sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Sul de Ruy Duarte de Carvalho


Há alguns anos atrás, Hipólito, um colega de trabalho, deu-me uma folha de papel A4 na qual estava impresso um pequeno poema sem título.
Estendeu-ma dizendo que eu era gajo para gostar daquele poema.
Li e realmente gostei.

Atraiu-me nele o ritmo, o jogo das palavras, a simplicidade e o seu minimalismo inteligente.

Perguntei-lhe se sabia quem era o autor e afirmou que não sabia.
Guardei o poema onde ainda hoje se encontra, num pequeno organizador de documentos metálico em cima da minha secretária.

Ontem, ao ouvir a Antena 1, alguém declamou esse poema e fiquei a saber o título e o nome do seu autor.
Soube igualmente que ele tinha morrido nesse mesmo dia.
Agora de manhã fui buscá-lo. Reli-o e fiquei, apesar de uma maneira triste, satisfeito por ele ter ganho um nome e um rosto.
Chama-se "O Sul" e foi escrito por Ruy Duarte de Carvalho.

Homem multifacetado, Ruy Duarte Carvalho era poeta, escritor, cineasta, artista plástico e antropólogo.
Nasceu em Santarém a 22 de Abril de 1941 e morreu ontem, a 12 de Agosto de 2010 em Swakopmunde, Namíbia. Naturalizou-se angolano em 1983 e morreu com 69 anos.


Aqui fica o poema que até ontem não tinha paternidade.

O Sul

O sol o sul o sal
as mãos de alguém ao sol
o sal do sul ao sol
o sol em mãos do sul
e mãos de sal ao sol

O sal do sul em mãos de sol
e mãos de sul ao sol

um sol de sal ao sul
o sol ao sul
o sal ao sol
o sal o sol
e mãos de sul sem sol nem sal

Para quando enfim amor
no sul ao sol
uma mão cheia de sal?