sábado, 17 de março de 2012

uma música para o fim de semana - Rui Veloso


Há um par de anos fui ver um concerto de Rui Veloso no Casino de Lisboa. 
Já há vários anos que não o ouvia ao vivo. Creio que a última vez ou umas das últimas vezes foi no Coliseu dos Recreios de Lisboa, quando aquele que é para mim um dos seus melhores álbuns de sempre, Mingos e os Samurais de 1990 estava na berra.

Revê-lo foi um prazer. Duvido que haja alguém que consiga pisar um palco com um à vontade como Rui Veloso o faz. Fá-lo como se estivesse em casa, num fim de semana, a andar de pijama sem preocupações de alguma espécie com quem possa lá entrar.
A plateia era claramente uma família e dialogava connosco de uma maneira desconcertantemente descontraída. 
Interrompeu uma canção porque considerou que a guitarra estava desafinada e enquanto a afinava, sem qualquer tipo de preocupação ou de pressa, ia falando e respondendo à plateia como se estivesse numa roda de amigos e não num concerto com a sala a abarrotar de gente que ia gritando o seu nome ou pedindo uma determinada música.
Acabou e divertido retomou a canção como se nada fosse.

Muitos dizem que é o pai do rock. Acredito que sim. Mas deveriam ser dois os pais. Apesar de reservado, discreto e dar pouco a cara, Carlos Tê é o alter ego de Rui Veloso.
Quando oiço as suas músicas, não consigo deixar de pensar se Rui Veloso, seria o Rui Veloso de hoje, se Carlos Tê não escrevesse ou co-escrevesse a maior parte das letras, numa altura em Rui estava a nascer para a música, ajudando-o a crescer até se tornar um gigante nela.

Se a música de Rui Veloso é extraordinariamente simples, directa, limpa, intimista, sem grande floreados ou complexidades, as letras de Carlos Tê parecem saídas da própria Vida. É de alguém que viveu e compreende a Vida na perfeição.
Elas completam a música na perfeição ao ponto de pessoalmente em alguns temas preferir ouvir mais as letras e o seu significado que a música.

Quando estava a debater-me na escolha de uma música para o fim de semana de Rui Veloso, sem saber a Ana veio em meu socorro.
Lembrei-me que uma vez em conversa tinha dito que havia duas canções que gostava muito dele, Jura e Canção de Alterne.
Ouvi as duas e escolhi Jura. É um bom exemplo daquilo que escrevi acima.
A música de Rui Veloso é limpa, simples e intimista, a letra de Carlos Tê veio directa da Vida. 

Jura é o terceiro tema do álbum Avenidas de 1998 e faz parte da bana sonora da telenovela Jura da SIC.


Bom fim de semana :)




sexta-feira, 16 de março de 2012

as cinzas do Tibete


A China, é, e vai ser, cada vez mais um problema.
A Europa está a ser literalmente comprada pelos chineses e com bem mais de mil milhões de habitantes, a China é um mercado fabulosamente apetecido, um enorme mundo de oportunidades, um gigante económico ainda à espera de ser realmente acordado.

Isto permite que as grandes questões chinesas como a mão de obra barata e portanto explorada, os direitos humanos não respeitados, o controlo da informação e do indivíduo por parte de um estado que não parecendo é totalitário e opressivo, sejam toleradas ou postas de lado perante as oportunidades de negócio que a China representa. Elas serão tanto mais esquecidas quanto mais apetitoso financeiramente o mercado chinês se tornar.
O caso mais flagrante e o também mais "esquecido" é o Tibete.

A ocupação e destruição do Tibete, a sua "chinezação", um repressivo genocídio cultural que está ainda em curso desde que este país foi invadido em 1951.
Desde então tem ocorrido o assassinato de monges, a destruição de mosteiros, o fim da liberdade política, a prisão e mais uma vez o assassinato em série de milhares de tibetanos resistentes à "chinezação" do Tibete.
Mutilação, espancamento e tortura são prática correntes.
Estima-se, por baixo, que cerca de um milhão de tibetanos terão morrido às mãos do exército chinês e mais de cem mil estejam refugiados.
Há sessenta anos que isto acontece.

Talvez por isso a imolação de tibetanos esteja de novo a aumentar. No último ano houve cerca de vinte e cinco casos de imolação pelo fogo.
Covardemente a China chama a estes actos, as imolações, "terrorismo disfarçado".

A imolação dos tibetanos é um acto de desespero, de protesto contra a sua situação e paradoxalmente é um acto último de tentativa de sobrevivência.
É na comunidade internacional, é nas suas mãos, que os tibetanos depositam as esperanças, as suas vidas, a sobrevivência da sua cultura e das suas crenças religiosas ao imolaram-se.
O Tibete está amordaçado, sufocado e estrangulado pela China e é através do fogo que os tibetanos tentam libertar-se.

Se os tibetanos nos dão as suas cinzas, então temos que as respeitar e espalhá-las aos quatro ventos.
Teremos que ser as suas vozes e as suas lágrimas, teremos que ser a concretização da sua esperança.
A esperança de que os tibetanos poderem voltar a ser tibetanos e a terem de volta o seu Tibete.




quinta-feira, 15 de março de 2012

uma miúda de 50 anos


Ela tem seis anos, mas faz hoje cinquenta. Nasceu na Argentina no dia 15 de Março de 1962, pela mão de Quino.
O pai, Pelicarpo, é um agente de seguros e a mãe, Raquel é dona de casa e tem um irmão mais novo que se guille.

Ela é pequenita, ingénua, inteligente, inquieta e de olhar vivo. Vê o mundo dos grandes com o olhar dos mais pequenos. As suas perguntas são acutilantes e são como as verdades La Palisse, óbvias, mas tirando ela, mais ninguém as faz.

Esta miúda adora os Beatles, detesta sopa e faz questão de marcar este ponto. Chama-se Mafalda. Mafaldinha para os amigos. ;)




quarta-feira, 14 de março de 2012

dia do Pi


Hoje - ler aqui - celebra-se o mais famoso e conhecido número da matemática, o Pi
O célebre número que define a razão do círculo com o seu diâmetro.

Evidências mostram que este número já era conhecido dos gregos há cerca de dois mil anos atrás.
Existem documentos concretos do valor de Pi encontradas em tabelas mesopotâmicas datadas de 2000 a.C. que apontavam o valor do Pi como sendo igual a 3.
E há historiadores que afirmam que já havia este conhecimento, pelo menos de uma maneira indirecta, ainda mais cedo na história ao recuar a sua origem no Vale do Danúbio há cerca 4000 a.C.

Quanto ao primeiro descobridor rigoroso do nº de Pi, atribui-se ao Hippokrates de Chios em 430 a.C. por intermédio de um comentário feito pelo filósofo Simplicius ao trabalho de Hippokrates. Mas o referido trabalho está perdido no tempo e portanto não há comprovação efectiva desta atribuição.

Assim é atribuído a Euclides, onde demonstra e enuncia no seu tratado de geometria Elementos, o mais antigo documento existente com referencia a Pi, escrito cerca de 300 a.C., a descoberta deste número.


E quanto ao cálculo do nº de casas decimais de Pi?
Para o quotidiano sabe-se que o valor 3.14 é suficiente, se quisermos ir para valores mais exactos, utiliza-se o valor de 3.1416 e para trabalhos realmente avançados em termos de cálculo matemático vai-se para as dez casas decimais, ou seja 3.1415926535.

Actualmente o Pi, usando super computadores, já tem determinadas pouco mais de dez triliões (10.000.000.000.050) de casas decimais (absolutamente inúteis), calculadas em Outubro de 2011 pela dupla Alexander Yee e Shigeru Kondo.

Ler mais aqui




E ainda há quem pense que em inglês - foneticamente as duas palavras soam iguais - o inverso de Pi é... Pie (tarte). 
O que vale é que eles são inocentes  :D




terça-feira, 13 de março de 2012

Grande Ecrã - A Invenção de Hugo (Hugo)


Quando nos óscares deste ano, Michel Hazanavicius ganhou na categoria de melhor realizador por O Artista, sabia que não era merecido.
Na altura ainda não tinha visto A Invenção de Hugo de Martin Scorsese (vénia), mas sabia que este filme merecia ganhá-lo.
Martin Scorsese (vénia) não sabe, mesmo que queira, fazer maus filmes. É um génio do cinema e este filme, se tal fosse necessário, prova-o mais uma vez. 

A Invenção de Hugo é extraordinário.
É uma viagem ao mundo dos sonhos, da magia do cinema e do universo criado por George Méliès e tal como O Artista leva-nos quase às origens do cinema.

Na verdade quase roça o documentário sobre os passos iniciais do cinema. Mostra-nos os primeiros filmes dos irmãos Lumiére, com quem o cinema nasceu e uma biografia da vida de George Méliès.

A Invenção de Hugo, parte de um autómato que Hugo herda do seu pai que na determinação de o reparar, vai roubando pequenas peças de uma pequena loja de brinquedos da estação que pertence a George Méliès. Fica assim aberta a porta para a vida deste realizador francês, objectivo final deste filme.

De facto, George Méliès que começou por ser mágico, tinha uma pequena loja de brinquedos, na gare de Montparnasse e realmente destruiu boa parte dos seus filmes e cenários num acesso de fúria e frustração. Os seus filmes confiscados pelo governo francês foram efectivamente usados para fazer os saltos das botas de militares.
O estúdio de cinema envidraçado de Méliès que aparece no filme é réplica fiel do seu verdadeiro estúdio.
E ainda temos o privilégio de assistir (e perceber como foram feitos) a segmentos dos filmes de Méliès que sobreviveram à destruição.
E até o (espectacular) descarrilamento do comboio que aparece no pesadelo de Hugo é verdadeiro. Aconteceu em 1895 e foi fotografado na altura.







A sequência inicial de A Invenção de Hugo é deslumbrante e é uma fabulosa introdução daquilo que nós teremos a entrar pelos nossos olhos nas duas horas seguintes.
Nos primeiros minutos somos apresentados e levados pela mão ao espaço onde o órfão Hugo se movimenta e vive, a estação de comboio - segundo Scorsese (vénia) é uma mistura de elementos das gares de Montparnasse, Orsay e du Nord -  e às personagens que constituem esse mesmo mundo que vamos seguindo ao longo do filme, algumas delas constituindo por si só pequenas histórias dentro da história maior.

Fantástica a maneira como nos é mostrado e como somos submersos no mundo mecânico dos relógios da estação e como estão filmadas as dinâmicas deslocações de Hugo neste mesmo mundo que por vezes associei às fugas de Indiana Jones nos primeiros filmes desta saga (esqueçam a Caveira de Cristal!!).

Martin Scorsese (vénia) filma pela primeira vez em 3D e a sua utilização é magistral. Um dos poucos filmes que vi onde esta técnica se justifica e traz real valor acrescentado.
Pina, Avatar e A Gruta dos Sonhos Perdidos são talvez os únicos filmes onde o 3D é verdadeiramente bem utilizado e justifica o custo extra do bilhete.

Asa Butterfield é muito competente na composição de Hugo, mas não fascina, pelo contrário, a Isabelle, a amiga de Hugo de Chloe Grace Moretz e Ben Kingsley no martirizado Georges Méliès são cativantes nos seus papeis.
E surpresa (ou talvez não) é Sacha Baron Cohen no divertido e aparente implacável e coração de pedra, Gustave, o inspector da estação de comboios, sempre acompanhado do seu fiel (e mais divertido que o dono) doberman Maximilian.


A Invenção de Hugo é um filme visualmente exuberante que homenageia e de que maneira o cinema, através desse verdadeiro e literal mago do cinema que é Georges Méliès.
E quem melhor que ninguém o poderia fazer senão pelas mãos de um outro mago, Martin Scorsese (vénia).




segunda-feira, 12 de março de 2012

compra de fim de semana - Bill Evans





A compra de Everybody Digs Bill Evans, que eu já tinha prometido a mim próprio que o faria há bastante tempo, deve-se a um motivo bastante redutor: a sua faixa nº 6.

Há vários meses atrás, ao fazer uma ronda pela caixa de três cds que celebram os 45 anos de existência do 5 minutos de jazz, de José Duarte, quando no segundo cd da caixa, deparo com uma peça de piano que me fez soltar um "eh láá!!" pela sua beleza. No folheto dizia que era de um pianista chamado Bill Evans e chamava-se Peace Piece.

Peace Piece é daquelas músicas que nos faz fechar os olhos e entra directo na alma. Minimal, suave, hipnotizante, sofisticada, plena de veludo e bonita até mais não e que por muito que eu a repetisse, ela nunca me cansava.

Decidi então (felizmente) comprar Everybody Digs Bill Evans por causa da peça Peace Piece, a tal faixa nº 6.
Mas para além da faixa nº6 e das restantes nove, este cd que tornou Bill Evans uma referência no jazz, tem uma outra característica que o marca: a sua capa.
Ela tem dedicatórias, com as respectivas assinaturas - que segundo se diz lhe terão causado algum embaraço - ao trabalho de Bill Evans vindas de génios do jazz como o trompetista Miles Davis, os pianistas George Shearing e Ahmad Jamal e o alto saxofonista Cannonball Adderley.

Quanto ao cd, vale mesmo a pena comprá-lo e ouvi-lo, não só pela tal faixa nº 6, o que por si só é um bom motivo, mas claramente pelo seu todo.