terça-feira, 31 de dezembro de 2013

no finzinho de 2013


Todos os anos o Google resume e mostra-nos em pouco mais de minuto e meio - Google Zeitgeist - o mundo como nós o vimos.  
Ou seja, o ano através do nosso olhar utilizando os nossos dedos neste motor de busca.

Segundo o Google, terá sido assim que nós assistimos e procurámos o ano de 2013.





a última compra de 2013 - Yeahwon Shin


E se em vez de uma almofada dormíssemos com a cabeça numa nuvem só para nós?

E se tivéssemos uma voz incorpórea a cantar baixinho ao nosso ouvido de tal maneira que tudo o que é mau, doloroso e triste se transformasse em esperança, em paz e adormecêssemos a sorrir?

E se essa mesma voz fosse sustentada por pincéis delicados que pintassem etéreos quadros de cores de aguarela quase transparentes nas pálpebras fechadas dos nossos olhos?

Ouvir a voz da sul coreana Yeahwon Shin, o piano de Aaron Parks e o acordeão de Rob Curto em Lua Ya é exactamente isto.
A sua voz é de uma fragilidade e leveza transcendental. O piano sempre elegante e minimal de Aron Parks eleva-a aos céus sem se sobrepor ou dominar a sua essência.
Se Aaron Parks a transporta, o acordeão também ele discreto e minimal pinta a voz da sul coreana de cores em tons quase a roçar a transparência.

Lua Ya é contemplativo e introspectivo. É feito com silêncios. Faz abrandar o tempo, para-o mesmo.
São canções de embalar sul coreanas que Yeahwon Shin recupera da sua infância. O título Lua Ya é o nome da sua filha.

No fim dos muito curtos quarenta minutos que dura o álbum, percebemos que o nosso mundo desapareceu e fomos levados para outros mundos. Encantados e cheios de fantasia.
A beleza deste álbum é estonteante. A tentação de voltar a carregar no botão play vai ser difícil de resistir. Na verdade não devemos de todo resistir.

Um conselho. Ouçam-no à noite. E tomem atenção não só à pureza da voz de Yeahwon mas também aos instrumentos. Como eles são expressivos e elegantes. Particularmente o acordeão. Nunca tinha ouvido um acordeão soar desta maneira. Sem ele este álbum estaria claramente incompleto.


Oiçam a primeira faixa aqui.




sábado, 28 de dezembro de 2013

uma música para o fim de semana - Ana Moura


Não podia fechar o ano de 2013 sem colocar a música que tem uma das melhores letras que jamais ouvi escrita numa canção, Desfado.

A voz de Ana Moura tem uma ligeira aspereza muito pessoal que faz a diferença entre todas as vozes uniformizadas que cantam o fado, o que é notoriamente uma vantagem. Talvez seja por essa ausência de suavidade e doçura que seja a voz ideal para cantar a música para este fim de semana.

Mas mais que a voz de Ana Moura, a letra de Desfado de Pedro Silva Martins dos Deolinda é extraordinária.
Canta a ambivalência, a contradição, o dilema. Quando fugimos do dia, mas sabemos que a noite não nos chega.
A necessidade de termos as coisas que não temos, e que precisando, não precisamos de precisar.
Quando não nos sabemos definir, oscilando, quando as respostas às nossas questões pululam no nosso interior, sabendo que não são as certas, sem saber quais serão elas.

Há inquietação nesta letra, mas esta não é traduzida em desespero ou escuridão. Há um aceitar aparentemente estóico em vez de cair numa resignação de um doloroso poço sem fundo.
É como Sócrates (o sábio filósofo, não o asqueroso político) afirmava - Só sei que nada sei.
Este pensamento era considerado como a douta ignorância de Sócrates. Sabia que não sabia nada e este saber paradoxalmente conferia-lhe sabedoria.

No fundo Desfado é assim. Celebra a contradição e o paradoxo. É uma canção com uma letra positiva que incorpora em si sementes de esperança.
"Na incerteza que nada mais certo existe, Além da grande incerteza de não estar certa de nada."

Gosto mesmo desta letra.


Bom fim de semana e de caminho um Excelente Ano 2014 :)





Quer o destino que eu não creia no destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste

Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse"
E lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro

Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande incerteza de não estar certa de nada


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

o Pai Natal está cansadito


O pobre Pai Natal está cansado depois de um dia atarefado.
Precisa de ajuda para arrastar o seu pobre corpo...




sábado, 21 de dezembro de 2013

uma música para o fim de semana - Deolinda



Quando Chega o Natal está longe de ser umas das minhas preferidas ou melhores canções dos Deolinda.

Mas ilustra muito bem o que penso do Natal.
É quando se torna uma obrigação e como tudo o que é obrigação, o Natal fica morto.
Fica a reduzido a cinzas, a euros, apesar de estes estarem cada vez mais escassos. Fica reduzido a um dia. A um par de prendas, a grandes pratos de bacalhau e às sobras para o dia seguinte.

A música dos Deolinda sobre o Natal é uma desconstrução do próprio Natal.
O Natal não é, como deveria ser, quando um homem quiser como escreveu Ary dos Santos no seu famoso poema Quando um Homem Quiser.

O verdadeiro e genuíno Natal deveria subtil, sem pretextos, sem motivos, invisível, anónimo.
É comprar algo para ti, porque me lembrei de ti. Porque ouvi uma música que podias ser tu, porque li um livro cujas letras poderiam ser tuas, uma flor porque a sua cor é a tua cor e não apenas porque o fiz no dia 25 de Dezembro.

Deveria ser celebrado com pequenos gestos, com pequenas surpresas, com pequenas ajudas, com pequenas prendas, com quase nada, sem dar nas vistas.
Natal é quando um dia de semana, num mês qualquer de um ano que não interessa, pagamos um café a quem nos parece que precisa que lhe ofereçam um café.
Compramos comer para um animal que vive na rua onde nós moramos e que nos lembramos de o alimentar ou alimentá-lo melhor nesse dia.
É comprar um pacote de bolachas a um mendigo numa porta de supermercado em vez de lhe dar uma moeda.
Pagar uma conta ou contas num veterinário, num mercado, numa farmácia, de alguém que até sabemos ou ouvimos falar que não tem muito dinheiro para tratar de si ou do seu animal de companhia.
É fazermos a diferença sem que o, ou outros o saibam, ou precisarmos ou querermos que o saibam. O Natal é nesse dia. É nosso, é bom, é saboroso, é verdadeiro.

São todas as outras trezentas e sessenta e quatro datas que não são definidas como o Natal. É nelas que ele acontece. É quando o Ary dos Santos no seu poema e os Deolinda no fim da letra desta canção para o fim de semana têm razão.


Bom fim de semana e de caminho... Bom Natal :)




Diz-me lá porque é que tu só te lembras de mim quando chega o Natal
Porque é que só nesta quadra é que tu reparas se eu estou bem ou mal
Diz-me lá onde é que páras o resto do ano
Eu preciso mais de ti do que te vais lembrando

Diz-me lá porque é que tu não me envias postais durante o ano inteiro
Diz-me lá porque razão é que não me dás prendas sem ter um pretexto
Diz-me lá o que te move uma vez por ano
Eu preciso mais de ti do que te vais lembrando

Diz-me lá que gratidão é que esperas de mim apenas por um dia
Eu que espero o ano inteiro e que tanto anseio a tua companhia
Hoje reformulo os votos e o meu desejo:
Eu preciso mais de ti do que te vais lembrando

Um Feliz Natal, não hoje, mas o ano inteiro!!


chega hoje





Breve o inverno virá com sua branca

Breve o inverno virá com sua branca
Nudez vestir os campos.
As lareiras serão as nossas pátrias
E os contos que contarmos
Assentados ao pé do seu calor
Valerão as canções
Com que outrora entre as verdes ervas rijas
Dizíamos ao sol
O ave atque vale triste e alegre,
Solenes e carpindo.
Por ora o outono está connosco ainda.
Se ele nos não agrada
A memória do estio cotejemos
Com a esperança hiemal.
E entre essas dádivas memoradas
Como um rio passemos.


Ricardo Reis (17.07.1914)


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

as belas de fraque


O vídeo está bem feito e atrai. Elas são giras. Estão bem vestidas. São sofisticadas, seguras de si próprias, exalam glamour, autoconfiança e até são sexys.
Poderia ser um vídeo de promoção de um filme, produtos para o cabelos, de uma agência de modelos, ou a uma marca qualquer de acessório de moda, daquelas que se fazem pagar caro.

Mas não. O único objectivo do vídeo é publicitar um agência de advocacia, apresentando os seus cinco elementos. Nada contra. Nada contra mesmo.
A minha única questão é se não se terão afastado (experimentem ver o vídeo sem som) de mostrar o essencial, aquilo que significa o sucesso em todo o tipo de negócio, a competência, a dinâmica, o sucesso profissional e a focagem no cliente, para apenas mostrar cinco caras larocas, atraentes, insinuantes e certamente escolhidas também a dedo por isso.

Será que quem for à procura deste escritório, irá só porque elas são advogadas e precisa realmente dos seus serviços - recuperação de créditos - que não devem ser baratos, ou irão atrás de um "engodo" de ver como elas são realmente ao vivo? Se são o que aparentam ser? Ou ver se há mais como elas, ou quiçá, tentar adivinhar que marca as terá patrocinado?

Talvez não seja o tipo de vídeo publicitário que um escritório de advogadas precisaria. Parece-me antes um tiro nos elegantes saltos altos destas cinco elegantes meninas, porque as aparências por vezes podem iludir.





sábado, 14 de dezembro de 2013

uma música para o fim de semana - colectivo 258





Foi talvez num sábado em Abril que tive oportunidade de estar e fotografar os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC).
Ao cruzar a famosa entrada dos estaleiros, uma sensação invadiu-me de imediato: abandono, perda.
Não se encontrava indícios claros, palpáveis, de actividade, de produção, de algo que se faz com um objectivo. 
Não se viam luvas, não se viam bancadas sujas, não se viam máquina prontas a retomar algo que se parou por um par de dias. Não se viam luvas ou beatas no chão num local onde trabalham cerca de seiscentos trabalhadores. 
Não se via escória de soldadura de uma industria que vive dela. Não se viam parafusos, limalhas, sobras ou pedaços de aço no chão. As docas secas estavam limpas, vazias. Quase sem marcas, manchas, ferramentas. Tudo estava limpo. Demasiado limpo.
Estou habituado aos ambientes das indústrias metalomecânicas e nada indicava que estava num local em actividade. 

É estranho o que se passa com Estaleiros Navais de Viana do Castelo.. 
A começar com as ajudas financeiras ilegais aos estaleiros pelo governo de Sócrates que não acredito de todo que desconhecesse tal facto, à negação do pagamento dos ferries boats, o Atlântida e Anticiclone que obrigou os ENVC a devolver cerca de 70 milhões por parte do governo regional dos Açores porque o primeiro deles não atingia a velocidade contratualizada sem ter havido sequer uma tentativa de renegociar os contratos.
Mais a história dos dois asfalteiros para Venezuela que também está envolta num denso nevoeiro. Não se sabe o que vai  lhes vai acontecer e já com a matéria prima, o aço, já comprado.

A venda à Martifer, parece algo difícil de explicar. Uma empresa em situação financeira difícil de sustentar, com pouca experiência no ramo naval e que não garante a empregabilidade de todos os trabalhadores. Além que há a curiosidade acrescida de o gabinete de advogados que liderou o processo de concessão à Martifer, pertencer ao Ministro da Defesa, José Pedro Aguiar Branco...

E até o próprio governo que parece disposto a pagar cerca de trinta milhões de euros em indemnizações em despedimentos e rescisões, mas que só receberá sete milhões e meio da Martifer.
Isto tudo, aparentemente sem propor um plano de pagamento que permita aos próprios ENVC pagar as tais ajudas ilegais, cerca de 180 milhões de euros, que recebeu no tempo de Sócrates.

E finalmente parece que o governo esquece-se que ao ajudar a afundar os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, está também a ajudar a afundar a economia e a cidade onde os estaleiros estão fundeados e que deles em grande parte depende.
Isto claro sem pensar mais uma vez que o governo, através do Ministro da Defesa, ao não mostrar um grande empenho em salvar os ENVC, para além do grande à vontade em despedir mais de seiscentos trabalhadores, está a contribuir activamente para o aumento do desemprego nacional, regional, e da despesa pública.

Talvez por tudo isto o Colectivo 258 e os H2O decidiram enviar um recado musical em forma de hip hop nacional ao esforçado ministro.
Sigam com atenção a letra da música para este fim de semana e perceberão o quanto esta história está mal contada e como os seus contornos são obscuros.

Não sei se o ministro perceberá a mensagem. Diz-se que para bom entendedor meia palavra basta, mas no que toca a este senhor, duvido muito.


Bom fim de semana :)





terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Dia Internacional dos Direitos Animais


Para muitos este dia, 10 de Dezembro, é um dia que é conhecido por DIDA - Dia Internacional dos Direitos dos Animais.

De novo, hoje, e não é por acaso, celebra-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos e SIMULTANEAMENTE também se celebra do Dia Internacional dos Direitos dos Animais.
Na prática, no mesmo dia, fazendo todo o sentido, celebra-se o respeito e o direito pela vida animal.
Seja ela a vida humana ou a não humana, a vida de um animal, que aliás somos todos.

Esquecemo-nos disso ou não queremos saber, quando abandonamos um animal, quando o maltratamos, quando não lhes damos carinho e protecção, quando os criamos em quintas de produção animal intensiva, onde são apertados, esmagados uns contra os outros, confinados a espaço mínimos onde possibilidade de se mover é anulada. Autenticamente armazenados, sem condições e sem respeito pelas suas necessidades, pela sua integridade, pelas suas personalidades, pelas suas vidas.




Esquecemo-nos disso ou não queremos saber, que eles sofrem, amam e sentem como nós. De uma maneira diferente, mas muito parecida com a nossa.
Sabem o que é a dor, o que é bom, o que querem, o que precisam. Reconhecem quem os trata bem e quem os respeita. São leais, sabem o que é a saudade e amam de uma maneira que escapa inteiramente aos seres humanos, aos animais humanos.

Esquecemo-nos disso ou não queremos saber, quando viramos a cara para o lado quando eles são abatidos anonimamente em matadouros, espancados, em sofrimento, agonizando lentamente, não respeitando sequer a sua vida e muito menos a sua morte, o seu sacrifício por nós quando compramos, carne, peixe já embalados, em postas ou ultra congelados.

Esquecemo-nos disso ou não queremos saber, não passando pela cabeça que aquela posta de um peixe bem cozido mergulhado em azeite ou o pedaço de carne suculento assado coberto em condimentos e especiarias, foi um ser vivo a que não lhe deram e negaram a escolha da vida.




Esquecemo-nos ou viramos a cara para o lado quando vamos a uma tourada e assiste-se a um touro a ser destroçado, ou a um circo e aplaudindo, os vemos a fazer "habilidades" que são contra a sua natureza, que resulta igualmente da sua tortura e sofrimento. Que estão desfasados dos seus espaços naturais, as suas personalidades alteradas à força e com recurso à brutalidade pelos animais humanos que estão à sua frente.




E quando nos esquecemos ou viramos a cara para o lado para tudo isto, estamos confortavelmente e facilmente a ignorar que eles são seres inteligentes e que quando não respeitamos a sua inteligência e as suas diferentes naturezas, desrespeitamos a nossa própria inteligência e natureza.
Desrespeitamo-nos, não só nós e aos nossos direitos que nos assistem e defendemos enquanto animais humanos, mas também a nossa própria inteligência e tecnologia que deveriam ser também postas ao serviço da defesa dos mesmos direitos que assistem os animais não humanos.

Quer queiramos, quer não queiramos, os animais não humanos são iguais a nós.
Infelizmente com uma grande diferença, eles, todos eles, dependem de nós e da nossa vontade, ou não, de os vermos como iguais.




sábado, 7 de dezembro de 2013

uma música para o fim de semana - ITB


É inevitável. Nestes últimos dias só se fala da morte de Nelson Mandela, o que é justo. Ele deixou ensinamentos e um legado de paz e humanidade tremendo.
Comparo-o às pirâmides egípcias. Sendo do Egipto, o imenso legado e simbolismo delas ultrapassam largamente a pequenez da geografia local. 
Nelson Mandela mais do que sul-africano, tornou-se agora parte de todos nós, pertence à Humanidade.




Ao fazer o que fez pela África do Sul, fez também o mesmo por todos nós. Por isso todos os povos e cinicamente muitos dos políticos que agora o evocam, o apontam como um modelo a seguir, um homem inspirador, alguém que mais do que ter entrado na história universal em vida, entrou para a eternidade na morte.

Pensei em que música para este fim de semana poderia traduzir aquilo que devemos a Nelson Mandela.
No youtube encontrei um vídeo de um grupo do qual nunca ouvi falar e que provavelmente também não vou ouvir mais falar depois deste fim de semana.
Chamam-se ITB e cantam uma canção de agradecimento ao homem que após ter estado vinte e sete anos preso, saiu da sua prisão sem revolta, desejo de vingança ou rancor contra os seus carcereiros.
A sua única vontade era unir e reconciliar todo o povo sul africano sem usar a violência. Um activista pelos direitos civis de todo o povo sul africano.

Curiosamente o pacifismo convicto do político Mandela tem raízes na violência quando este pega em armas e cria o braço armado do Congresso Nacional Africano, o MK, em 1960. A sua captura em Agosto de 1962 e posterior julgamento ditou prisão perpétua na Ilha Robben, onde passaria dezoito dos vinte e sete anos preso.

Após a sua libertação em 11 de Fevereiro de 1990 pelo presidente Frederik de Klerk, com quem partilharia o Nobel da Paz em 1993, usando algo ainda mais poderoso que a violência, a sua determinação, as suas palavras, as suas acções pacifistas e o exemplo que ele próprio deu, conseguiu tudo o que a África do Sul necessitava e não tinha.
Liberdade, o reconhecimento da igualdade e oportunidade entre raças, um sistema político universal e pela primeira vez eleições livres e multirraciais em 1994.
Dessas eleições Nelson Mandela tornou-se o primeiro presidente negro da história da África do Sul e espalhou a sua influência ao mundo inteiro.

Tal como título da canção que os tais ITB cantam  - Thank You Madiba.


Bom fim de semana :)





quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Enkosi. Hamba kahle Madiba


Quem é como quem diz - "Obrigado. Fica bem Madiba"


"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar."

Nelson Mandela, Nobel da Paz em 1993
(18. 07.1918 - 05.12.13)




sobre a Morte





Culturalmente temos tendência a suspende-la, a ignorar, a ausenta-la daquilo que a mais caracteriza, daquilo que a torna natural, a vida.

Vemos a vida como uma moeda de uma só face. Sabemos intrinsecamente que é uma inevitabilidade mas "esquecemos-mos" dela, do equilíbrio que ela representa, da renovação que permite, a outra face dessa moeda, a Morte.
Afastamo-nos e afastamos os nossos putos dela. Não os deixamos ir aos funerais e contamos histórias que tal senhor ou tal senhora foi dormir para céu. Como se os quiséssemos proteger de algo que provavelmente e culturalmente não deveriam/ deveríamos ser protegidos. Mas sim plenamente e naturalmente, porque é disso que se trata, introduzidos nesse conceito.

Sou um ocidental, portanto partilho e sinto em mim esse peso, esse medo cultural da morte.
Pessoalmente o que mais me assusta na morte não é a morte em si, mas não a perceber, não compreender o que ela é. Algo que só perceberei quando a tiver à minha frente. Faz sentido.
Como ser vivo que sou, só percebo a vida. Não percebo, não consigo conceber o seu oposto.

Por vezes, à noite quando o meu pensamento vagueia à solta pelos cantos do meu quarto escuro, eu oscilo indeciso de um lado para o outro, como uma bola de ping pong atirada de um lado para outro da rede.
Tanto quase fico com um pavor dela, desse desconhecido inevitável, como por vezes fico fascinado, quase impaciente por a sentir, por a perceber.

Tenho inveja de outras culturas que como a oriental, em que a morte é algo que coexiste com a vida. Uma tão natural como a outra. A morte é encarada como um passo em frente. Uma evolução, uma reaprendizagem, uma oportunidade de redenção não punitiva. Como na escola. Só se passa de ano, depois de se ter aprendido o anterior.
Algo (entre muitas outras) que me desagrada na religião cristã. Os bons vão para céu, os maus para o inferno e os assim-assim para essa coisa cinzenta indistinta que é o purgatório. Uns tantos anos aqui, para depois passares a eternidade acolá.
É um conceito simplório, redutor. Pouco imaginativo. Não se aprendem lições.

Talvez a morte talvez não tenha que ser má. Certamente que não, tento eu acreditar como um ocidental que inutilmente foi ensinado a virar a cara, a passar ao lado dela.
Há quem procure nela um refúgio para os fardos da vida.
Um aparte. Ao contrário do que genericamente se pensa, não considero um suicida como um covarde. Pelo contrário, penso que é preciso muita coragem para dar o salto para aquilo que se desconhece, dar o salto para o outro lado. O lado "escuro" e ostracizado da moeda que na outra face ostenta a vida.

A morte pode ser seja algo bom. Pela lógica deverá ser aquilo que as nossas crenças permitem ou acreditam que seja. 
A crença por definição resulta da fé. Na fé supostamente encontramos a esperança. A fé é positiva, é desejável. Não há portanto motivos para termos medo dela. Ninguém com fé pode crer que a morte é algo negativo. Não faria sentido ter fé se não fosse assim.
Outro aparte. Não sou uma pessoa de grande fé. Sou daqueles que quando chegar a minha vez logo se vê. Isto se houver algo para ver.

Quase todas as religiões, particularmente a budista, por a qual tenho uma grande simpatia e empatia, a vêm como o fim de trajecto, um caminho percorrido. Como a passagem de uma lagarta não particularmente bonita para uma delicada e bela borboleta. Uma metamorfose. Isto se o merecermos do ponto de vista budista.
Mas sempre como um processo mais ou menos lento de transformação, de evolução. Precisamos de ser várias vezes lagartas, mas cada vez mais perfeitas, para chegarmos ao nosso destino final: a borboleta que voa. O Nirvana.
"Morrer não é acabar, é a suprema manhã" escreveu uma vez Victor Hugo.

Para além de necessária, talvez a morte seja positiva. Talvez seja doce. Talvez seja terna. Principalmente se bem acompanhada.
Não gostava que ela fosse repentina. Gostava de sentir a sua chegada sem pressa. Que fosse suave. De a ver nos olhos e sorrirmos um para o outro. Dois desconhecidos que finalmente se vão conhecer.

Tropecei neste poema de Vasco Graça Moura por acaso. Gostei de imediato da sua doçura, de não rejeitar a morte, mas apenas a ideia de morrer sozinho, ou de não ter um amor. Esses sim, parecem ser os seus verdadeiros medos. E deve ter razão.
Revi-me nele. Depois de o ler várias vezes, também talvez gostasse de ter uma mão a segurar a minha. Nunca tinha pensado nisto.
Talvez seja mais fácil, mais tranquilo, enfrentar o supremo desconhecido desta maneira.
E à falta de uma mão, preferivelmente a complementá-la, seria bom ter uma pata. Gostaria muito de ter um animal ao meu lado. Quer seja um velho companheiro de vida, ou um recém chegado a ela. Ir-me-ia trazer conforto tê-lo comigo.

Imagino a Morte como uma senhora elegante usando um longo manto de um profundo negro de veludo, de rosto pálido e misterioso, mas sereno, delicado e de sorriso compreensivo. Alguém que reclinando-se sobre nós estende a mão, fazendo a transição das mãos que ficam com a que parte, ou que na ausência das terrenas nos cede gentilmente a sua mão para ajudar a fazer a tal passagem de lagarta para borboleta. 



Soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


Vasco Graça Moura


domingo, 1 de dezembro de 2013

Dia Mundial da Luta Contra a Sida





Em números redondos estima-se que em 2012 existiam aproximadamente 35.3 milhões de pessoas infectadas com o vírus da SIDA
2012 é o ano desde 2001, com o menor de número de novos casos de infecções com cerca 2.3 milhões. Em 2001 esse número era de 3.5 milhões.
Também foi em 2012 que o número de mortes relacionados com a Sida atingiu o seu ponto mais baixo com 1.6 milhões contra o triénio de 2004 a 2006 em que se atingiu o pico com com 2.3 milhões mortes.

Em termos regionais foi na África Subsariana que maior número de mortes teve no ano passado - 1.2 milhões. Só esta região representa 75%(!) do número global de mortes por Sida. 
No lado oposto está a Oceania com 1200 mortes, representando cerca de 0.075%

A Europa ocidental e central tem cerca de 7200 casos estimados de mortes, contribuindo cerca de 0.475% para o total do ano de 2012.


Os números que mencionei podem ser encontrados aqui, num curto e conciso relatório das Nações Unidas sobre a incidência da SIDA desde 2001 até 2912


sábado, 30 de novembro de 2013

uma música para o fim de semana - Ludovico Einaudi



A semana que acaba hoje foi agreste. 
Foi dura, física e mentalmente. Sinto um grande vazio na minha cabeça.

Preciso daquela paz que regra geral só a música consegue transmitir. 
Fechar os olhos, abrir as asas do espírito e partir para onde quer que elas me levem. Não preciso de vento para partir. Preciso de música.

Preciso de música que me faça sorrir levemente pela sua tranquilidade e pela sua elegância. Preciso que ela me leve para sítios bonitos.
Que me leve para as estrelas e que possa guardar as mais bonitas nas minhas mãos, me leve para o topo das montanhas e esticando os meus braços eles fiquem pintados de azul céu e os pés de branco neve. Me leve para onde de olhos fechados possa ver o sol a nascer e a pôr-se. 

Para sítios onde haja liberdade, espaços abertos. Abrir os braços e sentir os fiapos das nuvens que estão à minha volta na ponta dos meus dedos, sentir no rosto o ar deslocado pelo passar das asas de uma ave, ouvir o sussurrar dos segredos da água a passar nas margens do rio e que ela conta a quem só a entende.

Preciso de música que me faça saborear as cores do Outono e a quietude dos dias frios do Inverno. Que me faça abrandar a torrente desordenada e inquieta dos meus pensamentos, que restaure o meu equilíbrio interior.
Que com ela possa segurar a grande Lua como se fosse um pequeno berlinde.
Que transforme os grandes incêndios que ardem em mim e os torne em pequenas e agradáveis brasas que aconchegam, confortam e dão força.

Há pessoas muito especiais que souberam e sabem fazer tudo isto através de uma pauta de música. Escrevem poesia que não é declamada, mas sim tocada, onde a voz se torna desnecessária.
O compositor e pianista italiano do qual sou um grande admirador e que fez 58 anos no passado 23 de Novembro, Ludovico Einaudi, é uma dessas pessoas iluminadas.

Nuvole Bianche (nuvem branca), a música para este fim de semana é um desses, um dos muitos, poemas que Ludovico escreveu em notas de música que nos levam para sítios belos, simples e elegantes.
Tal e qual como gosto, tal e qual como preciso.


Bom fim de semana :) 





domingo, 24 de novembro de 2013

Eu e Mahler


Não fosse o quarto andamento (adagietto) da quinta sinfonia de Mahler e o Mahler chamar-se-ia Chopin.
Sou mais fã dos nocturnos do segundo do que das sinfonias do primeiro. Isto numa visão muito redutora das obras dos dois músicos e compositores.
O adagietto da quinta de Mahler é lindo. É sereno, introspectivo, tem uma solidão interior, uma certa tristeza latente, mas não evidente. É alguém que está dorido e precisa e busca a tranquilidade. De um refúgio.

Se o Miles representa o quanto gosto de jazz, o Mahler é uma homenagem à música clássica, a minha segunda paixão musical.

Mahler é uma panterinha. Um grande e possante gato preto de pêlo bonito, muito lustroso, focinho meigo e longos bigodes pretos. Foi atropelado e ficou com a pata esquerda da frente esmagada. Teve que ser amputado dela.
Procurava um gato que ninguém quisesse, para lhe dar conforto, carinho, protecção e bem estar e ao mesmo tempo ser uma companhia para o Miles. Com as suas características, o Mahler era exactamente o queria. Fui buscá-lo à Associação Entregatos.

Não tem a típica pose majestosa e felina, Não tem um olhar penetrante e julgador. Não tem aquela curiosidade que mata o gato. Não é traquinas, nem irrequieto. Não é exuberante. Tudo pelo contrário.
Os seus olhinhos são grandes, redondos e doces. Observam sem julgar. Não mete o nariz em todo o lado. É pacífico, um paz de alma. Gosta da sua paz e do sossego. Gosta do seu cantinho, da sua solidão e de uma boa manta.




Parece invisível. Nem sempre o vejo a atravessar uma sala, subir as escadas ou a chegar à cozinha para ir comer. Aparece apenas. Está lá. Não o vemos, não o ouvimos chegar, ele já lá está. Parece que não anda, teletransporta-se. É engraçado.
Mas por vezes fica-se pelas portas sem as cruzar. Fica parado nelas. Parece que pensa, que analisa, que pondera o que fazer. Depois decide e avança ou vai-se embora.
Quando está deitado no tapete grande da minha sala parece um grande borrão de tinta da china que algum pintor desastrado lá deixou cair. Mas fica bem. Gosto muito de o ver assim.

Pede carinho sem o pedir ostensivamente ou declaradamente. Pára à minha frente, sentado, talvez a um metro de distância e apoiado na única pata da frente a olhar para mim. Só olha. Em silêncio pede-me festas.

Estico o braço e ele desfaz-se em mel. Turras, turras e mais turras. O seu ronronar é grave e profundo, é do seu tamanho. E ronrona em dois tons. Como se usasse dois instrumentos no interior da sua garganta.
Rodopia sobre ele próprio, roça o focinho em qualquer superfície onde ele chegue, aninha a sua cabeça e os grandes bigodes pretos na palma da minha mão em forma de concha. E por vezes empurra-a com uma força surpreendente e até eleva-se nas patas de trás para o poder fazer. É capaz de estar nisto uma eternidade.
À noite, dorme com a cabeça dele encostada à minha mão.


Mas o seu passado deve ser pesado e doloroso. Deve ter passado por muito. As histórias que tem para contar devem ser muitas e pouco bonitas.
Sei que não posso aproximar-me muito dele. Fica desconfortável. A proximidade incomoda-o, não consigo roçar a minha cabeça na dele como faço com o Miles. É nessa altura que interrompe tudo e volta para o seu canto, para o seu buraco, ou se afasta para uma distância mais confortável para ele e continua ao meu lado.
Mas também não precisa de pedir festas. Se alguém, espontâneamente, lhe dar carinho dentro das suas condições, ele aceita sempre e de imediato. Nunca fugiu a um estender de uma mão carinhosa. Parece que precisa desse lenitivo para lhe atenuar as dores de alma e do corpo.

O Miles deve ser o único "problema" da vida de Mahler. Mais jovem e cheio de vida, faz naturalmente dele o seu companheiro de brincadeira, algo que o chateia profundamente. Principalmente quando este está nos seus retiros espirituais. Bufa-lhe até mais não, mas isso é coisa que não perturba minimamente o Miles. Quando este está para o chatear nada o pára. Nem um gato mais velho, maior que ele e a pesar mais um quilo e tal.
No entanto se o Mahler quisesse arrumava a questão em poucos segundos.

Ele é temperamental e determinado. Sabe perfeitamente o que gosta e não gosta e demonstra-o na perfeição, sem margem para dúvidas.
Não suporta o colo. Protesta, torce-se, parece que rosna, bufa mesmo. Quando protesta fá-lo veemente, mas de uma maneira inofensiva e pacífica, apesar de intimidar. Gato que bufa não morde, podia ser o ditado do Mahler.
Noventa por vento das vezes não gosta de festas na parte de trás do lombo. Faz uns miados muito curtos e rápidos de desagrado e desconforto. Se eu insistir afasta-se. Evito que tal aconteça. Mas nos restantes dez por cento retira um prazer imenso delas.
Tenho muitas vezes imensa vontade de o pegar ao colo, de segurar o seu corpo sólido e maciço de sete quilos, mas só o faço quando tem que ser. Respeito a sua natureza. Também gosto que respeitem a minha.

Adoro o Mahler. O Miles é o "meu" gato, mas a ligação ao Mahler é muito forte. Tenho uma grande empatia com ele. Sei que o percebo muito bem, o que precisa e quando precisa.
Pode ser que comigo ele tenha encontrado o que desejava. Talvez tenha encontrado o seu adagietto, aquilo que precisava. Carinho e brincadeira qb, protecção, conforto, sossego e paz. Eu e ele sabemos bem como a paz é preciosa.

Uma nota final. O Mahler tem um fetiche pelos meus sapatos. Quando chego a casa ele fica à espera que me descalce. Assim que o faço ele arranha os sapatos e depois mete o focinho lá dentro e anda lá de volta um bom par de minutos. Só ele sabe o que aquilo cheira. Bem, eu também tenho uma ideia do que possa cheirar, mas isso fica só entre mim ele...


A propósito, faz hoje um ano que as nossas vidas se cruzaram. Para sorte de ambos e privilégio meu. :)


sábado, 23 de novembro de 2013

uma música para o fim de semana - Diabo a Sete





Diabo a Sete significa, confusão, algo disparatado, caos, algo incontrolável.
É como a nossa política. 
Mas mais do que o nome da banda, é o título da música para este fim de semana - Paraíso Fiscal - que significa um pouco do que a politica nacional é.

Paraíso Fiscal, um tema do segundo álbum - TarAra - dos Diabo a Sete é uma música de intervenção com a participação da voz de Carlos Guerreiro dos Gaiteiros de Lisboa. É adequada aos tempos que se vivem por estes dias.
Fala sobre uma política tacanha e mesquinha. Falaciosa, obscura, falsa, dúbia, escondida. Conveniente.

As decisões são tomadas em função do que custam e não do que está em jogo ou das suas consequências.
Uma política que castiga mais quem deve proteger, protegendo quem mais devia castigar. Há fome, há podridão social, há inversão de valores.

Os filhos voltam para casa dos pais, os reformados ajudam quem já não tem ordenados, o investimento feito na educação das pessoas vão ser rentabilizado noutros países, o que se quer poupar no estado social, gasta-se mais em subsídios de desemprego por este não parar de subir.
O trabalho e a exploração infantil sobe, o trabalho mal pago e até situações de escravidão e trabalhos forçados aumentam.
É um país que envelhece quando devia rejuvenescer, é um país onde política é usada para o bem estar e ambição pessoal dos políticos, um trampolim de influências para cargos mais altos e influentes no futuro.
É um país que se não fosse a corrupção podia estar ao nível da Finlândia em qualidade de vida. É tão frustrante saber isto.

É na verdade o Diabo a Sete.


Bom fim de semana :)




Paraíso Fiscal


No Paraíso Fiscal
A justiça é cega
As fronteiras apagadas
E o tempo escorrega

Sabe bem pagar tão pouco
O segredo é total
Tens na ilha uma morada
Virtual

Guarda rico o teu roubo
Franca liberdade
Virar isto do avesso
Seria maldade

Somos sombras invisíveis
Sem gravata p’ra apertar
Mas hoje a nossa tampa
Vai saltar

Dez cabelos penteados
Não pagam imposto
A luva está mais barata 
Do que o fogo posto

Sabe bem pagar tão pouco
O segredo é total
Tens na ilha uma morada
Virtual

No Paraíso Fiscal 
O silêncio é d’ouro
As mobílias são de prata
E os jardins de couro

Anjos, deuses, capitais
Filhos de alguém especial
Somar zeros à direita 
Não faz mal


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

icónico


Há quem o considere um visionário, há quem o considere como o último verdadeiro presidente dos Estados Unidos da América e há quem o considere meramente como uma fachada.
Era mulherengo, cheio de amantes, corrupto, manipulador, um excelente orador, exímio na divulgação da sua imagem de cavaleiro andante perfeito, alguém que acreditava na igualdade de oportunidades e direitos civis entre raças e que lançou o programa espacial americano e conseguiu que fosse o seu país o primeiro a pisar a Lua.

No entanto há 50 anos, no dia 22 Novembro de 1963, John Fitzgerald Kennedy, JFK para o mundo, era assassinado em circunstâncias que ainda hoje suscitam desconfianças, incertezas em todos os americanos e quase todo o mundo ocidental.
Quem o matou, como foi arquitectada sua morte, quais os motivos, as intrigas que estiveram por trás desse acto é um dos grandes mistérios do século passado, que ainda hoje fascinam a Humanidade.

Como seriam o EUA hoje, se ele tivesse vivo?  Como seria hoje o mundo ocidental? A Guerra do Vietname teria acontecido na escala que se conhece? O mundo seria mais humano?
Se não tivesse sido assassinado será que JFK, seria só e apenas John Fitzgerald Kennedy? Será que seria o que pensamos todos que era?
Já houve um historiador que o definiu como uma "página em branco". Talvez não seja descabida esta caracterização.

Como todas as grandes figuras, as interpretações e pontos de vista sobre a sua vida são sempre variadas, todas têm o seu quê de verdade e de mentira.
A verdade é que foi a sua trágica morte que o tornou famoso, um mito da era moderna. Especula-se e escreveram-se mais livros e filmes sobre a sua morte do que sobre o seu mandato de cerca de 1000 dias.

Para todos os efeitos, passados 50 anos sobre a sua morte, sem dúvida que o mítico presidente norte americanos JFK é um dos grande ícones do ´seculo XX.




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Mickey Mouse - a ternura dos 85 anos


Literalmente pelas mãos e voz de Walt Disney, Mickey Mouse apareceu nos ecrãs pleno de ingenuidade e já com namorada pela primeira vez há 85 anos, a 18 de Novembro 1928 com o filme animado chamado "Steamboat Willie".
E o mundo não seria mais o mesmo...





série "estatísticas da vida" - LX


Os clichés do sexismo...






sábado, 16 de novembro de 2013

uma música para o fim de semana - Penicos de Prata





Música erótica e satirica portuguesa. Talvez um conjunto de Bocages em versão de concertante e igualmente desbocados.
Tal como os Uxu Kalhus e os Diabo na Cruz, os Penicos de Prata souberam reinventar os diversos géneros da música portuguesa, traçar um novo possível caminho para ela e ao mesmo tempo encontrar um nicho só para eles.

Os Penicos de Prata são assim. Tocam a brincar, mas seriamente. As letras são palavrosas mas não ofensivas. Dizem coisas sérias em tom de brincadeira, exigindo inteligência para se conseguir o que os Penicos de Prata buscam e muito provavelmente encontraram.
São um quarteto só de cordas. Violoncelo, guitarra, ukelélé e contrabaixo. Cruzam a música de câmara com a música tradicional portuguesa.
Não sei se terão um grande público, mas vendo o caminho que decidiram trilhar, certamente que não será as grandes audiências e as grandes vendas que os motivam e provavelmente nem estarão muito preocupados com isso.
Creio que tocam para se divertir, inovar e ao mesmo tempo chocar ou abanar um pouco alguns preconceitos musicais, típico objectivo da poesia erótica e satírica.

A letra de - Balofas Carnes - é de um poeta português modernista, contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa, chamado António Botto (1897-1959). Era assumidamente homossexual, apesar de casado por toda a sua vida com Carminda Rodrigues e a sua obra reflectia essa a sua natureza.

Caracterizava-se pela boémia, pela sua inteligência, pelo seu humor incisivo e mordaz e por dizer o que não devia e nas alturas em que menos o devia fazer. Foi esse o motivo do seu despedimento na função pública (escriturário). Foi acusado de desrespeito ao seu superior, indisciplina, escrever e declamar poesia nas horas de expediente e insinuações de carácter homossexual a um colega de trabalho.

O poema Balofas Carnes que os Penicos de Prata cantam hoje foi retirado do seu livro de poesia mais conhecido e polémico, Canções. Fernando Pessoa traduziu-o para em inglês em 1930.

Bom fim de semana :)





Balofas carnes de
balofas tetas
caem aos montões
em duas mamas pretas
chocalhos velhos a
bater na pança
e a puta dança.

Flácidas bimbas sem
expressão nem graça
restos mortais de uma
cusada escassa
a quem do cu só lhe
ficou cagança
e a puta dança.

A ver se caça com
disfarce um chato
coça na cona e vai
rompendo o fato
até que o chato
de morder se cansa
e a puta dança.

Os calos velhos com
sapatos novos
fazem-na andar como
quem pisa ovos
pisando o par de cada
vez que avança
e a puta dança.

Julga-se virgem de
compridas tranças
mas se um cabrito
de cornadas mansas
Julga-se virgem de
compridas tranças
mas se um cabrito 
de cornadas mansas
abre a carteira e
generoso acode
e a puta FODE.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

folhas de Outono


É numa estreita mas razoavelmente longa marginal que contorna o rio, o sítio onde costumo estacionar o carro.
Do lado direito existe um passeio também ele estreito, porque ao longo dele e a preencher uma parte do seu espaço existe uma fileira de carvalhos.

Por este dias, as suas folhas começam a cair cada vez mais e de manhã e à tarde elas cobrem o passeio e uma parte do alcatrão da estrada. Parecem beijos de verão caídos no cinzento escuro de uma estrada anónima. Dá-me um prazer imenso arrastar os meus pés e ouvir o restolhar das folhas secas e olhar para trás e ver o rasto criado por eles, tal como um dedo traça a água quando ele desliza sobre ela.

Quando pego no carro, tenho frequentemente na parte do meu vidro da frente, o de trás nem tanto, coberto pelas folhas que foram caindo ao longo do dia. Não as retiro de lá. Deixo-as estar.
Com a deslocação do carro e à medida que vou andando de volta para casa elas vão-se soltando. Mas de vez em quando há uma ou outra que resiste até ao fim da viagem.
Ou porque ficam presas nos limpa para-brisas ou por ficarem retidas nas dobras do capot, ou então por capricho do destino resistiram à deslocação do ar sobre o vidro.

Mário Quintana, um poeta e pensador brasileiro questionava-se sobre as folhas de Outono sob a forma mais elementar da poesia japonesa (Hai-Kai):


Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?


Então, essas folhas que se desprenderam mas que decidiram resolutamente pousar no vidro do meu carro indo nele até minha casa, guardo-as numa caixa. São as minhas Folhas de Outono.

Se o poeta Mário Quintana meditava sobre as Folhas de Outono, os músicos de jazz, Cannoball Adderley (saxofone alto) e Miles Davis (trompete) em 1958 no álbum Somethin' Else tocavam sobre elas - Autumn Leaves.

Quer um, quer os outros e à sua maneira, sabem perfeitamente como expressar e dar a saborear o quanto bonito o Outono é.







segunda-feira, 11 de novembro de 2013

já vai no quarto ano





O dia de São Martinho é um dia giro para celebrar o nascimento da Esteira de Letras.
Todos os anos é assim. Um belo prato cheio de castanhas assadas e um vinho alentejano a acompanhar.

É curiosa a dinâmica de um blog. Ao longo do tempo os tempos, a maneira, a forma e a estética de como se escreve muda, talvez para melhor, espero eu, talvez para pior, quase de certeza.
O que pensava há quatro anos atrás é diferente de agora e provavelmente até já nem escreveria alguns posts nos dias de hoje.
Lembro que inicialmente, a Esteira vivia do ódio de estimação a essa coisa que se chama José Sócrates que pirou-se para Paris e deixou o país num estertor financeiro. Qualquer coisa servia para escrever contra ele. Isso ainda hoje se mantém.
Mas com a sua saída de cena , a Esteira virou-se para outros temas bem mais do meu agrado e muito, muito mais úteis. 

O meu amor aos animais, o meu desejo de os poder proteger, o verdadeiro ódio a essa aberração que alguns covardes psicopatas sadicamente defendem que é a tauromaquia, o acreditar que amar não depende do sexo, o cinema, a poesia, a música - a minha paixão e necessidade - e o jazz em particular.

Recordo-me que nos primeiros tempos, a estatísticas dos acessos, do números de seguidores, media o sucesso do meu blog, da minha escrita, do que pensava.
Agora quatro anos depois, interessa-me muito mais se eu gosto dos meus textos, mais do que o que os outros pensam ou o número de visitas diárias.
Verdade, verdadinha, não é lá muito bem assim, mas já foi bem pior... ;)

Não deixa também de ser curioso, o quantas vezes estive para "matar" este blog. O tempo disponível e a disponibilidade para escrever foi diminuindo, e por (muitas) vezes também ainda fico frustradíssimo por uma página digital em branco me conseguir derrotar temporariamente ou ainda ser uma barreira difícil de transpor. Mas isso vai ser sempre :).

Manter um blog vivo é uma luta e um desafio. Todos os dias penso o que poderei mostrar, dar a conhecer, escrever o que penso, o que defendo, o que escrevo, sei lá tantas coisas.
Mas de alguma maneira ele foi conseguindo sobreviver. Ainda bem. Com mais ou menos letras (menos) ou com mais ou menos imagens (mais), a Esteira faz hoje quatro anos.
Não sei se estará melhor, mas certamente está um pouco diferente do que quando começou, o que até pode ser bom.

Parabéns a ela, parabéns a vocês que a lêem, parabéns aos meus seguidores públicos, parabéns aos meus seguidores privados, parabéns aos que caiem do céu em busca de algo para não mais voltarem, parabéns aos que comentam e aos que não comentam e já agora e porque não, parabéns a mim.

As castanhas já acabaram. A garrafa ainda não, mas também não é para acabar agora.
Espero que daqui a um ano volte a comer castanhas e a beber um vinhito alentejano tinto enquanto penso o que hei-de escrever a propósito do quinto ano da Esteira.

:)

série "estatísticas da vida" - LVIX






Todas as hipóteses deviam ter a mesma proporção... :D





sábado, 9 de novembro de 2013

uma música para o fim de semana - Miguel Braga





Desde há algumas semanas que o meu jardim está mais vazio. Usualmente escrevo com as portadas abertas e a olhar para ele. Os quatro pinheiros que faziam companhia ao meu olhar já não estão lá.

O forte temporal logo no início deste ano levou-me uma parte do telhado e fez abanar de uma maneira que ainda não tinha visto os meus quatro pinheiros. Pensei que nesse dia pelo menos um deles cairia. Não caiu nenhum. Mas ficaram fragilizados.
Fui fortemente aconselhado a cortá-los. Quer pelo jardineiro quer pelos bombeiros.

E decidi que antes deste inverno começar teriam que ser cortados. E foram. Doeu-me imenso vê-los a ir.

Foi preciso uma grua de cinquenta toneladas com uma lança de cinquenta e dois metros metros, mais um escadote de quinze metros, que mesmo assim não chegava ao topo dos pinheiros e uma equipa de cinco homens mais o manobrador da grua.
Um a um foram cortados, elevaram-se no céu, depositados suavemente no exterior do meu jardim e depois seccionados em troncos.

As árvore Morrem de Pé escreveu o dramaturgo espanhol Alejandro Casona na sua peça de teatro homónima. Adoro esta frase, este título. A imagem de respeito que ela transmite é imensa.
Mas não foi isso que aconteceu com as minhas, com os meus pinheiros. Não lhes dei essa hipótese. Se calhar tinha que ser assim, se calhar não. Nunca o saberei.

Tenho um grande carinho por árvores. Quais quer que elas sejam. São seres vivos muito nobres, dignos, verticais. Sábios. As suas escalas de tempo usualmente ultrapassam largamente as do homem. As suas vidas medem-se em dezenas, centenas e até milhares de anos.
Viram e assistiram a muitas coisas. Teriam muito para contar e nos ensinar se as soubéssemos ouvir ou ler.
Já lá estavam nos seus sítios quando o homem apareceu e estarão ou estariam nos seus sítios quando o homem partisse.

Miguel Braga, um pianista de jazz lançou recentemente o álbum chamado Like a Tree. 
É um quarteto onde para além de Miguel Braga no piano. ele é acompanhado por Nanã Sousa Dias no saxofone, Zé Lima no contrabaixo e Leando Leonet na bateria.

Para este fim de semana escolho o tema que dá tema ao álbum, Like a Tree.
É um tema bonito, suave e tranquilo. E o saxofone de Nanã contribui muito para a atmosfera serena e outonal do tema.

Dedico Like a Tree aos meus quatro pinheiros que não chegaram a morrer de pé.

Bom fim de semana :)





quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Joni Mitchell sopra hoje 70 velas


É uma versão espantosa de Both Sides da própria Joni Mitchell com duas lendas vivas do jazz - Wayne Shorter no saxofone e Herbie Hancock no piano.

Joni Mitchel canta em Both Sides, a vida. A plenitude da vida. Canta os encantos e desencantos, os sonhos construídos, os sorrisos que perdeu, as lágrimas que ganhou.
Sabe que ao passar pela vida há ganhos e perdas. É uma moeda de duas faces em que ambas têm que ser conhecidas. Andou no topo das montanhas e caminhou nas agruras escuras dos abismos.  
Canta a experiência da vida, as mudanças que ela lhe causou sem que as tivesse percebido.
Sente que não conhece a vida, apesar de a ter vivido. Recorre às ilusões para sobreviver a ela.
Afirma que de todo não conhece a vida. Acredita que não. É preciso que ela acabe, para a percebermos.

No entanto canta a amargura com grande doçura, canta a desilusão sem desilusão, segura do que lhe aconteceu é o que tinha que acontecer.
Canta sem lágrimas, mas é o saxofone de Wayne Shorter que chora por ela, por nós.
No fim, quando a canção acaba toda a gente se verga, nós nos vergamos, perante a beleza e o enlevo da música, perante o sentimento, perante a emoção que cada silaba da letra cantada pela voz de Joni Mitchel carrega em si.

Pessoalmente para que a canção não acabe, faço replay, replay, replay. E amanhã farei mais uns quantos deles.

Faz hoje 70 anos. Parabéns Joni :)




segunda-feira, 4 de novembro de 2013

série "estatísticas da vida" - LVIII


É uma visão um pouco redutora e injusta. Falta o mais importante.

Usam-nos também para dar o seu afecto, o seu ronronar, a sua companhia, a elegância do seu caminhar e de vez em quando termos o privilégio de eles nos submeterem a sua altivez felina.