sábado, 28 de janeiro de 2017

uma música para o fim de semana - You Can't Win, Charlie Brown


Sabem a aquela cena de avançar de o relógio uns quantos minutos para ficarmos, esses mesmos minutos na cama, ou utilizamos o snooze e vamo-nos aguentando na cama mais cinco ou dez minutos, até que o inevitável se torna urgente??

Isso é procrastinar.

Ou quando um estudante, sabe que tem um mês para preparar um exame e vai adiando e adiando e acaba a estudar na semana anterior ou até na véspera??

Isto é procrastinar.


Procrastinar. É dar tanto tempo ao tempo que este este fica sem ele. Adiar as coisas, atrasamos as coisas, sabemos quais as consequências de o fazermos, mas algo mais forte que nós empurra-nos para esse empurrar interminável.
Perdemos um prémio de produtividade, a desorganização aumentou, o que podia ser feito em cinco minutos precisa agora de quinze, uma reunião que podia ser facilmente dominada, passou a ser um pesadelo.
E então arrependemo-nos, depois prometemos que tal que não volta a acontecer. e até somos genuínos na promessa. A promessa é exactamente cumprida até à próxima oportunidade de procrastinar.

Procrastinar é o diabo! Não é preguiça, é pior que preguiça. É algo que vem profundamente do nosso interior. É uma resposta emocionalmente negativa. É uma resposta defensiva a algo que nos pode magoar, algo que pode correr mal, ou uma situação cuja complexidade nos atemoriza.

Os lisboetas You Can't Win Charlie Brown, formados em 2009, lançaram o seu terceiro álbum em outubro do ano passado, Marrow.
O terceiro tema chama-se Pro Procrastinator, e a letra está sublime no conceito que está por trás do titulo, da música para este fim de semana.


Bom fim de semana 😀





got a little more time 
but I've little affection 
and I've got nothing more to do 
but I've made up my mind 
I'm the middle of nowhere 
so I'll be certain not to lose 
the whole where I've sunk my head 
seems to go nowhere

I've got plenty of time 
so a little deflection 
won't hurt my chances of success 
now I'm taking a break 
to remind me I need to 
go back to straying in my bed 
the trick I've got under my sleeve 
seems to go nowhere 

the hole that's stuck around my head 
seems to go nowhere 

well we know where we are 
we're not sure if we're going 
but we can't say the things we've seen 
got a couple of things 
that we better delay too 
just give us time to work it out 
the road I chose to lead ahead 
seems to go nowhere 

Oh, give me your breaks 
your hesitative waits
oh, don't jump ahead of course 
the way is here 

I've got more time till time itself is up 
so I won't 
make the use of that time for your own good 
no sir, I don't wanna 
‘cause I've got something inside,
yeah I've got something inside 
telling me I better just wait for better days 
I'm sure there's gonna be a better day 

I've got more time til time itself is up 
more till time is up 
and something inside 
yeah, I've got something inside 
and I've got time to give time to work its part 
got time until time is not enough 
I'm rooting for mine 
and I am losing my mind 

I've got more time till time itself is up 
so I won't 
make the use of that time for your own good 
no sir, I don't wanna 
‘cause I've got something inside,
yeah I've got something inside 
telling me I better just wait for better days 
I'm sure there's gonna be a better day 

got a little more time till time itself is up 
more time till time itself is up 
more time till time itself is up 
more time till time itself is up 


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

ironia


Quando penso em tudo aquilo que o desprezível Donald Trump representa, na forma como a Europa lida com os refugiados, na forma como milhares de refugiados morrem no mediterrâneo às portas da Europa;

Quando penso na anexação selvagem da Crimeia ucraniana ao território russo pelo czarista Putin;
na forma como o mundo assobia para o lado relativamente ao que se passa na Síria, na destruição despudorada da floresta autóctone da Indonésia pelas palmeiras da industria do óleo de palma;

Quando penso nas alterações climáticas e pela inércia do mundo desenvolvido em as resolver, pelo empenho da prepotente Angela Merkel em arrasar economicamente com a Europa, na inércia e falta de empenho por parte dos países desenvolvidos em resolver a questão das alterações climáticas;

Quando penso nos genocídios da Arménia, Ruanda, Camboja, Timor Leste, no holocausto nazi, entre tantos outros, no fanatismo religioso, na exploração do trabalho infantil, no tráfico humano e nas abjectas touradas...


...só me ocorre agradecer...






quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

um poema de... José Régio


Soneto quase inédito


Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.



José Régio



sábado, 21 de janeiro de 2017

uma música para o fim de semana - Pro'seeds


É atribulada a vida do Quim mais conhecido do país.
Parece ser um sem abrigo da vida. A desgraça caiu-lhe bem cedo no colo.
Antes de ser baptizado, já era sócio do Dragão e tinha a avó roubar-lhe as papas Cerelac...


Se o Quim que os Pro'seeds (Berna, Serial e DJ Score) cantam, e que aparece no seu primeiro trabalho chamado Soft Power Sagrado, e o Chico Fininho do Rui Veloso e do Carlos Tê, do longínquo ano de 1980, se encontrassem seriam bons amigos.
Ambos estão perdidos na vida, mas encontraram-na nas ruas. Entre eles há uma diferença de mais de trinta anos Mas há coisas que não mudam. E estes dois quase que poderiam ser irmãos gémeos desencontrados.

O primeiro andava com as beatas da Foz, o outro com merda na algibeira. E se o Chico delirava com trips de heroína, o Quim trafica coca.
Diria que o desfecho foi radicalmente diferente para os dois men. Acredito que o Chico tenha morrido de overdose e de caganeira nas retretes, enquanto que o Quim partiu para o mundo. Aposto com bigode farfalhudo a tapar-lhe os lábios, cordão grosso de ouro ao pescoço, a falar tão alto que ensurdeceria um cão, e convencidíssimo que era fino.

E como o que nasce torto jamais se endireita, mesmo tendo conseguido sair das barracas, as barracas não chegaram a sair dele. Sendo um cidadão do mundo, o desbocado Quim não se vai esquecer da primeira palavra que disse...


Bom fim de semana 😀






Ele nasceu no Porto no Hospital São João 
antes de ser baptizado já era sócio do Dragão 
o Pai dele era o Nando mas ele ficou-se por Quim 
a Mãe bulia por turnos da Rua do Bonjardim 
com poucos meses falou e soletrou P.u.t.a. 
até a Avó lhe roubava as papas de Cerelac 
que a cota comia a ouvir a rádio romântica 
baladas do Toni de Matos são partes da sua infância 
tinha um brinco de ouro que o irmão o roubou 
faz sentido foi o próprio que a orelha o furou 
em frente ao retrovisor dum Citroen Ax 
era o que tinha desmarcado por baixo do beliche 
a kitchenette era um antro de grunhos a partir telas 
o seu bairro era isolado como ilhas dos arquipélagos 
sair de lá era mentira tinha que se ir a buts 
passar por prédios uma bouça e duas escalas no bus 

Era uma vez um sócio que conheci 
tinha outro andamento o seu lugar não era aqui 
o nome dele era Quim e não mandava recados 
fazia a festa com pouco o que o tornava engraçado 

Ele parava no Rocks e com as betas da Foz 
á tarde treinava boxe á noite comprava pó 
infiltrava-se em qualquer meio já estava a ficar patrão 
cantava sempre de galo pois tinha mais protecção 
contactos até da moda vendia coca ao Serrão 
ligavam-lhe a pedir sheilas para os estágios da selecção 
já estava com outra pausa deixou o papel de peixinho 
tinha um iate no Algarve e um terreno no Minho 
feiras vinho roupas de linho e Domingos de hipismo 
de Verão surfava á noite praticava alpinismo 
estava na casa dos 30 andava de roda no ar 
até conhecer a Cátia e decidir assentar... 

Casou teve 3 filhos acabou-se o glamour 
estava efectivo e farto de montar placas pladour 
em vez dum maço numa noite só parou no Sá Carneiro 
tinha um control na Holanda dum mano do Lagarteiro 
e foi para lá em low-cost para trabalhar numa estufa 
curtiu comeu de tudo desde rolhas a fufas 
instalou-se num bungalow até apranchar-se a uma loira 
meio metro mais alta do que ele feia mas grande toura 
no emprego chamavam-lhe o "portuguese" 
no dia do pagamento faltava para dar uns snifs 
na coffee queria dar micos aos filtros que eram de graça 
mas nunca se embaraçava mandava-se sempre para a praça 
o fim é assim nunca mais vi o Quim 
provavelmente ele nem se lembra de mim 
tornou-se um cidadão do Mundo no fundo nunca mudou 
tentou esquecer quem era mas o bairro nunca o deixou 

Era uma vez um sócio que conheci 
tinha outro andamento o seu lugar não era aqui 
o nome dele era Quim e não mandava recados 
fazia a festa com pouco o que o tornava engraçado