terça-feira, 8 de outubro de 2019

o relógio não pára...


E sou dos que acreditam dos que já não vamos a tempo de reverter as alterações climáticas.
Vamos pagar um preço caro pela nossa falta de inteligência e inércia nesta matéria.







quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Kitbull


É uma espécie de encontro entre dois "malditos", dois animais estigmatizados pelo ser humano: um pitbull e um gato preto de rua.
Um é abusado pelo dono, o outro é feral e sobrevive sozinho.
O início é complicado mas quando as desconfianças se esbatem...

A história para estes dois "malditos" acaba bem, tem um final bonito. O que é raro, muito raro.








segunda-feira, 23 de setembro de 2019

o dia mais bonito do ano: chegaste Outono


Se há dia desejado em todo o ano, é o dia de hoje. O dia da chegada do Outono.
Aquele dia incrível em que dia e noite se igualam para depois a noite prevalecer sobre o dia até à chegada do solstício de Inverno.

É um dia de liberdade. O verão deixa cair as suas grilhetas. As grilhetas do calor excessivo, da luz forte que nos obriga a usar óculos escuros que tudo mascara e esconde, das noites mal dormidas e desconfortáveis.
Agora a natureza mostra as suas cores mais belas e liberta os seus melhores aromas. Hoje é o dia mais bonito de todos, o mais cheio de música, de poesia,

E não conheço melhor género músical mais capaz de ilustrar este dia que o jazz.
A nostaslgia mas não a tristeza, o tempo que corre sem pressa, sem obrigações, a suprema beleza das cores outonais, o lento cair das folhas amarelo alaranjadas, num fogueado sem perigo, o conforto das roupas mais acolhedoras.

O saxofonista alto Lou Donaldson e o seu quarteto com Herman Foster no piano, Peck Morrison em contrabaixo e Dave Bailey atrás da bateria, são maravilhosos na sua descrição de uma noite de Outono.
Que bom que chegaste, Outono

 






segunda-feira, 16 de setembro de 2019

B.B. King 94


Talvez a seguir a blues, a palavra que mais se associa a B. B. King é Lucille.
 A história da Lucille é sobejamente conhecida, mas não será por isso que ela deixará de ser escrita, lida ou ouvida. E para lê-la, ouvir e escrever

1949. B. B. King teria vinte cinco anos e em pleno inverno tocava num bar em Arkansas. Para aquecer o ambiente decide-se fazer um pilha de madeira e jornais velhos. A pilha é acendida com gasolina e ela arde bem.
Subitamente dois homens inciam uma luta entre si e espalham esta pilha, esta fogueira que flamejava. Enquanto lutavam a fogueira espalhou-se e o incêndio atingiu todo o bar.
B. B. King foge a tempo. No entanto deixa para trás a sua gibson e decide voltar ao braseiro para ir a buscar.
No rescaldo do incêndio descobriu-se que os dois homens tinha morrido e que tinha sido por causa de uma mulher chamada Lucille que a briga tinha começado.

O bluesman para se recordar do gesto que quase lhe custou a vida, decide baptizar não só aquela guitarra, mas todas as suas guitarras, com o nome da mulher por quem tudo tinha começado: Lucille.

A canção Lucille é uma conversa, uma declaração lindíssima de amor, de gratidão à sua guitarra, ao que ela fez por si.


B. B. King nasceu há 94 anos e o Google tem um doodle bem fixe para nos recordar a todos desta lenda da música, em particular dos blues.
Tive o supremo privilégio de o ouvir tocar ao vivo no dia 4 Julho de 1998, na Expo 98, no pavilhão da América.




The sound that you're listening to Is from my guitar that's named Lucille I'm very crazy about Lucille, Lucille took me from the plantation Or you might say, brought me fame I don't think I could just talk enough about Lucille Sometime when I'm blue seem like Lucille try to help me call my name I used to sing spirituals and I thought that this Was the thing that I wanted to do But somehow or other When I went in the army I picked up on Lucille, and started the singing blues Well, now when I'm paying my dues, Maybe you don't know what I mean when I say paying dues, I mean when things are bad with me I can always, I can always, you know like, depend on Lucille Sort of hard to talk to you myself I guess I'll let Lucille say a few words and then You know, I doubt if you can feel it like I do But when I think about the things that I've gone through, Like, well for instance, if I have a girlfriend and she misuses me, And I go home at night, maybe I'm lonely Well not maybe, I am lonely, I pick up Lucille And it bring out those funny sounds that sound good to me, you know? Sometime I get to the place where I can't even say nothing Look out Sometime I think it's crying You know, if I could sing pop tunes like Frank Sinatra or, Sammy Davis Junior, I don't think I still could do it, 'Cause Lucille don't wanna play nothing but the blues And I think I'm, I think I'm pretty glad about that 'Cause don't nobody sing to me like Lucille Sing, Lucille Well, I'll put it like this, take it easy, Lucille I like the way Sammy sings and I like the way Frank sings, But I can get a little Frank, Sammy, A little Ray Charles, in fact all the people with soul in this A little Mahalia Jackson in there One more, Lucille! Take it easy now, ah! You know, I imagine a lot of you wanna know, A lot of you wanna know why I call the guitar Lucille Lucille has practically saved my life two or three times No kidding, it really has I remember once I was in an automobile accident, and When the car stopped turning over, it fell over on Lucille, And it held it up off me, really, it held it up off me So that's one time it saved my life The way, the way I came by the name of Lucille, I was Over in Twist, Arkansas, I know you've never heard of that one, have you? And one night the guys started a ball over there, you know, started brawling, you know what I mean And the guy that was mad with his old lady, When she fell over on this gas tank that was burning for heat, The gas ran all over the floor And when the gas ran all over the floor, the building Caught on fire, and almost burned me up trying to save Lucille Oh I, I imagine you're still wondering why I call it Lucille The lady that started that brawl that night was named Lucille And that's been Lucille ever since to me One more now, Lucille Sounds pretty good to me. Can I do one more? Look out, Lucille Sounds pretty good. I think I'll try one more All right



série "matching" de Stefan Draschan - LXXIX








quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Scott Walker - Farmer in the City


Começa como um arrepio em surdina que nos faz vibrar, arrepiar talvez.
Quando a voz de Scott ecoa remete-nos para algo fúnebre, um mundo espectral, sombrio, um misterioso limbo vocal que nos agarra e retém.

Farmer in the City é uma homenagem a Pier Paolo Pasolini.
Na letra, a insistente alusão ao número 21 refere-se à idade com que um protegido de Pasolini, Ninetto Davoli, foi recrutado para o exército italiano onde mais tarde desertaria.

Esta canção atrai-me como uma traça para a luz. Ou neste caso, ausência dela.



Do I hear

21
21
21
I'll give you

21
21
21
Do I hear

21
21
21
I'll give you

21
21
21
This night you

are mistaken
I'm a farmer

in the city
Dark farm

houses
against the
sky
Every night

I must wonder
why
Harness on the

left nail keeps
wrinkling wrinkling
Then higher above

me - e e so o
e e e so o o
Can't go by

a man from
Rio
Can't go by

a man from
Vigo
Can't go by

a man from
Ostia
Hey Ninetto
Remember that

dream
We talked about

it
so many times
Do I hear

21
21
21
I'll give you

21
21
21
Do I hear

21
21
21
I'll give you

21
21
21
And if I'm not

mistaken
We can search
from farm to
farm
Dark farm houses

against our eyes
Every night I

must realize
Harness on the

left nail
Keeps withering

withering
Then higher above

me - e e so o
e e e so o o
Can't go by

a man in
this shirt
Can't go by

a man in
that shirt
Can't go by a man

with brain
grass
go by his long

long eye
gas
And I used

to be a
citizen
I never felt

the pressure
I knew nothing

of the horses
Nothing of the

thresher
Paolo

take me with
you
it was the

journey of
a life
Do I hear

21
21
21
I'll give you

21
21
21
Do I hear

21
21
21
I'll give you

21
21
21

terça-feira, 20 de agosto de 2019

sábado, 17 de agosto de 2019

uma música para o fim de semana - Catarina Munhá


Um álbum bem humorado, ligeiro e com um som muito veranil, ou não fosse o seu instrumento de eleição o muito tropical instrumento ukelele.
O primeiro álbum da portuguesa Catarina Munhá tem o mesmo nome da canção que o apresenta: Animal de Domesticação.

Bom fim de semana ☺







quarta-feira, 14 de agosto de 2019

uma citação (a pensar no Bolsonaro)



Apenas duas coisas são infinitas: o Universo e a Estupidez humana, e eu não tenho a certeza se isso é verdadeiro sobre o primeiro.

Albert Einstein








terça-feira, 13 de agosto de 2019

...magia.


sim, tudo o que fazia era…
…magia
sem sentido nenhum
ausência de propósito
na busca do nada
que delicia é a…
… magia

ir na infinitude de mãos nos bolsos, tem…
… magia
não pensar em tudo
sorrir para ninguém
e depois dar-lhe a mão
é um doce trago de…
… magia

espelho sem reflexo, é coisa de…
…magia
pensar sem tino
uma duração não obrigada
ser sem ter que ser
é da mais pura…
…magia

olhar de olhos fechados tem aura de...
… magia
Não sonhar com tudo
acarinhar o que não és
roçando o meu vazio
é uma doce sensação de…
… magia


Inkheart

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Tame Impala - Borderline


Dedicado a todos que o são.
Dedicado a todos os que mergulham do Everest para a Fossa das Marianas sem passar pelo mar.




Ah
Gone a little far
Gone a little far this time for somethin'
How was I to know?
How was I to know this high came rushing?
We're on the borderline

Caught between the tides of pain and rapture

Possibly a sign

I'm gonna have the strangest night on Sunday
There I go

Quite a show for a loner in L.A.

Askin' how I managed to end up in this place

And I couldn't get away
We're on the borderline

Dangerously far and all forgiven

There's gonna be a fight

Gonna be a price to pay on Monday
(If you and I get comfortable)
We're on the borderline (on the borderline)
Caught between the tides of pain and rapture
Then I saw the time (saw the time)
Watched it speedin' by like a train
Like a train
Will I be known and loved?

Is there one that I trust?

Starting to sober up

Has it been long enough?
Will I be known and loved?
Little closer, close enough
I'm a loser, loosen up
Set it free, must be tough
Will I be known and loved?
Is there one that I trust?
If there's room, room for doubt
As within, as without ya
Will I be so in love?
Gettin' closer, close enough
Shout out to what is done
R.i.p. Here comes the sun
Here comes the sun
Gone a little far

Gone a little far this time with something

How could I have known?

How was I to know this life get no shame
I said, "Come with me outside"
I need to clear my mind
This weight is crushing
Do you see the light, oh
Coming from their eyes, oh no
And I couldn't get away
We're on the borderline

Gets me every time

These close encounters

Just to know I can (just to know I can)
Once again, I am alone
Will I be known and loved?

Is there one that I trust?

Starting to sober up

Has it been long enough?
Will I be known and loved?
Little closer, close enough
I'm a loser, loosen up
Set it free, must be tough (I was fine without ya)
Will I be known and loved?
L.A. really messed me up
And it isn't cut and dry
Conversation, well I tried (I was fine without ya)
Will I be? Stay right here
Any closer, bad idea
Shout out to what is done
R.I.P. here comes the sun (I was fine without ya)
Will I be known and loved?
Is there one that I trust?
Starting to sober up

Has it been long enough?




sexta-feira, 21 de junho de 2019

um poema de... Alberto Caeiro (no solstício de Verão)



No Entardecer dos Dias de Verão


No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"



quinta-feira, 20 de junho de 2019

dia mundial do refugiado


Vénia a Miguel Duarte, o português acusado por Itália, que pode incorrer numa pena de prisão até 20 anos.
O crime pelo qual Miguel Duarte está acusado é auxílio à emigração ilegal, quando na prática ajudava a salvar vidas de refugiados, abandonados e ignorados por todos, no mediterrâneo.





sábado, 15 de junho de 2019

uma música para o fim de semana - Rui Reininho


Recuo onze anos na história de Rui Reininho.
Em 2008, a voz dos GNR lançava o seu primeiro álbum a solo - Companhia das Índias.

Neste trabalho, Rui Reininho canta um cover de um cantor brasileiro chamado Cazuza - Faz Parte do Meu Show. Ele tem aquela sonoridade tropical do país que reinventou o jazz, tornando-o muito seu: a bossa nova.
A minha relação com a bossa nova é curiosa. Gosto bastante uma vez que é um género musical cujas raízes estão bem assentes no jazz, mas... a tropicalidade que o caracteriza é-me algo cansativo. Gosto, mas tenho dificuldade em ouvir um álbum inteiro sem que a minha atenção se desvaneça.

De qualquer maneira Faz Parte do Meu Show esteve bem. Ouvi duas vezes consecutivas enquanto escrevia este Uma Música para o Fim de Semana.


Bom fim de semana ☺



Te pego na escola
E encho a tua bola
Com todo o meu amor
Te levo pra festa
E testo o teu sexo
Com are de professor

Faço promessas malucas
Tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby
É pra te proteger da solidão

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Confundo as tuas coxas
Com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida
Pra te mostrar quem sou

Vago na lua deserta
Das pedras do Arpoador
Digo "alô" ao inimigo
Encontro um abrigo
No peito do meu traidor

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Invento desculpas
Provoco uma briga
Digo que não estou
Vivo num clip sem nexo
Um pierrô-retrocesso
Meio bossa nova e rock 'n' roll

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor


sexta-feira, 14 de junho de 2019

para reflectir (seriamente)


"Esta é a batalha das nossas vidas", afirma Guterres sobre a urgência de actuar sobre as alterações climáticas que estão a destruir o nosso planeta e com ele a nossa própria sobrevivência.

Há dois anos, neste post, escrevia:

"Papua Nova Guiné, Bangladesh, ilhas das Maldivas, Indonésia, ilhas Fiji enfrentam já esta questão. O Kiribati, situado no Pacífico Sul, cujo ponto mais alto do país está a três metros acima do nível da água do mar, está na linha da frente dos primeiros países a desaparecerem. O arquipélago Tuvalu, com metro e meio acima do nível da água do mar, também no Pacífico Sul será, o primeiro a país a desaparecer.
É tão ameaçador que quando estes países enfrentam enchentes com ondas mais altas, eles já ficam debaixo de água!!
E é tal maneira grave que estes países ficam com os seus recursos naturais e infraestruturas afectados pela salinidade da água do mar: cursos de águas, pastagens, água corrente, comércio, escolas, hospitais, etc..., etc...

O conceito de refugiado climático está consagrado no direito internacional. Em 2013, foram feitos pedidos de asilo climático à Nova Zelândia vindos do Kiribati e esses pedidos foram negados sob o pretexto do precedente que iria abrir. Neste país, habitam cerca de cem mil pessoas..."

E ao contrário do que se possa pensar, se actuarmos agora, no imediato, o que não estamos a fazer, apenas estamos a pensar em fazer, a situação não se resolve também no imediato.
Há décadas que as alterações climáticas estão em marcha e possuem uma inércia própria. Antes de pararem, antes de ser inverter a situação, elas irão continuar a acontecer, mas diminuirão a sua velocidade. Quanto mais tarde actuarmos, pior será, muito pior, será para nós. E infelizmente também pior será para todas as espécies que partilham o planeta connosco.





quinta-feira, 13 de junho de 2019

Fernando Pessoa 131


De Fernando Pessoa conhecem-se cerca de 120 heterónimos. Mais ou menos influentes, mais ou menos efémeros na poesia e escrita do poeta que nasceu em Lisboa há 131 anos. Desta mais de centena de personalidades, personagens que Fernando Pessoa criou, apenas um tinha voz feminina.

Esse heterónimo chama-se Maria José, tem 19 anos é corcunda de nascença e tem uma deformidade nas pernas. Apenas se manifestou uma única vez e sob uma forma de uma pungente, uma muito sofrida carta de amor. Era dedicada a um serralheiro do qual estava enamorada - A carta da Corcunda para o Serralheiro.


Senhor António:
O senhor nunca há de ver esta carta, nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.


O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter - e agora menos que nem vida tenho - gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.


Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.


Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.

O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Aí tem e estou toda a chorar."