Da elegância do seu piano e da beleza minimal da sua música.
Do silêncio que caminha por entre as notas de música, o modo pausado como toca, a forma como nos convida à introspecção, como maravilhosamente induz em nós serenidade.
A melancolia que se solta dos seus temas sem que arraste consigo a tristeza.
Quando o quotidiano nos atropela e põe-se em fuga, quando olhamos para o lado e nos sentimos um estranho em terra estranha, Bernardo Sasseti consegue arrumar-nos a casa, os nossos pensamentos, a nossa ansiedade. Amainar tempestades e domar demónios.
Consegue com que regressemos por alguns minutos ao nosso planeta natal, o regresso à nossa casa, ao nosso lugar, onde quer que este seja.
Regresso pertence ao álbum Motion do trio de Bernardo Sasseti.
É um trio de eleição. Bernardo Sasseti no piano, Carlos Barreto em contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria.
Sasseti afirmou a propósito deste álbum:
"Música que nasce do nada, ideias que decorrem do pensamento e da imagética do inconsciente".
No que respeita ao piano jazzístico tenho três pianistas de referência. Bill Evans, pessoalmente o maior entre os maiores, Ahmad Jamal e Dave Brubeck que considero que muito do seu sucesso se deveu a um dos maiores saxofonistas altoistas de sempre Paul Desmond.
Bill Evans morreu em Setembro de 1980, Dave Brubeck em Dezembro de 2012. Isto significa que o meu segundo pianista de eleição está vivo e faz hoje 84 anos.
Ahmad Jamal nasceu em 2 de Julho de 1930 nos Estados Unidos com o nome de Fritz Russel Jones. Apesar ter nascido de pais baptistas, por volta dos vinte anos, entre 1950 e 1952, converteu-se ao Islão e para o mundo do jazz tornou-se para sempre Ahmad Jamal.
Se fosse como o vinho do Porto à medida que envelhece ia melhorando cada vez mais. Mas Ahmad Jamal atingiu o ponto da perfeição. Como o site allaboutjazz escreveu - não consegue melhorar mais porque atingiu a perfeição há muito tempo.
A sua maneira de tocar continua elegante, fluída, sofisticada e vibrante. Peguem em qualquer álbum dele e percebem o que estou a dizer.
Desde 2010 lançou três álbuns que foram considerados dos melhores trabalhos de jazz que foram feitos nesses anos. Em 2010 - A Quiet Time, em 2012 - Blue Moon e 2013 - Saturday Morning.
Destes três tenho os dois últimos, estou à "caça" do Quiet Time e sou confesso admirador de Blue Moon.
Ahmad Jamal começou a tocar piano aos três anos (!) e iniciou os seus estudos aos sete anos (!).
Apesar de não ter tocado com Miles Davis ganhou a sua dmiração e este até terá dito a Red Garland, o pianista do seu primeiro grande quinteto - "toca como Jamal".
Por curiosidade Jamal só toca com pianos Steinway.
Ahmad Jamal toca o mítico tema Poinciana na mítica gravação ao vivo de At the Pershing (Hotel Pershing de Chicago) do álbum de 1958 But Not For Me.
Até nos dias de hoje Poinciana o "persegue". É quase obrigatório e exigido em qualquer concerto que toque.
É um trio clássico de jazz com Ahmad Jamal no piano, Israel Crosby no contrabaixo e Vernel Fournier na bateria.
Este álbum foi dos muitos poucos na história do jazz que atingiu mais de um milhão de cópias vendidas.
Recentemente contribuí para o aumento deste número com o privilégio de o ter na edição original mas remasterizada da Chess Records.
Preparem esses dedos para começar a bater na mesa e os pés no chão e claro, antes de começar uma ovação de pé.
Parabéns Ahmad Jamal :)
P.S. - Tenho que fazer uma adenda a este texto.
Na verdade existe um quarto pianista que lamentavelmente não mencionei na introdução do post. Bernado Sasseti que morreu prematuramente em Maio de 2012.
Nenhum pianista que conheço, tem a capacidade de me emocionar como Sasseti. Quer a solo quer em formação jazz. Portugal foi um país pequeno para ele.
Sinto-me cansado. Muito. Muito.
Mesmo no sossego, há inquietação. Na noite quando fecham os olhos, a alma não adormece. Anda ligeira por caminhos que não devia trilhar.
A nostalgia do que não tenho e que não sei que não tenho desenha quadros que iluminam o tecto escuro da noite.
Volto a fechar os olhos e paulatinamente encolho-me. Tento implodir. Ser um ponto. Pequenino, pequenino.
Mas a voz silenciosa descobre-me. Revivo o dia que acabou. Mais um dia em que não existi. Amanhã de manhã começará outro igual. Sem alma.
Choro lágrimas que não deviam ser choradas por ausência de um verdadeiro motivo para tal. Nem procuro saber porquê. Mas elas insistem em cair.
Tento ser forte todos os dias, renascer, sorrir para a luz, como a noite e o silêncio me sorriem e acolhem. Mas isso cansa-me cada vez mais todos os dias. Desajusta-me incessantemente. Sou uma pessoa feita de sombras e nevoeiros. Vou-me desligando a tudo e tento que não seja a todos.
Mantém-se a música.
Mantém-se Bernardo Sasseti. Fernando Pessoa ao piano. Regresso a ele.
É o meu refúgio invisível, o meu covil secreto. Escreve música para mim. Ele sabe o que penso e que sinto. Ele sabe o que preciso. Serenidade, essa coisa impossível.
Assina o dia a dia como eu gostaria de saber assinar. Num papel de pauta. Com música, em notas de música. Bonita, simples, elegante, envolvente e no entanto plena de complexidade.
Acertou em cheio em metade de mim.
Despeço-me de 2012 com a música de alguém que partiu este ano e que já aqui referi: Bernardo Sasseti.
Sinto a falta dele. Identifico-me com a sua música.
Gosto do lado meio arrastado, por vezes sombrio e repassada por solidão que ela contém. Muito intimista e sempre muito elegante.
Tal como a poesia de Fernando Pessoa, tenho com aquela sensação que as suas músicas foram compostas para mim, para a minha sala e para o meu sofá.
É uma música que tanto pode ser inquieta e angustiante como simultâneamente maravilhosa. O denso tema Noite composto para o filme Alice é para mim o exemplo máximo desta dualidade e pessoalmente talvez o tema mais bonito dele.
Poucos músicos como Bernardo Sasseti são capazes de tocar o silêncio como ele.
Para o último fim de semana de 2012, elejo Petit Pays do seu trabalho Livre, editado pela Cleanfeed em 2004. É um tema sereno e cristalino.
É fácil imaginar um pequeno e tímido ribeiro a passar tranquilamente pelas margens e fluindo pelas pedras. Sem grandes quedas, estrondos, barulhos ou salpicos.
Aquele tipo de ribeiro cuja água límpida nos convida a olhar sem ver. Aquele cantinho escondido, aquele segredo tão e só nosso a que voltamos quando precisamos de lavar a alma ou quando esta precisa de um tónico por se encontrar pesada e obscurecida pela vida.
A morte tem destas coisas. Por ela fui procurar dois álbuns de Bernardo Sasseti que já os conhecia mas que não os tinha.
Isto chateia-me porque isto significa que fui ultrapassado pela morte. Na verdade já deveria ter Alice e Ascent há bastante mais tempo, quando Sasseti era vivo. É assim que se prestam as verdadeiras homenagens, em vida.
Eu gosto da elegância, gosto da delicadeza e do minimalismo Gosto da economia de gestos, de palavras, de notas. Gosto da discrição. Gosto de quem traz a luz, sem estar debaixo dos focos da ribalta.
Por isso gosto tanto de Sasseti. Ele era tudo isto. E mais, era genial.
Não sendo no entanto um ignorante, mas sem conhecer extensivamente a obra de Sasseti, encontro em Alice e Ascent, todas as características que enumerei.
O minimalismo elegante da música, a sua beleza discreta mas poderosa. Universos musicais dos quais uma vez se entrando não apetece sair e quando se sai ansiamos por lá voltar.
A primeira vez que ouvi Alice a sério, os meu olhos tornaram-se brilhantes de água.
É a banda sonora composta para o filme homónimo que conta a história de um pai cuja filha, Alice, desaparece na cidade de Lisboa.
Sasseti retrata na perfeição o rosto e a urbanidade de Lisboa.
É um trabalho muito imagético. Os ruídos da cidade, o seu arquejar, a chuva que cai, carros que serpenteiam atrás de outros, passos que seguem outros passos, rostos que não olham para outros rostos, fechados em pensamentos individuais.
A vida repetida e anónima que corre e prossegue indiferente ao drama, à angustia isolada e à respiração ofegante de Mário que percorre a cidade à procura de Alice.
Através da música de Sasseti sentimos a solidão e a angustia deste pai que solitariamente procura incessantemente a filha, mas no entanto fazendo-o de uma maneira quase obcecada,ele não a torna excessivamente dolorosa ou inquietante. Pelo contrário. É elegante, simples e bela.
Sasseti expurga da sua música o acessório e faz-nos concentrar apenas na simplicidade das emoções lentas e melacólicas do seu piano, do clarinete de Rui Rosa e do contrabaixo de Yuri Daniel.
O segundo álbum que comprei este fim de semana foi Ascent.
Sasseti consagra em Ascent, duas grandes paixões suas: o jazz e o cinema, a música e a imagem.
Ele utiliza aqui dois trios. Daí o dois que aparece na capa do álbum. A uni-los está o piano de Sasseti.
O primeiro trio é o mais clássico que o jazz pode oferecer. Um piano, um contrabaixo e uma bateria.
O segundo aproxima-se da música de câmara. É constituído pelo piano, um violoncelo e um vibrafone e expõe a vertente cinéfila deste álbum, recuperando com novas roupagens, temas que fizeram parte de bandas sonoras Bernardo Sasseti para filmes como A Costa dos Murmúrios.
Também à semelhança de Alice, o contido Ascent, recorre à introspecção, ao minimalismo e à elegância da sua música para chegar ao nosso âmago.
Fá-lo de novo, de uma maneira sublimemente suave, quase se nos apercebermos que está a fluir por nós a melhor música que se faz em Portugal.
E sempre que o expressivo violoncelo de Adja Zupancic se faz soar, algo de mágico, algo de extraordinário acontece. Oiçam-no e percebem o que quero dizer.
A faixa que encerra o tema, Da Noite ao Silêncio, o violoncelo é absolutamente essencial na caracterização daquela que é para a mim a música mais bonita de Ascent. O som arrastado e lamentoso a lembrar chuva a a bater e a escorrer numa janela (já olharam para a capa?).
Mas como já tinha colocado Da Noite ao Silêncio, aqui, escolho agora Do Silêncio Revelação. O tema que abre Ascent.
Para além do delicado piano de Sasseti, do maravilhoso violoncelo de Adja e do subtil vibrafone de Lezé, o silêncio, no arranque do tema, é por ele próprio um instrumento não menos belo e importante que os restantes.
Comprei estes dois álbuns no fim de semana passado.e têm sido minha companhia habitual nas minhas noites.
Cada vez que os oiço deleito-me com os seus sons, com as suas nuances e a cada audição descubro sempre algo de novo. O que me faz de retornar sempre a eles.
São dois álbuns que se ouvem de olhos fechados e de alma aberta.
A propósito da morte de Bernardo Sasseti, coloquei na altura, um breve post no FB com o extraordinário tema Noite composto para a banda sonora do filme Alice do realizador português Marco Martins.
A acompanhar o post tinha uma pequena frase tirada da canção 125 Azul de Luís Represas que dizia "Deus leva os que ama".
Tive um comentário que acrescentava - Deus é egoista.
Sorri quando o li e coloquei um like sincero.
Mas é verdade. No fim, como Deus (admitindo que ele existe) nos ama a todos, acabamos todos por ser levados por Ele.
Portanto ter-nos levado Bernardo Sasseti aos 41 anos, foi no mínimo uma decisão apressada e como tal egoista. Ele podia-nos ter deixado ficar com o Bernardo mais uns anitos razoáveis.
Nesse dia ou talvez no dia seguinte e ainda a propósito desse post no FB recebi, também via FB uma sugestão para ouvir Da Noite ao Silêncio, a faixa que encerra o álbum Ascent de Sasseti.
Sabia que este álbum existia na sua carreira mas não o conhecia de todo.
Quando ouvi este tema pela primeira vez, foi amor à primeira vista. Tal como Noite, deixei-me abraçar por este tema.
É lento, elegante, está repassado de melancolia, de uma certa tristeza, e solidão mas acima de tudo é um tema lindo, lindo.
Sempre pensei que a tristeza não tem que ser feia. Apenas porque algo é triste não tem que ser posto de lado, rejeitado e afastado dos nossos corações.
Tudo o que surge inspirado pela tristeza ou que invoca este sentimento é usualmente bonito ou até muito belo.
Da Noite ao Silêncio prova isso mesmo, que a tristeza pode ser muito bela.
Prova igualmente que Deus, continuando a admitir que existe, foi realmente egoista ao levar Bernardo Sasseti tão cedo para longe de nós.
Enfim, ninguém é perfeito.