Volto à poesia sonora da guitarra de Norberto Lobo. Aqui tinha trazido o som do seu primeiro álbum, agora, mais de três anos depois, trago os sons do seu último trabalho, Muxama. saído em Setembro deste ano.
Com Muxama, Norberto Lobo sai um pouco fora do seu registo mais acústico para se tornar mais eléctrico. A linearidade que esteve presente nos seus trabalhos iniciais, sofre alguns desvios em Fornalha e estes aparecem mais consolidados em Muxama.
Prefiro a sua sonoridade "antiga", onde o dedilhar da corda está na base da voz da guitarra, onde esta soava mais pura.
Agora o trabalho de base, e continua a sê-lo, o fingerpicking, tem o suporte de um pedal. Ele vai expandir e tornar diferentes as "habilidades" que são permitidas fazer, assim como a técnica que este novo tangir da guitarra obriga.
Legionella, o tema desta semana, e jogando com as palavras, é uma música acusticamente electrificada. É difícil distinguir onde começa um, acaba outro, se é que esta distinção pode ser feita, ou até se é importante fazê-la.
O relevante é que é um tema sereno, pacificador, tocado com alma. Ouve-se e gosta-se.
Simples.
Muito recentemente vi o filme Hannibal no cabo.
Nele, Hannibal Lecter e o inspector Pazzi, jogam cordialmente, o jogo do gato e do rato, mas cheio de subtilezas e cordialidade. Um toca e foge de gentlemans.
Num dado ponto do filme, ao assistirem a uma ópera em Florença, Pazzi investiga a morte de um bibliotecário, ouve-se uma ária chamada Vide Cor Meuum (Vê o meu coração).
Ela decorre no largo da capela Pazzi, situada nos claustros da basílica Santa Croce em Florença.
E mais do que rever o filme, foi o extremo prazer de reencontrar, de voltar a ouvir esta ária. Andei para frente e para trás o filme umas quantas vezes, para ouvi-la repetidamente.
Gosto desta ária porque é de uma beleza inexcedível. É suave, é doce, delicada, repleta de uma pungência muito pura.
Há tristeza muita grande, mas cheia de ternura e serenidade. Há uma entrega do coração, da sua afectividade, da sua dor que expõe - vide cor meum - ao assistir à partida do coração desejado.
As vozes de Danielle de Niese and Bruno Lazzaretti fazem-nos sentir cada gota dessa dor, põe-nos na pele de Beatrice e de Dante.
Esta canção com letra do soneto "A ciascun'alma presa" consta na obra Vita Nova de Dante Alighieri. Ela narra o imenso amor que sentiu, quando tinha nove anos, pela gentil Beatrice Portinari quando a viu pela primeira vez. Foram necessários mais nove anos para que Dante falasse com Beatrice. Qual tal aconteceu o escritor ficou tão extasiado que teve que refugiar-se no seu quarto para poder pensar nela sem ser interrompido.
O soneto foi musicado por Patrick Cassidy, Hans Zimmer meteu o seu precioso dedo ao produzi-la, expressamente para a banda sonora do filme Hannibal realizado em 2001 por Ridley Scott. Quatro anos depois a mesma ária reaparece no filme Reino dos Céus, também ele realizado por Ridley Scott.
Vide Cor Meum Vê Meu Coração
Chorus: e pensando di lei E pensando nela Mi sopragiunse uno soave sonno Se apoderou de mim um doce sono
Ego dominus tuus Sou teu dono Vide cor tuum Vê o teu coração E d'esto core ardendo E deste coração inflamado Cor tuum Teu coração
Umilmente pascea Humildemente alimentava-se Appresso gir lo ne vedea piangendo. Envolto em lágrimas, o vi partir
La letizia si convertia A alegria tornara-se In amarissimo pianto No amargo pranto mais amargo
Io sono in pace Estou em paz Cor meum Meu coração Io sono in pace Estou em paz Vide cor meum Vê meu coração
Da elegância do seu piano e da beleza minimal da sua música.
Do silêncio que caminha por entre as notas de música, o modo pausado como toca, a forma como nos convida à introspecção, como maravilhosamente induz em nós serenidade.
A melancolia que se solta dos seus temas sem que arraste consigo a tristeza.
Quando o quotidiano nos atropela e põe-se em fuga, quando olhamos para o lado e nos sentimos um estranho em terra estranha, Bernardo Sasseti consegue arrumar-nos a casa, os nossos pensamentos, a nossa ansiedade. Amainar tempestades e domar demónios.
Consegue com que regressemos por alguns minutos ao nosso planeta natal, o regresso à nossa casa, ao nosso lugar, onde quer que este seja.
Regresso pertence ao álbum Motion do trio de Bernardo Sasseti.
É um trio de eleição. Bernardo Sasseti no piano, Carlos Barreto em contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria.
Sasseti afirmou a propósito deste álbum:
"Música que nasce do nada, ideias que decorrem do pensamento e da imagética do inconsciente".
Desde 2011 que vou assistir a um Woody Allen em modo bipolar. Sempre com esperança de ver algo em linha com o fabuloso Meia Noite em Paris do tal ano de 2011, mas absolutamente com um pé atrás com medo que caia no sapatinho, algo parecido com o quase intragável Para Roma com Amor de 2012.
Parafraseando o treinador do Sporting, Jorge Jesus, Café Society é um filme morninho, morninho.
Woody Allen mostra na perfeição, mais uma vez, a sua capacidade para realizar filmes de época, de nos oferecer um argumento neurótico, existencialista e um tanto psicanalítico.
O director de fotografia, Vittorio Storaro, tinge os ambientes hollywoodescos dos anos trinta de cores quentes, saturadas, difusas e muito pastelizadas. Autênticos banhos de dourados, castanhos e laranjas.
Quando o argumento nos atira para o Bronx, as cores mudam radicalmente. Dá-nos o oposto. São frias, cinzentas, quase indistintas e muito dessaturadas. Para o nightclub Café Society, desenha um ambiente rico de cores, cheio de brilho e glamour.
Dos vários ambientes por onde o argumento nos põe a circular, é também no nightclub que Woody Allen tem a realização mais bem conseguida.
O realizador desenha um triângulo amoroso familiar, que é tanto do seu apreço, linear e pouco conflituoso, resolvendo-se com um final imprevisível, e ao contrário do que usualmente acontece é um desfecho bastante realista.
Tio Phil (Steve Carell), um magnata do showbusiness, e o sobrinho judeu Bobby, que vai trabalhar para ele, apaixona-se pela secretária da qual Phil é patrão, mais tarde saberemos que também é sua amante, Vonnie (Kristen Stewart), sem que nenhum dos vértices masculinos o saiba.
O realizador escolhe Jesse Heisenberg como seu alter ego, onde este nunca está verdadeiramente à vontade, o que não deixa surpreender um pouco. No filme a Rede Social, Jesse Eisenberg mostra à mão cheia a importância da sua presença, ele é o valor maior ao longo do filme ao desempenhar o alienado Mark Zuckerberg, alguém que não se encaixa na sociedade e nem sequer consegue percebê-la. A César o que é de César, o actor luta pela credibilidade da sua personagem e é honesto na sua entrega ao papel, ao contrário de Kristen Stewart, o seu contra-ponto feminino.
Mas porquê a presença de Kristen Stewart no elenco?? Capitalizar adolescentes platonicamente apaixonados e com um fetiche por ela??
Na minha fila e sentadas do meu lado direito estavam duas senhoras que ao intervalo comentavam uma para a outra que não gostavam dela, e que mesmo num filme de Woody Allen continuava a ter um olhar de sonsa.
Verdade. É inexpressiva, impessoal, incapaz de interagir connosco. Os seus papeis, as suas personagens são sempre baças, entediantes, plastificadas e …sonsas! Vonnie não foge à regra.
Se pensarmos que Woody Allen que a pouco menos de duas semanas de fazer 81 anos, escreve e realiza um filme por ano e que já estará a pensar no de 2017, consegue fazer de Café Society um filme consistente, Não está ao nível de Blue Jasmine de 2013, de Vicky Cristina Barcelona (2008) ou de Match Point (2005), para mencionar alguns dos seus melhores filme da última década, mas é um filme que se vê com um prazer razoável.
A sublime fotografia de Vittorio Storaro, vale quase por si só a ida a uma sala de cinema ver Café Society, apesar de este enfermar de um certo travo de boçalidade, mas nada de grave ou particularmente prejudicial.