sábado, 4 de julho de 2015

uma música para o fim de semana - Mikis Theodorakis


Numa semana totalmente marcada pela situação da Grécia, um domingo que será totalmente marcado pelo referendo grego e certamente, a semana seguinte furiosamente marcada pelos resultados desse mesmo referendo, a música para este fim de semana, não podia deixar de ser também ela marcada pela Grécia.

Não politicamente, mas culturalmente. Pela sua música, pela sua dança e filosofia.
Pouca músicas são tão imediatamente a associadas à Grécia, como a dança e a música de Zorba, o grego.


Nunca vi o filme de Zorba, o grego, de 1964, baseado na obra homónima de Nikos Kazantzakis.
Para mim, como para a esmagadora maioria das pessoas, o filme resume-se a um cena curta, de pouco mais três minutos, onde dois homens dançam (Sirtaki) na ilha de Creta, na praia de Stavros.

O britânico Basil (Alan Bates) inicia o diálogo, com um pedido:
- Teach me to dance. Will you?

Alexis Zorba (Anthony Quinn) de imediato entusiasmado, confirma o pedido de Basil:
- Dance?? Did you say...DANCE? (atira o casaco para o chão) - Come on my boy! (e marca o ritmo estalando os dedos) - Together.

A magia surge. A música entra.
Suave, sem pressa, estremunhada e algo hesitante, tal como os dois homens apoiados nos ombros um do outro que ensaiam os seus primeiros passos, particularmente Basil que está muito atento aos movimentos de Zorba.

Zorba confirma o início da dança:
- Let's go.

A dança é pausada. Simples. A coreografia é algo indolente.
Quando o tema acelera, Zorba extravasa exuberantemente toda a alegria contida em si.
Contagia e os dois abraçam definitivamente a dança e a sua euforia.

A música é o vídeo acabam abruptamente. De surpresa...
Ohhhhh!! Queremos mais. :)


Bom fim de semana :)




terça-feira, 30 de junho de 2015

Pedro, o grego


Há quem me chame Pedro, o grego, por defender a Grécia. Na verdade não os defendo,
Fizeram um monte de asneiras, foram irresponsáveis, pouco transparentes, pouco honestos e viviam à grande e à...grega.
Mas, do meu ponto de vista, o que a Europa fez com a Grécia foi ainda mais irresponsável.

Não foi só agora que a Europa empurrou Atenas contra a parede. Fê-lo no primeiro resgate e voltou a fazê-lo no segundo.

A Europa foi gananciosa, foi agiota, quis ser draconiana com a Grécia. Mostrar que era má, uma professora austera para com os seus piores alunos.
As condições que impôs, esganou, sufocou, boicotou qualquer esforço que fosse feito por parte da Grécia.
Em vez de ajudar, empurrou ainda mais para baixo. Em desastres atrás de desastres.
E quando tudo falhou, em vez de ser cirúrgica no segundo resgate voltou a puxar do facalhão e voltou a cortar a direito.

Em vez de apenas cortar os ramos podres e as folhas secas, optou por cortar todos os ramos sem excepção. Estivessem estes bons ou maus.
Quando largou a tesoura de poda pegou na motoserra e cortou o tronco rente à raiz.
Não houve solidariedade, não houve ajuda, não houve vontade de manter o eurogrupo unido. Apenas expurgar e extorquir um incómodo.
Só não aconteceu o mesmo a Portugal por pouco. Se não tivesse acontecido a Grécia primeiro...


No fundo Tsipras e Varoufakis existem porque a Europa fez de tudo para os criar.
Ela fez com que os gregos desesperados, se virassem para alguém que tinha o discurso contrário a tudo o que os tinha atirado para a aquela situação.

E no entanto esqueceu-se que foi o próprio professor que deixou que o aluno entrasse para a turma com um exame mal feito.
Ou seja, a Europa sabia que a Grécia entrou para o euro com contas manipuladas, forçadas de maneira a que cumprissem o que a Europa, entenda-se a Alemanha, tinha definido como requisitos mínimos. Mas manteve os olhos fechados e assobiou para o lado.

Acrescente-se que estes foram egoisticamente definidos, tendo por base a performance das economias mais fortes, entenda-se de novo a Alemanha.
Desde muito cedo que se começou a falar numa Europa a duas velocidades. De início se percebeu que as economias mais frágeis (sul da Europa) não iam conseguir acompanhar a velocidade do comboio. E não.
Se a isto assumirmos políticos e políticas de gastos irresponsáveis e desbragados, em particular dos vários governos de Portugal e Grécia, o desastre estava apenas à espera de acontecer.


Quando Papandreu, primeiro ministro da Grécia em 2011, propôs o referendo sobre a aceitação ou não do segundo pacote de "ajuda", toda a Europa entrou em pânico.
Todos consideraram que isso seria inadmissível. Como eles se atrevem a perguntar ao povo o que é melhor ou não para eles??
Curiosamente e pouco tempo depois Papandreu "revê" a sua posição. O referendo cai por terra.
Desta vez a democracia europeia não pode impedir a democracia grega.




E caricaturalmente, bem pensado, bem pensado, a Europa, mais uma vez a Alemanha, precisa mais do Euro do que a Grécia, o que faz com que a primeira esteja potencialmente refém da segunda.

Quando os nobéis da Economia, Joseph Stiglitz e Paul Krugman, defendem a saída da Grécia do Euro, a não aceitação das condições impostas pelos credores, deveriam ser ouvidos com especial atenção.
Têm uma posição apolítica, são imparciais na sua visão da crise grega, não estão influenciados pela situação europeia e desde há longo tempo, e claramente, que são contra as medidas de austeridade severas e prolongadas no tempo.

Agora, o que sair do referendo não pode ser contestado por ninguém.
O governo grego que está a fazer campanha pelo oxi (não aos credores), se for o nai (sim aos credores) a ganhar, não tem qualquer tipo de legitimidade nenhuma para continuar em funções.

Mas também não lembra ao diabo, porque é que o Tsipras marca o referendo, a melhor e a mais justa das decisões que podia ter tomado, para depois da data de pagamento da tranche ao FMI e entrar assim em incumprimento??

Mas o que os gregos no próximo domingo vão ter que escolher é entre o "estão fodidos" ou o "fodidos estão"...


segunda-feira, 29 de junho de 2015

execráveis "tradições e culturas" populares


A tradição e cultura de um povo é para se manter, dizem eles...


O enterro do galo (vivo)

Em Ruivós, através de Nuno Markl, descobriu-se que a tradição de carnaval é enterrar um galo vivo num buraco só com a cabeça de fora e a populaça diverte-se alarvemente a tentar acertar à paulada na sua cabeça.

Para incentivar a esta tradição que só honra o povo português, as crianças são pedagogicamente incentivadas a dar também as suas pauladas na cabeça do galo.







A queima do gato (vivo)

Em Mourão, Vila Flor, existe uma outra tradição que ainda perdura, que é a queima do gato.
A execução desta exibição tem elevados níveis de inteligência. Bastante superiores aos simplórios de Ruivós.

Pega-se num gato, põe-se dentro de uma bilha de barro e esta é pendurada num poste. Pega-se fogo à corda que prende a bilha com o gato lá dentro e cá vai disto.
Resta mencionar que o gato que foi honrado este ano como o alvo desta tradição tinha dona e esta concordou em submetê-lo a esta atrocidade.

Este ano a coisa correu mal porque o fio demorou muito tempo a arder, o gato ficou com o pelo “ligeiramente” chamuscado, segundo uma das bestas que assistiram a este evento cultural.
Consta que o gato viria a morrer depois consequência das queimaduras sofridas.

O vídeo pode ser visto aqui.




Touradas

A covardia, como em todas as anteriores, impera particularmente na tourada. 
Ser covarde e ter a mania que é macho é condição essencial para esta actividade cultural.
A tourada é outra das actividades bárbaras que enaltecem a nossa cultura e que como tal deve ser preservada.
Ela é particularmente sofisticada.

Sangram, desidratam, turvam a visão, obstruem os seus pulmões para que o touro já muito enfraquecido e bastante diminuído fisicamente, chegue à arena em condições para ser lidado.

Só então e nessas condições, as “corajosas e bravas” criaturas de apertadas leggings cor de rosa, que dão pelo reles nome de toureiros, consigam destroçar, rasgar os músculos, perfurar os pulmões, deslocar-lhe a coluna, causar-lhe hemorragias e simultaneamente consigam matar cavalos com ataques de coração, rasgar-lhes os músculos das patas e com um pouco de sorte atingem o auge e climax desta festa rasgando igualmente os seus ventres, fazendo espalhar sobre o chão as suas entranhas, enquanto os primitivos toureiros, se põem ao fresco, porque a sua bravura os impede de ficar na arena quando as coisas ficam literalmente de cor sangue vivo.






Tudo isto em frente de uma gentalha sádica, em número cada vez mais reduzido que paga para ver tortura medieval ao vivo.
Esta nobre actividade cultural só existe porque é patrocinada com dinheiros públicos. Quer do estado, quer das autarquias que abdicam de melhorar as condições de vida das populações em prol de muitos litros de sangue derramados na arena, e da morte e sofrimento de animais que estes pulhas dizem que não sofrem.


Se repararem em todas estas dignificantes tradições, os animais estão presos ou confinados, que é para a sua fuga não ser possível e não acagaçarem os seus valentes algozes e o seu atroz sofrimento alegrar todos os imbecis, selvagens, mesquinhos e tacanhos de espírito que participam ou assistem a estas exuberantes tertúlias subordinadas ao tema da prática da tortura medieval.


É preferível vender Mirós, aumentar o IVA em cinema, livros, música, teatro, do que evitar que estas, vis e execráveis “tradições e manifestações de cultura popular” associadas a tortura, sofrimento e mostrando um total e gratuito desrespeito pela vida de seres vivos continuem a ser perpetradas.


Sabe-se lá que perversidades mais este país poderá oferecer-nos culturalmente.


série "estatísticas da vida" - CXXX


Não se pode viver com elas, não se pode viver sem elas... ;)