domingo, 4 de dezembro de 2016

um dia de quintetos


Foi um dia dedicado a quintetos e todos eles da Blue Note. Liderados pelo piano ou pelo saxofone.

  • Cool Strutin' - Sonny Clark (piano), 
  • Blowin' the Blues Away - Horace Silver (piano), 
  • Takin' Off - Herbie Hancock (piano), 
  • Our Thing - Joe Henderson (saxofone), 
  • Speak No Evil - Wayne Shorter (saxofone),
  • Somethin' Else - Cannon Ball Adderley (saxofone)
  • Out to Lunch - Eric Dolphy (saxofone)

Propositadamente deixo um de fora. Undercorrent do pianista Kenny Drew. Disputa a minha preferência com o quinteto de Herbie Hancock

Undercorrent é um dos álbuns mais marcantes do jazz e também um dos mais subestimados dele.
A formação de Kenny é estelar. A linha de sopros é de eleição, Freddie Hubard em trompete e Hank Mobley no saxofone tenor.
De novo aqui há um toque de injustiça. Freddie Hubard é um dos trompetistas cujo valor e importância no jazz não está reconhecida.
Para além de Undercorrent, e dos vários que liderou, ele está presente como sideman em três dos quintetos que ouvi hoje e que são seminais no jazz: Takin' Off, Speak No Evil e Out to Lunch.
Se os sopros marcam este quinteto, a secção rítmica não fica atrás, Sam Jones em contrabaixo, um histórico do jazz e Louis Hayes na bateria, ainda hoje no activo.


Durante os primeiros 38 segundos, a primeira faixa do álbum, a que lhe dá o nome tem uma introdução fulgurante da bateria, contrabaixo, piano e trompete. Estão a todo o vapor. Um carga de adrenalina tremenda.
Assim que a introdução cessa, Hank Mobley dá um festival de saxofone tenor. Depois o tema desenvolve-se cheio de vigor, intensidade, energia e virtuosismo de toda a formação.
Ma é Kenny Drew e Freddie Hubard que mandam em nesta faixa.
O resto do álbum segue a tónica de Undercurrent

É a música ideal para enfrentar o dia mais detestável da semana: a segunda





sábado, 3 de dezembro de 2016

dia mundial da Pessoa com Deficiência


Uma pessoa com deficiência, não é uma pessoa deficiente. É uma pessoa!
Diferente, mas igual a ti e a mim.






uma música para o fim de semana - Norberto Lobo


Volto à poesia sonora da guitarra de Norberto Lobo.
Aqui tinha trazido o som do seu primeiro álbum, agora, mais de três anos depois, trago os sons do seu último trabalho, Muxama. saído em Setembro deste ano.

Com Muxama, Norberto Lobo sai um pouco fora do seu registo mais acústico para se tornar mais eléctrico. A linearidade que esteve presente nos seus trabalhos iniciais, sofre alguns desvios em Fornalha e estes aparecem mais consolidados em Muxama.
Prefiro a sua sonoridade "antiga", onde o dedilhar da corda está na base da voz da guitarra, onde esta soava mais pura.
Agora o trabalho de base, e continua a sê-lo, o fingerpicking, tem o suporte de um pedal. Ele vai expandir e tornar diferentes as "habilidades" que são permitidas fazer, assim como a técnica que este novo tangir da guitarra obriga.

Legionella, o tema desta semana, e jogando com as palavras, é uma música acusticamente electrificada. É difícil distinguir onde começa um, acaba outro, se é que esta distinção pode ser feita, ou até se é importante fazê-la.

O relevante é que é um tema sereno, pacificador, tocado com alma. Ouve-se e gosta-se.
Simples.


Bom fim de semana :)





quarta-feira, 30 de novembro de 2016

porque gosto - Vide Cor Meum


Muito recentemente vi o filme Hannibal no cabo.
Nele, Hannibal Lecter e o inspector Pazzi, jogam cordialmente, o jogo do gato e do rato, mas cheio de subtilezas e cordialidade. Um toca e foge de gentlemans.

Num dado ponto do filme, ao assistirem a uma ópera em Florença, Pazzi investiga a morte de um bibliotecário, ouve-se uma ária chamada Vide Cor Meuum (Vê o meu coração).
Ela decorre no largo da capela Pazzi, situada nos claustros da basílica Santa Croce em Florença.
E mais do que rever o filme, foi o extremo prazer de reencontrar, de voltar a ouvir esta ária. Andei para frente e para trás o filme umas quantas vezes, para ouvi-la repetidamente.

Gosto desta ária porque é de uma beleza inexcedível. É suave, é doce, delicada, repleta de uma pungência muito pura.
Há tristeza muita grande, mas cheia de ternura e serenidade. Há uma entrega do coração, da sua afectividade, da sua dor que expõe - vide cor meum - ao assistir à partida do coração desejado.
As vozes de Danielle de Niese and Bruno Lazzaretti fazem-nos sentir cada gota dessa dor, põe-nos na pele de Beatrice e de Dante.

Esta canção com letra do soneto "A ciascun'alma presa" consta na obra Vita Nova de Dante Alighieri. Ela narra o imenso amor que sentiu, quando tinha nove anos, pela gentil Beatrice Portinari quando a viu pela primeira vez. Foram necessários mais nove anos para que Dante falasse com Beatrice. Qual tal aconteceu o escritor ficou tão extasiado que teve que refugiar-se no seu quarto para poder pensar nela sem ser interrompido.

O soneto foi musicado por Patrick Cassidy, Hans Zimmer meteu o seu precioso dedo ao produzi-la, expressamente para a banda sonora do filme Hannibal realizado em 2001 por Ridley Scott. Quatro anos depois a mesma ária reaparece no filme Reino dos Céus, também ele realizado por Ridley Scott.







Vide Cor Meum
Vê Meu Coração

Chorus: e pensando di lei
E pensando nela
Mi sopragiunse uno soave sonno
Se apoderou de mim um doce sono

Ego dominus tuus
Sou teu dono
Vide cor tuum
Vê o teu coração
E d'esto core ardendo
E deste coração inflamado
Cor tuum
Teu coração

Umilmente pascea
Humildemente alimentava-se
Appresso gir lo ne vedea piangendo.
Envolto em lágrimas, o vi partir

La letizia si convertia
A alegria tornara-se
In amarissimo pianto
No amargo pranto mais amargo

Io sono in pace
Estou em paz
Cor meum
Meu coração
Io sono in pace
Estou em paz
Vide cor meum
Vê meu coração