Post-rock.
No fundo é pegar nos instrumentos tradicionalmente ao rock, como piano, guitarras, baixos e bateria, e alterar a sonoridade habitual, a energia que lhe está associada, transformando-a com a ajuda electrónica.
Ganha uma dimensão bastante ambiental, onírica, por vezes a roçar a espiritualidade.
A voz tão presente no rock tradicional, é frequentemente secundarizada face aos instrumentais.
The Last Day of Winter, puxam bem pelo post-rock nacional.
O trio de Ovar, com guitarra, baixo e bateria, suporta muito bem esta definição.
Música intensa, atmosfera negra, espacial e sustentada no tempo.
Rollover and Play Dead, é do seu primeiro trabalho, Bears, lançado em Fevereiro do ano passado.
Para quem alinhar com os escoceses Mogwai ou os islandeses Sigur Rós, não vai ficar desiludido com os Last Day of Winter.
No Natal de 1972, Zeca Afonso lançava um álbum de originais chamado Vou ser como uma Toupeira.
Desse álbum estão duas canções emblemáticas do cantautor aveirense: A Morte saiu à Rua e o Avô Cavernoso.
Em 1994, após sete anos terem passado sobre a sua morte, surge um tributo a Zeca Afonso pelas mãos de João Gil e Manuel Faria, dois ex-trovante e Tim, vocalista dos Xutos & Pontapés, que conseguiram reunir vinte bandas, oriundas de vários géneros musicais. Esse projecto chamar-se-ia Filhos da Madrugada.
Eles revisitaram várias canções de Zeca Afonso, onde constavam, A Morte saiu à Rua e o Avô Cavernoso. A primeira foi dos UHF e a segunda foi pelos Mão Morta. E é esta que me interessa para este fim de semana.
As duas interpretações, Mão Morta e Zeca Afonso, não podiam ser mais diferentes. Pessoalmente, esta é uma das situações em que o cover é superior ao original. Zeca empresta-lhe uma certeza delicadeza, suavidade.
A voz de Adolfo Luxúria Canibal (nome artístico de Adolfo Augusto Martins da Cruz Morais de Macedo) carimba a canção de uma forma oposta. Torna-a verdadeiramente cavernosa. É pesada, rouca, arrastada, reverberante, aquele tipo de voz que pertence a alguém que não queremos encontrar no escuro. Por trás da sua voz está um tique taque nervoso, tenso. Este cenário vai até aos 2.37min, altura em que a bateria explode e nos lança de rompante para a segunda metade da canção, mais acelerada, mais... cavernosa.
A letra de Zeca Afonso, presta-se para esta prestação. Ela é uma dentada certeira em Oliveira Salazar uma espécie de rei Midas invertido, onde em vez de transformar tudo em ouro, um castigo pela sua ganância, onde tocasse, o toque de Salazar, pelo ditador que era, enegrecia, fazia murchar a vida, retirava a esperança.
Sendo, também, um cantor de intervenção, esta letra é um toque de génio criatividade pelo qual Zeca Afonso era conhecido e reconhecido.
Os Mão Morta, através do seu líder, fazem inteira justiça. Mais, tornam melhor aquilo
Zeca Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1897. Na passada quinta-feira, fez exactamente trinta anos que morreu.