Rão Kyao, é talvez um dos poucos músicos portugueses que desde muito cedo soube criar, verdadeiramente um som próprio, único e que o identifica de imediato.
As suas raízes musicais curiosamente estão num género do qual Rão Kyao se afastou progressivamente, o jazz e num outro instrumento de sopro bem distinto do que o agora o caracteriza: o saxofone.
É na década de 70 do século passado, quando viaja para a Índia que toma contacto com a música e cultura deste país e é também quando toma contacto com o seu instrumento de eleição, a flauta bansuri feita de bambu.
Quando oiço Rão Kyao e a sua flauta de bambu, a impressão que eu tenho da sua música é que é algo refrescante. Algo que rejuvenesce, que quase tem o poder de cura, não por convidar à reflexão ou à meditação, mas porque é positiva, boa onda.
A música para este fim de semana, Depois de um Sonho, é o tema de lançamento e também o que abre, o seu mais recente trabalho - Coisas que a Gente Sente, lançado em Novembro do ano passado.
Ouvir Depois de Um Sonho, uma música de forte cariz popular, é algo muito fixe, algo... refrescante. :)
Uma última nota. O verdadeiro nome de Rão Kyao é...João Maria Centeno Gorjão Ramos Jorge. Até arrepia ;)
Quando vindo do nada, desperto por algo desconhecido, o nosso passado surge à frente dos nossos olhos, de mãos dadas com as memórias passadas e alheados ao que nos rodeia, ele nos faz parar ou estugar nervosamente os nossos passos,
Quando esse algo nos faz dar voltas na cama, nos impele de uma cadeira como uma mola tensa ou como animais enjaulados andamos de um lado para outro num cego desatino,
Quando precisamos que as vozes interiores e exteriores se calem, que o mundo abrande a sua rotação em roda louca e que os suspiros soltos abrandem a sua inusitada cadência,
Quando o nosso coração bate de uma maneira que custa acreditar que mais ninguém o oiça e sabemos que a sua próxima batida vai soar grave, acelerada e fora do ritmo, isso é... Inquietação.
José Mário Branco sabe isso como ninguém.
Inquietação na versão original é escrita e cantada por ele, mas para este fim de semana, escolho uma versão na voz profunda de Camané em colaboração com os Dead Combo. Uma versão gravada para e a pedido do canal Q, o canal das Produções Fictícias.
Podem fazer o download gratuito desta canção aqui.
Despeço-me de 2012 com a música de alguém que partiu este ano e que já aqui referi: Bernardo Sasseti.
Sinto a falta dele. Identifico-me com a sua música.
Gosto do lado meio arrastado, por vezes sombrio e repassada por solidão que ela contém. Muito intimista e sempre muito elegante.
Tal como a poesia de Fernando Pessoa, tenho com aquela sensação que as suas músicas foram compostas para mim, para a minha sala e para o meu sofá.
É uma música que tanto pode ser inquieta e angustiante como simultâneamente maravilhosa. O denso tema Noite composto para o filme Alice é para mim o exemplo máximo desta dualidade e pessoalmente talvez o tema mais bonito dele.
Poucos músicos como Bernardo Sasseti são capazes de tocar o silêncio como ele.
Para o último fim de semana de 2012, elejo Petit Pays do seu trabalho Livre, editado pela Cleanfeed em 2004. É um tema sereno e cristalino.
É fácil imaginar um pequeno e tímido ribeiro a passar tranquilamente pelas margens e fluindo pelas pedras. Sem grandes quedas, estrondos, barulhos ou salpicos.
Aquele tipo de ribeiro cuja água límpida nos convida a olhar sem ver. Aquele cantinho escondido, aquele segredo tão e só nosso a que voltamos quando precisamos de lavar a alma ou quando esta precisa de um tónico por se encontrar pesada e obscurecida pela vida.