sábado, 6 de fevereiro de 2016

uma música para o fim de semana - GNR


Podiam ter sido, os Trompa de Falópio ou Pastorinhos de Fátima.
Mas quiseram os Deuses que a decisão fosse GNR, o acrónimo de Grupo Novo Rock.
É pena. Teria preferido de longe qualquer um dos outros dois.

Os GNR, já há alguns anos que deixaram de ser os genuínos GNR.
Andaram por sonoridades um pouco fora do seu habitual. Transvestiram-se musicalmente.
Nada de mal nisto, se tivessem conseguido convencer-nos que eles eram o que queriam passar a ser e que era o que a malta queria. Nem uma, nem outra.

Em 2015 foram iluminados pela Caixa Negra.
Olharam para trás e perceberam como percorrer o caminho que estava à sua frente. Reinventarm-se e decidiram voltar ao que eram: os GNR.
De novo com três elementos de sempre: Rui Reininho, Jorge Romão e Toli (César Machado).
Criaram a sua própria editora, a IndieFada e lançaram em início de 2015 o seu décimo segundo álbum, Caixa Negra, considerado um dos melhores álbuns nacionais editados em 2015.

Som mais linear, mais identificável, letras tortuosas de imagens obscuras que só Reininho poderia escrever e onde, até a sua própria voz parece estar em melhor forma.
Cadeira Eléctrica é o tema de lançamento de Caixa Negra. Saiu cá para fora, a anunciar ao mundo que os GNR tinham renascido.
O vídeo é realizado por André Tentugal, dos We Trust, entre outras formações em que também participa.


Os GNR já tinham passado pela em Esteira em 2011, com um tema ilustrava o quanto que estavam no topo.


Bom fim de semana :)




Há no céu da boca
Um sabor a Mel Fel
Toda a Beleza é pouca
Ninguém manda no Bordel

Há na China
Uma Barragem suicida
Para quem quer Mudar de Vida
Um Chamado Investimento

Apaga as luzes
Já é de manhã
Aproveita o vento
Finge um sentimento

Há no Clima
Uma Alteração no Tempo
E Quando Muda a Hora
Lá vem Sofrimento

Liga a cadeira eléctrica
Sente a energia
Funciona tudo por magia


Liga a cadeira eléctrica
Sente a energia
Funciona tudo por magia


Apaga as luzes
Já é de manhã
Aproveita o vento
Finge um sentimento


Liga a cadeira eléctrica
Sente a energia
Funciona tudo por magia


Liga a cadeira eléctrica
Sente a energia
Funciona tudo por magia

Liga a cadeira eléctrica
Corta a corrente
Passa tudo por magia


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

a cegueira do ocidente





Não tenho a menor dúvida que somos mais cegos perante o oriente muçulmano que o contrário.
Somos completamente desconhecedores desta cultura, avaliamo-la mal e não pretendemos sequer compreende-la.

Para nós ocidentais, um muçulmano é um terrorista, ou pertence à Al-Qaeda ou Daesh.
Não percebemos que um muçulmano é uma pessoa normal, crente numa religião, o Islão, como qualquer cristão, budista ou hindu.
Frequentam as mesquitas, como um cristão frequenta as igrejas, os judeus, as sinagogas e os budistas, os seus templos.

Quando os italianos taparam as estátuas nuas de Roma, por altura do presidente iraniano Hasan Rohani, não respeitaram as duas culturas, quando Hollande rejeitou não servir vinho à mesa, no almoço de recepção ao mesmo presidente, contribuiu para a incompreensão das mesmas duas culturas.
Dois erros crassos, dois exemplos de cegueira ocidental.

Os chineses têm um ditado que diz "antes de apontares o dedo a alguém pensa três vezes antes de o fazeres, porque tens três dedos a apontar para ti".
Quando acusamos a cultura muçulmana das suas falhas, esquecemos-nos que nós também as temos e que também elas podem, devem ser apontadas e acusadas.


A Al-Qaeda, o Daesh, Boroko Haram e afins, não deixam de ser iguais à Santa Inquisição que durou pelo menos quatro séculos. São extremistas, com uma visão distorcida da religião que professam, da realidade.
Não são as religiões que estão em causa, ou que são elas que devem ser acusadas. São as pessoas. São criminosos. Apenas e exclusivamente.
A religião que supostamente professam, é um disfarce covarde por onde se tenta validar, justificar os actos terroristas, criminosos em nome da qual são praticados.

No Egipto em Siwa, e no Irão, em Teerão e Isfahan, fizeram-me as mesmas perguntas, demonstraram as mesma preocupações:
- Vocês em Portugal pensam que nós somos todos terroristas? Que somos violentos?
- Não. Claro que não. Terroristas não têm religião. Vocês apenas são pouco conhecidos entre nós.
Em ambas as situações, acrescentei:
- Receamos sempre aquilo que não conhecemos, que não compreendemos. É mais fácil, mais consensual, deturpar e acusar que compreender.


Acreditamos que a cultura ocidental é superior às outras. Não é. As apenas são diferentes.
E temos uma grande dificuldade de perceber isto, aninhados no nosso pretenso e superior chauvinismo ocidental. Enquanto isto acontecer, para nós ocidentais, e neste caso em particular, um muçulmano será um terrorista.
Profundamente errado, E muito mais injusto.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O Velho e o Mar de Hasselberg



Já escrevi várias vezes na Esteira, o quanto admiro este livro, O Velho e o Mar.
É aquilo tipo de criação da Humanidade, que redime a própria Humanidade quer da destruição que arrasta consigo.

Quando descobri que Hasselberg tinha uma música com o título de um livro que venero, fiquei a saber logo a saber uma coisa sobre ela: só podia ser bonita.

Umas das coisas que caracteriza este livro é a simplicidade do argumento. Mas dentro desta linearidade, há muitos nós, voltas. Há desafio, superação e determinação. Há sobrevivência, admiração e protecção.
Neste livro, através do velho e com ele, as nossas forças esgotam-se, as cordas rasgam as mãos, somos ensopados com água do mar que cai sobre nós, a dificuldade de manobrar o barco quando o grande peixe está em luta pela sua sobrevivência.

Apesar de todo o lirismo de Old Man and the Sea, falta-lhe estes sobressaltos, a tensão, alguma inquietação e os nosso olhos esbugalhados.

Mas se o trio de João Hasselberg não conta musicalmente, a história do Velho e o Mar, consegue no entanto resumir todo o livro em três palavras musicais: é muito belo.







domingo, 31 de janeiro de 2016

a minha cadela chamava-se Hiromi


Um animal é para mim algo mesmo muito importante.
Particularmente quando as suas vidas me são confiadas. Seja o acaso a trazê-las, ou seja uma decisão pessoal de ficar com elas.
Os nomes que lhes dou, têm que ter um significado especial, têm que ser relevantes. Reflectir aquilo que é importante para mim e do que gosto. É o caso de alguns dos animais cujas vidas se cruzaram com a minha: Thor, Miles, Alma, Mahler, Nina e Stark.

No passado dia 26 encontrei uma cadelinha na estrada, atropelada. Velhotinha, de focinho branco e com cataratas. Estava assustada, em estado de choque, não mexia as patas de trás. Gania imenso.
Com uma manta tapei-lhe o focinho para a acalmar, enrolei-lhe o resto do corpo e pu-la na carrinha.

Na clínica veterinária foi estabilizada, sedada e levou um antibiótico de espectro largo. Parecia apresentar lesões neurológicas. Eu estava agachado à sua frente. Os meus olhos nos dela. Havia alguém que estava com ela.
No dia a seguir fez raios X. Tinha uma lesão na coluna. Se fosse uma cadela mais nova seria possível estabilizar a coluna. Com cerca de doze ou treze anos de idade iria ser difícil que tal acontecesse, acima de tudo pela dor e sofrimento que lhe traria.
O prognóstico era mau.

Via-a todos os dias. Estava calma e dormia profundamente. Estava quentinha e aconchegada com umas mantas minhas.
Quando a acariciava, abria os olhitos durante alguns segundos e depois fechava-os.
Ontem entrou em sofrimento. A eutanásia era o melhor para ela. Foi o que aconteceu.

Dois dias, antes da sua morte, quis que ela tivesse um nome e um dono, um tutor. Que não fosse só, a cadela, que fosse algo mais que isso. Na veterinária quando abriram a ficha e perguntaram:
- Qual vai ser o nome dela?
- Hiromi, disse eu.
Soletrei o nome e na ficha surgiram os nossos nomes: Pedro e Hiromi.
Agora havia oficialmente uma pessoa responsável por ela e que gostava muito dela.


Hiromi Uehara, é uma pianista de jazz, japonesa. Esteve debaixo da asa de um maiores pianistas de jazz de sempre e pelo qual tenho uma admiração sem fim, Ahmad Jamal, e que felizmente se encontra activo e fantasticamente no activo.
Hiromi tem um álbum a solo, editado em 2009, um marco na sua carreira, que se chama Place to Be.
A última faixa é a que dá o nome ao álbum, Place to Be (Lugar para Estar).

Este tema é lindissimo. É terno e sereno. Muito sentido.
A minha cadela chamava-se Hiromi por causa de Hiromi Uehara, por causa de Place to Be.

Se o Place to Be de Hiromi não foi comigo que seja no Paraíso dos Cães. Com o Thor.