sábado, 31 de dezembro de 2016

uma música para o fim de semana - Leonard Cohen


Now in Vienna there's ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning
And it hangs in the Gallery of Frost


No início foram os versos. Estranhos, enigmáticos, diferentes, tinham vida própria, eram independentes. Depois foi a voz. Rouca, melancólica, fascinante e tal como os versos que cantava, também continha algo de misterioso. O canadiano Leonard Cohen tem uma daquelas vozes inconfundíveis, únicas, reconhecíveis de imediato. 

A sua presença em palco é discreta, tímida, até. Sempre de casaco preto e panamá na cabeça. O palco parece sempre grande demais como quando uma filha de quatro anos que calça os sapatos da sua mãe.
Mas a sua voz preenche-o na perfeição e o nosso peito também.

Começou tarde na música aos 34 anos. Como escritor ainda não tinha tido grande sucesso. Tinha 22 anos quando publica o seu primeiro livro de poesias, que passa quase despercebido nos escaparates das livrarias.
A primeira grande volta da sua vida é dada em 1960. Vai viver para a ilha grega Hydra. Passa seis anos aqui.
Dá um tempo a sim mesmo e recomeça a escrever e com bastante sucesso e reconhecimento. Vários livros de poemas e dois romances são publicados durante a sua estadia: Favourite Game e Beautiful Loosers.
Na sua estadia na ilha grega conhece o amor e a musa da sua vida: a norueguesa Marianne Inhlen.
O cantor de sorriso afável afirmaria que seria a mulher mais bonita que encontrou na sua vida. Marianne tinha acabado de sair de uma relação de vários anos com o escritor norueguês Axel Jensen. Entre os dois a química estabelece-se rapidamente.
Leonard Cohen dedica-lhe a canção, talvez a mais famosa de toda a sua carreira: So Long Marianne. Foi logo no primeiro álbum que editou, o Songs of Leonard Cohen de 1967.

Após anos mergulhado, drogas e sexo, entre 1994 e 1999 , Cohen tira uma licença sabática e retira-se para um mosteiro budista. Em Agosto de 1996 é ordenado como monge budista zen. É-lhe atribuído o nome Jikan, o Silencioso. Irónico para alguém que preenchia o vazio a cantar.
O peso da depressão estava ainda elevada, algo que o canadiano nunca conseguiu aliviar.


Marianne morreu em Julho deste ano. Cohen respondeu que brevemente se iria juntar a ela e que se haveriam de encontrar ao longo do caminho.
Foi o que aconteceu quatro meses depois, no dia sete de Novembro, aos 82 anos.

Quando se soube que Bob Dylan tinha ganho o prémio Nobel da Literatura de 2016, Cohen declarou que era como "dar uma medalha ao monte Everest por ser mais a montanha mais alta".
Entre o pessoal das montanhas diz-se que escalar o Everest tornamo-nos alpinistas para o mundo inteiro, mas escalar o K2 é tornarmo-nos alpinistas entre os alpinistas...
Sou dos que pensam que o bardo canadiano é o primeiro entre primeiros. 


A última música para o último fim de semana de 2016, é uma homenagem a Leonard Cohen. É a música que sempre me fascinou e cujos primeiros versos encabeçam este post. O seu título é Take This Waltz. Pertence a um dos álbuns que tenho dele e que comprei precisamente por causa dela e da sua letra. Chama-se I'm your Man.


Bom fim de semana e de caminho Feliz Ano 2017 🎉




Now in Vienna there are ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning
And it hangs in the Gallery of Frost

Ay, Ay Ay Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz with the clamp on its jaws

Oh, I want you, I want you, I want you
On a chair with a dead magazine
In the cave at the tip of the lilly
In some hallway where love's never been
On a bed where the moon has been sweating
In a cry filled with footsteps and sand

Ay, Ay Ay Ay
Take this waltz, take this waltz
Take its broken waist in your hand

This waltz, this waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea

There's a concert hall in Vienna
Where your mouth had a thousand reviews
There's a bar where the boys have stopped talking
They've been sentenced to death by the blues
Ah, but who is it climbs to your picture
With a garland of freshly cut tears?

Ay, Ay Ay Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz, it's been dying for years

There's an attic where children are playing
Where I've got to lie down with you soon
In a dream of Hungarian lanterns
In the mist of some sweet afternoon
And I'll see what you've chained to your sorrow
All your sheep and your lillies of snow

Ay, Ay Ay Ay
Take this waltz, take this waltz
With its "I'll never forget you, you know!"

This waltz, this waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea

And I'll dance with you in Vienna
I'll be wearing a river's disguise
The hyacinth wild on my shoulder
My mouth on the dew of your thighs
And I'll bury my soul in a scrapbook
With the photographs there, and the moss
And I'll yield to the flood of your beauty
My cheap violin and my cross
And you'll carry me down on your dancing
To the pools that you lift on your wrist
Oh my love, oh my love
Take this waltz, take this waltz
It's yours now, it's all that there is


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

agora a Pessoa do ano Escolhida pelos leitores da Time...


...ainda é mais sinistra que aquela que podia ser ter sido.

O que o idiota presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump se propõe fazer é assustador.
Fomentar o racismo, o segregacionismo, a secundarização da mulher, mandar abaixo o Obamacare, dar força e impulsionar o lobby do petróleo, desregular ainda mais a banca norte-americana, aproximar-se do czarista Putin que para além de ter invadido a Crimeia ucraniana ainda tem a cabeça a viver na antiga URSS e a cereja no topo de um tão amargo bolo, descredibilizar as alterações climáticas e os compromissos obtidos na cimeira do ambiente de dezembro de 2015 em Paris.

Isto é tão macabro, que há quem esteja à espera, na esperança que a Senhora do Manto Negro o venha buscar ainda antes de 2016 acabar.

Talvez seja uma mensagem subliminar por parte da Time, mas tomem atenção ao M sobre a cabeça do Trump(a)... 😈





quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

até podia ter sido a Pessoa do Ano da revista Time, mas não foi...





E não tiveram tempo para adicionar Alphonse Mouzon, um dos bateristas de uma das formações mais relevantes da história do jazz, os Weather Report, que tal como George Michael morreu no dia de Natal, e ainda Debbie Reynolds, a actriz de Singing in the Rain (Serenata à Chuva), um dos musicais mais amados da história do cinema.
Debbie Reynolds era a mãe de Carrie Fisher, e morreu no dia seguinte à morte da filha. 😮 



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

série "vencedores" - Fernando Santos





Fernando Santos, o treinador da selecção nacional de futebol, foi eleito o melhor seleccionador do mundo.
Aos seus pés ficaram treinadores com nomes bem conhecidos da praça futebolística como Joachim Low, o seleccionador da Alemanha, Didier Deschamps da França e Antonio Conte da Itália.

O treinador da selecção da muito surpreendente, e divertida também, selecção islandesa, o sueco Lars Lagerbeck, ficou em segundo numa escolha que lhe rendeu 71 pontos contra os 199 do engenheiro electrotécnico do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa.

Em Julho deste ano, Fernando Santos, levou a selecção nacional, pela primeira vez, a ganhar um campeonato europeu de futebol.

Muito bem 👍


Carrie Fisher (Outubro1956 - Dezembro de 2016)


Para os todos os warriors, hoje houve uma e triste perturbação na Força. Algo de terrível aconteceu, a Princesa Leia, também conhecida pelo seu nome verdadeiro, Carrie Fisher, morreu hoje.

Para muito de nós, os verdadeiros e genuínos filmes, serão sempre os primeiros três que foram lançados entre os anos de 1977 e 1983.
Estes três, foram os primeiros cronologicamente, mas na sequência da saga Star Wars, eles são os episódios quatro (Star Wars), cinco (O Império Contra-Ataca) e seis (O Regresso de Jedi).

A Princesa Leia está presente nestes três, não surge nos três episódios das prequelas I (A Ameaça Fantasma), II (o Ataque dos Clones) e III (A Vingança dos Sith) e surge para felicidade dos warriors, no episódio VII, o primeiro da trilogia de sequelas, (O Despertar da Força).

É no VII que a santíssima trindade das personagens do Stars Wars se junta de novo: Han Solo (Harrison Ford), Luke Skywalker (Mark Hamill) e Princesa Leia (Carrie Fisher).
Iremos encontrá-los de novo no episódio VIII, a estrear em Dezembro de 1917.
É a última chance de ver a Princesa Leia, ao vivo, no grande ecrã.

Quando Carrie Fisher surgiu pela primeira vez na Guerra das Estrelas, tinha 19 anos.
Calcula-se que sendo irmã gémea de Luke Skywalker a sua contagem de midi-chlorians, que mede a intensidade da relação com a Força, seja igual à dele, cerca de 15000.
Para referência, Darth Vader, o pai de Leia e Luke, é o que tem a contagem mais alta de midi-chlorians de todas as personagens da saga Star Wars com aproximadamente 28000.

Entretanto, faço minhas as palavras do mestre jedi Yoda:
- Triste eu estou.











sábado, 24 de dezembro de 2016

uma música para o fim de semana - Bob Dylan



Véspera de Natal. Cheira a intensamente a fritos.
Há salpicos de óleo junto ao fogão, há quase mais farinha no chão que na bancada cozinha que está misturada com água formando uma pasta difícil de limpar.
Ninguém sabe por onde andam as colheres de pau, o cão anda perdido por entre as pernas de quem lá anda.
A árvore de Natal está acesa, as luzes no alpendre estão acesas, as luzes da casa estão todas acesas.
Há mochilas, casacos e casacões, botas e cachecóis, sacos de plástico, papéis de Natal, um pouco por todo o lado.

As duas televisões estão acesas. A da cozinha está perdida e num canal qualquer sem ninguém a dar-lhe atenção, na da sala de jantar estão lá os putos a jogar há uma eternidade um jogo cujo nome não me lembro.
A electricidade já foi abaixo duas vezes com quantidade enorme de electrodomésticos acesos e a bombar horas a fio.
Estou refugiado, escondido da agitação num quarto minúsculo que numa vida passada tinha sido um escritório, ansioso para que chegue o melhor dia de Natal desta época, o dia 26 de Dezembro.

Vozes altas dão e pedem informações dúbias de quem está de costas para aquilo que precisa:"abre o armário", "está aí ao pé de ti, não estás a ver??" que ninguém vê ou sabe o que é, "lava essa travessa!!", que por acaso até nem foi usada, "passa-me essa coisa que está por aí!!" no meio de dezenas de coisas que estão no mesmo sítio.

O cão esgueirou-se para o pé de mim, em busca de uma calma que eu também procuro, perdida entre pratos limpos e sujos, copos que chocam entre si, cascas de nozes e de pistachios.
Olho para ele e digo:
- Se fosse eu a ti, ia lá para fora ladrar a quem passa. Não chove e estás mais sossegado.
Ele olha para mim com atenção e nega o meu conselho com um latido, voltando a sua atenção de novo para a confusão apenas ligeiramente atenuada pela porta encostada que vem da cozinha.
Falo de novo para ele, em voz resignada e digo-lhe:
- Sabes uma coisa? Pois é, o Natal é amanhã.
Insisto no meu conselho:
- Rapaz, devias mesmo ir lá para fora.

No meu portátil, tenho a voz rouca do Nobel da Literatura de 2016, Bob Dylan, a cantar Must Be Santa.
A Wikipedia sem emoção diz que faz parte do alinhamento do trigésimo quarto álbum da carreira de Bob Dylan, lançado em Outubro de 2009, dedicado ao Natal e que se chama Christmas In Heart.


Bom fim de semana e de caminho feliz Natal 😉




Who's got a beard that's long and white?
Santa's got a beard that's long and white
Who comes around on a special night?
Santa comes around on a special night
Special night, beard that's white
Must be Santa, must be Santa
Must be Santa, Santa Claus


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

um poema de... Camilo Pessanha (na chegada do Inverno)

É o primeiro dia de Inverno. A estação mais aconchegante do ano.
Sobre ele, o poeta português Camilo Pessanha escreveu Paisagens de Inverno:


Paisagens de Inverno

I

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! o sol! Volvei, noites de paz.
Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.
Extintas primaveras evocai-as:
_ Já vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias._
Sossegai, esfriai, olhos febris.
_ E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas...Doces vozes senis..._

II

Passou o outono já, já torna o frio...
_ Outono de seu riso magoado.
llgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...
_ O sol, e as águas límpidas do rio.
Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?
Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...
Onde ides a correr, melancolias?
_ E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'


sábado, 17 de dezembro de 2016

uma música para o fim de semana - Sérgio Godinho


Sérgio Godinho num registo bem diferente a que estamos habituados a ouvi-lo.

Sobe o Calor é uma das canções da banda sonora do filme com argumento de Nuno Markl e realização de Luís Galvão Teles.
Está escrita a meias com o pianista Luís Filipe Raposo. E são eles os grandes trunfos de Sobe o Calor.

A voz de Sérgio Godinho macia, serena e sem pressa, o piano de Filipe  Raposo, por vezes incisivo, por vezes embalador, mas sempre intenso.
Quer um, quer o outro, já pisaram o palco da Esteira. O Filipe, aqui, e o Sérgio Godinho com duas colaborações: aqui com Caetano Veloso e aqui com Jorge Palma.

Sérgio Godinho disse que as colaborações com Filipe Raposo iriam continuar.
Grandes notícias!


Bom fim de semana 😉





Diz-me o que vais beber Gelo para eu te aquecer O que vais amar Do meu corpo a pulsar A flutuar No teu rio que vai dar ao mar, amar Diz-me o que vais beber Gelo para eu te aquecer O que vais amar Do meu corpo a pulsar A flutuar No teu rio que vai dar ao mar, amar Sobe o calor Dá no peito O amor é fogo que arde sem se ver Refrigerar o interior deste corpo em chamas Quando me amas de amor Diz-me onde vais achar O corpo onde vais perder Onde vais buscar esse beijo para durar A flutuar No teu rio que vai dar ao mar, amar Diz-me onde vais achar O corpo onde vais perder Onde vais buscar esse beijo para durar A flutuar No teu rio que vai dar ao mar, amar O ar abafou noite dentro Nosso respirar ao vento Agora esta tudo azul Neste amor o tempo vai mudando a cor E as formas (de amor) Sobe o calor Dá no peito O amor é fogo que arde sem se ver Refrigerar o interior deste corpo em chamas Quando me amas de amor Refrigerar o interior deste corpo em chamas Quando me amas de amor

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Kandinsky 150



Quatro de Dezembro de 1866, em Moscovo, na Rússia czarista, há exactamente 150 anos, nascia um dos pintores mais influentes, mais interessantes e inovadores da história da pintura, e um dos mais admirados e venerados por mim: Wassily Wassilyevich Kandinsky.

Revolucionário e um visionário, Kandinsky foi gradualmente libertando-se da inspiração impressionista, cujo grande contacto que teve com esta escola de pintura foi através da obra de Claude Monet. Percebeu que no impressionismo a figuração estava muito presente, mas que já apresentava alguns sinais de fuga à mesma. Algo que o atraiu de sobremaneira.

Se os movimentos pós-impressionistas como o pontilhismo, o expressionismo e o cubismo foram tentando retratar a realidade de uma forma cada vez mais livre, mais reinventada, mas ainda assim focada nela própria, o abstraccionismo corta ferozmente e radicalmente com a figura reconhecível.
O percurso artístico de Wassily Kandinsky segue igualmente esta lógica.

Nas sua primeiras obras é bem visível o cunho impressionista que o motivou para a pintura. À medida que a vertente abstracta avança e se torna cada vez mais forte nele, as cores e os traços tornam-se mais imprecisos, mais livres e mais rebeldes.
A figura, a realidade, vai perdendo contornos, esbatendo-se na tela. As cores ganham personalidade e encontram-se mais soltas.

O abstraccionismo na pintura de Kandinsky ganha plenamente a sua maturidade ao longo da primeira década do sec XX, com uma evolução na segunda metade, altura em que o pintor faz um corte definitivo com o real e começa a introduzir nas nas suas telas elementos geométricos, onde a série seus trabalhos que denominou como Composições, representam o expoente máximo da sofisticação do seu trabalho.
Particularmente a Composição VIII que é um dos trabalhos que mais admiro e me fascina na obra dele.



Quis a história que a 2 de Janeiro de 1911, Kandinsky assiste a um concerto do compositor austríaco Arnold Schoenberg.
De imediato Kandinsky sente uma tremenda afinidade com o músico. Tal como ele, também Schoenberg estava a introduzir um corte radical na forma como a música era percepcionada, como era  ouvida, Se o pintor russo, estava a romper com a realidade com o abstracto, o compositor austríaco contrapunha à tonalidade a atonalidade. E os dois estavam a enfrentar uma resistência enorme por parte da sociedade e dos escolares às suas ideias e novos conceitos.

A empatia entre os dois artistas foi enorme. Encontraram-se, leram obras um do outro, trocaram ideias e cartas. Ajudaram-se mutuamente. Se em Schoenberg a música era a sua vida,  em Kandinsky a influência e educação musical na sua formação é elevada. Na juventude, o futuro pintor tocou piano e violoncelo.

Kandinsky uma vez afirmou "Eu não pretendo pintar música", mas olhando para os seus trabalhos, principalmente das décadas de vinte e trinta, só vejo música.
Ele, melhor que ninguém conseguiu fazê-lo.







sábado, 10 de dezembro de 2016

uma música para o fim de semana - GNR



Dada a eternidade que Rui Reininho está nos GNR, custa a crer que estes não tenham sido fundados por ele, e que nem sequer ele tenha sido sempre a sua voz.
O guitarrista Alexandre Soares foi o fundador e a voz principal.
Os GNR começaram como banda de garagem em 1980 e sairam de no ano seguinte com o lançamento do famoso single Portugal na CEE.
Com a entrada de Rui Reininho em 81, Alexandre Soares passa a ser exclusivamente guitarrista. Por sua vez Alexandre deixa a banda em 1986. Mas não sem antes gravar Psicopátria. E foi há 30 anos! Mais concretamente em Outubro de 1986.

Psicopátria e a Valsa dos Detectives de 1989 são os seus opus magnum, os trabalhos maiores de uma carreira feita de 35 anos.
Quer um, quer o outro, são montras daquilo que caracteriza a essência dos GNR: o timbre da voz de Rui Reininho e as letras non sense surreais, causticas e irónicas, o pop rock de travo por vezes abstracto.


Fujo com extrema dificuldade aos maiores clássicos de Psicopátria: Pós Modernos, Bellevue, o mítico Efectivamente. Mas cedo Ao Soldado Desconfiado.
Um tema melancólico, resignado, com uma implícita ausência de esperança. Uma crítica aos gabinetes dos burocratas da CEE, um clube para onde Portugal tinha entrado no ano anterior, pela mão de Mário Soares.

"Será nos gabinetes que se ditará a nova guerra"

Uma nova guerra, onde aquilo que é pessoal, passa a ser económico.


Bom fim de semana :)




Diz-me se és o meu reflexo, 
oh fonte vulgar.
Diz-me onde esconder a arma 
que eu soube enferrujar.
Castro com castro edificas, 
eu castro o gesto a que incitas. 
Estátua de orgulho gelada, 
sobre esta água parada.

O vento de amanhã quando soprar 
desagregará o tempo presente  
A memória da batalha clássica foi-se, 
a bandeira ser-me-à indiferente. 
Vim para devolver as cidades 
aos intoxicados da terra.
Será nos gabinetes que se ditará a nova guerra

Sempre que fui combater 
rastejei pelo chão.
Onde nem a beladona cresce 
tocando o musgo com a mão 
Descarnado de alma, 
mas mantendo a calma 
Dilacerado, esforço em vão

O vento de amanhã esfuma 
os viciados do controle 
O cheiro a carne assada humana 
será uma recordação 
Nem mais um soldado anónimo 
dormirá neste caixão
Sonhando arrogante, com o nome 
da sua batalha banal

O vento de amanhã quando soprar 
desagregará o tempo presente 
A memória da batalha clássica foi-se, 
a bandeira ser-me-à indiferente 
O cheiro a carne assada humana 
será uma recordação 
Nem mais um soldado anónimo 
dormirá neste caixão
Sonhando, arrogante, 
com o nome da batalha banal


domingo, 4 de dezembro de 2016

um dia de quintetos


Foi um dia dedicado a quintetos e todos eles da Blue Note. Liderados pelo piano ou pelo saxofone.

  • Cool Strutin' - Sonny Clark (piano), 
  • Blowin' the Blues Away - Horace Silver (piano), 
  • Takin' Off - Herbie Hancock (piano), 
  • Our Thing - Joe Henderson (saxofone), 
  • Speak No Evil - Wayne Shorter (saxofone),
  • Somethin' Else - Cannon Ball Adderley (saxofone)
  • Out to Lunch - Eric Dolphy (saxofone)

Propositadamente deixo um de fora. Undercorrent do pianista Kenny Drew. Disputa a minha preferência com o quinteto de Herbie Hancock

Undercorrent é um dos álbuns mais marcantes do jazz e também um dos mais subestimados dele.
A formação de Kenny é estelar. A linha de sopros é de eleição, Freddie Hubard em trompete e Hank Mobley no saxofone tenor.
De novo aqui há um toque de injustiça. Freddie Hubard é um dos trompetistas cujo valor e importância no jazz não está reconhecida.
Para além de Undercorrent, e dos vários que liderou, ele está presente como sideman em três dos quintetos que ouvi hoje e que são seminais no jazz: Takin' Off, Speak No Evil e Out to Lunch.
Se os sopros marcam este quinteto, a secção rítmica não fica atrás, Sam Jones em contrabaixo, um histórico do jazz e Louis Hayes na bateria, ainda hoje no activo.


Durante os primeiros 38 segundos, a primeira faixa do álbum, a que lhe dá o nome tem uma introdução fulgurante da bateria, contrabaixo, piano e trompete. Estão a todo o vapor. Um carga de adrenalina tremenda.
Assim que a introdução cessa, Hank Mobley dá um festival de saxofone tenor. Depois o tema desenvolve-se cheio de vigor, intensidade, energia e virtuosismo de toda a formação.
Ma é Kenny Drew e Freddie Hubard que mandam em nesta faixa.
O resto do álbum segue a tónica de Undercurrent

É a música ideal para enfrentar o dia mais detestável da semana: a segunda





sábado, 3 de dezembro de 2016

dia mundial da Pessoa com Deficiência


Uma pessoa com deficiência, não é uma pessoa deficiente. É uma pessoa!
Diferente, mas igual a ti e a mim.






uma música para o fim de semana - Norberto Lobo


Volto à poesia sonora da guitarra de Norberto Lobo.
Aqui tinha trazido o som do seu primeiro álbum, agora, mais de três anos depois, trago os sons do seu último trabalho, Muxama. saído em Setembro deste ano.

Com Muxama, Norberto Lobo sai um pouco fora do seu registo mais acústico para se tornar mais eléctrico. A linearidade que esteve presente nos seus trabalhos iniciais, sofre alguns desvios em Fornalha e estes aparecem mais consolidados em Muxama.
Prefiro a sua sonoridade "antiga", onde o dedilhar da corda está na base da voz da guitarra, onde esta soava mais pura.
Agora o trabalho de base, e continua a sê-lo, o fingerpicking, tem o suporte de um pedal. Ele vai expandir e tornar diferentes as "habilidades" que são permitidas fazer, assim como a técnica que este novo tangir da guitarra obriga.

Legionella, o tema desta semana, e jogando com as palavras, é uma música acusticamente electrificada. É difícil distinguir onde começa um, acaba outro, se é que esta distinção pode ser feita, ou até se é importante fazê-la.

O relevante é que é um tema sereno, pacificador, tocado com alma. Ouve-se e gosta-se.
Simples.


Bom fim de semana :)





quarta-feira, 30 de novembro de 2016

porque gosto - Vide Cor Meum


Muito recentemente vi o filme Hannibal no cabo.
Nele, Hannibal Lecter e o inspector Pazzi, jogam cordialmente, o jogo do gato e do rato, mas cheio de subtilezas e cordialidade. Um toca e foge de gentlemans.

Num dado ponto do filme, ao assistirem a uma ópera em Florença, Pazzi investiga a morte de um bibliotecário, ouve-se uma ária chamada Vide Cor Meuum (Vê o meu coração).
Ela decorre no largo da capela Pazzi, situada nos claustros da basílica Santa Croce em Florença.
E mais do que rever o filme, foi o extremo prazer de reencontrar, de voltar a ouvir esta ária. Andei para frente e para trás o filme umas quantas vezes, para ouvi-la repetidamente.

Gosto desta ária porque é de uma beleza inexcedível. É suave, é doce, delicada, repleta de uma pungência muito pura.
Há tristeza muita grande, mas cheia de ternura e serenidade. Há uma entrega do coração, da sua afectividade, da sua dor que expõe - vide cor meum - ao assistir à partida do coração desejado.
As vozes de Danielle de Niese and Bruno Lazzaretti fazem-nos sentir cada gota dessa dor, põe-nos na pele de Beatrice e de Dante.

Esta canção com letra do soneto "A ciascun'alma presa" consta na obra Vita Nova de Dante Alighieri. Ela narra o imenso amor que sentiu, quando tinha nove anos, pela gentil Beatrice Portinari quando a viu pela primeira vez. Foram necessários mais nove anos para que Dante falasse com Beatrice. Qual tal aconteceu o escritor ficou tão extasiado que teve que refugiar-se no seu quarto para poder pensar nela sem ser interrompido.

O soneto foi musicado por Patrick Cassidy, Hans Zimmer meteu o seu precioso dedo ao produzi-la, expressamente para a banda sonora do filme Hannibal realizado em 2001 por Ridley Scott. Quatro anos depois a mesma ária reaparece no filme Reino dos Céus, também ele realizado por Ridley Scott.







Vide Cor Meum
Vê Meu Coração

Chorus: e pensando di lei
E pensando nela
Mi sopragiunse uno soave sonno
Se apoderou de mim um doce sono

Ego dominus tuus
Sou teu dono
Vide cor tuum
Vê o teu coração
E d'esto core ardendo
E deste coração inflamado
Cor tuum
Teu coração

Umilmente pascea
Humildemente alimentava-se
Appresso gir lo ne vedea piangendo.
Envolto em lágrimas, o vi partir

La letizia si convertia
A alegria tornara-se
In amarissimo pianto
No amargo pranto mais amargo

Io sono in pace
Estou em paz
Cor meum
Meu coração
Io sono in pace
Estou em paz
Vide cor meum
Vê meu coração


sábado, 26 de novembro de 2016

uma música para o fim de semana - Bernardo Sasseti





De repente bateu saudades de Bernardo Sasseti.

Da elegância do seu piano e da beleza minimal da sua música.
Do silêncio que caminha por entre as notas de música, o modo pausado como toca, a forma como nos convida à introspecção, como maravilhosamente induz em nós serenidade.
A melancolia que se solta dos seus temas sem que arraste consigo a tristeza.

Quando o quotidiano nos atropela e põe-se em fuga, quando olhamos para o lado e nos sentimos um estranho em terra estranha, Bernardo Sasseti consegue arrumar-nos a casa, os nossos pensamentos, a nossa ansiedade. Amainar tempestades e domar demónios.

Consegue com que regressemos por alguns minutos ao nosso planeta natal, o regresso à nossa casa, ao nosso lugar, onde quer que este seja.

Regresso pertence ao álbum Motion do trio de Bernardo Sasseti.
É um trio de eleição. Bernardo Sasseti no piano, Carlos Barreto em contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria.

Sasseti afirmou a propósito deste álbum:

"Música que nasce do nada, ideias que decorrem do pensamento e da imagética do inconsciente".

Tenho o privilégio de o ter.


Bom fim de semana :)






sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Grande Ecrã - Café Society



Desde 2011 que vou assistir a um Woody Allen em modo bipolar. Sempre com esperança de ver algo em linha com o fabuloso Meia Noite em Paris do tal ano de 2011, mas absolutamente com um pé atrás com medo que caia no sapatinho, algo parecido com o quase intragável Para Roma com Amor de 2012.


Parafraseando o treinador do Sporting, Jorge Jesus, Café Society é um filme morninho, morninho.
Woody Allen mostra na perfeição, mais uma vez, a sua capacidade para realizar filmes de época, de nos oferecer um argumento neurótico, existencialista e um tanto psicanalítico.
O director de fotografia, Vittorio Storaro, tinge os ambientes hollywoodescos dos anos trinta de cores quentes, saturadas, difusas e muito pastelizadas. Autênticos banhos de dourados, castanhos e laranjas.
Quando o argumento nos atira para o Bronx, as cores mudam radicalmente. Dá-nos o oposto. São frias, cinzentas, quase indistintas e muito dessaturadas. Para o nightclub Café Society, desenha um ambiente rico de cores, cheio de brilho e glamour.
Dos vários ambientes por onde o argumento nos põe a circular, é também no nightclub que Woody Allen tem a realização mais bem conseguida.


O realizador desenha um triângulo amoroso familiar, que é tanto do seu apreço, linear e pouco conflituoso, resolvendo-se com um final imprevisível, e ao contrário do que usualmente acontece é um desfecho bastante realista.
Tio Phil (Steve Carell), um magnata do showbusiness, e o sobrinho judeu Bobby, que vai trabalhar para ele, apaixona-se pela secretária da qual Phil é patrão, mais tarde saberemos que também é sua amante, Vonnie (Kristen Stewart), sem que nenhum dos vértices masculinos o saiba.

O realizador escolhe Jesse Heisenberg como seu alter ego, onde este nunca está verdadeiramente à vontade, o que não deixa surpreender um pouco. No filme a Rede Social, Jesse Eisenberg mostra à mão cheia a importância da sua presença, ele é o valor maior ao longo do filme ao desempenhar o alienado Mark Zuckerberg, alguém que não se encaixa na sociedade e nem sequer consegue percebê-la. A César o que é de César, o actor luta pela credibilidade da sua personagem e é honesto na sua entrega ao papel, ao contrário de Kristen Stewart, o seu contra-ponto feminino.

Mas porquê a presença de Kristen Stewart no elenco?? Capitalizar adolescentes platonicamente apaixonados e com um fetiche por ela??
Na minha fila e sentadas do meu lado direito estavam duas senhoras que ao intervalo comentavam uma para a outra que não gostavam dela, e que mesmo num filme de Woody Allen continuava a ter um olhar de sonsa.
Verdade. É inexpressiva, impessoal, incapaz de interagir connosco. Os seus papeis, as suas personagens são sempre baças, entediantes, plastificadas e …sonsas! Vonnie não foge à regra.


Se pensarmos que Woody Allen que a pouco menos de duas semanas de fazer 81 anos, escreve e realiza um filme por ano e que já estará a pensar no de 2017, consegue fazer de Café Society um filme consistente, Não está ao nível de Blue Jasmine de 2013, de Vicky Cristina Barcelona (2008) ou de Match Point (2005), para mencionar alguns dos seus melhores filme da última década, mas é um filme que se vê com um prazer razoável.
A sublime fotografia de Vittorio Storaro, vale quase por si só a ida a uma sala de cinema ver Café Society, apesar de este enfermar de um certo travo de boçalidade, mas nada de grave ou particularmente prejudicial.







quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Freddie M. 25


A frase completa é "Live fast die young and have a good-looking corpse".
Quem a disse foi John Derek no filme O Crime Não Compensa de 1949. Esta frase, erroneamente atribuída James Dean, espelha fielmente a vida de Freddie Mercury e o porquê de se ter tornado uma lenda da música.

Com Freddie Mercury tudo acontecia rápido e em grande escala. Extravagante, e gastador. O dinheiro que ganhava e que fazia questão de o gastar à mesma velocidade com que o ganhava.
Entre mansões de trinta quartos, voar em Concorde, Rolls Royce, orgias e prendas para os amigos e antigos namorados, o dinheiro desaparecia.
Para além do Rock'n' Roll, a vida de Freddie Mercury andava de mãos dadas com drogas e sexo.
Fazia-se rodear de inúmeros ex-namorados, tantos quanto as relações efémeras que tinha, à medida dos lugares onde os Queen passavam.

O cantor britânico de origem tanzaniana, assumia a sua incapacidade de ter relações duradouras e estáveis. Foram todas fugazes e efémeras.
Paradoxalmente, assumindo-se como homossexual, foi com uma mulher que teve a sua relação mais estável, Mary Austin, que duraria sete anos. Apesar de a relação ter terminado por Freddie Mercury ter-lhe contado, na altura o seu segredo, a sua homossexualidade, Mary manteve a ligação de amizade que os unia. Seria ela a cuidar e a estar com o cantor no seu leito de morte.

Não sou um fã dos Queen, originalmente chamados Smile, mas existe uma canção que aprecio particularmente: Who Wants to Live Forever. Pertence a um dos álbuns mais icónicos da discografia dos Queen, A Kind of Magic de 1986. 
O tema foi escrito para um filme que vi e que gostei na altura, Highlander. Este tema tem a particularidade de ser o guitarrista fundador dos Queen, Brian May, que foi quem a escreveu, que dá a voz ao início da canção antes de Freddie Mercury a desenvolver.
É cantada de uma forma algo triste e nostálgica. Para quem a eternidade, pode ser traduzida num breve e descrente e já pré-determinado momento.

Freddie Mercury morreu hoje, há 25 anos e com 45 anos.
De novo a frase de Derek - "Live fast die young and have a good-looking corpse".
Penso na vida de Freddie Mercury... claro que sim. É deste material que as lendas são feitas.






There's no time for us
There's no place for us
What is this thing that builds our dreams, yet slips away from us
Who wants to live forever
Who wants to live forever . . .?
Oh ooo oh
There's no chance for us
It's all decided for us
This world has only one sweet moment set aside for us
Who wants to live forever
Who wants to live forever
Ooh
Who dares to love forever
Oh oo woh, when love must die
But touch my tears with your lips
Touch my world with your fingertips
And we can have forever
And we can love forever
Forever is our today

Who wants to live forever
Who wants to live forever
Forever is our today
Who waits forever anyway?


domingo, 20 de novembro de 2016

Gogo Penguin - Fanfares


GoGo Penguin é das coisas mais refrescantes, a começar pelo seu nome, que apareceram no jazz nos últimos anos.
E isso é particularmente difícil quando tocam numa formação clássica de trio de jazz, um formato onde a diferença é difícil de ser atingida.

Conseguir encontrar um som próprio, inovaram e renovaram a sonoridade do jazz, conseguindo manter o seu encanto, a sua expressividade, a sua essência.
O piano de Chris Illingworth forte, incisivo, a bateria determinante Rob Turner e o enérgico mas delicado contrabaixista Nick Blacka, compõem a sonoridade do trio inglês oriundo de Manchester.

Entrei no mundo dos GoGo Penguin com o seu terceiro trabalho, o fabuloso e o meu preferido, Man Made Object de Fevereiro 2016, da mítica etiqueta Blue Note.
Depois regredi no tempo e comprei o segundo trabalho, o V2.0 de Março 2014 da bem mais desconhecida etiqueta Gondwana Records. Mais arrojado, mais interventivo, que o mais consensual, e reconhecido, recente trabalho.

E sem ter procurado por ele, veio ter às minhas mãos o álbum de lançamento (Novembro 2012), o primeiro trabalho dos GoGo Penguin, o Fanfares, também ele assinado pela Gondwana, em que tudo o que me atrai neles já estava presente: a sofisticação, a elegância, o jazz musculado e energético misturado com o jazz mais suave e sedutor, a electrónica feita de sons acústicos, o vigor do piano e da bateria.

HF é a faixa que fecha o álbum Fanfares. Tudo o que escrevi sobre o jazz de GoGo Penguin está bem ilustrado neste tema.






sábado, 19 de novembro de 2016

uma música para o fim de semana - No Project Trio


Há drama e tensão nesta improvisação do No Project Trio.
Alguém busca com ansiedade algo que não encontra, uma chave, um recado escrito, uma memória que devia estar presente e que não surge.
A urgência, uma corrida ziguezagueante por entre carros, ou para fugir a poças de água, apesar da chuva que cai a tornar inútil, para chegar a tempo de uma entrevista de emprego, por não haver lugares disponíveis para estacionar perto
O pânico da branca que se instala, no momento em que se lê a primeira pergunta do exame e percebemos que a aposta feita em estudar a parte mais provável de sair nesse exame caiu por terra.

O No Project Trio é um trio clássico de jazz nacional de luxo.
João Paulo Esteves da Silva a dominar o piano, Nelson Cascais contrabaixista e João Lencastre sentado na bateria.

Este trio já tinha estado no placo da Esteira, aqui


Bom fim de semana 😃




terça-feira, 15 de novembro de 2016

um poema de... Carlos Drummond de Andrade


AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

já lá vão sete


Existem poucos números com a mística, mitologia e tão presente no nosso dia a dia como o sete.

As mais clássicas são as sete notas de música, os sete dias da semana, as sete cores do arco-íris e o ciclo lunar ser de sete dias, além que terá sido em sete dias que Deus criou o mundo.
Não esquecer que um gato tem sete vidas.

Ainda dizem que o número sete é nobre, e solitário, por ser um número primo. Só é divisível por ele próprio e pelo o um, que por sua vez representa a unidade.
O sete tem características de introversão, é pensativo, frágil e

E é dito que sendo o sete formado pela soma do quatro, representado por um quadrado, que por sua vez é identificado com a matéria, com o três, que é um triângulo e é associado ao espírito, ele representa a união do corpo, do material, com o espiritual, a alma.

Mas continua. O três simboliza igualmente o céu e o quatro, a terra, o que atira o sete mais uma vez para a totalidade, para o universo, e por também lhe é atribuído uma origem divina.


Mas duas, e não sete, coisas são absolutamente certas:

Os sete anos de Esteira foram celebrados em Luang Prabang com vista para o Mekong, e deu um trabalho incrível para aqui chegar.
Tal como Mário Branco canta na sua canção Eu Vim de Longe:


"Eu vim de longe. De muito longe. O que eu andei pra aqui chegar ..."






quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Piper


Animação inacreditável, cores extraordinárias e um argumento simples que consegue em seis minutos ser didático, divertido, estar cheio de ternura e ainda causar uma certa angústia pelo destino do pequeno Piper.
Mas nas curtas da Pixar nada corre mal... 😉

Piper é uma abreviatura da espécie de aves a que ele pertence, os sandpipers em inglês.
Em português conhecemo-la por narceja comum.
Pode ser encontrada nas orlas costeiras, nos estuários dos rios e em outras zonas alagadas, como arrozais e várzeas. Alimenta-se de pequenos moluscos, insectos, larvas e vermes.

Esta nova curta da Pixar antecedeu a apresentação do filme À Procura de Dory nas salas de cinema.






terça-feira, 8 de novembro de 2016

um brinde a Adolph Sax


O belga Antoine Joseph Sax, nasceu a 6 de Novembro de 1814 e morreu a 7 de Fevereiro de 1894.
Para além de ter sobrevivido a n acidentes que lhe podiam ter custado a vida, é um sobrevive te da vida, Adolph Sax, que foi como a história o registou, ficou famoso por ter permitido que nomes como Ornette Coleman, Sonny Rollins, John Coltrane, o trio de saxofonistas mais influente da história do jazz - Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young - Charles Lloyd ou Jan Garbarek, entre dezenas de outros, se imortalizassem na mundo da música, particularmente no jazz.

Adolph Sax foi o pai do saxofone. Sax para os amigos e amantes deste instrumento.
O belga inventou-o em 1941 e patenteou o seu instrumento em 1846. Dele sairia mais de uma dezena de tipos de saxofone. Os mais usados e conhecidos são: a voz grave e solene do saxofone barítono, o fantástico versátil tenor, o alto, soprano até aos agudos incisivos do sopranino. O barítono é o mais alto e o sopranino o mais pequeno dos mencionados.

Nenhum outro género musical conseguiu elevar o saxofone a níveis que o seu inventor dificilmente conseguiria imaginar. Ou talvez devêssemos pensar ao contrário. Foi o saxofone que elevou o jazz à condição de música dos Deuses e que nos permitiu que os nomes que foram mencionados surgissem.

Propositadamente houve um nome que não citei e que é um gigante entre gigantes: Paul Desmond.
O norte-americano Paul Desmond é um altoista, toca saxofone alto. Acredito fortemente que o pianista Dave Brubeck não seria a lenda que é hoje se não tivesse no seu quarteto Paul Desmond.
Poucos tiveram uma relação tão próxima, tão íntima e emocional com um instrumento como Desmond.
É um daqueles músicos que espalha magia assim que as primeiras notas são sopradas e não precisamos de saber quem toca, para saber de imediato que é ele que toca. Tem um dos sons mais limpos, mais cristalinos que conheço num saxofonista.
Para celebrar o nascimento de Adolph Sax, que ocorreu há dois dias, é precisamente Paul Desmond que chamo ao palco da Esteira.

A vocês, Adolph Sax pelo teu invento, e a ti Paul Desmond, pela capacidade de me fazeres planar, uma profunda vénia.






sexta-feira, 4 de novembro de 2016

uma descoberta - Trio Joubran



São conhecidos pelo Trio Joubran, mas até poderiam ser chamados a Irmandade do oud. São três irmãos. O Samir, Wissan e Adnan Joubran. 
Nasceram na Palestina e por influência directa do pai, tocam os três o mesmo instrumento, o oud.
Um instrumento cuja sonoridade está tipicamente associado ao Médio Oriente.

Em Março de 2010, numa entrevista ao jornal digital palestiniano Eletronic Intifada, Samir Joubran declarou que com alguma frequência dão concertos no estrangeiro, e cada um desses concertos são uma oportunidade de lutar pela dignidade dos palestinianos enquanto seres humanos e simultaneamente um meio de defender e promover a cultura da palestina.

Independentemente do activismo político e cultural do trio de ouds dos irmãos Joubron, garantidamente há poucos instrumentos que invoquem imediatamente culturas tão longínquas das nossas como as do Médio Oriente. Uma cultura complexa, politicamente conturbada, socialmente caótica, historicamente conflituosa mas super fascinante, apesar de (ser muito) difícil de entender

Mas os sons tão cristalinos do oud, que existe talvez há quase quatro mil anos, e é o precursor da guitarra, põe-nos a sonhar.
Mesmo estando conscientes que uma chacina está presentemente em curso nesta zona do planeta, este trio de ouds faz descer uma cortina de paz e beleza sobre a loooonga noite que há muito se abateu sobre todo o Médio Oriente e que não dá sinais de trégua.






sábado, 29 de outubro de 2016

uma música para o fim de semana - Liliana Correia


Sempre tive uma carinho especial por esta música. Quer pela voz da Liliana Correia, quer, e particularmente, pela letra da música.
In Your Dreams existe apenas por si só. Não faz parte de um disco ou de uma colectânea. Foi especificamente composta para a TMN em 2007, por Armando Teixeira (projecto Balla) quando esta atingiu os seis milhões de clientes.

A voz de Liliana é doce e meiga. Convida ao conforto, à evasão, à ausência de fronteiras, aos sonhos impossíveis.
A canção foi de tal maneira um sucesso que nove anos depois, ela ainda é a eleita para o toque de muitos telemóveis, mesmo para os que não são MEO (antiga TMN).

A canção começa com uma frase muito bonita:

I have no dreams locked inside of me


Faz sentido. Os sonhos, quando estes existem, são como as aves. Não podem estar presos, que algo ou alguém cortem, magoem as suas asas. Eles são para ir e vir. Para poderem voar tão lá no alto, que acreditamos que já não voltam, outras para andarem ali à nossa frente, até que, sem nos apercebamos, gentilmente eles pousem na nossa mão.

Mas para isso é preciso que encontremos um. Ou que mereçamos ter um.
E depois não podemos falar alto ou falar muito sobre ele. Caso contrário...


Até já e bom fim de semana :)






sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Grande Ecrã - Star Trek, Além do Universo


Se em vez de um filme sobre naves espaciais fosse sobre carros e miúdas em tops e calções minúsculos, Star Trek teria sido um filme bem mais interessante. Justin Lin realizou Star Trek como se fosse um dos infinitos filmes da saga Velocidade Furiosa e falhou redondamente.
Para quem se prende com o derreter de pneus no asfalto dos carros de Dominic Toretto e Brian O' Conner, vai gostar de ver, e reconhecer, a cena de mota entre Kirk e a sensual Jaylah.

Apesar utilizar efeitos especiais por vezes pouco convincentes, em barda, tentar imprimir algum ritmo e acção, abusa da sobre-edição, de excessivos e confusos revolteios de câmara a causar náuseas, o filme arrasta-se durante quase duas horas de uma maneira trapalhona, sem nos envolver, sem nos atirar lá para dentro.

Uma das mais valias deste e qualquer outro filme Star Trek, e que tinha superado as minhas expectativas quer no primeiro, quer no segundo filme de Star Tek, o capitão Spock do brilhante Zachary Quinto, cai por terra com Justin Lin e com os argumentistas.
Falta-lhe profundidade, aquela lógica, aquela filosofia fria e reducionista tão atraentemente...vulcana.
Chris Pine está longe de conseguir vestir plenamente a pele do capitão Kirk.
O reptiliano Krall é o mau da fita, desempenhado por um irreconhecível, mas esforçado e igualmente perdido, como todos os outros actores, Idris Elba.

O argumento é linear. Uma crise existencial de Spock e de Kirk, leva-os a considerar a hipótese de deixarem a Enterprise para trás. Entretanto e previsivelmente um pedido de última hora, um apelo ao dever que os leva a reconsiderar as decisões, e lá vão eles para as estrelas de novo.

No entanto há um ponto alto neste Star Trek: a destruição da nave Enterprise.
Há aqui uns momentos de alguma angustia e incredulidade por aquilo que os nossos olhos estão a ver. Será que vai mesmo ser destruída, ou vai ficar só um bocado estragadita? A fim ao cabo, não estamos nada habituados a ver a nossa querida e amada nave Enterprise feita em cacos. Mas fica mesmo! E nada se aproveita dela.

Quando o filme acaba sinto um certo alívio por me levantar da cadeira e ir fazer outra coisa qualquer. Entretanto penso no título e questiono, para além de quê, de que universo??
- Levar o aborrecimento até onde este ainda não tinha ido. É a resposta que me ocorre.