de engenharia não ensina e não aborda.
Pensando bem e para minha sorte, a Gulbenkian no sentido prático da minha vida, foi uma "ganhação".

É justo e agrada-me bastante que seja agora um monumento nacional.
Uma importante e bonita parte de mim e da minha vida, está embebida nestes edifícios e jardins.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

um bebé de 30 anos


Escalas astronómicas

Quando falamos de Universo, usualmente falamos de escalas quer em termos de tempo, quer em termos de distâncias tão grandes, tão absurdamente grandes que nos ultrapassam completamente.
Os anos são medidos em múltiplos de milhões (1 000 000) ou mil milhões (1 000 000 000) de anos, e as distâncias astronómicas medem-se em termos da distância percorrida pela velocidade da luz no espaço durante uma unidade de tempo, usualmente anos.
A velocidade da luz percorre num segundo cerca de 300 000 km, que dá próximo de 1 079 252 848.8 km numa hora, ou 9 460 536 207 068 016 km percorridos num ano.
Face a estes números percebe-se que a escala humana de tempo e distância é completamente irrisória e inadequada.
São números inúteis e não compreensíveis numa utilização na realidade do dia a dia.

A velocidade de escape

Buraco negro na Grande Nuvem
de Magalhães
Pelas suas características, um buraco negro é um objecto considerado exótico. Imaginemos, aqui na Terra, que atiramos uma pedra ao ao ar. Naturalmente ela cai. E cai devido à força da gravidade.
Imaginemos agora que atiramos uma pedra a uma velocidade tal que ela já não cai, continua, continua a subir. Sai fora da influência da gravidade da Terra e segue em direcção ao espaço.

A esta velocidade chama-se velocidade de escape. Ela na Terra é de 11,2 km/s (40 320 km/h) e no Sol é de 618 km/s (2 224 800 km/h). Esta velocidade depende da massa do objecto cuja velocidade de escape se pretende calcular. Aumenta à medida que a massa aumenta.

Um buraco negro

Agora imaginemos que conseguimos atirar a pedra a uma velocidade igual à da velocidade da luz. De acordo com as leis da física actuais nada pode ser mais rápido que a luz. É um limite absoluto.
Mas mesmo assim, a pedra cai.
Estamos num buraco negro. Tudo é atraído. Nada escapa a ele, até a luz. Por isso é negro.
Os buracos negros são gerados pela morte das estrelas. A vida das estrelas, e dos buracos negros, mede-se mais uma vez, em milhões ou mil milhões de anos.
Mas só as estrelas mais pesadas, cerca de 25 vezes a massa do sol, quando morrem dão origem a buracos negros.

De acordo com este post da atroPt, foi descoberto um buraco negro bebé.
Um recém nascido à escala temporal do universo, mas um adulto à nossa escala.
Sim. Verdadeiramente podemos aplicar a escala humana aqui. Este buraco negro - de nome SN 1979C - tem cerca de 30 anos de vida!
É tão recente, que figurativamente, a Mãe Universo pode pegar nele e embalá-lo.


Uma nota

Na verdade ele é bem mais "velho" que os 30 anos que lhe são atribuídos.
Efectivamente, a luz dele que está a chegar até nós, corresponde a 30 anos após o evento ter acontecido. Mas dadas as distâncias que a luz teve que percorrer, o buraco negro terá nesta altura cerca de 50 milhões de anos. Altura em que a estrela (SN 1979C) que lhe deu origem e o nome morreu. 

Por exemplo a luz do Sol. Quando olhamos para o Sol, vêmo-lo com 8 minutos e meio de "atraso".
É o tempo que a sua luz demora a percorrer desde a sua emissão até chegar aos nossos olhos.



domingo, 14 de novembro de 2010

Grande Ecrã - A Rede Social

A Rede Social não é um filme sobre o Facebook. É mais interessante que isso.
É um filme que responde a duas perguntas: Como surge o Facebook? E porquê?
E a resposta é dada logo nos primeiros minutos do filme. O diálogo de entrada com a namorada é fantástica. É ágil, é incisivo, exige atenção de quem vê e no imediato caracteriza muito bem a personagem Mark Zuckerberg.
Inteligente, acutilante, desconcertantemente rápido de raciocínio colocando problemas a quem dialoga com ele e o mais importante, alguém que tem dificuldades de integração na vida social mas que deseja ser socialmente aceite pela comunidade universitária, que o rejeita.

No final deste diálogo, a namorada rompe com ele e percebe-se que este é o motivo decisivo para o germinar do Facebook, uma rede social virtual.
Algo que permite a socialização de pessoas sem que não se tenha que levantar da cadeira, vestir um casaco, sair de casa e ir ter com os amigos.
É um clube social concebido por nós e à nossa medida. Onde os membros social são escolhidos e/ou aceites por nós com base nos seus perfis de interesses.
Ou seja, exactamente aquilo que Mark Zuckerberg precisa.

A partir daqui desenrola-se todas as consequências, universais, que rodeiam a criação de algo excepcional e absurdamente lucrativo: ganância, oportunismo, traição e perda de amigos (no caso de Zuckerberg, o único que tinha - Eduardo Saverin).

A realização de David Fincher é igual ao diálogo de abertura. Rápida, viva e interessante. Bem apoiada em excelentes diálogos (talvez a melhor componente do filme).
Consegue imprimir um ritmo de acção a algo etéreo como um filme que se debruça sobre como surge uma rede social virtual.
O outro trunfo do filme é o actor Jesse Eisenberg, completamente credível no papel de Mark Zuckerberg.
Mostra-nos um geek genial, imaturo, incapaz de socializar, um pouco alheado do mundo real, rosto fechado e pouco sorridente - raras vezes o vemos a sorrir ao longo do filme.
Alguém que caminha à frente dos outros e que vê ainda mais à frente.
Exactamente o perfil que esperávamos do criador do Facebook.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Sr. do Adeus (1931-2010)

Não conhecia de todo o Sr. do Adeus.
Foi ontem, com a sua morte que ouvi o seu nome pela primeira vez.
Pelo que li e ouvi, tenho pena de não ter sido "adeusado" por ele. Era um senhor que usualmente estava no Saldanha ou Restelo, impecavelmente bem vestido e de característicos óculos de massa, dizia adeus às pessoas e atirava-lhes beijos. Era a sua maneira de afugentar (ou aliviar) a solidão que o assolava e perseguia. Precisava de comunicar e estar em contacto com as pessoas.
"Essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente".

Quem passava retribuía o adeus, quem circulava buzinava-lhe.
Pequenos gestos de grande significado que muitos recordam. Daqueles que podem alterar ou fazer a diferença na vida de uma pessoa. Daqueles que conseguem transformar lágrimas em sorrisos.
Para melhorar a sua, dedicou os últimos dez anos da sua vida a melhorar a vida dos outros. A das pessoas que por ele se cruzavam.

Parecia ter uma opinião muito pura e genuína da vida.
Parecia saber o que era importante na vida: ver e fazer os outros felizes. Mesmo que fosse por segundos. O tempo que necessitava para acenar a sua mão.
Curiosamente, no seu blog dedicado ao cinema, no final do último post, uma opinião sobre o filme "Rede Social", tenha escrito, talvez premonitoriamente:
"...ainda é cedo, mas desejo um feliz Natal a todos e estejam todos muito felizes".

O Sr. do Adeus, que preferia ser chamado Sr. do Olá, e que eu não conhecia até ontem, chamava-se João Manuel Serra.
A vida disse-lhe adeus aos 80 anos.


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

um ano de blog

A quem segue e lê a Esteira, a quem a segue mas não lê, a quem a lê mas sem a seguir e até aos que fugazmente a cruzam, um grande obrigado.
Estamos de parabéns!

Hoje, em dia de São Martinho, a Esteira de Letras faz um ano. 






São servidos de uma fatia de bolo e um copo de jeropiga? ;)


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

dia mundial da Ciência

"A ambição da ciência não é abrir a porta do saber infinito, mas pôr um limite ao erro infinito"
Bertold Brecht


Poucas coisas são tão opostas e "bipolares" como a Ciência.
Ela tanto pode ser letal, como salvadora. Traz a criação mas é acompanhada de perto pela destruição.
Carrega o milagre do nascimento, mas traz o horror em poucos segundos.
Encerra em si o medo das consequências, do desconhecido, mas transpira a alegria do sucesso e da descoberta.
É fonte de ganância e jogo escondido, mas simultâneamente é na distribuição e partilha do seu conhecimento que evolui.
À vaidade do passo em frente que foi dado, contrapõe a humildade do muito que falta conhecer e descobrir.
É objectiva e impessoal, mas destina-se e direcciona-se sempre às pessoas.

Os seus avanços fazem-se com base no erro e questiona-se permanentemente.
É sólida até ao momento em o deixa de ser, para de novo ser tornar mais sólida que anteriormente.
É um gigante de pés de barro em risco de queda eminente, mas sempre pronto a reconstruir-se, a reiventar-se.
Assume a sua ignorância e os seus limites. Procura expandi-los. É objectiva. É inquieta. Não é dogmática nem estática.

O dia de hoje, 10 de Novembro, dia mundial da ciência, consagra o melhor que a ciência nos pode trazer: paz e desenvolvimento.

7%

Terá sido o fantasma de ter o FMI a entrar no país que encorajou, mais que outro qualquer motivo, o entendimento entre PSD e o governo para a aprovação do OE de 2011. Não tenho muitas dúvidas sobre isto.

Declaradamente é um orçamento não consensual. Foi forçado pelas circunstâncias e pela necessidade, apresentado com falta de convicção, em que só verdadeiramente um partido, o do governo, apoiou.
Assim que o acordo foi atingido, cada um dos líderes responsáveis por ele, foi para o seu canto da arena política continuar os ataques políticos e verbais, como se nada tivesse acontecido. Sem mostrar a esperada cooperação institucional após o acordo.
É portanto um orçamento que não convenceu os portugueses, e muito menos os mercados financeiros internacionais. Não uniu a classe política em torno dele, quando isto era o que mais necessitava o país.

A consequência é a falta de credibilidade que Portugal actualmente tem junto da banca internacional. O que por sua vez causa a dificuldade que sente em financiar-se, em existir uma entidade financeira que confie no país para emprestar dinheiro e posteriormente confiar que vamos pagar as dívidas que foram contraídas.
Os mercados financeiros já praticamente não o fazem.
Neste momento apenas o BCE e a banca nacional o estão a fazer. E cada vez menos.

Quando o FMI for chamado - tem que ser chamado por um estado membro, caso contrário não intervém - e equilibrar as contas públicas, emprestando dinheiro, e há quem afirme que a questão não é, se vai ser chamado, mas sim quando vai ser chamado, vai pedir o mesmo que este OE prevê ou que já não se esteja a ser pensado em futuros PECs.
Aumento de impostos, redução dos salários da função pública, redução da despesa e do investimento público, alteração da legislação laboral, sem mencionar as (já sussurradas) reduções dos subsídios de férias e Natal, fazem parte da receita habitual do FMI.
Mas vai fazê-lo cortando a direito e no imediato. Impondo regras e condições. Autoritário.
Espera-se também vá para além disso, que acabe com os excessos e mordomias do Estado e seus satélites que corroem financeiramente o sistema. Que minimize a corrupção. Que moralize a política nacional. Porque só eles o podem fazer. Uma entidade exterior ao país. "Santos da casa não fazem milagres" diz o povo.

Teixeira dos Santos afirmou que se os juros atingissem os 7% consideraria a hipótese de chamar o FMI.
Mas recentemente Sócrates fez questão de dizer que chamar o FMI não é opção e Vieira da Silva afirmou que rejeita o limite dos 7% para o fazer.
Sendo um acto (desesperado) de confiança no actual governo, e uma tentativa de fuga à fraca imagem que passará para o exterior por parte de quem governa, pode ter um custo muito elevado.


Quanto mais tarde se der sinais de evolução, mais os juros vão continuar a subir, tal como está a acontecer agora e tornar a situação insustentável para o país a médio prazo. Quer por incapacidade de financiamento, quer por falta de cumprimento face aos cada vez mais altos juros que terão de ser pagos.
E aqui, a possibilidade de a China comprar a dívida portuguesa, que vai ser colocada à venda hoje, a última emissão deste ano, pode vir a dar uma ajuda a Sócrates. Um balão de oxigénio para os próximos meses.

Já que o Orçamento de Estado para 2011 foi aprovado, seria bom se tal não acontecesse. Mostraria a toda a gente que seríamos coerentes, que seríamos capazes de gerir os nossos destinos, as nossas finanças e economia.
Mas Portugal vive igualmente uma crise política, ou está muito próximo de uma, o que não dá confiança a ninguém e neste momento é uma presa ferida a debater-se e isso só atiça ainda mais os predadores.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Grande Ecrã - Ondine

Syracuse é um pescador irlandês sem sorte que tem a sua vida num caos. Ex-alcoólico, a ex-mulher igualmente alcoólica, e uma filha sonhadora (Annie) com uma deficiência renal a necessitar de hemodiálise, cuja custódia ele não consegue ter.

Um dia Syracuse pesca, literalmente, com as suas redes uma bela mulher, Ondine. Descobre que está viva e dá-lhe abrigo.
Misteriosa, ela canta e fala numa língua que este não entende. Começa a participar na faina, o peixe começa a surgir em maior quantidade e a sua vida ganha frescura e um novo colorido. Fá-lo acreditar de novo na esperança, perdida pelo seu passado.
Annie, pelas histórias que o pai lhe vai contando à noite fica convencida que Ondine é uma "selkie". Um ser fantástico aquático, proveniente da mitologia irlandesa e escocesa, que pode assumir a forma humana ao retirar a sua pele de foca e retomar a sua forma original ao colocá-la de novo.
Começa assim a ser desenhada uma doce história de amor, um conto de fadas romântico, entre dois seres de mundos diferentes de difícil conciliação.

Depois quase cruelmente, quando nós próprios, já embalados na história romântica que paulatinamente se foi desenrolando à frente dos nossos olhos, em que a nossa imaginação começava a dar voltas para perceber como se poderia conciliar a Água e a Terra, Neil Jordan (realizador) começa a retirar-nos o tapete e apresenta uma nova e dura realidade.
Syracuse que estava sóbrio há mais de dois anos, por influência da ex-mulher, cai de novo nas garras do álcool e Ondine, não é mais uma "selkie", mas sim uma correio de droga romena, que afinal se chama Joana, que por sua vez, tem o traficante atrás dela para reaver a droga que perdeu numa fuga à polícia mal sucedida.

Mesmo depois de Neil Jordan conceder um final feliz aos três personagens, não deixa de haver uma certa frustração no desfecho.
Não só porque queremos de novo ver a sedutora e mitológica Ondine no lugar da prosaica Joana, mas acima de tudo porque somos confrontados com o facto que afinal fomos "iludidos" durante uma boa parte do filme.

Mas podemos sempre recorrer à frase do cartaz do filme: "a verdade não é o que sabes, é o que acreditas".

sábado, 6 de novembro de 2010

Monopólio - 75 anos

Monopólio faz hoje 75 anos.
Já o homenageei hoje, jogando, ficando com a banca... e ganhando. ;)

Apesar de a história atribuir a Charles Darrow a sua invenção, sabe-se que as origens do jogo de tabuleiro mais famoso do mundo, Monopólio, remonta a 5 de Janeiro de 1904. Altura em que Lizzie Maggie patenteou um jogo chamado "Landlord's Game".
O objectivo de Lizzie era demonstrar através de um jogo, que quem possui propriedades enriquece e que os que as alugam empobrecem.
Em 1924, "Landlord's Game foi revisto e passou a incluir nomes de ruas.

Mas foi Charles Darrow que ficou para história com a invenção de Monopólio.
Este jogo nasceu em 1935 pouco tempo depois da grande depressão. Charles,um inventor desempregado durante os anos da Grande Depressão, começou por fabricar e vender por conta própria exemplares do jogo a 4 dólares cada um. Com o aumento da procura do jogo, levou-o à Parker Brothers para o seu fabrico e comercialização.


A Parker Brothers rejeitou o jogo, alegando que este tinha 52 erros de concepção. Nomeadamente, levar muito tempo a concluir o jogo e regras complicadas.
Charles não se foi abaixo com a recusa e continuou a imprimir o jogo com a ajuda de um amigo. Através daquelas voltas que o destino dá o jogo foi de novo, literalmente, parar às mãos do presidente da Parker Brothers, o Sr Robert Barton.
Este marcou uma reunião com Charles Darrow.  A 6 de Novembro a Parker compra os direitos do jogo. E a partir daí estima-se que mais de 270 milhões de jogos tenham sido vendidos em 111 países e sido traduzido pelo menos para 43 línguas.
Em 1970 foi criada uma versão em braille e em 1978 saía uma versão de chocolate.
Já se joga Monopólio sem as tradicionais notas de papel, mas sim com dinheiro digital, usando cartões de crédito do próprio jogo e desde Fevereiro deste que já se pode jogar no iPhone.

O Monopólio mais caro do mundo foi feito pelo joelheiro americano Sydney Mobell. 
Custou 2 milhões de dólares. Tabuleiro de ouro de 23 quilates, com as restantes peças feitas de safiras, rubis e diamantes.

Este ano por coincidir com o 75º aniversário do nascimento de Elvis Presley, saiu uma edição comemorativa dedicada ao "rei".

Divirtam-se! :)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Red Bull Illume 2010

Quando o desporto de acção, a Red Bull e a fotografia se encontram, o resultado é este: Red Bull Illume 2010



A fotografia que venceu o concurso Red Bull Illume deste ano foi esta.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

uma citação


Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou não tem arte...

sabedoria popular




segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Grande Ecrã - A Lenda dos Guardiões

Inauguro aqui uma rubrica que pretendo que seja regular. Sem grande imaginação vou chamar-lhe "grande Ecrã" ;).
Será sobre cinema. Porque é uma das coisas que mais gosto. Vou frequentemente, mais ou menos todos os fins de semana.
Tento sempre ver filmes potencialmente interessantes.
Filmes que me façam pensar (Ensaio sobre a cegueira), que me desvendem mundos diferentes que gostava de conhecer (Avatar), ou talvez não.
Que me identifiquem com causas (Lista de Schindler), que me marquem e que se tornam parte de mim (O Estranho Mundo de Jack).
Que me dêem a conhecer heróis comuns (Gran Torino) ou pessoas extraordinárias (Milk).
Que seja capaz de suavizar a minha alma (O Sítio das Coisas Selvagens) ou que me inquietem profundamente (o Exorcista).

Mas não sou um purista do cinema, também faço concessões ao "lixinho" :).
Já vi filmes que vivem exclusivamente dos efeitos especiais (2012), da pancadaria (Mercenários), ligeiros (A-Team) e filmes verdadeiramente da treta (Transformers 2).

Começo com o filme de animação 3D que vi este fim de semana - A Lenda dos Guardiões.
Um filme com ligeiras nuances bélicas, que tem como animal central, as corujas.
Este filme para mim tem um problema. Não é uno. Ou seja, a vertente argumento e vertente técnica são facilmente distinguíveis e separáveis.
Pelo lado do argumento é banal, batido e previsível.
Trata-se do clássico do bem contra o mal, a lenda que afinal até é verdadeira, os sonhos que se devem perseguir e acreditar porque no fim eles acontecem e até excedem as perspectivas. Nada de mais.

Mas a técnica, a realização é excepcional. Visualmente, é exuberante e arrebatador, ou não fosse o seu realizador Zack Snyder, o mesmo de 300 e Watchmen.
A técnica 3D e a animação das corujas são tudo neste filme. Os trechos em câmara lenta são tremendos. Damos por nós admirar as sequências de voo (e de combate), como as penas das corujas se movimentam, a transparência rosada dos seus bicos, o desenho dos seus olhos, a perfeição da colisão das gotas de águas com os seus bicos e asas durante o voo na tempestade (excelente!), ou os detalhes das máscaras guerreiras que as corujas usam.
É fácil esquecermos que estamos perante um filme de animação em vez de acção real.
Só pela perfeição desta realização vale a pena ver este filme.
Compara-o muito a Avatar pela maneira como nos coloca "lá dentro".




sexta-feira, 29 de outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

será que precisamos deste OE?

É ideia generalizada que a falta de credibilidade nos mercados financeiros já está instalada, independentemente da aprovação ou não deste orçamento.
É ideia generalizada que o Orçamento é mau e que a realidade económica do país é pior do que se pensava.
É ideia generalizada que este governo não prima pela transparência e isso reflecte-se neste Orçamento.

Talvez não

Para além da crise económica há que somar a forte crise política. E esta última só é verdadeiramente resolvida com novas eleições, novos governantes.
Logo, será que é vantajoso, é verdadeiramente crítico que este OE seja aprovado? Será que precisamos dele? Talvez não.

É claro que o país vai continuar a funcionar "sem orçamento" e com um governo de gestão. O PSD já afirmou que apoiaria um governo desta natureza. Certamente que não iremos à bancarrota.
A Grécia ainda existe, e creio que os portugueses não se importavam que Portugal estivesse tão mal como a Islândia quando esteve na bancarrota.
Entre um governo de gestão e as eleições legislativas, vai dar tempo para que se pense em alternativas de governo, se faça o trabalho de casa e se preparem novas equipas de trabalho. Que os bastidores da política funcionem.
Talvez durante esse intermezzo, houvesse uma união de consciências para salvar o país. Talvez se formasse um espírito de coesão nacional, uma espécie de desígnio colectivo.

Mais do mesmo

Se este orçamento for em frente, prolonga-se a agonia e a desmoralização do país durante mais um ano.
Se passar o OE de 2011, certamente que não passa o de 2012.
É só pensar um pouco.
Será que o país quer ver a arrogância de Sócrates e a tecnocracia de Teixeira dos Santos a governarem Portugal durante mais um ano, da mesma maneira que tem sido até agora?
Com PECs a sucederem-se uns aos outros, contradições patéticas, despesismo, decisões a avulso não planeadas e incoerentes, aumentos de impostos e novos impostos, destruição do estado social e sistemáticos ataques à classe média.
Alguém acredita algo vai mudar, que vai haver evolução ou melhoria? Não. Claro que não.
Na prática seria mais do mesmo durante um ano.

O FMI

Acenam com a ameaça da intervenção do FMI em caso de rejeição do Orçamento de Estado.
Mas há quem diga que o FMI vai entrar pelas nossas portas dentro, seja ou não o orçamento aprovado.
E há quem (Pina Moura) afirme que isso pode ser bom. "Santos da casa não fazem milagres" afirma o povo.
Era uma maneira de regular e moralizar a nossa economia, impor regras. Termos transparência nas contas públicas. Regulamentar a economia e moderar os excessos e os favores à banca.
Talvez sejam medidas mais duras, mas certamente que trará uma sensação de justiça e equidade na sua aplicação. Conceitos que os portugueses não têm sentido até ao momento.
Já que não o soubemos fazer, ou quisemos fazer, alguém que o faça por nós.
Além que o homem forte do FMI para a Europa é António Borges, que por acaso, até há muito pouco tempo foi um vice presidente do PSD.

Uma década perdida

Portugal já perdeu, com ou sem Orçamento.
A economia nacional foi considerada a terceira pior do mundo na última década. Pior só a Itália e o... Haiti! Na comparação do PIB de 2000 com o PIB de 2010, verifica-se que o PIB de Portugal nos últimos 10 anos cresceu 6.47%, contra 2.43% da Itália. O Haiti foi a única nação do mundo que teve um crescimento negativo de 2.39%.
A Guiné Equatorial está no topo da escala com um crescimento de 387%.


Um orçamento rejeitado não é desejável. Nunca é.
Mas por vezes tudo tem que ir abaixo, para se recomeçar de novo. É como se fosse escolher o mal menor.
Talvez seja altura de tal acontecer.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Daniel Bessa. Ele lá sabe...



Daniel Bessa, antigo ministro da Economia, em entrevista ao JN.

Acredita na inevitabilidade de um PEC IV?

"Acho que não vamos ter um PEC IV, vamos ter um V e um VI. O IV é o mínimo indispensável para cumprir a meta do défice para 2012. Eu gostava de reter a velocidade a que a situação se deteriorou em Portugal. Há um ano tivemos umas eleições onde nos foi dito que o problema do défice não existia, que não era preciso reduzir despesa nem agravar taxas de impostos, porque tudo se ia resolver com o aumento de receita trazido pelo crescimento da economia. Em menos de um ano, passamos para esta realidade, com três PEC. É preciso ser muito cândido para acreditar que fica por aqui."

Ler a entrevista aqui.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

os fractais de Mandelbrot

Sempre admirei a elegância, as cores e a natureza repetitiva da geometria fractal.

Os fractais são formas geométricas abstractas de formas complexas que se podem repetir infinitamente, a diferentes escalas, mesmo quando estão confinadas a um espaço finito.
  
estrutura fractal do brócolo romanesco
Ou seja, é um objecto geométrico, que pode ser dividido em partes ou subdivisões, em que cada uma dessas partes são semelhantes ao objecto original (auto-semelhança) independentemente da escala a que observamos esse objecto.

Na natureza podemos encontrar exemplos de geometria fractal no recorte de uma linha costeira, no sistema circulatório no interior do nosso corpo, ou nos corriqueiros brócolos.

tronco de um brócolo verde
Em cada um destes exemplos quando "apertamos" a escala, a tornamos mais pequena, encontramos sempre o mesmo tipo de geometria inicial.

Na figura do brócolo verde é bem patente que cada tronco mais pequeno é igual ao tronco maior.
O mesmo se passa para os troncos ainda mais pequenos.

Um exemplo famoso de como se pode gerar um fractal é a curva de Koch, também chamado de "floco de neve". Foi apresentada em 1906 pelo matemático sueco Helge von Koch.
Cada vez que são adicionados novos triângulos ao triângulo original, o seu perímetro cresce "aproximando-se" do infinito. Teremos paradoxalmente, um perímetro tendencialmente infinito numa área finita.

Este tipo de conhecimento e desenvolvimento destas propriedades geométricas já vem de fins de sec. XIX e inícios de sec. XX, mas é com o advento da computação e consequente aumento exponencial da capacidade iterativa que a natureza fractal vem ao de cima, e em 1975 Mandelbrot cria o termo que se tornaria popular - fractal.
O fractal mais conhecido e estudado tem o seu nome - Conjunto de Mandelbrot.

Conjunto Mandelbrot
um subdivisão do Conjunto de
Mandelbrot - é visivel a
geometria inicial do fractal


Mas mais que o conceito matemático que está por detrás dos fractais, fica a arte, o detalhe, a beleza etérea e hipnotizante destas imagens. 



O seu pai e (re)descobridor desta geometria, Benoît Mandelbrot, matemático francês nascido na Polónia, morreu esta semana, no dia 17 deste mês, com 85 anos.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

há 120 anos...





Há 120 anos, nascia a 15 de Outubro de 1890 em Tavira, Álvaro de Campos, um dos heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa.
E há 81 anos, Álvaro de Campos escrevia um dos poemas que mais gosto - Aniversário.

Não é o meu heterónimo favorito, esse é Alberto Caeiro (que até foi mestre de Álvaro de Campos), mas perpassa por todo este poema um imenso sentimento de desilusão, melancolia e amargura que me cativa imenso.

Em Aniversário, Campos sente-se abatido e está resignado.
As mortes daqueles que nele depositavam esperança, a perda do passado e da sua infância pesam-lhe na memória.
A percepção de ter ganho consciência dele próprio tardiamente é-lhe particularmente dolorosa e acentua-lhe a sensação de perda.
Sente-se abandonado pelo tempo passado.
Está mergulhado e irremediavelmente perdido numa existência oca até ao final dos seus dias.


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos
15.10.1929