sábado, 30 de abril de 2016

uma música para o fim de semana no dia mundial do Jazz - Charles Lloyd


É de longe meu sax tenorista preferido e considero-o superior a John Coltrane. Blasfémia, dirão muitos, paciência.
Começou por desejar em ser cantor (???) mas quando ouviu pela primeira vez Charlie Parker, decidiu tornar-se saxofonista e pediu um alto aos pais. Ufff!!

Dois outros saxofonistas que iriam influenciá-lo seriam os incontornáveis e geniais Ornette Coleman (sax alto) e John Coltrane (sax tenor). Foi com Coltrane que o norte-americano Charles Lloyd decidiu abraçar o saxofone tenor.

Há uma interioridade imensa na música de Charles Lloyd. Uma sabedoria muito grande.
É um filósofo, reflecte e faz-nos reflectir. Conversa connosco. Traz-nos para o seu mundo encantado.
Tem uma ligação íntima, sincera com o saxofone, profundamente espiritual.

É um dos poucos músicos que é fácil reconhecer assim que as primeiras notas soam.
Há uma luminosidade muito grande na sua música, cheia de vibrações positivas.
Ela é muito protectora e extremamente pacificadora. Tem aquela capacidade maravilhosa de abrandar, amansar os demónios que nos devastam. Cada peça dele, faz-nos atrair como uma traça para luz.

Tenho vários álbuns deste gigante do jazz. The Call; Canto; Notes from Big Sur; Mirror ou Water is Wide, são os mais solicitados, são aqueles que mais se ouvem na minha sala, principalmente ao longo dos meus sábados.
Escolher uma música de Charles Lloyd para o dia mundial do Jazz é-me particularmente difícil.


Um dos álbuns que não estão mencionados como sendo um dos meus favoritos é Lift Every Voice.
Este duplo álbum foi escrito depois da tragédia do 11 de Setembro de 2001.
O tema que escolho para este fim de semana é a segunda música do primeiro cd deste álbum. Será ela que vai ilustrar este dia tão especial para mim.






Mas o post foi escrito ao som de Mirror ;)

sexta-feira, 29 de abril de 2016

dia mundial da Dança




The Legion of Extraordinary Dancers é uma série televisiva que conta a história de dois grupos de dançarinos opostos: The Legion of Extraodinary Dancers e a The Alliance of the Dark.
Os primeiros são os bons da fita, os segundos representam os mauzões.
Através da dança contam histórias de amor, vingança, traição, justiça, o bem e o mal.
Todos os géneros de dança estão contemplados nas coreografias dos diversos episódios da série: clássica, contemporânea, hip hop, b.boying, etc... etc.., etc...

Cada episódio tem uma breve introdução subtil, em entrelinhas, por parte do narrador que nos apresenta a história que vai ser contada.

Um dos episódios, das histórias - dança contemporânea - que mais gostei da primeira temporada chama-se Duet. 
O narrador diz-nos que em favor de algo maior que nós, o individual deve ser sacrificado. No caso de Duet o amor é trocado pelo espírito de missão, pelo chamamento para integrar o grupo LXD, 


Danças cruzadas de duas vidas em paralelo, a de Jato e Katana. Desconhecidas entre si, mas cruzando espaços comuns de rotinas e necessidades semelhantes.
No fim, um (re)encontro das mesmas duas vidas, afinal conhecidas, separadas pelo tempo mas destinadas ao desencontro.







quinta-feira, 28 de abril de 2016

Prince & Miles


São dois senhores musicalmente muito importantes para mim.
Um deles, Prince, abriu-me as portas do irrequieto funk, o outro, Miles Davis, mostrou-me a expressividade do jazz.

Recentemente surgiu este vídeo no youtube com os dois a tocarem juntos. Foi num concerto de beneficência nas vésperas de ano novo em 1987, em Paisley Park, casa e simultaneamente estúdios de gravação, recém inaugurados, de Prince.
Uma espectacular colaboração do jazz com o funk, que aliás estão muito longe de serem géneros muito distintos, ou até afastados entre si.
O domínio e a presença de palco de ambos os músicos é total. São bem visíveis as indicações que Prince vai dando à sua banda Lovesexy, com a qual tinha feito o tour nesse ano Sign o' the Times Tour.
Na imagem distingue-se perfeitamente Miles Davis à esquerda, a icónica dançarina de Prince, Cat e o próprio Prince do lado direito.

Independentemente da ligação musical e afectiva que se possa ter com estes dois génios, vê-los actuar, assistir à interacção entre os dois é absolutamente hipnotizante.







terça-feira, 26 de abril de 2016

um poema de... Mário de Sá Carneiro - Morra jovem quem os Deuses amam!


Faz hoje cem anos que Mário de Sá Carneiro, suicidou-se. Tal como anunciou numa carta declarando previamente o seu suicídio ao seu amigo Fernando Pessoa, com uma libertadora e elevada dose de estricnina.

A sua ligação e amizade a Fernando Pessoa era grande e muito íntima, fazendo deste o seu grande confessor. Sentia-se mal com a vida, inadaptado a ela. Uma alma inquieta e dorida que fazia da poesia e da literatura uma casa de fundações precárias para albergar um peito atormentado e desajustado. Dentro dele germinava desde cedo a depressão e a melancolia.

Tinha apenas 25 anos quando se suicidou em Paris. Fez questão de ter uma testemunha no momento da sua morte, José Araújo.
O que escreveu neste tão curto espaço de tempo, marcou a literatura nacional para sempre, ajudando a nascer o modernismo português.
Era uma pessoa saudosista, metafisica, de escrita complexa, trágica e tendencialmente niilista - "Eu não sou eu".

Eu não sou eu nem sou o outro, 
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.



Com Fernando Pessoa e Almada Negreiros foi um dos participantes da revista Orpheu, da qual seriam publicadas apenas dois números. O terceiro número apesar de escrito e ter a sua contribuição nunca chegou à tinta das máquinas tipográficas.

- Quem di diligunt adulescens moritur!.
Terão sido as suas famosas últimas palavras, fiel ao seu narcisismo que marcara a sua vida: - “Morra jovem quem os Deuses amam. !


Meu querido Amigo.

A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas “cartas de despedida”... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. 

Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas, mas não tenho dinheiro. […]


Mário de Sá-Carneiro, carta para Fernando Pessoa, 31 de Março de 1916.


Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro. Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro