sábado, 5 de abril de 2014

uma música para o fim de semana - Pedro Neves



Pedro Neves no piano, Miguel Ângelo no contrabaixo e Leando Leonet na bateria.
Com um pouco de sorte, como aquela que estou a ter agora, apesar de o ser, não estou a ouvir um trio, mas sim um quarteto.
Chove suavemente, mas oiço-a cair. Ajuda a secção rítmica ao dar-lhe força e confere ainda mais lirismo ao piano.

A chuva, além de música para o meus ouvidos é também um prazer para os meus olhos.

Não só oiço os sons que a chuva faz ao bater na janela deixando os seus rastos alongados no vidro, como vejo o seu respingar no chão e ao cair na erva faz com que que esta ora se vergue ora se erga quase ao mesmo ao ritmo das baquetas da bateria de Leando.

Vejo os reflexos da luz do dia no alpendre molhado enquanto as notas do piano se vão soltando e libertando dele enquanto o contrabaixo ajuda e reforça a chuva a cair dando-lhe um peso emocional..
Lá fora tudo brilha contrastando com o céu cinzento, mas não excessivamente carregado de escuro.
É isto que é um privilégio. Um fim de semana, uma chuvinha agradável lá fora, e um jazz aconchegante cá dentro.

Parece que tudo está em harmonia. Tenho a televisão fechada. Um ou outro pardaleco vão poisando nos meus muros indiferentes às chuva que cai sem intensidade. Os meus gatos dormem ao meu lado, lá fora, na minha garagem aberta, oiço um gato de rua que está a comer de um dos vários comedouros (e bebedouros) que tenho no seu interior. 
Se ele quiser pode ainda escolher uma das duas caixas de cartão com uma manta e deitar-se lá com toda a segurança e apreciar o seu próprio fim de semana.

É para isso que os fins de semana servem. Para protecção. Para sossego. Para que possamos parar ou abrandar os nosso pensamentos.
Para que os telefones não toquem. Para esquecermos que o mundo lá fora existe, para que possamos entrar na segurança do nosso.

A música para este fim de semana é do trio de jazz português liderado pelo piano de Pedro Neves.
Chama-se Presente e o álbum de onde este tema vem, chama-se Ausente.
Gosto da contradição. Ausente nem sempre é estar ausente. Poder ser não estar presente num sítio onde supostamente devemos estar ou onde queiram que estejamos, mas sim presentes onde nós precisamos ou desejamos estar.
E o acto da físico da presença, não implica que estejamos lá, que eu esteja lá. Muitas vezes não estou mesmo. Estou por aí, mas não lá....


Bom fim de semana :)





quarta-feira, 2 de abril de 2014

Grande Ecrã - 300 - O Início de um Imperio


Saí de 300 - O Início de um Império da mesma maneira que saí dos dois episódios de Hobbit. Desanimado.
Não estava à espera que me surpreendessem, mas esperava que continuassem a surpreender.
Ou seja, que pelo menos cumprissem os mínimos, que fossem mais do mesmo.

Sobre este novo 300 sendo nem uma sequela nem uma prequela do primeiro, para quem viu este último não pode deixar de sentir uma certa vulgaridade no segundo.
Litradas de sangue que saltam sempre que uma cabeça (e são várias), braços (idem) que acabam por ser divertido tal a sua frequência, bastante pancadaria, um dramatismo pouco convincente, diálogos monótonos e cheios de chavões a tentarem puxarem à nobreza, à dignidade, à unidade e determinação de um exército de comerciantes e burgueses para a defesa de um país e de uma cidade.
E o argumento não tem a mesma intensidade de 300.

À personagem de Temistocles (Sullivan Stapleton), falta-lhe carisma e nobreza, apesar de se esforçar por as ter. É um papel honesto, mas apenas isso. Eva Green no papel da pérfida e implacável Artemisia, irmã de Xerxes e comandante suprema da frota persa talvez seja o melhor que o filme tem para oferecer apesar de não deslumbrar.

Considerando a fotografia, efeitos especiais e a realização se pensarmos que já passaram oito anos sobre 300, nenhuma delas trás novidades, nem inovações.
A fotografia é excessivamente escura, de tal maneira que se perdem pormenores, mesmo que naturalmente seja pretendido sobressair a negridão da história que o filme pretende narrar. Em 300, a fotografia (e a realização de Zack Snyder) foi uma das mais valias do filme.

O 3D é absolutamente um desperdício. Só se quisermos apanharmos uns quantos pouco convincentes (mas grandes) banhos de sangue em "cima" de nós assim como algumas espadeiradas e ainda tempos a tempos umas setas lançadas.
Gosto do 3D quando ele nos coloca dentro do filme, quando nos envolve fisicamente e emocionalmente com ele. Que neste caso falhou redondamente mantendo permanentemente um distanciamento à narrativa.
Até os efeitos especiais apesar de interessantes chegam a ser confusos não permitindo frequentemente discernir o que está a acontecer.

Há a curiosidade de percebermos que O Início de um IMpério, ocorre ao mesmo tempo que a Batalha das Temópilas (tema de 300) decorria. Há uma certa preocupação, certamente que não extensiva e coerente do enquadramento temporal e histórico das duas batalhas e das suas interligações. A primeira em terra, a segunda no mar.

Após a derrota das Termópilas os gregos tentam inutilmente vencer a visão separatista dos espartanos para os convencer a lutar ao seu lado pela a união da Grécia. No fim é óbvio que...
Ficamos também a saber como Xerxes se tornou em... Xerxes. Rodrigo Santoro tem um papel secundário e muito pálido face ao desempenho do primeiro filme.

O realizador Noam Murro esforça-se e faz um filme que apesar de pecar pela confusa, superficialidade da narrativa e construção das personagens, ao fim e ao cabo cumpre aquilo que qualquer filme primariamente pretende atingir, ou seja (um fraquinho) entretenimento.
Para quem viu 300 e gostou e se rendeu a este (como eu), dificilmente não irá ver 300 - O Início do Império, certamente vai sair do cinema com alguma de frustração de lá.

Mas quase garantidamente haverá um terceiro 300, mais ano, menos ano. Essa hipótese fica em aberto no fim do filme quando se aborda a batalha de Salamina.