sábado, 2 de janeiro de 2016

uma música para o fim de semana - Madredeus


Não acredito no futuro. É tentador acreditar que ele não existe.
Acredito no passado e no presente, nem tanto no futuro.

O Ano Novo é propicio a planos, a desejos para o futuro. São trezentas e sessenta e seis - 2016 é um ano bissexto - oportunidades novinhas em folha, apregoa-se. É possível.

O futuro muitas vezes me trouxe raiva e muita revolta.
Os Madredeus em Oxalá, do Álbum Euforia de 2002, numa altura em que Teresa Salgueiro ainda era a rainha deles, acreditam nele e até têm expectativas para ele. Têm sorte.
Mas ao ler e ouvir a letra da primeira música para o fim de semana deste ano, e ao contrário do escrevi no primeiro parágrafo deste texto, é quase tentador, pensar que ele exista e esperar que seja no mínimo... decente. O que quer que isso seja.


Bom fim de semana e um bonito ano de 2016 :)




Oxalá, me passe a dor de cabeça, oxalá 
Oxalá, o passo não me esmoreça; 

 Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá, 
Oxalá, o povo nunca se esqueça; 

 Oxalá, eu não ande sem cuidado, 
Oxalá eu não passe um mau bocado; 
Oxalá, eu não faça tudo à pressa, 
Oxalá, meu futuro aconteça 

Oxalá, que a vida me corra bem, oxalá 
Oxalá, que a tua vida também; 

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá 
Oxalá, o povo nunca se esqueça; 

 Oxalá, o tempo passe, hora a hora, 
Oxalá, que ninguém se vá embora, 
Oxalá, se aproxime o Carnaval, 
Oxalá, tudo corra, menos mal


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

dois nomes


Não podia fechar este ano sem mencionar dois nomes que marcaram este ano e cujas fotografias não apareceram na Esteira: Adi Hudea e Aylan Kurdi.

Adi Hudea, é uma menina síria de quatro anos, que no campo de refugiados de Atmeh, mostra a perda da infância, quando o fotógrafo turco, Osman Sagirli, ergue a sua máquina fotográfica para lhe tirar uma fotografia, ergueu ambas as mãos em atitude de submissão, de rendição.
Quantas vezes ela terá visto uma arma apontada a alguém? Quantas vezes terá assistido ao que uma arma de fogo pode fazer à vida de uma pessoa, para que ao confundir uma câmara fotográfica com uma arma dessas, perceber que as hipóteses de sobreviver aumentam se levantar os seus braços??
A imagem foi tirada em Dezembro de 2014, mas chegou em força aos media em Março deste ano.

Pouco tempo depois da divulgação da fotografia de Adi, era divulgada outra fotografia de uma menina síria, no campo de refugiados de Azrak, na Jordânia, que ao ser fotografada pelo alemão Rene Schulthoff, levantou também ela, os braços aos ar.







Aylan Kurdi, é um menino sírio de três anos, cujo corpo deu à costa numa praia turca, em Setembro.
Tal como Adi, é a posição do corpo de Aylan que diz tudo. Parece dormir, parece estar em paz, inocência em estado puro. Parece ter ainda em si, aquilo que Adi, já não tem: infância.
E são todos estes "pareceres" que revoltam e entristecem fortemente que vê esta fotografia.

Por Aylan ter perdido a sua vida, o seu dedo acusador é muito mais acutilante que as mãos levantadas de Audi, pesa-nos mais na nossa consciência. Pôs-nos à frente dos nossos olhos, a realidade que não queríamos ver.
Vi esta fotografia pela primeira vez num avião a caminho do Irão e senti-me culpado.
Hoje, ainda sinto essa culpa, e ela vai perdurar.









A Síria foi uma questão do "deixa andar" por parte da Europa. Todos os avisos estavam dados através dos refugiados que iam chegando à Europa através do Norte de África, Itália e Grécia nos anos anteriores. O número teve que aumentar para valores fora do controlo, para a Europa ter consciência do que se estava a passar e mesmo tardou em reagir.


Fazer mal ao mundo, magoar o nosso planeta, não é só quando o poluímos, provocamos alterações climáticas ou a perda da sua biodiversidade, é quando magoamos, alguém que pela sua inocência, pela sua pureza, nunca poderia ter sido magoado.
Que o digam Audi ou a Aylan, e tantos outros desconhecidos, porque não foram vistos e portanto não nos incomodaram.



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

última compra do ano - Mette Henriette



É surpreendente a todos os títulos o primeiro álbum de estreia na ECM, da saxofonista norueguesa, Mette Heriette,

Primeiro, porque sendo (ainda) desconhecida, a ECM apostou num álbum duplo, depois o nome dele tem também o nome dessa mesma desconhecida: Mette Henriette.
E ainda tem a ousadia de nesse duplo, existir também uma dupla personalidade, uma por cd, que não por acaso, são compatíveis entre si.

No primeiro está um trio de jaz, algo diferente do que nós esperamos, saxofone (Mette Henriette), piano (Johan Lindvall) Katrine Schiøtt e violoncelo (Katrine Schiot).

No segundo está um ensemble de treze músicos, onde influências do jazz se misturam com a música erudita estão bem presentes. Os membros do trio, fazem parte do ensemble.

À informalidade e espontaneidade jazzística do primeiro, complementa-se, não se deve falar em oposição porque esta não existe, a formalidade do segundo.

Mas em ambos os cds, as sonoridades, são atmosféricas, etéreas, frágeis, muito intimistas, um pouco... escurecidas, mas com espaço para que a luz possa irromper pelas janelas musicais deles dois.
Existe um equilíbrio magistral entre música e silêncio. Um respeita o outro, um depende do outro.
Quer no primeiro cd, quer no segundo, mais neste último, o do ensemble, existem alguns sobressaltos, momentos de tensão. Aliás este é bastante mais tenso, mais dissonante. Como se houvesse necessidade de nos trazer à terra, à realidade, de nos subtrair por alguns minutos da Terra do Nunca para onde Mette nos atira no seu trio.

É uma autêntica experiência este duplo álbum. Complexa, arriscada, aventureira, de autêntica descoberta. Cada audição há algo de novo, algo não percebido, não ouvido, da vez anterior.

Neste álbum, tudo flui, tudo se completa, mesmo nos opostos. O jazz do trio, solto, mas muito consonante, e a dissonância da música de câmara do ensemble.
O grande, grande trunfo é sonoridade e a composição de Mette Henriette. É fascinante e encantatória. Talvez seja este o melhor termo para definir esta pérola do universo musical da etiqueta alemã: encantamento.