segunda-feira, 25 de junho de 2012

Grande Ecrã - Cosmopolis


É quase o regresso do "meu" David Cronenberg, ressuscitado do apático e insípido Método Perigoso.
A imagem que tenho de Cronenberg é a de alguém que conta histórias dificilmente narráveis. Histórias desconstruídas, onde a realidade se confunde frequentemente com onírico e com a ilusão.
É o caso de Videodrome, A Mosca, Irmãos Inseparáveis e os meus favoritos, O Festim Nu e Crash.

Em Cosmopolis, Cronenberg mais uma vez descontroi a realidade nas suas várias vertentes, particularmente a financeira, a partir da ausência de valores ou criação de novos valores.
Alguém que tendo tudo e que estando emocionalmente esvaziado e numa pulsão autodestrutiva - Eric Packer é um magnata de Wall Street que tem tudo - precisa de sentir emoções para igualmente se sentir vivo.
Sintomático disso é a aparente indiferença que assiste ao desbaratar da sua fortuna numa luta contra o yuan.

Tem um início fulgurante em termos da introdução à personagem. Eric decide que quer ir atravessar a cidade de Nova Iorque para ir cortar o cabelo, indiferente à passagem do Presidente e ao facto de as ruas poderem estar cortadas e ambiente em que este vive, tendo por base o interior de uma limusina sofisticada, futurista e psicadélica, onde as partes mais interessantes do filme e os melhores diálogos decorrem.
Limusina, que tanto o isola da realidade, como trás a realidade a si através dos diversos personagens que vão interagindo com ele no seu interior, ao mesmo tempo que nos mostra o caos da cidade que vai atravessando.

Curiosamente outro dos grandes trunfos de Cosmopolis, vem de onde menos esperava: Robert Pattinson.
Afinal o superficial vampiro de Twilight até sabe representar.
Constrói uma personagem credível, enferma dos excessos de uma sociedade capitalista, que nos faz interessar por ela e por o que ela pensa, desde o momento que surge.
Com um pouco de sorte consegue descolar-se da pele de vampiro adolescente, para se tornar verdadeiramente actor, apesar de essa cicatriz o marcar para sempre.

O outro grande trunfo são os diálogos. Opacos, densos e ambíguos. Na melhor tradição de Cronenberg.

Um senão neste filme. O início é excelente, desenvolve-se da mesma maneira, mas o desenlace podia ser mais feliz. O diálogo entre Eric e Benno Levin (Paul Giamatti), onde fica demonstrada a tal pulsão autodestrutiva que Eric que padece mas que também deseja, sendo exuberante não é de todo cativante.

Cosmopolis talvez não seja um filme para todos verem, mas pessoalmente é um filme que marca o regresso de David Croneberg ao seu universo.





sábado, 23 de junho de 2012

uma música para o fim de semana - UHF


Se eu num esforço de memória tentasse recordar a primeira música portuguesa que me lembro de gostar, ou de ter sucesso muito provavelmente teria de recuar ao ano de 1980.
No meu baú das memórias, bem lá no fundo, encontraria UHF (Ultra High Frequency) com os Cavalos de Corrida.

Na altura, ouvia música principalmente através da rádio - os discos de vinyl eram poucos e a mesada não dava para comprar muitos :D - e "vivia" das ofertas e dos empréstimos entre amigos que aproveitava para gravar em cassetes virgens, onde ia arrumando o melhor possível, enrolando a fita com uma caneta ou lápis, um pouco para a frente um pouco para trás, as canções que gostava e que iam passando por lá.

Passados mais de  trinta anos, não sei onde é que está a cassete onde a tinha gravado, mas Cavalos de Corrida ainda é uma grande rockalhada.
Música rápida e frenética, com uma letra que passadas três décadas ainda continua a fascinar.




Entretanto na comemoração dos seus 34 anos de carreira - formaram-se em 1978 -  os UHF abrandaram os Cavalos de Corrida e em vez do frenesim da velocidade, estão agora na placidez de um piano minimal.
Resulta surpreendentemente bem, e a letra ganha uma outra dimensão e até visibilidade. mas o original é sempre... o original.


Agora é que a vida passa num flash e o paraíso é além
Agora é que o filme deste massacre é a rotina Zé Ninguém
Agora é que perdeste o juízo, a jogar esta cartada
Agora é que galopas já ferido, procurando abrir passagem

Agora, agora, agora, agora, tu és um cavalo de corrida, eh

Bom fim de semana :)




quinta-feira, 21 de junho de 2012

Verão




A única coisa que me agrada no verão é pensar que só faltam três meses para o Outono :)


Panteísmo

Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso o horizonte...
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
De um verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo,
Nos meus sentidos postos, absortos.

Nas coisas luminosas deste mundo,
minha alma é o túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo os deuses mortos!


Florbela Espanca

segunda-feira, 18 de junho de 2012

série "Vencedores" - Rui Costa


Rui Costa, tornou-se o primeiro português a ganhar uma prova do World Tour de ciclismo ao vencer ontem a Volta à Suiça.




talvez uma vitória pírrica


Parece que os gregos escolheram ficar no euro e parece que toda a gente na Europa, particularmente a frau Merkl, ficou feliz com isso.
Mas parece também que os gregos não sabem o que fazer para formar governo rapidamente com os resultados das eleições.

Mas soa a uma vitória pírrica. Os custos desta satisfação para a Europa pode sair mais caro do que se pensa.
A Europa perdeu uma oportunidade de se ver "livre" de um incómodo no euro, a Grécia.
Ela vai continuar a precisar de dinheiro para uma dívida que não parará de aumentar e que dificilmente será paga.
O risco de contágio e exposição dos restantes países à dívida grega aumenta, aumentando a instabilidade na zona euro e mais tarde ou mais cedo a Grécia sairá na mesma do euro porque a Europa (leia-se Alemanha) vai continuar a sufocá-la, apesar de previsivelmente de uma maneira mais lenta, para salvaguarda dos próprios interesses alemães.

De qualquer maneira a Grécia é um problema muito difícil de gerir e está para ficar, porque mesmo fora do euro, precisará sempre de financiamento europeu, directa ou indirectamente.
Porque se não for esta a emprestar, será o FMI, onde naturalmente está a... Europa.

De qualquer maneira o facto de a Grécia de quase ter lançado a Europa para o caos - uma ameaça ainda presente - pode ter sido o abanão que a politica europeia precisava para repensar toda a filosofia do euro e assim salvá-lo.