sábado, 15 de dezembro de 2012

uma música para o fim de semana - Ravi Shankar


Foi talvez em 87, eventualmente em 1988.
O bilhete era oferecido e tinham-me dito que devia aproveitar a oportunidade e fui.
O nome era razoavelmente desconhecido e a sua obra, essa, era totalmente desconhecida. De Ravi Shankar sabia apenas que era um músico indiano. Não sabia portanto ao que ia.

Não precisei de muito para perceber o porquê do conselho dado de aproveitar a oportunidade. As sonoridades, exóticas e etéreas que ouvi nesse concerto e oriundas de um instrumento que nunca tinha visto e ouvido, perduram na minha memória.
Ainda hoje quando oiço Ravi Shankar revisito mentalmente esse concerto.

Ravi Shankar nasceu a 7 de Abril de 1920, na mística cidade indiana Varanasi. Uma cidade que povoa o meu imaginário e um destino que forçosamente terei que um dia cumprir.

Nasceu pobre e aos cinco anos, seguindo o seu irmão, muda-se para Paris, onde se estreia como bailarino de danças populares e do folclore indiano.
Aos dezoito anos desiste da dança, estuda música clássica indiana e inicia-se no instrumento da sua vida: o sitar.

Há uma confusão usual entre sitar e citara. Ambos são instrumentos de cordas e dedilhados. 
Mas enquanto o sitar tem um braço onde as cordas são esticadas para além da caixa de ressonância, a cítara tem as cordas esticadas sobre a caixa de ressonância.

Em 1966 dá-se um outro marco na sua vida. George Harrison torna-se aluno de Shankar. E seria através deste beatle que o sitar faria a sua entrada na música ocidental.
Por causa deste encontro entre a música ocidental e a música oriental, neste caso indiana, George Harrison, apeladaria o músico indiano, o padrinho da "world music".

Ravi participou no mítico festival de Woodstock em 1969 e para além de George Harrison, colaboraria com o violinista Yehudi Menuhin e saxofonista John Coltrane.

O mestre indiano de sitar morreu na passada terça-feira, dia 11 de Dezembro, na Califórnia, América, bem longe da sua cidade natal e onde tantos indianos desejam morrer e passar os últimos dias da sua vida.

O seu legado na música está longe de se resumir enquanto músico de sitar. É pai das meias-irmãs Norah Jones, cantora de jazz e de Anoushka Shankar, também ela uma compositora e exímia tocadora de sitar e que acompanhou o pai em diversos concertos.
Actualmente Anoushka grava para a etiqueta alemã Deustche Grammophon.

No espaço de uma semana, após Dave Brubeck, Ravi Shankar foi a segunda lenda viva da música e ambos nascidos em 1920, a ser reclamado pela Sra do Manto Negro.
Por isso tal como a semana passada, "uma música para o fim de semana" tem uma edição especial dedicada ao famoso sitarista indiano.

Para esta semana escolho o concerto do Bangladesh de Ravi Shankar.
Um concerto de beneficiência, organizado por Ravi e George Harrison, a favor das vítimas do ciclone Bhola  de 1970 e da guerra civil de 1971 que assolou o Bangladesh.
O concerto foi dado a 1 de Agosto de 1971 e juntou cerca de 40 000 pessoas no Madison Square Garden em Nova Iorque.


Bom fim de semana :)




segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Dia Internacional dos Direitos de todos os Animais


Hoje comemora-se Dia Internacional dos Direitos Humanos e em simultâneo o Dia Internacional dos Direitos dos Animais.
Se pensarmos bem, hoje celebra-se os direitos de todos os animais. Animais humanos e não humanos.
E o objectivo deles é simples: defender e respeitar a vida de todos em todas as suas vertentes. Defender o bem estar, o conforto, o direito à protecção, ao carinho e à liberdade.

E em ambos direitos, eles são atropelados e desrespeitados pelos mesmos animais, os humanos.
E se no primeiro caso existem vozes que podem ser ouvidas, no segundo, há vozes que não se ouvem. Ou porque as não têm ou porque são escondidas, abafadas e desconhecidas de toda a gente.

Preocupamo-nos e bem com a destruição paulatina do Tibete pelos chineses, com a subalternização da mulher perante o homem, a maneira como a mulher é tratada pelos regimes fundamentalistas muçulmanos, a exploração de mão de obra infantil ou com a escravatura moderna.

Mas raramente, ou muitos poucos de nós nos preocupamos com as condições da vida de animais não humanos.
Não pensamos um animal é um ser vivo que sente, que sofre, que desejo abrigo e conforto. Sabe o que quer e procura o que lhe agrada e por sua vez recusa e evita o que o magoa ou assusta.
É uma vida, um ser que desenvolve relações e interage com o meio ambiente. Tem personalidade e uma psicologia própria. Senciência é a palavra chave.

Não respeitamos as suas vidas e muito menos a sua morte. Torturamos, exploramos as suas vidas a nosso bel prazer.
São animais que são privados das suas liberdades e dos seus meios ambientes naturais. São criados para nossa alimentação em quintas produção intensiva.
São alimentados a químicos, hormonas e antibióticos. Crescem anormalmente rápido e engordam desmesuradamente.
Aumentam tanto de peso que as suas pernas não suportam o seu peso. Estão em espaços tão confinados que as sua temperaturas aumentam e morrem. Sufocam. Vivem no meio dos seus excrementos.
Não vêm o sol, não sentem a terra debaixo das sua patas e os seus narizes não conhecem o outro odor senão o deles próprios e o de milhares de outros iguais a eles.

Galinhas não chegam a conseguir abrir as suas asas durante a sua vida, têm os seu bicos cortados com lâminas quentes para não se ferirem umas às outras de tão juntas que estão. A dor é excruciante.
Como muitos outros animais morrem de infecções das feridas que resultam da fricção uns contra os outros, contra jaulas, contras as gaiolas, contra tubos que lhes perfuram as gargantas para alimentação forçada.

São seres vivos abatidos cruelmente  De uma maneira atroz. São mortos à paulada, atirados contra o chão ou contra uma parede. São pontapeados. Ficam inconscientes, desmaiam e recuperam consciência e começam a ser cortados ainda vivos. Têm mortes lentas, agonizantes e dolorosas.

Mais uma vez, neste dia comemora-se em simultâneo o Dia mundial dos Direitos do Homem e o Dia Mundial dos Direitos dos Animais.
Para mim esta simultaneidade faz todo o sentido. O respeito e preservação da vida não humana é uma extensão lógica e inalienável da vida humana. A vida é una.

Li num texto a propósito deste dia que não deveria ser um dia de comemoração, mas sim um dia de luta.
E como escrevi no segundo parágrafo deste texto, neste dia penso particularmente nos que não têm voz ou cujas vozes não são ouvidas e nos que têm menos pessoas a defende-los.

Meet Your Meat, é um famoso documentário realizado por um activista dos direitos animais.
Filmou as condições em que os animais são criados, são maltratados, desrespeitados e as pavorosas mortes que sofrem.

O vídeo é violento. É mais confortável não ver. É uma fuga e uma recusa Mas não o ver acarreta um preço terrível. Torna o seu sofrimento anónimo. É como se nunca existisse ou tivesse acontecido. Torna-nos cúmplices daquilo que não queremos ver.

Não o ver, faz com que o pedaço de carne que está no nosso preço, seja um objecto, algo que aparece numa prateleira de um supermercado ou numa bancada de um talho e não um ser vivo que procurou e nunca encontrou o que nós desejamos, procuramos e reclamamos para nós próprios - conforto, carinho, protecção, respeito, abrigo.





série "estatísticas da vida" - XVIII








sábado, 8 de dezembro de 2012

uma música para o fim de semana - Dave Brubeck


Na passada quarta feira, 5 de Dezembro, quando faltava um dia para fazer 92 anos o pianista Dave Brubeck morreu.
Ironicamente ia caminho do cardiologista onde tinha uma consulta marcada quando foi vítima de um ataque cardíaco.

Para muitos este nome será desconhecido, mas para quem o conhece, sabe que se tratava de uma das maiores lendas vivas do jazz e considerado um dos músicos mais importantes após a segunda guerra mundial.

Nascido nos EUA, a 6 de Dezembro, Dave Brubeck, começaria cedo a ter lições de piano bem cedo, aos quatro anos, com a sua mãe. 
Com doze anos iniciou uma vida de cowboy, ajudando o seu pai na lide do gado quando a sua família mudou-se para um rancho. A sua ligação à música manter-se-ia através de actuações em bares locais.

Não se estranha portanto que inicialmente tenha escolhido a carreira de medicina veterinária. Mas o contacto constante que foi mantendo com o piano levou-o a mudar de ideias e a definitivamente enredar pela carreira musical e em particular pelo jazz após sugestão do compositor francês Darius Milhaud com quem estudou.

Entre as várias formações que Dave Brubeck liderou, incluindo um octeto onde conheceria Paul Desmond, foi o "Quarteto Clássico" de 1958 que mais se destacou e se manteve durante cerca de dez anos. Para a história seria o Dave Brubeck Quartet. 
Ele era formado por Dave Brubeck no piano, Paul Desmond no saxofone alto, Joe Morello na bateria e Eugene Wright no contrabaixo.
Seria com este quarteto que em 1959, seria editado um dos álbuns mais importantes e influentes do jazz - Time Out.

Alíás, o ano de 1959 é considerado por muitos como o ano mais importante do jazz. Parafraseando a Rainha Isabel II, chamam-lhe o "annus mirabilis" do jazz  
Nesse ano para além de Time Out de Brubeck, são lançados mais outras três obras tidas como fundamentais e marcantes da história do jazz - Kind of Blue de Miles Davis, Mingus Ah Um de Charles Mingus e The Shape of Jazz to Come de Ornette Coleman.

De Time Out, pensa-se logo em Take Five, o tema divertido e irreverente que imortalizou Dave Brubeck, apesar de ter sido composto por outro dos elementos do quarteto e também ele uma lenda, Paul Desmond.
É o saxofone de Paul Desmond e o solo de Joe Morello na bateria, as suas mãos parece que bailam, mais marcam este tema.

Em memória do extraordinário Dave Brubeck, "uma música para o fim de semana" terá uma edição especial. Take Five será a minha sugestão para este fim de semana. 
Mas não estará sozinha. Para a acompanhar vou buscar uma outra música também ela oriunda do Dave Brubeck Quartet. 
É porventura mais bonita que Take 5. Mais bela, mais reflexiva e introspectiva - In Your Own Way.


Bom fim de semana :)