sábado, 5 de julho de 2014

uma música para o fim de semana - Carlos do Carmo.


Como não podia deixar de ser, a música para o fim de semana teria que ser do Carlos do Carmo.
Esta semana, ganhou, e foi o primeiro português a consegui-lo, o Grammy Latino por toda uma carreira dedicada à música, nomeadamente o fado.

Há uma canção que gosto particularmente dele, uma boa parte pela sua letra. A letra é escrita por Ary dos Santos. Um poeta e letrista que escreveu alguns dos poemas e letras mais fortes e sentidas da cultura portuguesas. Sobre a inconformidade, sobre a esperança, sobre o desejo.

Uma dessas letras/ poemas é Os Putos, um poema sobre a inocência de ser criança.
É sobre um bando de putos, livres, que vivem a sua inocência sem saberem o que seu futuro lhes reserva, a esperança que o seu país neles deposita.
São apenas crianças a viver a sua liberdade, a serem felizes por o serem.

No futuro, quando estiverem a cumpri-lo e a viverem a dita esperança, se a chegarem a ter, em vez de um pião e caricas, se o país permitir, terão um carro, uma casa e talvez filhos que com um pouco de sorte os conseguirão manter
Um dia serão enjaulados, estarão a cumprir horários castrantes, fechados na ironia dos "open space", serão pardais sem asas e sem bando. Sós no meio da multidão.

Nessa altura terão depressões, desespero, viverão o stress, serão hipócritas e se o conseguirem, terão que pisar os que estão ao seu lado, para não serem pisados.
Sentirão que estarão fora do seu tempo, não serão compreendidos e não compreenderão o que se passa à sua volta. Então voltarão a desejar a não ser adultos, a não serem homens.
Na altura em que o mundo é simples e os sonhos são todos possíveis e realizáveis. Quando uma bola, um charco talvez lamacento e um pôr do sol numa tarde que cai, é tudo o que precisam. Quando são felizes e não sabem que o são.
São putos.

Bom fim de semana :)




Os Putos

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira, a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser, criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos

Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando, na mão
A vontade que salta, ao eixo
Um puto que diz, que não
Se a porrada vier, não deixo

Um berlinde abafado, na escola
Um pião na algibeira, sem cor
Um puto que pede, esmola
Porque a fome lhe abafa, a dor.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos

Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ahmad Jamal - uma Lenda viva


No que respeita ao piano jazzístico tenho três pianistas de referência. Bill Evans, pessoalmente o maior entre os maiores, Ahmad Jamal e Dave Brubeck que considero que muito do seu sucesso se deveu a um dos maiores saxofonistas altoistas de sempre Paul Desmond.

Bill Evans morreu em Setembro de 1980, Dave Brubeck em Dezembro de 2012. Isto significa que o meu segundo pianista de eleição está vivo e faz hoje 84 anos.

Ahmad Jamal nasceu em 2 de Julho de 1930 nos Estados Unidos com o nome de Fritz Russel Jones. Apesar ter nascido de pais baptistas, por volta dos vinte anos, entre 1950 e 1952, converteu-se ao Islão e para o mundo do jazz tornou-se para sempre Ahmad Jamal.




Se fosse como o vinho do Porto à medida que envelhece ia melhorando cada vez mais. Mas Ahmad Jamal atingiu o ponto da perfeição. Como o site allaboutjazz escreveu - não consegue melhorar mais porque atingiu a perfeição há muito tempo.
A sua maneira de tocar continua elegante, fluída, sofisticada e vibrante. Peguem em qualquer álbum dele e percebem o que estou a dizer.

Desde 2010 lançou três álbuns que foram considerados dos melhores trabalhos de jazz que foram feitos nesses anos. Em 2010 - A Quiet Time, em 2012 - Blue Moon e 2013 - Saturday Morning.
Destes três tenho os dois últimos, estou à "caça" do Quiet Time e sou confesso admirador de Blue Moon.

Ahmad Jamal começou a tocar piano aos três anos (!) e iniciou os seus estudos aos sete anos (!).
Apesar de não ter tocado com Miles Davis ganhou a sua dmiração e este até terá dito a Red Garland, o pianista do seu primeiro grande quinteto - "toca como Jamal".
Por curiosidade Jamal só toca com pianos Steinway.


Ahmad Jamal toca o mítico tema Poinciana na mítica gravação ao vivo de At the Pershing (Hotel Pershing de Chicago) do álbum de 1958 But Not For Me.
Até nos dias de hoje Poinciana  o "persegue". É quase obrigatório e exigido em qualquer concerto que toque.
É um trio clássico de jazz com Ahmad Jamal no piano, Israel Crosby no contrabaixo e Vernel Fournier na bateria.
Este álbum foi dos muitos poucos na história do jazz que atingiu mais de um milhão de cópias vendidas.
Recentemente contribuí para o aumento deste número com o privilégio de o ter na edição original mas remasterizada da Chess Records.

Preparem esses dedos para começar a bater na mesa e os pés no chão e claro, antes de começar uma ovação de pé.

Parabéns Ahmad Jamal :)





P.S. - Tenho que fazer uma adenda a este texto. 
Na verdade existe um quarto pianista que lamentavelmente não mencionei na introdução do post. Bernado Sasseti que morreu prematuramente em Maio de 2012.
Nenhum pianista que conheço, tem a capacidade de me emocionar como Sasseti. Quer a solo quer em formação jazz. Portugal foi um país pequeno para ele.


terça-feira, 1 de julho de 2014

série "vencedores" - Carlos do Carmo




Carlos do Carmo tornou-se o primeiro português a ganhar um Grammy Latino.
E ganhou não por uma determinada música ou álbum mas sim por tido uma carreira e vida dedicada à música. Cinquenta anos mais concretamente comemorados em 2013, com o álbum Fado é Amor.

Ele figura entre gigantes da música mundial que ganharam este prémio. Nomeadamente, o "meu" Miles Davis, a rainha do jazz e do scat, Ella Fitzgerald, Bob Dylan, James Brown,  Leonardo Cohen, entre muitos outros.

Apesar de não ser grande fã de Carlos do Carmo, é fantástico ter sido ele a ganhar o primeiro grammy da música nacional.
Valeu :).


domingo, 29 de junho de 2014

José Saramago e as touradas


Se carregarem nos títulos de cada texto encontrarão a fonte dos mesmos. Pertencem ao blog http://abolicionistastauromaquiaportugal.blogspot.pt/.

Leiam-nos. É doloroso e triste, mas leiam-nos. É inacreditavelmente muito mais para o touro e para os cavalos. 
Quem não ler está a favorecer a manutenção de uma actividade inútil para a sociedade, praticada e vista por potenciais psicopatas. Exactamente o que esta criminosa, abjecta, indústria de morte e tortura e os sádicos que a praticam e assistem pretendem: manter as pessoas na ignorância.

Leiam. Pelos touros e por nós, seres humanos.


"O touro vai morrer..."




"O touro entra na praça. Entra sempre, creio. Este veio em alegre correria, como se, vendo aberta uma porta para a luz, para o sol, acreditasse que o devolviam à liberdade. Animal tonto, ingénuo, ignorante também, inocência irremediável, não sabe que não sairá vivo deste anel infernal que aplaudirá, gritará, assobiará durante duas horas, sem descanso.
O touro atravessa a correr a praça, olha os “tendidos” sem perceber o que acontece ali, volta para trás, interroga os ares, enfim arranca na direcção de um vulto que lhe acena com um capote, em dois segundos acha-se do outro lado, era uma ilusão, julgava investir contra algo sólido que merecia a sua força, e não era mais do que uma nuvem. Em verdade, que mundo vê o touro?" (…)

"O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem irá morrer. Terei medo pelo toureiro quando ele se expuser sem defesa diante das armas da besta. Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um certo momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte."

José Saramago, Cadernos de Lanzrote, Vol II


É isto cultura? É isto civilização?




"(...) Refiro-me a essas vilas e cidades onde, por subscrição pública ou com apoio material das câmaras municipais, se adquirem touros à ganaderias para gozo e disfrute da população por ocasião das festas populares.
O gozo e o disfrute não consistem em matar o animal e distribuir os bifes pelos mais necessitados. Apesar do desemprego, o povo espanhol alimenta-se bem sem favores desses. O gozo e o disfrute têm outro nome. Coberto de sangue, atravessado de lado e lado por lanças, talvez queimado pelas bandarilhas de fogo que no século XVIII se usaram em Portugal, empurrado para o mar para nele perecer afogado, o touro será torturado até à morte. As criancinhas ao colo das mães batem palmas, os maridos, excitados, apalpam as excitadas esposas e, calhando, alguma que não o seja, o povo é feliz enquanto o touro tenta fugir aos seus verdugos deixando atrás de si regueiros de sangue.

É atroz, é cruel, é obsceno.Mas isso que importa se Cristiano Ronaldo vai jogar pelo Real Madrid? Que importa isso num momento em que o mundo inteiro chora a morte de Michael Jackson? Que importa que uma cidade faça da tortura premeditada de um animal indefenso uma festa colectiva que se repetirá, implacável, no ano seguinte? É isto cultura? É isto civilização? Ou será antes barbárie?"

José Saramago, Caderno de Saramago, Vol II, 29 de Junho de 2009