Já estive anteriormente para pôr Os Azeitonas numa música para o fim de semana.
Deles gosto particularmente do modo descontraído, mas sério com que fazem música.
O tema que tinha escolhido na altura, Quem és tu miúda, mostra bem o que pretendo dizer. A sua letra é divertida, até romântica. A música é "fácil" de entrar no ouvido, não é excessivamente comercial e é fácil entrar no espirito dela.
Diria que Os Azeitonas fazem música para eles próprios e se divertem com isso.
Os Azeitonas nasceram em 2002 no Porto e vão no seu terceiro álbum.
Em 2005 aparece o seu primeiro trabalho, Um tanto ou Quanto Atarantado, dois anos depois surge o Rádio Alegria, que inclui o Quem és tu miúda e agora em 2011 lançaram Salão Alegria que tem por emblema o tema Anda comigo ver os aviões.
É o tema escolhido para este fim de semana.
Tal como o outro, longe da superficialidade, é fantástico na "leveza" e descontracção da sua letra. A música tem um toque saudável de nostalgia graças ao lento arrastar do acordeão e a voz de Marlon completa excelentemente a atmosfera.
Anda comigo ver os aviões a levantar voo a rasgar as nuvens rasgar o céu Anda comigo ao Porto de Leixões ver os navios a levantar ferro rasgar o mar Um dia ganho a lotaria ou faço uma magia (mas que eu morra aqui) Mulher tu sabes o quanto eu te amo O quanto eu gosto de ti E que eu morra aqui Se um dia eu não te levo à América Nem que eu leve a América até ti. Anda ver os automóveis à avenida a rasgar as curvas queimar pneus Um vamos ver os foguetões levantar voo a rasgar as nuvens rasgar o céu Um dia eu ganho o totobola, ou pego na pistola, E que eu morra aqui. Mulher tu sabes o quanto eu te amo, o quanto eu gosto de ti. E que eu morra aqui Se um dia eu não te levo à lua Nem que eu roube a lua só p'ra ti Um dia eu ganho o totobola, ou pego na pistola, E que eu morra aqui. Mulher tu sabes o quanto eu te amo, o quanto eu gosto de ti. E que eu morra aqui se um dia não te levo à América Nem que eu leve a América até ti.
Muito se tem escrito (e indignado) sobre as afirmações de Christine Lagarde que basicamente disse que tem mais pena das crianças do Niger do que das crianças da Grécia, porque as primeiras precisam mais de ajuda em termos de educação que as segundas.
Talvez dito de outra maneira fosse menos visceral ou até que nem sequer devesse ter sido dito, mas já que o foi, não consigo deixar de concordar com esta afirmação.
Não tenho a menor dúvida que as condições de vida das crianças do Níger é muito pior comparativamente com as da Grécia.
É só pensar na (falta) de educação, habitação, higiene, alimentação e cuidados de saúde. E podemos depois acrescentar a elevada mortalidade infantil, a elevada taxa de orfãos devido à SIDA, o número de crianças abandonadas e número infame de crianças-soldado.
Vai muito para além de três crianças algures num vilarejo no Níger partilharem uma única cadeira numa sala de aulas.
Para o Níger e para toda a África subsariana, as condições de vida da Grécia são inantigíveis, utópicas.
As declarações da Sra FMI podem não ter sido muito elegantes e a sua comparação peca por defeito como já vimos, mas critica-las é claramente ter vistas curtas e mesquinhas.
Ela tem razão.
Por vezes um filme que me é desconhecido atrai-me apenas porque tem um poster que está bem desenhado, tem um conjunto de cores ou uma fotografia especialmente apelativa ou até porque tem um motivo elegante.
O mesmo acontece com a capa de um livro ou cd.
Numa das minhas compras de jazz que usualmente faço ao fim de semana (esta foi em Fevereiro), mas que na altura não escrevi sobre ela aqui, encontrei o cd Água de Carlos Martins.
O que me atraiu nele e me motivou a ouvi-lo foi a simplicidade da fotografia da sua capa.
Um anel de água interrompido aqui e ali num tampo aparentemente envidraçado.
Como se alguém tivesse pousado uma garrafa ou um copo com o fundo molhado numa superfície de vidro acastanhada.
Na altura era bastante desconhecedor do jazz nacional e o nome de Carlos Martins que estava na capa não me disse nada.
Ao contrário da música, que me pareceu muito melódica, muito sentida, homogénea e controlada. Sem fraseados muito longos e complexos. Quando o ouvi fez-me pensar se não teria influências de Sonny Rollins e John Coltrane na sua fase de cool jazz e modal.
A compra foi inevitável.
Sei agora que Carlos Martins foi um dos primeiros músicos a abraçar o jazz profissionalmente e a utilizar o seu saxofone como instrumento de trabalho, tendo sido aluno da escola de jazz do Hot Clube de Portugal, tornando-se depois docente na mesma.
É um compositor versátil, escrevendo para ballet, teatro e cinema e teve ainda participação na iniciativa que levaria com sucesso a que o fado fosse considerado património imaterial da humanidade.
Água foi considerado o melhor álbum de jazz nacional do ano 2008 e Carlos Martins dificilmente juntaria um naipe de músicos de jazz melhor que aqueles que tem no seu quinteto.
Para além do próprio Carlos Martins no saxofone tenor, participam ainda Alexandre Frazão na bateria, Nelson Cascais no contrabaixo, André Fernandes na guitarra e dependendo dos temas, Bernardo Sasseti alterna com Júlio Resende no piano.
Mas confesso que é sempre com uma certa pena que na bonita faixa que encerra o álbum, Meados de Maio, quando pensamos que já está tudo acabado e nos preparamos para colocar outro cd no leitor, insolitamente, saindo do nada e sem motivos para tal, ouve-se a voz de Pacman a declamar um poema inconsequente.
Uma colaboração desnecessária.
É tão fácil gostar desta canção.
A letra é densa e complexa, mas repleta de delicadeza como um dente de leão quando é soprado por uma brisa gentil.
Quando o dia entardeceu E o teu corpo tocou Num recanto do meu Uma dança acordou E o sol apareceu De gigante ficou Num instante apagou O sereno do céu E a calma a aguardar lugar em mim O desejo a contar segundo o fim. Foi num ar que te deu E o teu canto mudou E o teu corpo do meu E uma trança arrancou O sangue arrefeceu E o meu pé aterrou Minha voz sussurrou O meu sonho morreu Dá-me o mar, o meu rio, a minha calçada. Dá-me o quarto vazio da minha casa Vou deixar-te no fio da tua fala. Sobre a pele que há em mim Tu não sabes nada. Quando o amor se acabou E o meu corpo esqueceu o caminho onde andou Nos recantos do teu E o luar se apagou E a noite emudeceu O frio fundo do céu Foi descendo e ficou. Mas a mágoa não mora mais em mim Já passou, desgastei, pr'a lá do fim É preciso partir É o preço do amor Pr'a voltar a viver Já nem sinto o sabor A suor e pavor Do teu colo a ferver Do teu sangue de flor Já não quero saber... Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada, O meu barco vazio na madrugada Vou-te deixar no frio da tua fala Na vertigem da voz quando se enfim se cala
A voz de Márcia não fica atrás da letra e a voz grave e arrastada de JP Simões é o contraponto ideal à voz da sua parceira, completando e complementando-a sem no entanto destoar ou perturbar o ambiente que esta música tem, muito pelo contrário.
A guitarra está de igual para igual com as vozes e a letra, subtil e igualmente delicada. Que grande música!
A morte tem destas coisas. Por ela fui procurar dois álbuns de Bernardo Sasseti que já os conhecia mas que não os tinha.
Isto chateia-me porque isto significa que fui ultrapassado pela morte. Na verdade já deveria ter Alice e Ascent há bastante mais tempo, quando Sasseti era vivo. É assim que se prestam as verdadeiras homenagens, em vida.
Eu gosto da elegância, gosto da delicadeza e do minimalismo Gosto da economia de gestos, de palavras, de notas. Gosto da discrição. Gosto de quem traz a luz, sem estar debaixo dos focos da ribalta.
Por isso gosto tanto de Sasseti. Ele era tudo isto. E mais, era genial.
Não sendo no entanto um ignorante, mas sem conhecer extensivamente a obra de Sasseti, encontro em Alice e Ascent, todas as características que enumerei.
O minimalismo elegante da música, a sua beleza discreta mas poderosa. Universos musicais dos quais uma vez se entrando não apetece sair e quando se sai ansiamos por lá voltar.
A primeira vez que ouvi Alice a sério, os meu olhos tornaram-se brilhantes de água.
É a banda sonora composta para o filme homónimo que conta a história de um pai cuja filha, Alice, desaparece na cidade de Lisboa.
Sasseti retrata na perfeição o rosto e a urbanidade de Lisboa.
É um trabalho muito imagético. Os ruídos da cidade, o seu arquejar, a chuva que cai, carros que serpenteiam atrás de outros, passos que seguem outros passos, rostos que não olham para outros rostos, fechados em pensamentos individuais.
A vida repetida e anónima que corre e prossegue indiferente ao drama, à angustia isolada e à respiração ofegante de Mário que percorre a cidade à procura de Alice.
Através da música de Sasseti sentimos a solidão e a angustia deste pai que solitariamente procura incessantemente a filha, mas no entanto fazendo-o de uma maneira quase obcecada,ele não a torna excessivamente dolorosa ou inquietante. Pelo contrário. É elegante, simples e bela.
Sasseti expurga da sua música o acessório e faz-nos concentrar apenas na simplicidade das emoções lentas e melacólicas do seu piano, do clarinete de Rui Rosa e do contrabaixo de Yuri Daniel.
O segundo álbum que comprei este fim de semana foi Ascent.
Sasseti consagra em Ascent, duas grandes paixões suas: o jazz e o cinema, a música e a imagem.
Ele utiliza aqui dois trios. Daí o dois que aparece na capa do álbum. A uni-los está o piano de Sasseti.
O primeiro trio é o mais clássico que o jazz pode oferecer. Um piano, um contrabaixo e uma bateria.
O segundo aproxima-se da música de câmara. É constituído pelo piano, um violoncelo e um vibrafone e expõe a vertente cinéfila deste álbum, recuperando com novas roupagens, temas que fizeram parte de bandas sonoras Bernardo Sasseti para filmes como A Costa dos Murmúrios.
Também à semelhança de Alice, o contido Ascent, recorre à introspecção, ao minimalismo e à elegância da sua música para chegar ao nosso âmago.
Fá-lo de novo, de uma maneira sublimemente suave, quase se nos apercebermos que está a fluir por nós a melhor música que se faz em Portugal.
E sempre que o expressivo violoncelo de Adja Zupancic se faz soar, algo de mágico, algo de extraordinário acontece. Oiçam-no e percebem o que quero dizer.
A faixa que encerra o tema, Da Noite ao Silêncio, o violoncelo é absolutamente essencial na caracterização daquela que é para a mim a música mais bonita de Ascent. O som arrastado e lamentoso a lembrar chuva a a bater e a escorrer numa janela (já olharam para a capa?).
Mas como já tinha colocado Da Noite ao Silêncio, aqui, escolho agora Do Silêncio Revelação. O tema que abre Ascent.
Para além do delicado piano de Sasseti, do maravilhoso violoncelo de Adja e do subtil vibrafone de Lezé, o silêncio, no arranque do tema, é por ele próprio um instrumento não menos belo e importante que os restantes.
Comprei estes dois álbuns no fim de semana passado.e têm sido minha companhia habitual nas minhas noites.
Cada vez que os oiço deleito-me com os seus sons, com as suas nuances e a cada audição descubro sempre algo de novo. O que me faz de retornar sempre a eles.
São dois álbuns que se ouvem de olhos fechados e de alma aberta.
A propósito da morte de Bernardo Sasseti, coloquei na altura, um breve post no FB com o extraordinário tema Noite composto para a banda sonora do filme Alice do realizador português Marco Martins.
A acompanhar o post tinha uma pequena frase tirada da canção 125 Azul de Luís Represas que dizia "Deus leva os que ama".
Tive um comentário que acrescentava - Deus é egoista.
Sorri quando o li e coloquei um like sincero.
Mas é verdade. No fim, como Deus (admitindo que ele existe) nos ama a todos, acabamos todos por ser levados por Ele.
Portanto ter-nos levado Bernardo Sasseti aos 41 anos, foi no mínimo uma decisão apressada e como tal egoista. Ele podia-nos ter deixado ficar com o Bernardo mais uns anitos razoáveis.
Nesse dia ou talvez no dia seguinte e ainda a propósito desse post no FB recebi, também via FB uma sugestão para ouvir Da Noite ao Silêncio, a faixa que encerra o álbum Ascent de Sasseti.
Sabia que este álbum existia na sua carreira mas não o conhecia de todo.
Quando ouvi este tema pela primeira vez, foi amor à primeira vista. Tal como Noite, deixei-me abraçar por este tema.
É lento, elegante, está repassado de melancolia, de uma certa tristeza, e solidão mas acima de tudo é um tema lindo, lindo.
Sempre pensei que a tristeza não tem que ser feia. Apenas porque algo é triste não tem que ser posto de lado, rejeitado e afastado dos nossos corações.
Tudo o que surge inspirado pela tristeza ou que invoca este sentimento é usualmente bonito ou até muito belo.
Da Noite ao Silêncio prova isso mesmo, que a tristeza pode ser muito bela.
Prova igualmente que Deus, continuando a admitir que existe, foi realmente egoista ao levar Bernardo Sasseti tão cedo para longe de nós.
Enfim, ninguém é perfeito.