terça-feira, 20 de setembro de 2011

Thor


Quando olho para trás, para os meus últimos quinze anos, tudo mudou. Não houve nada que se tivesse mantido constante e estável. Mesmo aqueles projectos e pilares de vida que pensamos que são para... a vida. Excepto ele.
Quando tudo caiu ele esteve sempre lá. Ficou preocupado e ansioso quando chorei e desesperei, brincou e ficou feliz comigo quando a minha alma andava primaveril e jovial.
Sabia aquecer e curar o meu coração (e o dos outros) quando ele andava frio e magoado. Cheguei a ir para casa na necessidade de o ver. Partilhei com ele segredos que mais ninguém conhece. Abracei-o como abracei pouca gente.

Não ladrava muito, mas "falava" imenso e expressava-se como poucos.
Falava com as imensas vocalizações que fazia. Falava com as patas, com os seus olhos castanhos (os mais doces e meigos do mundo), na maneira como levantava as orelhas. Falava quando punha o seu focinho nas pernas e nos joelhos ou como nos pedia festas (nunca eram as suficientes) e onde queria que elas fossem feitas. Fixava a sua atenção em nós e tentava perceber-nos.

Era um cão que tanto precisava de companhia como fazer companhia.
Personalidade meiga, delicada e paciente - mas nem sempre - mas muito teimoso e determinado. Sabia o queria e muitas vezes conseguiu o que pretendia e tinha uma deliciosa capacidade quase exasperante de se colocar e atravessar no nosso caminho e das portas.
Adorava a sua cama e a sua manta e ficava absolutamente maluco com bolas. Fossem elas grandes ou pequenas, saltassem ou não. E se tivessem um apito...
Ao longo da sua vida de quinze anos suportou a dor e o incómodo físico de uma maneira que frequentemente me perguntei como seria possível.
Muitas vezes olhei para ele tentando perceber se era verdadeiramente um cão. Se lá dentro dele morava uma alma de cão, ou se algo ou alguém teria insuflado mais do que isso dentro do seu ser.

Thor, o meu cão, foi uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Foi ele quem partiu ontem à noite.



1 comentário:

  1. O Thor era um cão feliz!
    Tudo tem um início e um fim. Normalmente, o início faz sorrir e o fim faz chorar. Mas o que é verdadeiramente importante é o que está no meio.

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