quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

dois nomes


Não podia fechar este ano sem mencionar dois nomes que marcaram este ano e cujas fotografias não apareceram na Esteira: Adi Hudea e Aylan Kurdi.

Adi Hudea, é uma menina síria de quatro anos, que no campo de refugiados de Atmeh, mostra a perda da infância, quando o fotógrafo turco, Osman Sagirli, ergue a sua máquina fotográfica para lhe tirar uma fotografia, ergueu ambas as mãos em atitude de submissão, de rendição.
Quantas vezes ela terá visto uma arma apontada a alguém? Quantas vezes terá assistido ao que uma arma de fogo pode fazer à vida de uma pessoa, para que ao confundir uma câmara fotográfica com uma arma dessas, perceber que as hipóteses de sobreviver aumentam se levantar os seus braços??
A imagem foi tirada em Dezembro de 2014, mas chegou em força aos media em Março deste ano.

Pouco tempo depois da divulgação da fotografia de Adi, era divulgada outra fotografia de uma menina síria, no campo de refugiados de Azrak, na Jordânia, que ao ser fotografada pelo alemão Rene Schulthoff, levantou também ela, os braços aos ar.







Aylan Kurdi, é um menino sírio de três anos, cujo corpo deu à costa numa praia turca, em Setembro.
Tal como Adi, é a posição do corpo de Aylan que diz tudo. Parece dormir, parece estar em paz, inocência em estado puro. Parece ter ainda em si, aquilo que Adi, já não tem: infância.
E são todos estes "pareceres" que revoltam e entristecem fortemente que vê esta fotografia.

Por Aylan ter perdido a sua vida, o seu dedo acusador é muito mais acutilante que as mãos levantadas de Audi, pesa-nos mais na nossa consciência. Pôs-nos à frente dos nossos olhos, a realidade que não queríamos ver.
Vi esta fotografia pela primeira vez num avião a caminho do Irão e senti-me culpado.
Hoje, ainda sinto essa culpa, e ela vai perdurar.









A Síria foi uma questão do "deixa andar" por parte da Europa. Todos os avisos estavam dados através dos refugiados que iam chegando à Europa através do Norte de África, Itália e Grécia nos anos anteriores. O número teve que aumentar para valores fora do controlo, para a Europa ter consciência do que se estava a passar e mesmo tardou em reagir.


Fazer mal ao mundo, magoar o nosso planeta, não é só quando o poluímos, provocamos alterações climáticas ou a perda da sua biodiversidade, é quando magoamos, alguém que pela sua inocência, pela sua pureza, nunca poderia ter sido magoado.
Que o digam Audi ou a Aylan, e tantos outros desconhecidos, porque não foram vistos e portanto não nos incomodaram.



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

última compra do ano - Mette Henriette



É surpreendente a todos os títulos o primeiro álbum de estreia na ECM, da saxofonista norueguesa, Mette Heriette,

Primeiro, porque sendo (ainda) desconhecida, a ECM apostou num álbum duplo, depois o nome dele tem também o nome dessa mesma desconhecida: Mette Henriette.
E ainda tem a ousadia de nesse duplo, existir também uma dupla personalidade, uma por cd, que não por acaso, são compatíveis entre si.

No primeiro está um trio de jaz, algo diferente do que nós esperamos, saxofone (Mette Henriette), piano (Johan Lindvall) Katrine Schiøtt e violoncelo (Katrine Schiot).

No segundo está um ensemble de treze músicos, onde influências do jazz se misturam com a música erudita estão bem presentes. Os membros do trio, fazem parte do ensemble.

À informalidade e espontaneidade jazzística do primeiro, complementa-se, não se deve falar em oposição porque esta não existe, a formalidade do segundo.

Mas em ambos os cds, as sonoridades, são atmosféricas, etéreas, frágeis, muito intimistas, um pouco... escurecidas, mas com espaço para que a luz possa irromper pelas janelas musicais deles dois.
Existe um equilíbrio magistral entre música e silêncio. Um respeita o outro, um depende do outro.
Quer no primeiro cd, quer no segundo, mais neste último, o do ensemble, existem alguns sobressaltos, momentos de tensão. Aliás este é bastante mais tenso, mais dissonante. Como se houvesse necessidade de nos trazer à terra, à realidade, de nos subtrair por alguns minutos da Terra do Nunca para onde Mette nos atira no seu trio.

É uma autêntica experiência este duplo álbum. Complexa, arriscada, aventureira, de autêntica descoberta. Cada audição há algo de novo, algo não percebido, não ouvido, da vez anterior.

Neste álbum, tudo flui, tudo se completa, mesmo nos opostos. O jazz do trio, solto, mas muito consonante, e a dissonância da música de câmara do ensemble.
O grande, grande trunfo é sonoridade e a composição de Mette Henriette. É fascinante e encantatória. Talvez seja este o melhor termo para definir esta pérola do universo musical da etiqueta alemã: encantamento.






sábado, 26 de dezembro de 2015

uma música para o fim de semana - Legendary Tiger Man


Estamos no rescaldo do Natal. Não morro de amores por esta data. Portanto das três uma: ignoro, alinho ou subverto-o.
Faz sentido que uma música para o fim de semana, reflicta o espírito destes dias, portanto não vou ignorar, nem alinhar nele, vou por isso... subvertê-lo.
Nem todas as músicas de Natal têm que ser bonitas, ter títulos apelativos, falar da neve branca, paz, com guizos, sinos, montes de jingle bells e afinados coros angelicais

The Lengendary Tiger Man (Paulo Furtado) já tinha andando por aqui com Do Come Home, agora, regressa aos palcos da Esteira para me ajudar na música de Natal.

Musicalmente tenho duas grandes paixões: o jazz e a música clássica, e dois flirts: blues e trance (psy e Goa).

Legendary Tiger Man é um alter-ego criado pelo Paulo Furtado, precisamente numa altura em que os blues o fascinavam particularmente.
Actualmente, não é, e não está, muito ligado pelo público a este género musical, mas este cantor é de facto um blues man.
Em 2003, Paulo Furtado edita o seu segundo álbum - Fuck Christmas, I got the blues.
E é precisamente este tema (de blues) que escolho para este fim de semana.

Porque as canções de Natal, não têm que ser sobre Natal, cantadas com vozes melosas e harmoniosas de crooners, ou em sonoridades de pop, mas podem ser tocadas com o som predominante de uma harmónica de uma "bluesada" à antiga.


Bom fim de semana :)





sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O melhor do Natal? É o dia 26!





É difícil compreender para quase todos, que o Natal não seja uma data de alegria, mas sim um peso tremendo aos ombros. É difícil perceber que o 25 de Dezembro seja uma data vazia e ausente de significado. Que tudo que aquilo que esta data supostamente deve representar, não represente efectivamente.

Nem que seja pela perda de alguém importante para nós que deveria estar presente, pelo cansaço que o mercantilismo do Natal provoca ao obrigar-nos a chafurdar em lojas lotadas, à procura de algo que muitas vezes não sabemos, ou apenas vagamente. Que tudo é para trocar, guardar fundo numa gaveta ou descarregar e vingar num desgraçado qualquer Natal do ano seguinte
Por isso comprar, dar e receber prendas, são autênticos fretes, vazios de qualquer significado. Uma exclamação aliviada de missão cumprida.

Porque há a obrigatoriedade da família, de termos que andar felizes da vida, mostrar boa disposição e sorrir, caso contrário, há uma enxurrada de perguntas idiotas a perguntar porque não o estamos a fazer.
Porque isso rouba-nos o espaço que precisamos, invadem-nos a privacidade, não nos deixam ser quem somos. Andamos cansados e tornam-nos ainda mais cansados.

E porque todos se esquecem que há quem não tenha mesa farta e aquecimento no Inverno.
Que há quem procure as refeições em lixeiras ou caixotes de lixo, o calor em caixas de cartão, e crianças que lhes dão uma arma mortífera que têm que usar, em vez de um merdoso e ultra-sofisticado boneco de brincar aos soldados e pistolas que disparam dardos de borracha.


O melhor do Natal? É o dia 26!


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Solstício de Inverno - soneto do Rio de Inverno


soneto do Rio de Inverno

olha a paisagem de inverno
distante e perdida na estrada
na folha lenta cai o tempo
no vidro da janela embaciada

belo rio oco da leve chuva
ruidoso em cores mudas
derrama na montanha curva
correntes de lágrimas miúdas

que belo és orgulhoso rio
no inverno das árvores vazias
quente é a face macia do frio

esconde os segredos que me dirias
meu confidente do lívido martírio
os desejos perdidos que não querias

Inkheart


sábado, 19 de dezembro de 2015

uma música para o fim de semana - Marco Figueiredo


Solidão. Há uma grande elegância nesta palavra, muito mais do que a conotação que é atribuída ao seu sentido.
Ela é sábia, é criativa, regenerativa.

A solidão é uma maneira de se conseguir voltar a lidar com a inquietação, com o bulício, com os ruídos, com a presença excessiva das pessoas, a ininterrupta verborreia escrita dos mails, com a imposição das obrigações, das regras a que estamos sujeitos ao longo do tempo.
A solidão permite respirar fundo. É melhor que uma pausa kit-kat.

Nela, reganha-se um novo equilíbrio, um novo espaço. Recupera-se o silêncio, tão maltratado pela dinâmica trituradora das rotinas, da formatação intelectual dos grupos, das equipas de trabalho, dos templates das folhas de cálculo, dos cumprimentos formais dos mails.
Permite-nos fechar os olhos, olhar para dentro de nós e ver céus azuis, neves brancas, horizontes longínquos.
Permite-nos o privilégio de soltar lágrimas cruelmente contidas, de afirmar aos outros - deixem-me em paz!


A solidão não tem que ser triste, ou má. Pelo contrário, é algo desejável.
É por excelência um sítio amplo de aprendizagem, reflexão, de reencontro com o Eu. Um escape, uma sobrevivência.
Solidão é uma música serena. Tal como ela própria.

O pianista português, Marco Figueiredo, toca a Solidão exactamente assim.


Bom fim de semana :)




quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Viajar??? Bora!



1. Cada uma de suas histórias começa algo do tipo “quando fui para…”
Verdade :)

2. Você pensa em casa mais como uma parada estratégica do que como um lar.
Um lugar de chegada, para depois se tornar um lugar de partida

3. Você devora guias de viagens como pessoas lêem romances.
Nem por isso. Mas muita internet e conversas com quem já andou por outros lugares, sem dúvida!

4. Você sempre tem moedas de uns cinco países diferentes na carteira.
Não na minha carteira, porque não tenho, mas em minha casa, sim. E bem mais do que cinco...

5. Sua mochila ou mala nunca está totalmente desfeita.
Absolutamente verdade e as coisas mais usadas se não estão lá dentro, estão próximas da mochila.

6. Você mantém o hábito de levar papel higiénico para todo lugar.
Não. O papel higiénico é leve, mas ocupa volume e é algo que se compra facilmente em qualquer lado.

7. Você deixa passar aqueles carimbos extras que alguns lugares fazem no passaporte, como a Ilha de Páscoa, porque sabe que vai precisar de cada centímetro para carimbos de fronteira.
Que desperdício de espaço!

8. A sensação de jet-lag já é completamente normal.
Nem sei o que é isso...

9. Você irrita as pessoas trocando os nomes das cidades por códigos de aeroportos.
Não. Isso já é demais!

10. Perguntar “onde você está?” no lugar de “como vai?” parece perfeitamente aceitável.
Em absoluto.

11. Você vê um um mapa-múndi como a decoração ideal para aquela parede branca.
Já falta pouco para que se concretize...

12. Você sabe de cabeça sua pontuação em diferentes programas de milhas.
Por incrível que pareça não tenho um.

13. Ao analisar preços, você pensa em quanto tempo determinado valor poderia durar na estrada. “Aquele jeans custa mais caro que uma semana no Peru” ou “só uma parcela daquela hipoteca poderia me sustentar por um semestre inteiro no Sudeste Asiático!”.
Isto é mesmo verdade! É a melhor maneira de poupar para uma viagem.

14. Quando alguém pergunta o que você faz e você responde “viajar”, esquece que provavelmente estão querendo saber sua profissão.
Não. Isto não é verdade.

15. Você sabe que água potável e banheiro com papel higiénico são luxos.
Claramente!

16. Você é capaz de levantar uma mala ou mochila e imediatamente saber se está de acordo com os limites de uma companhia aérea. E ainda sabe as especificações de cada companhia de cabeça.
Pelas dimensões a mochila grande vai no porão, a média e as pequenas podem ir comigo. Quanto ao peso, elas estão sempre dentro bem abaixo do peso limite. Sou dos levezinhos...

17. Você trabalha apenas para ter fundos para a próxima viagem. Quando economiza o dinheiro necessário, pede demissão e vai embora.
Não peço demissão, mas pergunto quando me deixam partir...

18. Sua lista de lugares a visitar inclui destinos que outras pessoas jamais consideraram.
Sem dúvida!

19. Você é capaz de fazer uma mala para durar três meses e estar pronto/a em cinco minutos, se necessário.
Cinco minutos é exagero. Mas três meses numa hora, claro que sim.

20. Você tem muito mais amigos espalhados pelo mundo do que na sua cidade.
Yep.

21. Você já sabe qual é a próxima (ou as próximas!) viagem antes mesmo de chegar em casa.
Nem podia ser de outra maneira...

22. Sua visão pessoal do inferno é ficar o resto da vida preso no mesmo lugar.
Até arrepia pensar nisso...

23. Acordar em casa faz você se sentir totalmente desorientado/a.
Nos primeiros dias, sim.




quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

pessoas



pessoas

Que fazer com vocês
com tantos porquês?

Que não me convencem
que não me pertencem

Pessoas que caminham
que nego e não cativam

Nessa estrada cinzenta
está o fosso que de mim se alimenta

Cansaço grande que abrasa
me prende e que atrasa

Com quem não quero sorrir
e para longe partir

Preciso, quero, é ir
para onde não seja sentir

E nem sequer vou parar
no que ficou por agarrar

Digo-vos o que vai acontecer:
é não lembrar do que ficou por dizer

Para que os meus olhos ao cerrar
em vós não possa pensar

Mas tudo o que sei:
É que irei recordar o que agarrei

Por isso, ide pessoas,
que não vos quero, nem más nem boas

Agora, vou para o grande dormir
e finalmente os lábios sorrir.


Inkheart


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

uma citação


"Quando olho para os olhos de um animal, não vejo um animal.
Vejo um ser vivo. Vejo um amigo. Sinto uma alma"

A. D. Williams





sábado, 12 de dezembro de 2015

uma música para o fim de semana - Frank Sinatra


Esta é uma semana de edição especial de uma "música para o fim de semana". Faz hoje cem anos que Frank Sinatra nasceu - 12.12.1915

Olhando de relance para a vida de Frank Sinatra, esta foi inacreditavelmente rica e uma gigantesca montanha russa.
Foi actor, com mais de cinquenta filmes protagonizados por ele, cantor e alcoólico. Ganhou um Óscar, esteve nomeado para outro, esteve associado à Mafia, esteve preso e fez uma tentativa de suicídio. Teve mulheres lindas no seus braços, arrastou multidões com a sua voz e tinha um comportamento instável, irascível, arrogante e belicoso. Nos seus últimos anos de vida dedicou-se a pintar. Os palhaços eram inspiração recorrente na sua pintura
E muito recentemente o filho de Pablo Escobar, afirmou que participou nos negócios de droga do cartel de Medellín.
Frank Sinatra conheceu os píncaros da fama, mas também mergulhou fundo nos infernos dela.

Por causa de um parto complicado feito com forceps, ficou com marcas no rosto do lado direito, por isto, frequentemente nas suas fotografias, ele mostra o seu lado direito.
Os seus olhos azuis eram distintivos dele. Mas foi a voz, que o tornou Frank Sinatra, the Voice.

Durante um largo período de tempo, não fui fã dele. Ouvia-o, mas não retirava um grande prazer disso.
Mas há uns largos anos, ofereceram-me um cd duplo - my way the best of  Frank Sinatra.
Ouvi-o umas vezes com um certo desprendimento e depois com atenção. e então percebi o que milhões pessoas já tinha percebido: há um toque de magia na sua voz.
Tem um tom quente, cristalino. É sedutora, cativante, de um veludo envolvente e hipnotizante.

Quando pega nas canções de outros, covers, tem um poder tremendo de as tornar suas, de tornar os originais obsoletos. Tantas e tantas que se tornaram conhecidas após terem sido tocadas, um toque de Midas, pela voz de Frank Sinatra.
E se compararmos a voz do cantor, com a sua a personalidade, insuportável e descontrolada, não conseguimos de todo associá-las.
É difícil pensar que estamos a falar do mesmo homem.

Nesse cd, como em (quase) todos best ofs, estão lá todas as canções que nos habituámos a ouvir: My Way, New York New York, LA is My Lady, Under My Skin, Moon River, etc, etc, etc...
Há três canções deste cd que gosto imenso e não muito conhecidas, é pouco frequente ouvi-las: Love's Been Good To Me, Three Coins In The Foutain e Send In the Clowns

É a terceira que me agarra mais - Send In the Clowns.

Tal como muita gente, também o título fazia-me confusão. Clowns?? Porquê palhaços? Não faz sentido.
Um dia o autor da letra, escrita para o musical Little Night Music, Stephen Sondheim sentiu a necessidade de explicar. Tal como eu, havia muita gente que não percebi aa lógica do título.
Não clowns no sentido de palhaços, mas fools enquanto tolos, comediantes.
Quando algo corre mal, um imprevisto que obriga à paragem; à interrupção de um espectáculo, entram os palhaços, os tolos, os comediantes, para entreter o público enquanto a situação não regressa à normalidade.
Sondheim esclarece que a sonoridade de fools, apesar de ser a escolha natural, não ajudava à sonoridade do título, tendo escolhido em alternativa clowns. 

Há elegância, tristeza e melancolia na letra, e Sinatra reflecte-as na perfeição na sua voz.
Sinatra dá espaço ao tema. Dá-lhe silêncios, deixa-o respirar, ser saboreado.


Bom fim de semana :)




Isn't it rich, aren't we a pair
Me here at last on the ground - and you in mid-air
Send in the clowns

Isn't it bliss, don't you approve
One who keeps tearing around - and one who can't move
But where are the clowns - send in the clowns

Just when I stopped opening doors
Finally finding the one that I wanted - was yours
Making my entrance again with my usual flair
Sure of my lines - nobody there

Don't you love a farce; my fault I fear
I thought that you'd want what I want - sorry my dear
But where are the clowns - send in the clowns
Don't bother they're here

Isn't it rich, isn't it queer
Losing my timing this late in my career
But where are the clowns - send in the clowns (there ought to be clowns)
Well maybe next year


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Grande Ecrã - O Sal da Terra


Por trás de um grande homem há há uma grande mulher. É verdade.
E quando está na sombra dela, ela será, porventura, maior que o grande homem.


Sebastião Salgado é um daqueles fotógrafos que mesmo que alguém não conheça o seu nome, já viu uma fotografia sua,
O Sal da Terra é um documentário co-realizado por um grande cineasta Wim Wnders e pelo seu filho, Juliano Salgado, sobre a sua vida e obra.
Faz sempre abrir os olhos perante as (altas) expectativas de ver o que está por trás das sua fotografias.
Engano. No fundo, o documentário serve para mostrar as fotografias tiradas. E muito pouco mais.

Podiam mostrar mais. As condições, e como se relaciona e se adapta aos ambientes físicos e sociais em que trabalha, Como fazer que as pessoas se habituem à sua presença e tenham os comportamentos usuais quer as suas fotografias mostram.
As vicissitudes do seu trabalho. a opção pelo preto e branco, etc.., etc...Dar a perceber, mais do que mostrar as fotografias, a obra. Como surgiram, como foram construídos e planeados alguns dos seus maiores trabalhos. Por exemplo: Trabalho, África ou Génesis.

Nos projectos que demoram vários anos a serem concluídos, o que faz às milhares fotografias tiradas? Anda com elas? São enviadas? Como são editadas? Como são escolhidas? Como foi pensada a estética que as caracteriza?
São estas perguntas para as quais não há respostas, que nem sequer são abordadas e que seria fascinante conhecer.

É precisamente neste ponto que o documentário falha redondamente. E diria eu que é propositado.
A sua mulher chama-se Lélia Wanick Salgado. O seu nome e a sua imagem aparecem esporadicamente no filme. E quando aparece, é apenas para suportar o fotógrafo, para o engrandecer.

Na verdade é Lélia que faz o trabalho de leão.
O trabalho que não se vê e que não se admira. É para ela que Sebastião Salgado envia as milhares de fotografias que tira, é ela que as edita, portanto é ela que estetiza, é ela que escolhe as fotografias que vão aparecer nas suas exposições e livros, é ela que organiza as ditas exposições e livros, é ela que gere a equipa que faz surgir o trabalho de Sebastião Salgado.
E é este trabalho fabuloso que não é mostrado, que não é reconhecido e que se mantém desconhecido de muita gente.

Pessoalmente, é de uma tremenda injustiça, que Wim Wenders, o filho, e acima de todos, o próprio Sebastião Salgado, não mencionem sequer o trabalho que dá vida, ao seu trabalho.
Por isso comecei este post com os parágrafos iniciais.
Em frente a uma espantosa fotografia, que nos desperta admiração e emoções de Sebastião Salgado, de imediato tem que se associar ao seu nome, o nome de Lélia Wanick Salgado.

Sal da Terra é um filme monótono, sem dinâmica e quase boçal.
Pergunto-me como é que um realizador que fez um trabalho espantoso sobre o trabalho de Pina Bausch (Pina), faz um trabalho tão vulgar, tendo em conta, que tal como em Pina, tem material de eleição, para fazer um filme para não se esquecer.

E só vejo um motivo, ou melhor, dois, para que este documentário tenha sido tão galardoado. Ter Wim Wenders e Sebastião Salgado no mesmo filme. Com estes dois juntos, deve haver pouca gente no circuito comercial do cinema que tenha a coragem de não o galardoar...




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

dia mundial dos Direitos dos Animais (Humanos e Não Humanos)


Faz todo o sentido este cartoon no dia mundial dos Direitos do Animal (Humano e Não Humano)
Os animais sentem a dor da perda. Têm a noção do que é a morte. Como todos os seres vivos, isso assusta-os.

Os cães ficam ao lado de cães que foram atropelados.
Como qualquer mãe humana, as vacas, as porcas, as galinhas, as cadelas, stressam, sofrem, quando as suas crias lhes são retiradas, para serem enviadas para os matadouros e/ ou para a industria dos lacticínios roubar às mães, o leite que seria das suas crias.
Quando se come um bife, uma posta de pescada, um peito de um frango, um lombo de porco há um animal que foi morto, sem lhe ter sido dada a opção da vida. Há um animal que viveu em condições que não lhe são naturais, que não respeitaram a sua natureza, que os fizeram sofrer.

E se nós protegemos, os nossos cães, os nossos gatos e é inconcebível para nós alimentar-nos deles, porquê fazer o mesmo com os outros animais?
Porque não vivem connosco debaixo do mesmo tecto?? Porque são muito grandes e não cabem dentro de uma casa?? Porque não abanam a cauda e lambem as nossas mãos?? Ou porque não ronronam e dão turrinhas com a cabeça??
Estas desculpas são patéticas, porque se lhes dermos essa oportunidade, eles fazem tudo isso à sua maneira! Manifestam o seu carinho, ternura e preocupação connosco, de formas que nem sequer lhes damos oportunidade de mostrar!

Assumimos que eles são para matar, para comer, e não pensamos neles como animais inteligentes e sencientes que são!
E não devemos falar de só de mamíferos. Isto é válido para os peixes, para os pássaros, para todos os seres vivos com capacidade de percepção do meio que os envolve.
Um polvo tem uma inteligência superior ao de um cão. Resolve problemas complexos, gosta de brincar. Um porco tem a inteligência de uma criança de quatro anos, a galinha reconhece rostos. Um atum que é pescado, morre sufocado e à machadada. Ele urra de dor!!!
Uma baleia caçada tem uma morte horrenda. Uma bomba detona no interior do seu corpo! 
Demora horas a morrer devido ao seu tamanho e à sua resistência física.

Um tubarão quando mata/ fere uma pessoa, é por engano ou pelo seu poder físico ser tão desproporcionado relativamente ao nosso, ou porque alguém não o respeitou, não respeitou o seu espaço, não compreendeu a sua natureza.
Estima-se que o número de mortes de seres humanos por tubarões, todos os anos em cerca de doze pessoas em média.
Em contrapartida, o Homem mata, em média, milhões (!!!) de tubarões todos os anos!!! Propositadamente!!! Por prazer, desporto ou mesquinhez.

Temos que os proteger, acarinhar. Temos que os amar, temos que perceber que como nós, são inteligentes, têm a noção do ambiente que os rodeia. Interagem com ele. Não são seres passivos. Sabem-no avaliar, Sabem se os magoa ou não, se é confortável ou não.

Os animais não existem para nosso bel-prazer. Eles existem para serem livres, serem bem tratados, para as suas naturezas e suas personalidades serem respeitados.
E quando soubermos fazer, ser isto, estamos a respeitar e a sermos respeitados por tudo e todos. Estamos a respeitar o nosso planeta, a nossa casa.

Este cartoon mostra, que os animais, como nós, não querem morrer.
E quando tal acontece, eles sabem o que aconteceu. E sentem a falta e a tristeza de quem partiu.
Tal como nós.




quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

série "vencedores" - Sobrinho Simões


O que é um patologista??
É alguém que se dedica ao estuda das doenças, causas, sintomas e como as diagnosticar.

Quem é Sobrinho Simões??
Sobrinho Simões é o actual professor catedrático da FMUP na área de patologia e chefe de serviço, da mesma especialidade, do Hospital de São João,
É o pai do IPATIMUP criado em 1989 - Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto.
Um dos melhores da Europa na área de investigação e diagnóstico do cancro.

Porque está na série "vencedores"??
Porque é absolutamente fantástico que este cientista português tenha sido considerado, o patologista mais influente do mundo!!
Particularmente se tiver sido eleito pelos seus pares, numa lista dos cem melhores patologistas do mundo, numa votação, durante dois meses, levada a cabo por uma das melhores revistas do mundo de patologia: a The Patologist.

E porque ele é tão reconhecido internacionalmente??
Tem um percurso internacional fora de série, para além dos prémios, das investigações e descobertas que fez ao longo do tempo no seu ramo e particularmente na área do cancro, Sobrinho Simões está em lugares chave das principais organizações da patologia.
Está presente na Sociedade Europeia de Patologia, do Colégio Europeu de Patologia e da Associação Europeia de Prevenção do Cancro.
Faz parte do Comité Redactorial da Associação de Directores de Patologia Cirúrgica dos E.U.A.
Ganhou os prémios Bordalo, no ano de 1996, Seiva, no ano 2002 e Pessoa, no ano 2002.
Foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique em 2004 e tornado Comendador da Ordem do Mérito Real da Noruega em 2009.

É igualmente considerado, internacionalmente, um formador por excelência de outros patologistas.


Definitivamente... um vencedor!






terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Florbela 85


A seguir a Fernando Pessoa, é a poesia de Florbela Espanca que mais admiro.
É violenta, é rasgada. Desesperada e virulenta. Tal como Pessoa, a sua poesia é profundamente sentida. Mas enquanto a de Pessoa vem da sua mente e precisa de ser pensada e interpretada.

A de Espanca vem do seu coração, directo até nós. É simples, é linear. Muito impactante.
Vem de um peito em chamas, da sua alma magoada, de uma personalidade perturbada e vida conturbada.

Florbela Espanca suicidou-se no mesmo dia que nasceu - 8 de Dezembro.
Nasceu em 1894 e morreu em 1930.
Não o fez por acaso. Vida e morte no mesmo dia, faz sentido com a sua poesia dilacerada.

Florbela Espanca já passou diversas vezes e por diversos motivos pela Esteira: aqui, aqui, aqui e aqui.
Faz hoje 85 anos que encontrou o descanso que procurava e merecia.



Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!


Florbela Espanca  
(Livro de Mágoas)


sábado, 5 de dezembro de 2015

uma música para o fim de semana - António Variações


António Variações, barbeiro de profissão, que aprendeu em Amesterdão em 1976, nasceu em Fiscal, Amares, no ano de 1944.
Pouco compreendido na altura. Hoje sabe-se que ele foi um dos mais geniais músicos portugueses.
Era um homem bem à frente do seu tempo. Portugal não estava preparado para ele.

Não só pelos dotes de cabeleireiro, mas pela maneira como se vestia. A sua aparência excêntrica, o uso do brinco, a música que tocava, pela sua homossexualidade assumida e por ter sido a primeira figura pública nacional a morrer de Sida, se bem que as causas da sua morte tivessem sido disfarçadas sob a forma de bronco-pneumonia, uma consequência da Sida, do público em geral.

Foi através da sua morte que Portugal tomou conhecimento sobre a existência da Sida e esta entrou no vocabulário nacional.

Em Lisboa, no Hospital Pulido Valente, onde esteve internado, a autopsia foi feita com extremo cuidado.
Tudo o que lhe pertencia foi queimado, e o seu caixão selado. O seu corpo era considerado um caso de perigo para a saúde pública.

Durante a sua curta de vida de quarenta anos, dos quais dois anos como António Variações, lança dois álbuns.
Assinou pela Valentim de Carvalho em 1978. Mas esta editora, não compreendia bem a música de Variações e durante anos, o cantautor não editou nada. Teve que esperar até 1983.
É neste anos que é lançado o Anjo da Guarda, e no ano seguinte em 1984, ano em que morreria, sai o Dar e Receber.
Mais de trinta anos passados estes dois álbuns são referências na música nacional e são conhecidos por uma alargada faixa etária. Não só os que passaram pelos anos oitenta, como por aqueles, que, bem mais novos, ouviram António Variações pelos discos dos seus pais em casa, ou por uma estação de rádio.

Em 2004, forma-se a banda Humanos. O seu objectivo era pegar em inéditos do músico e dar-lhes visibilidade. E conseguiram.
Talvez pelos nomes sonantes que faziam parte: Manuela Azevedo, Camané, entre outros, mas muito mais devido ao desejo de se ouvir que o músico bracarense que tinha ainda para mostrar.

Não fui muito fã dos Humanos, mas do António Variações, sim. Por isso a música para este fim de semana, sai do seu segundo álbum e é um dos temas mais conhecidos do seu curto mas excepcional legado musical - Canção do Engate.
Talvez uma dedicatória a alguém muito especial para ele. Jelle Balder?? Fernando Ataíde??
Irrelevante! A letra celebra a aventura do amor, dos sentidos e da entrega. Venha de quem vier.

No passado dia de 3 de Dezembro, António Variações faria 71 anos.


Bom fim de semana :)




Canção do Engate

Tu estas livre e eu estou livre 
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos 
Porque não vamos ficar 
Na aventura dos sentidos

Tu estas só e eu mais só estou 
Tu que tens o meu olhar
Tens a minha mão aberta 
À espera de se fechar 
Nessa tua mão deserta 

Vem que o amor 
Não é o tempo 
Nem é o tempo 
Que o faz 
Vem que o amor 
É o momento 
Em que eu me dou 
Em que te dás

Tu que buscas companhia 
E eu que busco quem quiser 
Ser o fim desta energia
Ser um corpo de prazer 
Ser o fim de mais um dia

Tu continuas à espera
Do melhor que já não vem 
E a esperança foi encontrada
Antes de ti por alguém 
E eu sou melhor que nada 



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

olhos


olhos

não são límpidos como janelas
nem pétalas a mostrar cores
ou leves, perfeitas e belas
longe de serem duas flores

são frágeis ao esquecimento
olhos choram a orvalhar
nos céus mora o tormento
de caírem sem serenar

chorem mas sem fingirem
olhos espelhos da minha alma
sonhem sem vos ouvirem
o que existe da negrura alva

porque cismam no tempo
olhos de um espelho cego?
a esperança vive ao relento
da paz que busco e renego

corajosos e tão cheios de medo
tão abundantes no tardio nada!
berram e apontam o dedo
mas em vós enterram a espada!


Inkheart


sábado, 28 de novembro de 2015

uma música para o fim de semana - X-Wife


Quando os Happy Mess surgiram na "uma música para o fim de semana", no mês passado, descobrindo que eles tinha participado num anúncio para a Toyota, recordei-me que os X-Wife faziam parte da banda sonora do FIFA 16 com o tema Movin Up.

Movem-se nas águas do rock eléctrico, indie, punk rock. Ando por pouco por estes lados, Ocasionalmente molho os pés como neste caso, quando soube que faziam parte do universo sonoro do FIFA 16

Tal como os Happy Mess, os X-Wife, uma banda de três elementos vindos do Porto, enfermam de uma parecença muito grande, e que torna a comparação muito difícil de ser não ser feita. João Vieira tem o timbre e a estridência da sua voz, a soar durante quase todo o tempo da canção com Mick Jagger dos imortais Rolling Stones.

No que me diz respeito, tenho tendência a desvalorizar as vozes (e as canções) quando estas colagens, intencionais ou não, acontecem,
Mas fui capaz de ouvir mais vezes Morning Sun enquanto escrevia o texto dos Happy Mess, do que hoje os X-Wife e o Movin Up.
Ao contrário do que é habitual, a  música desta semana, foi escrita ao som do piano de Bill Evans - Moon Beans e How My Heart Sings.


Para um dia de sol como este sábado está a ser, Movin Up faz sentido.
Expansivo, extrovertido, puxa pelo corpo, como acontece com Sigrid Deforche neste vídeo assinado pelo conhecido dedo de André Tentugal dos We Trust.
Talvez por isso este tema tenha sido escolhido para figurar nas banda sonora do mais famoso jogo da EASports.

É bom para abrir a janela, deixar entrar o sol por ela, sentir o ar fresco a limpar e renovar a atmosfera da sala, enquanto as camadas de pós dos móveis são retiradas pelo vai e vem de um pano silencioso, ou então acompanhadas por um, ou talvez não, dissonante ruído do aspirador do pó ;).


Bom fim de semana :)






quinta-feira, 26 de novembro de 2015

politiquices


O grande derrotado das eleições legislativas é oportunista mas forma governo, enquanto o pequeno vencedor das eleições é derrubado e tem mau perder
O governo do derrotado é suportado por esquerdas, mas não pela esquerda.
A direita de duas direitas, mas que funciona como uma só, está inconsolável e despeitada porque tendo ganho as eleições, viu derrubado o seu governo à primeira, sem apelo nem agravo.

A direita perdedora, mas que ganhou as eleições, já afirmou que reprovará as acções da esquerda suportada pelas esquerdas, sem as conhecer de antemão, tal como o derrotado que formou governo, fez, ao derrubar o governo do vencedor das eleições.

O Presidente, adiou até mais não, o ter de engolir o sapo ao ter de empossar um governo de um partido derrotado e de cor contrária à sua.
E tanto lhe custou, que em vez de indigitar o derrotado das eleições como primeiro ministro, preferiu... indicá-lo.


Politiquices...






terça-feira, 24 de novembro de 2015

a avozinha Lucy


Lucy é uma senhora encarquilhadinha, com cerca de 1m de altura, entre os 14 e 15, que talvez pesasse aproximadamente 50 kg anos, pela qual nutro um grande respeito e carinho. Apesar de não o ser, penso nela como a avozinha de todos nós.

Sempre pensei que ela seria um dos motivos que me levaria à Etiópia. E foi.
No ano passado fui visitá-la.ao Museu de História Natural da Etiópia.




Ela é o australopitecos - macaco do sul - mais antigo que se conhece.
Foi descoberta em 1974, faz hoje 41 anos - o doodle da Google, recorda-nos essa data - na Etiópia, na vila Hadar, região de Afar e terá vivido há cerca de 3.2 milhões de anos.
Deu origem à espécie Austrolopitecus Afarensis.
Ao longos dos anos foram sendo descobertos outras espécies que ganharam os nomes de onde foram descobertos ou de quem os descobriu.

Caminhavam erectos, eram bípedes, usavam utensílios, os seus braços era maiores que as pernas, portanto estavam muito adaptados à vida nas árvores e dominaram o planeta durante mais de três milhões de anos.


Eu sei que Lucy pertenceu a um ramo evolutivo, entre vários, que deu num beco sem saída, que foram extintos. O Homem Sapiens, não descende deste ramo. É um ramo independente, com uma evolução distinta, o ramo "homo". Lucy pertence ao ramo "macaca".
Mas quando olhei para ela, silenciosamente, dei por mim a pensar nela enquanto pessoa, que contribuiu para a experiência suprema que daria origem ao Homo Sapiens.

No estado actual, o Homo Sapiens, deixa muito a desejar. Não é lá um grande motivo de orgulho para a evolução...
Se bem que a avozinha Lucy, que deve o seu nome à famosa canção dos Beatles - Lucy in the Sky with Diamonds - e os seus colegas de espécie, deixaram estragos valentes no ambiente, com algumas extinções pelo meio, incluindo eles próprios.







sábado, 21 de novembro de 2015

uma música para o fim de semana - Viviane




Os Entre Aspas, são conhecidos fundamentalmente por dois motivos.
O primeiro. é o tema Uma Pequena Flor do terceiro álbum deles - "Edelweiss" - e o segundo motivo que é o primeiro dos dois, é a voz de Viviane, a sua vocalista.

Para os de memória antiga, mas já algo deslavada, e para os que ainda não têm idade para ter memória. Edelweiss é o nome da canção com que a família Von Trapp, usa no filme Música no Coração, para fugir da Áustria, pelos Alpes, quando esta já estava sob jugo nazi, e é também o nome de uma bonita e delicada flor de pétalas brancas que cresce nas altitudes dos mesmos Alpes.


O Fado do Beijo é um original que pertence ao álbum Confidências.
Um Best Of da cantora que celebra este ano, 10 anos de carreira, após o fim dos Entre Aspas em 2005, altura em que Viviane se lançou numa carreira a solo.

Para quem quiser apanhar os primeiros exemplares de Confidências, este sai entre sábado e domingo deste fim de semana. Certamente já a pensar nas meiuchas, ainda rotas do Natal do ano anterior, penduradas na chaminé, à espera que um esquelético Pai Natal, vá colocar lá dentro uns quantos álbuns dela.

O Fado do Beijo, tem letra divertida, cantada, mas não só, em jeito de fado, com um bom jogo de cintura, na utilização de sentidos dúbios e duplos do beijo e do seu universo.


Bom fim de semana :)





quinta-feira, 19 de novembro de 2015

curiosidade


A Rússia e a Martinica estão a precisar de bravos guerreiros que saibam desembainhar as espadas, e os Emirados Árabes Unidos de valorosas amazonas...


Global Gender Ratios in 2015


terça-feira, 17 de novembro de 2015

E então Beirute???




Têm-me chocado e provocado bastante revolta que toda a gente fale, escreva, sobre os atentados de Paris, no dia 13 de Novembro, quando um dia antes, em Beirute, outros atentados terroristas matavam mais de quarenta pessoas.
Ambos foram reivindicados por essa asquerosa organização que se auto-denomina Estado Islâmico.

Andei à procura de algo no FB que desse para pôr a bandeira libanesa transparente na fotografia de perfil, mas nada.
Andei na net à procura de cartoons, para colocá-lo ao lado do de Paris no post de domingo passado, que mostrasse e ilustrasse o sofrimento dos libaneses, mas nada.

Eu diria que a resposta é absurda e estupidamente simples.
Fica bem dizer que estamos de luto pelos mortos de Paris, porque França é um país europeu, a nossa casa, o nosso quintal e cinicamente parece-me até ser "chique" fazê-lo.
Enquanto para nós, Beirute, pertence geograficamente à aquela imensa amalgama, longe, confusa e indistinta de países do Médio Oriente, onde todos são terroristas, onde todos se matam uns aos outros e onde vivem os muçulmanos e essa religião tenebrosa e intolerante que é o Islão, Paris é a cidade da luz, do glamour, do romantismo.

Assim, ignorem-se a dor dos "primitivos" e incómodos libaneses, em detrimento dos muito evoluídos franceses da "haute cuisine française".
Daí não ter conseguido pôr uma bandeira libanesa na minha foto de perfil, porque não ficava bem, não era "in".

Esta coisa maniqueísta de nós, os ocidentais, somos os bons, e os outros, os árabes, os muçulmanos, são os maus, é atrozmente estupidificante e caricaturalmente bacoco
Pensar que o terrorismo, é vil, cruel, e que tem que ser vencido, que a paz tem que prevalecer, apenas quando Paris, Madrid, Londres ou Nova Iorque são atingidos, é de uma estupidez absurda.
Como se estas cidades, fossem baluartes de algo que as torne mais dignas dessa defesa que as restantes. cujos nomes e geografias desconhecemos.

E enquanto europeus, ocidentais, estamos muito longe de ser os paladinos da civilização e dos elevados valores morais de conduta.
A Europa deixou de ser esse garante, quando séculos atrás, e por vários séculos, entrou casa dentro de outros países e começou a massacrar, destruir, arrasar, para saquear tesouros, os seus povos e hábitos para impor culturas e religiões.

Cruzados, conquistadores, colonizadores, missionários, exploradores e aventureiros, uma miríade de gente que ajudou a construir o desentendimento global que existe agora.
E hoje não fazemos melhor. O petróleo que o diga.
Quantas dezenas de milhares de pessoas não terão morrido, a sua vida devastada, desrespeitada, por causa de todos os argumentos pífios que camufladamente com mais ou menos habilidade vão acabar, como se deseja, literalmente desaguar em poços e reservas de petróleo árabes para depois serem explorados por ocidentais?

Por causa de um bando de lunáticos muçulmanos, que não merecem ser muçulmanos e que não são muçulmanos aos olhos dos verdadeiros muçulmanos, pomo-los todos no mesmo saco.
E então, todos são terroristas, todos devem ser odiados e devemos ter medo de todos eles, porque todos vêm fazer mal aos inocentes dos ocidentais. Exactamente o que aqueles psicopatas pretendem.

E certamente que há muitos nesta altura, quando pensam em muçulmanos, relembram os "bons velhos tempos" das fogueiras purificadoras da Santa Inquisição.


Para os mais esquecidos, a dita Santa Inquisição, rondou os séculos XII a XVII.
Foram quinhentos (!!) anos de crueldade, de intolerância, pavor, de um desenfreado desrespeito pela vida e pelo pensamento livre sem paralelo, do ponto de vista religioso, até aos dias de hoje.
O número de mortos causados pelo período da Inquisição é incerto.
Mas a tortuosa imaginação dos líderes religiosos deste macabro período, causaria espanto ao mais empedernido fanático do EI dos dias de hoje.
Não há muita diferença desses tempos para os actuais. Apenas há uma muito maior capacidade industrializar, massificar, a morte.
Mas a essência, filosofia, de ambos os fundamentalismos, o muçulmano e o cristão, não difere em nada.


Retomando o primeiro parágrafo do texto, sim, neste momento também sou libanês.
Porque eles também são pessoas boas e inocentes. Vão às compras, concertos, jogos de futebol e aos mercados. Porque também são mortos enquanto fazem isso. E pelos mesmos motivos, como a imagem ao lado mostra, também sou queniano, sírio, iemenita e infelizmente, etc..., etc..., etc...


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

sábado, 14 de novembro de 2015

uma música para o fim de semana - Rui Veloso


Creio que o Chico Fininho de Ar de Rock (1980) e o Mago do Bilhar de Mingos e os Samurais (1990), conhecem-se.
São amigos e colegas das noites obscuras. Partilham e palmilham a cantareira do Porto enquanto comentam a vida social bairrista das zonas onde moram Acredito que ambos vivem em pensões baratas, não muito distantes entre si.

Se o Fininho, sujo, esqueléctico e cor de pele cinzenta doentia, andava na noite decadente, e de dia arruma carros, o Mago do Bilhar, de roupa de mau gosto, corrente grossa ao pescoço, a exalar o perfume barato e pestilento vendido nas drogarias a granel, faz do dia a sua noite,

Este vive na noite das caves, cheias de densos e azulados fumos do tabaco, giz para os tacos de bilhar, cervejas pousadas por todo o lado e decoradas a vozes falando bem alto a qualidade das tacadas dadas, ao mesmo tempo que mandavam abaixo as dos seus oponentes.

Fininho e o Mago cruzam-se algures por aí nas vielas escurecidas e duvidosas. São irmãos do oportunismo e da necessidade. Mago dá dinheiro ao Chico para os charros e este provavelmente, dá nomes de alguns patos inocentes e fáceis presas para o Mago os comer numa mesa de bilhar e ganhar dinheiro para pagar as dívidas dos seus excessos.


Na semana passada tentei fugir às músicas mais batidas do álbum homónimo de RuiVelos escrevi que esta semana seria sobre, o que é para mim, o melhor álbum de Rui Veloso: Mingos e os Samurais de 1990.
De novo fujo aos temas mais batidos. Gosto muito da música do Mago de Bilhar. É ela a que escolho para este fim de semana, do álbum dos Mingos.


Bom fim de semana :)




O méno tinha um ar tranquilo 
E a calma dum falsário
Tacava suavemente e com estilo
Para enervar o adversário

Tinha já algo de artista
Naquele seu jeito de pluma
A sábia pose dum mestre bilharista
Que nem o próprio tempo esfuma

Ele uma vez deu cento e dez
Ele era o mago dos massés
Tabela seca, três tabelas, 
para ele não havia vielas
Ele tinha um pacto com elas
Tinha um pacto com elas

Ele tinha um ar tranquilo
E a ciência das tabelas
Tinha a luz, a classe e o estilo
Que há na poeira das estrelas

Tinha já algo de artista
Só pelo modo de andar
Podia até ser um vocalista
Nem precisava de cantar

Ele uma vez deu cento e dez
Ele era o mago dos massés
Tabela seca, três tabelas, 
para ele não havia vielas
Ele tinha um pacto com elas
Tinha um pacto com elas

Ele uma vez deu cento e dez
Ele era o mago dos massés
Tabela seca, três tabelas, 
para ele não havia vielas
Ele tinha um pacto com elas
Tinha um pacto com elas


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

descrença



descrença

Parte, vai agora.
Foge da longa hora,
onde ninguém mora,
e ninguém te chora.

Vês o destino branco
de seta no flanco?
Faz morrer o encanto,
sentado no meu banco.

O futuro é tão fugaz,
inútil que é incapaz
de criar a ilusão que faz
de empurrar o que ali jaz.

Acreditar é mera visão.
No fim mora a ilusão,
o encarceramento e a prisão,
das esperanças que não são.

A esperança não é realidade,
um sinónimo de felicidade,
ou fim da tempestade,
apenas um esgar de liberdade


Inkheart





















quarta-feira, 11 de novembro de 2015

seis anos depois...





... a Esteira ainda mexe.

Nasceu, propositadamente, num dos dias mais emblemáticos e representativos do Outono: o dia de São Martinho.
O aroma das castanhas assadas envoltas na nuvens cinzentas traçadas pelas fagulhas libertas do carvão, pelo voltear dos assadores. A cor da casca castanha tornada superficialmente cinzenta, pelo carvão dos mesmos, os cones de papel dobrados no topo destinados a manter a temperatura das castanhas, que outrora eram feitos das listas das páginas amarelas (e também das brancas), e que agora contam notícias antigas de jornais diários.
Com muita sorte, ainda se ouvirá o pregão rouco dos homens e estridente das mulheres, que empurram os carrinhos onde assam as castanhas.


Por cada ano que passa, mais surpreendido fico com a resistência da Esteira.
Ela tornou-se parte de mim. Ao longo destes seis anos de matraquear teclas, foi tendo várias crises existenciais. A infância foi difícil.
Mas foi na adolescência que a Esteira ajoelhou algumas vezes e teve as suas maiores crises. Esteve para acabar. Chegou a ter data marcada um par de vezes.
Enfrentar uma folha de papel digital em branco é algo que intimida muito.
Ela é para mim como o zero da matemática, é o meu elemento absorvente da literatura.

Se fosse verdadeiramente uma folha, e não digital, de papel branco, elas seriam amachucadas, amarrotadas, ainda em branco e atiradas para o caixote dos papeis. Uma, e outra, e mais outra.
Mas nessas vezes, nesses becos escuros e aparentemente saída, algo surgia, um pensamento inquieto, irrequieto ou inspirador, uma poema sentido, uma música atraente ou uma fotografia poderosa, evitava o colapso silencioso do teclado.


A idade de um blog talvez seja como a dos animais. Lenta e titubeante no seu início e depois acelera, à medida que o tempo passa.
Com seis anos, a Esteira talvez esteja agora na sua meia-idade. Mais experiente. Mais sábia.
Até ver, sabe equilibrar-se na corda bamba da ausência de ideias.
Não é um blog de grandes e complexas reflexões, de tratados filosóficos ou textos mordazes e acutilantes. Não tenho essa habilidade ou capacidade. É apenas um... blog.

Acredito convictamente que um blog é algo profundamente autobiográfico. Qualquer que ele seja, seja quem for que o escreva, o quer que seja escrito, descrito, opinado ou ainda ilustrado.
A Esteira é o meu espelho sem que veja o meu rosto. Escrevo para me conhecer.
O que é capaz de demorar uma eternidade. Se ela for o suficiente...


Obrigado por andarem por aí :)


castanhas em dia de São Martinho



Micro-ondas porque sou preguiçoso e de pouca paciência...