sábado, 27 de agosto de 2016

uma música para o fim de semana - Eduardo Santana


É o último fim de semana do meu querido mês de Agosto.
Tinha pensado, fechar a pimbalhada com algo gloriosamente reles, o pior que alguém consegue fazer quando percebi já o tinha feito anteriormente. Isto significa que passados exactamente dois anos de ter colocado esse post aqui na Esteira, ainda não consegui encontrar nada pior e mais asqueroso que Ana Malhoa.

Por isso decidi virar-me para aqueles que assumem o pimba dignamente. Aqueles que cumprem honestamente o seu papel, com um vídeo simples, com uma música igual a milhares de outras, coreografias de duas dançarinas roliças e descascadas (o melhor que o pimba tem para oferecer) iguais a milhares de outras, letra que não lembra ao diabo e um acordeão absolutamente estridente, que enquanto não acaba não dá descanso aos ouvidos.

Assim vai Eduardo Madeira, tão lindo que está na sua fotografia a evocar o Pensador de Rodin, em Não me Sai da Cabeça, num vídeo gravado em Setubal, onde os bombeiros também deram uma perninha, enquanto que as suas duas muito rosadas muchachas davam as duas cada uma.
Como é bem sabido, e ainda mais olhado, as bailarinas é o que há de melhor numa música pimba, e um dos comentários ao vídeo, também ele muito pimba e pleno de sabedoria popular, declara que:

- Com essas raposas até eu fazia trabalhar a minha língua.


Bom fim de semana :)






sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Rudy Van Gelder


Rudy Van Gelder. Para muitos este nome é tão importante para o jazz como Miles Davis ou John Coltrane o são.
Mas, e isto é um grande mas, quer um quer o outro, e muitos, muitos outros, talvez não fossem tão grandes se não existisse este senhor. E é difícil pensar o que o jazz seria, se este homem não existisse.
Rudy Van Gelder (RVG) é um engenheiro de som americano, nascido a 2 de Novembro de 1924 que começou por ser um optometrista(!!!). E tornou-se o maior de sempre na história do jazz, género musical que este engenheiro abraçou com uma intensidade fora do vulgar.
Quando se fala de um engenheiro de som, estamos a falar de como o som de um determinado cd, ou de uma banda, soa.
O som de Rudy é quente, caloroso, envolvente, muito espacial. Emotivo e detalhado

Mas como tudo que caminha entre os deuses, RVG não é tão consensual como parece. Há quem o considere como excessivamente elogiado, sobrevalorizado, há quem discuta as suas técnicas de gravação, que ele fez questão de não as divulgar, que não reproduziam fielmente o som que se ouvia num estúdio de gravação.
Um dos jazzmen incontornáveis na história do jazz e um feroz crítico das gravação de RVG, foi o contrabaixista Charles Mingus.
Este acusava-o de deliberadamente alterar o som das formações de jazz, das vozes que o cantavam.
Não existe nenhuma sessão de Charles Mingus gravada por RVG. Charles Mingus viria a criar a sua própria etiqueta.

Claro que acredito que Rudy Van Gelder desse o seu toque pessoal nas gravações que fazia. Faz todo o sentido que tal acontecesse.
Tal como um pintor, um escultor ou um escritor, têm as suas visões pessoais do mundo e colocam essa visão naquilo que fazem, por isso gostamos mais de uns do que de outros, também RVG tem o seu próprio conceito de estética sonora, a interpretação de como o jazz deve ser ouvido, de como deve soar, e esse cunho pessoal está inscrito no seu trabalho, e eu sou um fã convicto desta forma de ver o som.

RVG trabalhou para várias etiquetas de jazz. A Impulse, Verve, Prestige
Mas é quando entra para a Blue Note que tudo acontece. Entre 1952 a 1967, Rudy Van Gelder revoluciona o som da Blue Note - ficaria conhecido pelo o Blue Note sound - e o do próprio jazz. Álbuns e músicos históricos, fundamentais para a história do jazz foram gravados por este lendário engenheiro de som. Entre muitos outros, aqui ficam alguns desses registos:

  • Blue Train - John Coltrane (saxofone)
  • Song to My Father - Horace Silver (piano)
  • Mayden Voyage - Herbie Hancok (piano)
  • Speak no Evil - Wayne Shorter (saxofone)
  • Moanin - Art Blakey (bateria)
  • Out to Lunch - Eric Dolphy (saxofone)
  • Point of Departure - Andrew Hill (piano)
  • Soul Station - Hank Mobley (saxofonista)
  • Sidewinder - Lee Morgan (trompetista)
  • Birht of the Cool - Miles Davis (trompetista)

Em 1999, RVG começou a remasterizar para o digital parte do seu acervo de gravações da Blue Note. Estas reedições ganharam o seu nome - Rudy Van Gelder Edition.
Não faço a mínima ideia quantos álbuns, que continuam a aumentar, tenho sobre a alçada das Edições RVG, mas são largas dezenas álbuns, incluindo os listados acima, que ajudaram a apaixonar-me e a manter-me apaixonado pelo jazz.

Rudy Van Gelder, morreu ontem à noite com 91 anos.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

first flight (o primeiro voo)



Ele é um balofo e empedernido funcionário público. Um maníaco do papel, viciado na arrumação e um autêntico robot da burocracia.
Quando menos espera, este empilhador de papelada não vai resistir à maior aventura da sua vida que é viver finalmente a.. vida, num dos seus muitos dias salobros, sentado num simples banco de madeira ripada, numa anónima paragem de um autocarro.

Vai ter que usar um montão de post its, correr alguns riscos, soltar a imaginação e libertar-se. Quebrar as grilhetas da rotina para voar e fazer voar.

Qual o milagre? Um minúsculo passarinho azul que queria voar e não sabia como.

Uma curta da Dreamworks cheia de humor perspicaz e mais ainda de ternura. :)))






domingo, 21 de agosto de 2016

Alexandre O'Neill 30


Alexandre O'Neill viveu furiosamente, sem limites, desregradamente. Boémio até mais não.
Noites, tabaco e petiscos de tascas. Uma gloriosa paixão dividida por mulheres e por álcool.
Inteligente, malicioso e sarcástico por natureza, feroz atacante da estupidez e muito pouco dado ao cumprimento de regras, à obediência e ao "establishment".

Era uma pessoa que corria atrás de miragens, alguém saltitão, sem eira nem beira. Não só nos muitos amores, mas também na mesma quantidade de desamores, trabalhos e casas.




A sua mãe, como boa mãe (e também salazarista convicta), interferiu na sua vida por duas vezes. Uma em 1950 e a segunda em 1954. A primeira ao impedir de partir com um dos seus amores, a francesa Nora Mitrani, ao conseguir que a PIDE lhe retirasse o seu passaporte, episódio que viria originar o poema Adeus Português, e depois de novo com a PIDE ao conseguir que esta o libertasse, da prisão em Caxias, após mês e meio.

Alexandre O' Neill, lidava bem com a morte, esta não a assustava. À sua boa maneira, era sarcástico com ela. Definia a morte como - "a fuga definitiva a todas as chatices" e chamava-lhe "esse lugar comum", Deus era "esse chato que ressona"
Consta que aos trinta anos escreveu o seu próprio epitáfio:

Aqui jaz Alexandre O'Neill/ Um homem que dormiu muito pouco/ Bem merecia isto"

A 9 de Abril de 1986 entra nas urgências do Hospital de Santa Cruz, com problemas cardiovasculares.
Já antes, em 1976, tinha tido um ataque cardíaco, que o poeta admitiu ser causa da sua vida quase dissoluta. Foi aconselhado pelos médicos, a deixar esse estilo de vida, que o poeta ignorou por completo e em 1984, um AVC.
Há trinta anos, a 21 de Agosto de 1986, Alexandre O'Neill, filho de pais irlandeses, morre com 61 anos.


Fernando Assis Pacheco, descreveu-o como alguém que "por ser vítima de nervos miudinhos, sempre se gastou à velocidade de um fósforo".



Há Palavras que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill, 'No Reino da Dinamarca'