sábado, 28 de março de 2015

uma música para o fim de semana - Os Poetas


Quando esta semana o poeta Herberto Helder morreu, fiquei a tentar recordar-me se havia alguma música que tivesse sido feito com a sua poesia.
Queria que "uma música para o fim de semana" lhe fosse dedicada. Mas nada. Não me ocorreu nenhuma música ou canção.

Entretanto recordei-me do projecto Os Poetas.
A ideia que esteve na sua origem é curiosa.

Escolher poemas, pôr os seus autores a declamar o seu poema, ou, convidar vozes para as declamar.
Foi com os músicos Rodrigo Leão e Gabriel Gomes e com Hermínio Monteiro da Assírio & Alvim que o projecto nasceu em 1997 com o cd intitulado Entre nós e as Palavras.

Por detrás deles, dos poemas, poetas, está a música. A música não sustenta a poesia, a poesia não sustenta a poesia. Mas ambas interligam-se.
Aqui, nos Os Poetas, uma precisa da outra. A música está lá, porque a poesia está lá e reciprocamente.

Neste primeiro álbum aparecem dois poemas de Herberto Hélder. Um chama-se No Sorriso Louco das Mães e outro é A Minha Cabeça Estremece.

Vou buscar o segundo para a música para este fim de semana.
Oiçam-no é declamado pelo próprio Herberto Hélder. A sua voz é etérea, longínqua, Não nos envolve, mas também não nos afasta. Cativa-nos, hipnotiza-nos.
O poema é longo. Complexo, surreal, cheio de ilógicas e está pleno de um dos seus sentidos preferidos, a morte.

Com a ajuda da música minimal, abstracta e também ela a roçar a surrealidade de Os Poetas, a pisar os mesmos terrenos que A Minha Cabeça Estremece, entender, interiorizar, absorver esse conceito, essa filosofia tão querida de Herberto, será mais intuitiva e fácil.


Bom fim de semana:)




Minha cabeça estremece


Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

– Era uma casa – como direi? – absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.

– Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta – como direi? –
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

– Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
– Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.


Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder, Poemacto II


terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Helder - o silêncio da poesia



Os adjectivos utilizados são muitos. Genial, misterioso, obscuro, surreal.
O poeta Nuno Júdice definiu-o como um poeta "tão diferente, tão vulcânico".

Há muitos que o consideram como o maior poeta português depois de Fernando Pessoa, ou o maior da segunda metade do séc XX.

De facto muito poucas pessoas da cultura nacional, aquando da sua morte, agitaram tanto um país tão pouco cultural como Herberto Helder.

Parafraseando Alberto Caeiro, entre a data de nascimento e a da sua morte, todos os dias foram dele.

O poeta foi tudo o que se pode imaginar.
Sem grandes preocupações de listar por ordem cronográfica, o que fez na vida é de tirar o fôlego.

Trabalhou em publicidade, foi meteorologista, operário, delegado de propaganda médica. Trabalhou numa cervejaria, cortou legumes.
Viveu na França, Holanda e Bélgica. Viveu na clandestinidade em Antuérpia frequentando o submundo da prostituição onde terá servido de "guia" aos marinheiros que desaguavam nas águas deste porto belga.
Foi responsável das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian.
Em 1971 tornou-se repórter de guerra em Angola, onde um acidente grave o atirou para a cama de um hospital durante três meses. Após uma breve passagem por terras nacionais, parte em 1973 para os Estados Unidos.
Regressa a Portugal em 1975 para trabalhar na rádio e em algumas revistas literárias.

Durante todo este frenesim, Herberto Helder continua a escrever e a publicar.

Consequência destas experiências de vida, a sua poesia é hermética, pouco popular e portanto pouco acessível, até surreal. Plenas de paisagens difíceis de ler e de compreender. Um alquimista das letras.
O seu mundo poético continha dois elementos, dois fascínios, frequentemente presentes na sua obra: a morte e o silêncio.
Não tinha medo da morte. Sabia que um dia se entregaria a ela. Ela que viesse e com ela viesse igualmente o silêncio.

Ontem, com a sua morte, acredito que muitos celebrem mais o seu nome que a sua obra.
Exactamente o contrário que o poeta madeirense desejaria.

É bem conhecida a face excessivamente reservada da sua personalidade. Socialmente auto-excluído.
Rejeitava liminarmente todas as formas de mediatismo. Nomeadamente fotografias, entrevistas, documentários, chegando inclusivamente a proibir os amigos de falarem sobre ele.
Por isto ele criou sobre si próprio uma mística que não desejaria.

Talvez tenha sido por isso a sua morte tenha sido o oposto da sua vida, mediatizada.
E como sempre, e é esse o preço supremo da genialidade, será a sua morte que trará ao cima o seu valor e a curiosidade do grande público. Se era conhecido por poucos, talvez ser torne lido por alguns.

A fotografia que encabeça este post foi tirada pelo fotógrafo Alfredo Cunha, no início deste ano.
É uma das raras e a última que Herberto Helder permitiu que tirassem.

Foi ontem que a Senhora do Manto Negro, fazendo-lhe uma vénia, o levou nos seus alvos braços. Aos 84 anos.

- Quem diabo terá sido Herberto Helder?? Poeta?? Humm...deixa lá ler qualquer coisa dele.


Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser. 

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder


José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, preso nº 44


É atribuído, na verdade atribuem-lhe muitas frases, a Einstein, uma frase muito divertida e curiosa:

"Só duas coisas são infinitas: o Universo e a estupidez. Mas não estou muito certo relativamente ao primeiro"

Preferia manter-me preso por branqueamento de capitais, corrupção e fraude fiscal qualificada do que sair e ter que enfrentar este vídeo mal escrito, mal editado e mal cantado, em minha (des)honra.

No fundo, o cidadão José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, tem o que merece.
Uma cambada de parolos a cantarolar foleiramente pelo Youtube fora, para grande desgraça deste pequeno país.

Os fãs de Sócrates fazem-me acreditar que Einstein tinha razão quanto à estupidez humana.
Mas admito. Talvez seja castigo e vergonha a mais para o preso nº 44. Só a prisão já chegava.