terça-feira, 17 de novembro de 2015

E então Beirute???




Têm-me chocado e provocado bastante revolta que toda a gente fale, escreva, sobre os atentados de Paris, no dia 13 de Novembro, quando um dia antes, em Beirute, outros atentados terroristas matavam mais de quarenta pessoas.
Ambos foram reivindicados por essa asquerosa organização que se auto-denomina Estado Islâmico.

Andei à procura de algo no FB que desse para pôr a bandeira libanesa transparente na fotografia de perfil, mas nada.
Andei na net à procura de cartoons, para colocá-lo ao lado do de Paris no post de domingo passado, que mostrasse e ilustrasse o sofrimento dos libaneses, mas nada.

Eu diria que a resposta é absurda e estupidamente simples.
Fica bem dizer que estamos de luto pelos mortos de Paris, porque França é um país europeu, a nossa casa, o nosso quintal e cinicamente parece-me até ser "chique" fazê-lo.
Enquanto para nós, Beirute, pertence geograficamente à aquela imensa amalgama, longe, confusa e indistinta de países do Médio Oriente, onde todos são terroristas, onde todos se matam uns aos outros e onde vivem os muçulmanos e essa religião tenebrosa e intolerante que é o Islão, Paris é a cidade da luz, do glamour, do romantismo.

Assim, ignorem-se a dor dos "primitivos" e incómodos libaneses, em detrimento dos muito evoluídos franceses da "haute cuisine française".
Daí não ter conseguido pôr uma bandeira libanesa na minha foto de perfil, porque não ficava bem, não era "in".

Esta coisa maniqueísta de nós, os ocidentais, somos os bons, e os outros, os árabes, os muçulmanos, são os maus, é atrozmente estupidificante e caricaturalmente bacoco
Pensar que o terrorismo, é vil, cruel, e que tem que ser vencido, que a paz tem que prevalecer, apenas quando Paris, Madrid, Londres ou Nova Iorque são atingidos, é de uma estupidez absurda.
Como se estas cidades, fossem baluartes de algo que as torne mais dignas dessa defesa que as restantes. cujos nomes e geografias desconhecemos.

E enquanto europeus, ocidentais, estamos muito longe de ser os paladinos da civilização e dos elevados valores morais de conduta.
A Europa deixou de ser esse garante, quando séculos atrás, e por vários séculos, entrou casa dentro de outros países e começou a massacrar, destruir, arrasar, para saquear tesouros, os seus povos e hábitos para impor culturas e religiões.

Cruzados, conquistadores, colonizadores, missionários, exploradores e aventureiros, uma miríade de gente que ajudou a construir o desentendimento global que existe agora.
E hoje não fazemos melhor. O petróleo que o diga.
Quantas dezenas de milhares de pessoas não terão morrido, a sua vida devastada, desrespeitada, por causa de todos os argumentos pífios que camufladamente com mais ou menos habilidade vão acabar, como se deseja, literalmente desaguar em poços e reservas de petróleo árabes para depois serem explorados por ocidentais?

Por causa de um bando de lunáticos muçulmanos, que não merecem ser muçulmanos e que não são muçulmanos aos olhos dos verdadeiros muçulmanos, pomo-los todos no mesmo saco.
E então, todos são terroristas, todos devem ser odiados e devemos ter medo de todos eles, porque todos vêm fazer mal aos inocentes dos ocidentais. Exactamente o que aqueles psicopatas pretendem.

E certamente que há muitos nesta altura, quando pensam em muçulmanos, relembram os "bons velhos tempos" das fogueiras purificadoras da Santa Inquisição.


Para os mais esquecidos, a dita Santa Inquisição, rondou os séculos XII a XVII.
Foram quinhentos (!!) anos de crueldade, de intolerância, pavor, de um desenfreado desrespeito pela vida e pelo pensamento livre sem paralelo, do ponto de vista religioso, até aos dias de hoje.
O número de mortos causados pelo período da Inquisição é incerto.
Mas a tortuosa imaginação dos líderes religiosos deste macabro período, causaria espanto ao mais empedernido fanático do EI dos dias de hoje.
Não há muita diferença desses tempos para os actuais. Apenas há uma muito maior capacidade industrializar, massificar, a morte.
Mas a essência, filosofia, de ambos os fundamentalismos, o muçulmano e o cristão, não difere em nada.


Retomando o primeiro parágrafo do texto, sim, neste momento também sou libanês.
Porque eles também são pessoas boas e inocentes. Vão às compras, concertos, jogos de futebol e aos mercados. Porque também são mortos enquanto fazem isso. E pelos mesmos motivos, como a imagem ao lado mostra, também sou queniano, sírio, iemenita e infelizmente, etc..., etc..., etc...


2 comentários:

  1. Gostei do texto! Consegues analisar as coisas de uma forma racional. Eu não consigo. Perante atentados como os de Paris reajo muito com a emoção. E esqueço muitas vezes todos os outros....Obrigada por me lembrares:)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Andorinha :)

      Realmente revoltou-me. Não porque fosse alterar a foto do meu perfil com a bandeira do Líbano, mas por esta não estar disponível para tal.
      Para os libaneses, deve ter sido uma profunda sensação de injustiça e de solidão, por eles e o resto do mundo, não poderem mostrar que também apoiam o seu país.

      :*

      Eliminar