sábado, 30 de maio de 2015

uma música para o fim de semana - Cláudia Franco



É a canção mais conhecida de Cole Porter e uma das mais conhecidas do Great American Songbook.
Foi escrita em 1932 para o musical Gay Divorce e ficou popularizada pela primeira vez na voz de Fred Astaire em 1934 no filme que teve origem no musical de dois anos antes.

De imediato isto significa que é uma canção super estafada, super ouvida, porque o seu sucesso é tal maneira universal que é difícil encontrar uma alminha do jazz vocal que não tenha passado por Night and Day.

Cláudia Franco, nascida em Porto de Mós, admiradora confessa de Ella Fitzgerald (quem não é??), que por sua vez também a cantou, e de Norma Winstone, no seu álbum de estreia Soul Dance, não é excepção e mergulha igualmente nela. E fez bem.

Tem uma voz bem suave, aveludada, intimista e de toque sedutor que não nos faz desligar do tema que já ouvimos milhares de vezes em milhares de vozes.
O seu scat ajuda à festa. Soa bem. É credível, bem controlado e tímbrico.

Muito fixe quando o saxofone de Ricardo Toscano entra em cena.
Dá de imediato um colorido e frescura que completa muito bem o da voz de Cláudia Franco.
Se a voz Cláudia Franco representar o lado "Night", o saxofone dá-nos o lado "Day".


Bom fim de semana :)





terça-feira, 26 de maio de 2015

Grande Ecrã - Ex Machina



A ordem com que eles aparecem em Grande Ecrã está invertida. Primeiro vi Ex-Machina e depois Mad Max 4.

O contraste entre estes dois filmes dificilmente poderia maior e também mais interessante. Ver este dois filmes um a seguir ao outro, é uma experiência cinematográfica invulgar.

Enquanto as areias do Deserto do Namibe inundam até à obsessão Mad Max, em Ex-Machina há calma e a beleza pacificadora das paisagens da Noruega.

Max é acção física e sobrevivência. Por sua vez Ex-Machina aborda a metafisica e põe-nos a pensar. O primeiro dá-nos um murro no estômago, o segundo instala a dúvida na nossa mente.

Consequência de um mundo pós-apocalíptico, há em Mad Max há uma fortíssima componente niilista por parte do ser humano.

Por sua vez, em Ex-Machina há uma crença insinuantemente divina do ser humano ao conceber uma Inteligência Artificial (IA) que se pode tornar superior ao seu próprio criador.

E se Mad Max superficializa os diálogos, tornando-os dispensáveis, estes são absolutamente indispensáveis em Ex-Machina. Aliás, os diálogos são um dos maiores trunfos do filme de Alex Garland.

São acutilantes, pertinentes e revela a inteligência nos diálogos entre os três actores e respectivas personagens que sustentam soberbamente Ex-Machina: O robot Ava de Alicia Vikander, Caleb desempenhado por Domhnall Gleeson que vai testar a corerência de Ava através do teste de Alan Turing e Nathan de Oscar Issac que criou Ava.

Há um triângulo amoroso latente nos diálogos. Nathan introduz Caleb no projecto de IA desenhado por ele.
Caleb por sua vez dialoga com Ava tentando perceber até que ponto esta tem consciência, e por sua vez Ava, de novo, através dos diálogos aos quais empresta as suas emoções relaciona-se com Nathan com Caleb usando este como intermediário.

E um filme que se poderia pensar como sendo mais um a versar a temática IA vs mestres criadores cai, logo nos passos iniciais da sua narrativa, num ambiente de thriller psicológico, sedutor e sensual.
A voz de Ava, a sua figura, a sua textura, a forma como se movimenta e tenta aproximar-se do padrão humano, resulta numa personagem cuja missão principal parece ser a sedução da pessoa que a vai testar, Caleb.

Tudo funciona bem em Ex-Machina. Os diálogos cerebrais, a construção e as interacções das personagens, os jogos psicológicos que desenvolvem entre si, o clima de thriller, os excelentes, mas discretos efeitos especiais, dão uma solidez e coerência pouco habituais a um filme qualquer que seja o género em que ele se insira.

Mas... não há bela sem (um pequeno) senão.
Será que Alex Garland, realizador que se estreou (em grande) como realizador com este filme, não poderia ter cedido mais espaço ao Alex Garland, experiente argumentista, para escrever um fim pouco menos óbvio e um argumento que explorasse um pouco mais, mesmo que acrescentasse mais uns quantos minutos, a dialéctica argumentativa entre Consciência e IA?

Fica a ideia que o argumento fica curto nesta questão. Algo sub-explorado.

Her, um extraordinário filme de Spike Jonze e que se associa com alguma rapidez a Ex-Machina. Aborda igualmente a relação de um ser humano com um software de IA que o assiste ao longo das tarefas do dia a dia, e que depois evolui para uma relação e dependência afectiva mutua.
Até que ponto esta afectividade entre um software humanizado e o ser humano é normal, é lógica e consequente, dada inserção e uso generalizado destes softwares mundo social em que Her se desenrola.

Gostaria que Ex-Machina tivesse entrado mais decididamente pelo intrincado submundo das inúmeras questões que se colocam quando falamos do mundo fascinante da IA.
A definição dos conceitos de inteligência, racionalidade, a articulação deles com as emoções, como se quantifica e avalia a IA, a superação da inteligência humana pela IA e portanto o risco de nos tornarmos obsoletos, a nossa ascensão a Deuses quando criamos inteligência e consciência comparável ou superior à nossa, etc.., etc...
O argumento lança timidamente um anzol para estas questões num curto diálogo inicial sobre esta questão. Mas este solta-se depressa.

Quer queiramos ou não, à saída da sala de cinema, duas perguntas sacramentais estão presentes em nós: será um dia a IA superior a nós?? E nesse dia o que acontecerá??