Sem ser tão pejorativo quanto parece, quando vi João Só e a Lúcia Moniz a cantarem juntos, pensei - Olha, a Bela e o Monstro.
Da Bela, já lhe conhecia a voz e gostava dela, agora da pança do Monstro, de aspecto bonacheirão já não sabia bem que voz poderia sair de lá. Talvez cavernosa, talvez rouca, ou talvez de cor de burro quando foge.
Grande engano. Longe ser cavernosa, a voz de João Só encanta. Melódica, tem uma suavidade e textura que surpreende. É fluída e bem controlada.
Ao contrário, Lúcia Moniz parece que hesita em alguns momentos e aqui e ali parece soar um tudo nada estridente. Será?
Imaginando este tema sem a Lúcia Moniz, naturalmente não ficaria tão rico. Faltaria o contraditório. Mas sem a voz do Monstro não resultaria de todo.
A Sorte Grande é toda dele ;)
Bom fim de semana :)
Olha lá Já se passaram alguns anos Nem sequer vinhas nos meu planos Saíste-me a sorte grande. E eu cá vou Usando os louros deste achado Contigo de braço dado Para todo o lado Eu vou até morrer Ser teu se me quiseres Agarrado a ti Vou sem hesitar E se o chão desabar Que nos leve aos dois Vou agarrado a ti Meu amor Na roda da lotaria Que é coisa escorregadia Saíste-me a sorte grande E eu cá vou À minha sorte abandonado Contigo de braço dado Para todo o lado Eu vou até morrer Ser teu se me quiseres Agarrado a ti Vou sem hesitar E se o chão desabar Que nos leve aos dois Vou agarrado a ti E olha lá Por mais que passem os anos Por menos que faça planos Saís-me sempre a sorte grande Agarrado a ti Vou sem hesitar E se o chão desabar Que nos leve aos dois Vou agarrado a ti Vou sem hesitar E se o chão desabar Que nos leve aos dois Vou agarrado a ti Vou agarrado a ti Vou agarrado a ti
O lendário trompetista Miles Davis se fosse vivo faria hoje 87 anos. É difícil imaginar o jazz sem ele e em que estado estaria se Miles se não tive existido.
Ele esteve na origem de todas as evoluções do jazz. Bebop, hardbop, cool jazz, free jazz, jazz fusão, nu jazz e sabe-se lá que outras variantes em que ele esteve na origem.
Também graças a Miles Davis, provavelmente John Coltrane, Bill Evans, Jimmy Cobb, Herbie Hancock, Red Garland, Philly Joe Jones, Paul Chambers, Chick Corea, Dave Holland e muitos, muitos outros nomes, não seriam o que foram ou o que são hoje se não fossem as suas colaborações nas várias formações lideradas por Miles Davis.
O "meu" Miles é o Miles do cool jazz, do jazz suave, do jazz que aconchega, do late night jazz. A minha discografia dele ronda quase toda ela este período onde pontifica o extraordinário Kind of Blue.
Mas tenho uma excepção, Bitches Brew. Um álbum que inundado pela genialidade do seu autor, marcou uma era na música em geral e no jazz em particular. A era do jazz de fusão.
Miles rasga literalmente os caminhos tradicionais que o jazz trilhara até então e cria um completamente novo e diferente. Um difícil de gerir, de compreender e falando por mim de gostar. Os mais puristas dizem que já não é jazz.
Aqui rock e jazz eléctrico surgem e fundem-se. De uma maneira muito incisiva, penetrante, por vezes quase de uma maneira violenta. É claramente um dos álbuns lendários de Miles Davis.
Não o ter é uma falha grave numa discografia de quem gosta de jazz e faz dele o seu género musical de eleição.
E se ao início para um fã convicto do jazz modal, Bitches Brew estranha-se fortemente, e no meu caso foi quase uma rejeição, ele aos poucos e poucos vai-se entranhando. Tive que aprender a gostar dele, abrir um pouco os meus horizontes para que Bitches Brew se entranhasse. Na verdade continuo a não ouvi-lo com muita frequência, mas de tempos a tempos ele vai tocando na minha sala.
Bitches Brew foi gravado em 1969 e editado em Abril de 1970. Há três anos que cruzou a marca do quarenta anos.
No dia em que Miles faria os seus 87 anos, escolho o segundo tema deste mítico álbum e que lhe dá também o seu nome - Bitches Brew.