sábado, 10 de março de 2012

uma música para o fim de semana - Rogério Charraz


Até há pouco mais de uma semana, nunca tinha ouvido falar de Rogério Charraz. Foi quando este lançou o seu primeiro álbum, A Chave, e foi disco da semana da Antena 1 que o conheci.
Define-se como cantautor, ou seja alguém que escreve, toca e compõe as sua próprias músicas.

Descobri que tem quatro temas seus numa série da RTP chamada "Pai à força". 
Não é no entanto novato no mundo da música. Foi fundador dos Boémia que terminaram em 2007 iniciando depois um projecto chamado Rogério Charraz Trio.
Pelo meio, Rogério junta-se a dois brasileiros e criam o Sotaques.
Compõe em 2010 um hino para o SLBenfica (muito bem Rogério!).

Em junho do ano passado tem uma participação no (fantástico) álbum Em Busca das Montanhas Azuis de Fausto Bordalo Dias a seu convite, com o tema Por Altas Serras de Montanhas.

Agora Rogério Charraz decide assumir-se musicalmente por inteiro com o seu A Chave.

Gostei da canção que dá nome ao álbum - A Chave. Tem um cheirinho a Rui Veloso. A letra, o timbre de voz de Rogério nesta faixa fazem lembrar este grande músico português que há-de aparecer numa das próximas músicas para o fim de semana.
Aliás, neste álbum de apresentação de Rogério Charraz, Rui Veloso, juntamente com Ana Lains e José Mário Branco são seus convidados.

Bom fim de semana :)




quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher




Uma vez disseram-me que como eu não era mulher não sabia valorizar o Dia Internacional da Mulher, talvez.

Na verdade tal como eu, muitas mulheres pensam que este dia as secundariza em vez de lhes dar a força que merecem e que por vezes necessitam.
Do meu ponto de vista, é uma espécie de rebuçado que se lhes dá, quase uma esmola, pela subvalorização, falta de igualdade, de oportunidades e reconhecimento do seu papel na sociedade.

O verdadeiro dia da mulher é todo aquele em que esta se impõe pela força da inteligência, do saber fazer, pela competência, pela subtileza, por trazer a delicadeza e força que ser mulher e ser mãe pode trazer ao mundo que a rodeia.
Que o equilibro atinge-se quando a força da testosterona é moderada pela suavidade do estrogénio.
E aos poucos e poucos isto está acontecer. O que se está a passar nas faculdades é sintomático disso, a presença feminina é dominante.

Mas para as mais desconhecedoras, fiquem a saber que também existe o Dia Internacional do Homem - comemora-se a 19 de Novembro - que inteligentemente ninguém fala, mas que penso exactamente o mesmo que o seu congénere feminino. Não faz sentido existir.

De qualquer maneira e ainda pensando neste dia em particular, existe uma mulher que admiro muito, pela sua obra e naturalmente pela sua vida.
E através dela e da sua poesia homenageio a Mulher.
Curiosamente estreia hoje, o filme Florbela, um filme que nos mostra e revela a vida torturada dessa mulher que deu origem a uma das poesias mais viscerais, sofridas e violentas - na forma como revela os seus sentimentos e particularmente como vivia o amor - mas também uma das mais belas e delicadas que a poesia nacional tem para oferecer. Falo, claro, de Florbela Espanca.

Um dos meus poemas preferidos dela é este, mas no Dia Internacional da Mulher escolho outro poema dela.
Ele está pleno daquela visceralidade, revolta e violência emocional que lhe rasga o peito e a alma, que vem de dentro das suas profundezas e que tanto aprecio na poesia de Florbela Espanca.


A Mulher

I

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimento cheio, eis a mulher
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta: sê em Vénus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então vis:"Olhem, vejam
é aquela a infame!" e apedrejam
a pobrezita, a triste, a desgraçada!

II 

Ó mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e de sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Florbela Espanca


quarta-feira, 7 de março de 2012

um estudo imoral



Paira uma certa sensação de perdição e colapso moral, neste mundo. Senão vejam.

De acordo com um estudo científico intitulado Aborto após parto: porque deve o bebé viver?, publicado no British Medical Journal e assinado por Francesca Minerva formada em Filosofia (bioética), é moralmente aceitável a morte de um recém nascido, nas mesmas condições que um aborto é permitido, incluindo situações em que o recém-nascido não é portador de deficiências físicas.

Esta "investigadora" parte de três princípios, todos eles muito "morais":
  • O feto e o recém-nascido não têm o mesmo estatuto moral das pessoas
  • É moralmente irrelevante o facto do feto e recém-nascido serem pessoas em potência
  • A adopção nem sempre é no melhor interesse das pessoas

Os autores (Alberto Giubilini é co-autor) deste estudo fundamentam assim que matar uma criança, mesmo sendo saudável, nos primeiros dias de vida não é diferente da prática de um aborto e portanto moralmente legítimo, assim como matá-lo seria defensável se a mãe declarasse incapaz de tomar conta dele.

A pérola  deste... "estudo", é a afirmação que tal como uma criança ainda por nascer, um recém-nascido ainda não possui esperanças, objectivos e sonhos e que apesar de ser um ser humano ainda não é pessoa e portanto sem direito moral à vida.
E concluem que pelo contrário, que a sociedade e as pessoas que rodeiam o recém-nascido, podem ter planos, metas e aspirações que poderão ser condicionados pela sua chegada e portanto estes deverão ser defendidos em primeiro lugar.

Não teria sido moralmente aceitável se as mães destes "investigadores", a tal Francesca e o dito Alberto, tivessem declarado incapacidade de tomar conta destas adoráveis criancinhas???



Lido no Público


terça-feira, 6 de março de 2012

Grande Ecrã - Extremamente Alto, Incrivelmente Perto


É difícil para mim dizer se gostei ou não de Extremamente Alto, Incrivelmente Perto.
O filme é longo, algo monótono e com um fim previsível.
Todas as questões colocadas, todas as pontas soltas do filme, são explicadas e todos os desafios e medos são vencidos.
Em contrapartida, tem um excelente argumento, está bem filmado e um trabalho de actores muito bom.

Destaque para Thomas Horn (que carrega o filme às costas), o miúdo que perde o pai no ataque às torres gémeas do World Trade Center, para Sandra Bullock, a mãe de Oskar Schell, incompreendida por este e a melhor performance deste filme, sem margem para dúvida é a do espectacular Max von Sydow. O fascinante Inquilino que se tornará (e é!) o segundo pai para Oskar e que algo injustamente perdeu o óscar de melhor actor secundário para Christopher Plummer.

Partindo dos atentados do 11 de Setembro, Extremamente Alto, Incrivelmente Perto do britânico Stephen Daldry, não é mais um filme sobre este negro dia, mas é acima de tudo um filme sobre violentas e traumáticas perdas pessoais.
Qual o peso que elas têm nos nossos actos e vidas, a nossa (in)capacidade de lidar com elas e a necessidade de as compreender e conferir-lhes um significado.

Após a perda do pai nas torres gémeas do World Trade Center, Oskar encontra acidentalmente uma chave dentro de um pequeno envelope identificado com o nome Black.
Obcecado em encontrar o significado da chave e descobrir o que ela abre, Oskar vai tentar contactar com todas as pessoas de apelido Black de Nova Iorque e ao entrar nas suas vidas pessoais, percorre dessa maneira uma espécie de via sacra de aprendizagem - com o Inquilino assumir o papel de mentor de Oskar a partir de determinado momento - que terminará na aceitação da morte do pai e do facto de ele não voltar mais.

Feitas as contas, Extremamente Alto, Incrivelmente Perto que esteve nomeado para o óscar de melhor filme, não sendo um bom filme, talvez seja um filme a ver (nem que seja por von Sydow), porque através da deriva que Oskar Schell sente na sua vida e da necessidade de lhe dar um sentido e uma explicação para a sua perda, ele fala connosco.

À semelhança de Oskar, todos nós em determinado momento da nossa vida já perdemos algo que não compreendemos porquê e que nos marca ou marcou a nossa vida, ou então conhecemos alguém a quem já isso aconteceu.




domingo, 4 de março de 2012

(excelente) compra de fim de semana - Dave Holland




Dave Holland, como não podia deixar de ser é rei e senhor no seu quarteto, mas o saxofone alto de Steve Coleman e a guitarra de Kevin Eubanks são grandes, grandes súbditos.
Kevin Eubanks está muito presente em todas as faixas, mas as suas "guitarradas" particularmente em Nemésis e Black Hole são altamente.
O saxofone alto de Steve Coleman brilha em Processional e The Oracle.

Curiosamente todos os músicos deste quarteto, à excepção do baterista Marvin "Smitty" Smith, contribuem com dois temas para o excelente álbum do quarteto de Dave Holland, Extensions.